<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710</id><updated>2012-02-04T00:30:57.832-02:00</updated><title type='text'>Páginas do Caçula</title><subtitle type='html'>Contos e crônicas</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>63</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-461520634599402318</id><published>2011-11-21T11:26:00.001-02:00</published><updated>2011-11-21T11:35:09.882-02:00</updated><title type='text'>Luísa quer aprender a ser feliz</title><content type='html'>A limpeza e a organização da superfície sem rugas de sua mesa de madeira de maneira alguma despertam a curiosidade ou preparam a expectativa de seus convidados para as gavetas inundadas por papéis franzidos pelo sulco de lápis que já perderam a ponta. Luísa segue destemida e concentrada em seu cenário. Focada em seu trabalho e em manter a mesma organização em sua vida. É lisa a testa, como a maça do rosto, como o aceiro ao redor e entre as sobrancelhas e as sutis estrias no canto dos olhos. O sorriso há alguns anos deixou de fazer cova e a vida apenas a espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As folhas manchadas envelhecem histórias impublicáveis. Não por pudor-cristão-bobo – recato que, além de a cada dia estar menos em voga, Luísa jamais alimentou. Na gaveta emperrada estão registros sem memória; passado isolado; blecaute; esquinas erradas; esboços de uma personagem que viveu e desapareceu na trigésima página do livro: o romance perdeu seu protagonista; a ficção está no cacifo; Luísa pode viver indiferente. Dobrados, amassados, rasgados e presos, os registros de um passado não tão distante são letras embaralhadas: anagramas emperrados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes distraída, esquece de deixar o orbe oco do atelier que carrega em si, e unta a argila fresca em suas mãos nas mãos de seus clientes; ou em torno-pescoço, nuca, peito, costas, quadril, bunda, pau, escroto e coxas de seus amantes. E sem querer cria modelos frívolos. Desenha sem querer estradas e mais estradas que não pertencem a mapa algum e nem mesmo estão conectadas entre si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua redoma, vedada, vive chapada para se desacostumar com a dor. Mesmo que às vezes a mente a traia numa música que toca abafada dentro da gaveta; na linha escrita por algum escritor que acidentalmente desvenda um ou outro de seus anagramas; na maconha que a solta da sacada. Nessas horas, como uma pontada, tudo volta e Luísa quer aprender a ser feliz. O lúdico surge à tona, respira um pouquinhos, mas educadamente volta a submergir.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que hoje isso pode estar mudando. Enquanto as letras vão sendo desenhadas nesta folha, as mãos de Luísa, limpas de argila, parte lisas parte calejadas, estão sendo esculpidas por outras mãos e os seus olhos não encontram mais refúgio oco. Deixa desfibrilar o coração? Sente uma ponta de egoísmo, duvida um pouco de que tudo possa dar certo e sente o vazio de tudo que conquistou sem paixão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-461520634599402318?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/461520634599402318/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=461520634599402318&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/461520634599402318'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/461520634599402318'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2011/11/luisa-quer-aprender-ser-feliz.html' title='Luísa quer aprender a ser feliz'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-7697922564889727886</id><published>2011-10-14T06:13:00.001-03:00</published><updated>2011-10-14T06:27:54.947-03:00</updated><title type='text'>Jarbas não quer morrer</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Desperdiçando mais uma chance de garantiralguns tostões, entregando as pálpebras à gravidade do sono e o espírito à sua liberdadeflutuante, enquanto dorme numa cadeira universitária, na sala de espera de umaempresa de telemarketing, Jarbas não escuta o chamado para o início da dinâmicaentrevista em grupo que será na sala ao lado. Os outros poucos candidatos que tambémaguardam, acordados-sadios, levantam-se e vão. Jarbas dorme.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Dorme sem querer acordar; dormesem querer dormir; sonha sem saber. Jarbas não pensa em morrer, ou que morre a cadaintermitência de sua consciência. Às vezes, sonha sem saber, ou querer. Entorpecidoa qualquer hora, como nesta sala de espera, enquanto faz jus ao nome da sala,entregando-se com esperança de ouvir o seu chamado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Voltando para casa, andando nacalçada, olhando à calçada, para as pessoas, para os sapatos ora desamarrados,não sabe dizer o que quer: olha tudo sem foco. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;Mas, sem saber, quer o cadarço amarrado, quer osapato calçado, quer uma chance; não desperta ou pensa em ter foco. Pensa navontade, pensa na carteira. Anda e atravessa. Atravessa sem vontade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Jarbas às vezes pensa em morrer. Nãoquer casar, não quer construir, não quer garantir, não quer filhos ou lar quevalha. O carro não quer vender nem pode abastecer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas mesmo sem pensar ou ambicionar,sabe aonde o leva os calçados desamarrados. Não ao lindo futuro. Não aopersonagem que inspire ou sirva de exemplo em comerciais de margarina; tãopouco perfil de alvo da próxima campanha publicitária do novo sedan da Toyota.Vai para onde recebe a recompensa imediata – ao amigo, a qualquer mulher, aobotequim. Nessas horas, com seus pares, encontra-se consigo mesmo. Enxerga,argumenta, defende, se expõe; deixa de se sentir ficção.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Então, entusiasmado, eufórico, inventao seu próprio futuro e suas únicas alternativas para refazer o seu destino. Inventao aplicativo que oferece o playlist das rádios; o pão de que já vem em trêsfatias; a rede social que aproxima as pessoas que estão próximas umas das outras;um par de luvas-retrovisor, com um pequeno espelho flexível em cada palma; umquiosque numa praia poluída que se chama Impróprio para o Banho, a coleira-gpspara ninguém mais perder seu animal de estimação ou seu companheiro. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E Jarbas não quer morrer. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Quando chega ao ápice, goza opleno prazer e dorme. E goza os melhores sonhos. Por vezes têm super poderes: mediunidade,invisibilidade, pode voar, lê pensamentos, anima objetos. Mesmo quando morre,acorda com o tórax às vésperas da quarta-feira de cinzas, mas com a luadecrescente estampada nos lábios de seu rosto. É a sua vivência; a maiorexperiência que carrega.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ao acordar voltaao seu estado letárgico e tudo volta a ser invenção em seus delírios; nada sematerializa. E embora a vida lhe pareça um tanto inadequada, Jarbas não quermorrer. Míope, volta a procurar em sua ilha o espaço para a sua realização. Amorte lhe chega como matéria produzida. Solução prática, mas pobre, comumdemais – até um pouco brega. Prefere deixá-la apenas como substantivo para asobrevivência de suas religiões. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-7697922564889727886?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/7697922564889727886/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=7697922564889727886&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7697922564889727886'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7697922564889727886'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2011/10/jarbas-nao-quer-morrer.html' title='Jarbas não quer morrer'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-525373384614545711</id><published>2011-09-16T04:07:00.001-03:00</published><updated>2011-10-14T06:29:39.474-03:00</updated><title type='text'>Carta a Luiza</title><content type='html'>Olha, eu estou tentando, mas está difícil sair algo novo. Então recorri a um texto "de gaveta". Noutro tempo; numa dedicatória. Peço licença à homenageada, Luiza, que nasceu um dia antes deste texto, há quase três anos.&lt;br /&gt;É uma homenagem da qual, com a modéstia a escanteio, me orgulho. Com a ajuda do mestre Caetano e, claro, da pequena musa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="WordSection1"&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="text-align: right;"&gt;Cabedelo, Paraíba,22 de novembro de 2008&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Seja bem-vinda, Luiza! &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;“Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Emverde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz... &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Céuazul que vem/ Até onde os pés tocam a terra/ E a terra inspira e exala seusazuis...&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Reza,reza o rio/ Córrego pro rio e rio pro mar/ Reza a correnteza, roça a beira, douraa areia...&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Marchaum homem sobre o chão/ Leva no coração uma ferida acesa/ Dono do sim e do não/Diante da visão, da infinita beleza/ Finda por ferir com a mão essa delicadeza/A coisa mais querida, a glória, da vida... &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Luzdo sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida,em força, em luz”. &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Escolhiesta música de Caetano Veloso, que presta homenagem ao nascimento do sol, paradedicar a sua chegada, Luiza. A música canta bonita para mim, como li bonita aslinhas que seu pai escreveu te anunciando. O sol, e a sua luz, como logoperceberá, traz a todos, igualmente, força para seguirmos nossas vidas erealizações. Aproveito esta dedicatória, para chamar sua atenção aosolhos, e olhares, – apaixonados – que recebe de seus pais, parentes e amigos:Luiza, “a coisa mais querida, a glória da vida” é “verde novo, em folha, emgraça, em vida, em força, em luz”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Alegra-memuito sua chegada, Luiza. O mundo que te recebe, e que te acolherá, precisa de boas pessoas. Nasce você em “berçoesplêndido” – como canta o hino da pátria –, sendo filha de Fernanda eGustavo, tenho certeza que chega para fazer do mundo um lugar mais belo, justo,honesto, agradável; enfim, melhor. Tem em casa excelentes modelos para isso,saiba.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Calibri&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 11pt; letter-spacing: 0.2pt; line-height: 115%;"&gt;&lt;br clear="all" style="mso-break-type: section-break; page-break-before: always;" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Maisuma vez, seja bem-vinda, pequena Luiza. Materializo nestas linhas, meus melhorese mais profundos votos de felicidade, paz, alegria, saúde... Nesta grande salade aula que é a vida, há espaço para brincar, se divertir e fazer muitos amigoscom os quais poderá contar sempre: aqui, atrás destas palavras, tem um. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Umgrande beijo, com o coração aberto à amizade.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-525373384614545711?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/525373384614545711/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=525373384614545711&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/525373384614545711'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/525373384614545711'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2011/09/olha-eu-estou-tentando-mas-esta-dificil.html' title='Carta a Luiza'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-7038890510485337207</id><published>2011-01-21T18:36:00.003-02:00</published><updated>2011-01-21T18:41:02.642-02:00</updated><title type='text'>Apenas um trecho...</title><content type='html'>&amp;nbsp;Ando meio sumido daqui, por isso, resolvi postar um trecho de um texto que eu não sei no que vai dar.&amp;nbsp; Espero postar com mais frequência neste 2011 que está apenas em seus primeiros passos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0.0001pt; text-indent: 43pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 11pt; line-height: 150%;"&gt;“(...) Embora algumas pessoas manifestassem grande insatisfação por, de uma hora para a outra, passarem a viver na cidade de o Quinto dos Infernos, foi necessária a organizada igreja católica entrar em ação para que o repúdio por aquela instituição se tornasse algo organizado. Juntou fiéis, preparou manifestações, comícios em praça pública; entendeu que o momento era de união entre os cristãos e, liturgicamente, propôs a união entre católicos e protestantes – mesmo assim, reunidos, católicos e protestantes decidiriam, por bem, manter suas imagens distantes de representantes das religiões negras, como o candomblé ou a umbanda, mesmo que estes demonstrassem ser contra o Quinto dos Infernos. Enfim, formaram a, batizada, “A união contra o mau, sob a graça do Senhor”. Batinas e ternos se revezavam sobre os palcos em atos ecumênicos. A uma semana da inauguração, organizaram seu evento principal. Exatamente ao meio-dia da sexta-feira, dia seis, as igrejas evangélicas e a católica, em sua matriz, abriram suas portas para seus seguidores assinarem um abaixo-assinado contra a abertura do Cemitério Quinto dos Infernos. Uma procissão iniciada na igreja matriz deu início às duas da tarde, passando por todas as duas igrejas evangélicas da cidade, unindo seus fiéis e cadernos assinados rumo à sede da prefeitura, onde pretendiam evocar o prefeito a atuar por eles, junto a Deus. Embora uma análise minuciosa pudesse revelar alguns números de CPF repetidos, nada tão escandaloso, apresentaram ao prefeito mais vinte mil assinaturas e uma multidão a vazar pelos ladrões – ruas adjacentes – à sua porta. A esta época, a imprensa nacional já havia cumprido seu papel divulgando o estapafúrdio cemitério, o que levou à cidade fiéis de todo o país, que puderam gozar da recém inaugurada rede hoteleira da cidade, para a manifestação. Era um salto político para o prefeito; a maioria das pessoas que aguardavam a sua aparição sequer sabia o seu nome, que dirá partido político. Clamavam por um representante político com o coração tomado por divina sensibilidade e ofereciam, à sua porta, sabia o prefeito, uma oportunidade para santificar o vosso nome. Antes de emergir pela sacada da prefeitura, pensou no senado federal.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0.0001pt; text-indent: 43pt;"&gt;&lt;span style=" font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 11pt; line-height: 150%;"&gt;O anúncio, semanas antes, da procissão que culminaria na prefeitura, deu tempo para que o prefeito pudesse decorar um discurso carregado de citações bíblicas, parábolas importantes, outras menos famosas, que enchiam de ternura e admiração o distinto público. Confessou ter trocado diversos telefonemas com o governador e até senadores alertando sobre o mal que estava prestes a se instaurar naquela região, a qual, segundo ele, trazia estampada em sua natureza e seu povo provas mais que suficientes de se tratar de uma terra abençoada por Deus. Garantiu, ainda, crer que nenhum enlaço legal pode suprimir a vontade de Deus, o que o dava absoluta confiança de que aquele pandemônio tinha seus dias contados. Comovido, lamentou as limitações de seu cargo, mas prometeu ir até onde fosse necessário em sua carreira política para, envolto aos princípios cristãos, atuar de maneira firme para que entidades como esta entendam que este planeta pertence a Deus. Por fim, pediu que os representantes religiosos o aguardassem e caminhou como pôde entre apertos de mão, abraços, cumprimentos eufóricos, até o caderno e assinou o abaixo-assinado. De volta ao interior da prefeitura, ouvia os aplausos, seu nome se espalhando pela multidão, mas, mais alto do que tudo, o seu pensamento: “senador”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0.0001pt; text-indent: 43pt;"&gt;&lt;span style=" font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 11pt; line-height: 150%;"&gt;Sem demora, o prefeito tratou de convocar seus assessores, chamou sua equipe jurídica que, como se sabe, e o prefeito sabia bem, quando se trata de arrumar mais trabalho entram à sala de reunião cheios de negativas. Mas, neste caso, tinham razão. Não havia na legislação nada que pudesse proibir o funcionamento do cemitério. No entanto, o mais importante era demonstrar vontade política. Mostrar para a população cristã que o poder público daquela cidade era sua aliada. A manifestação ecumênica surtiu efeito e, desde então, a cidade passou ainda a conviver diariamente com a imprensa. Alguns ficavam como sentinelas à porta do cemitério, outros entrevistavam pessoas, buscavam informações sobre a região; programas de culinária falavam dos pratos da dona Zefa e até o time de futebol da cidade ganhou espaço em programas esportivos. Tornou-se parte da rotina do prefeito atender a imprensa ao término de cada redundante reunião, onde, às portas fechadas, pouco, ou nenhum, avanço era apresentado. Todo o fim de tarde, o prefeito era figura carimbada nos telejornais policiais. Sempre suado, demonstrando certa fadiga pelo empenho contra o Quinto dos Infernos. Nada poderia ser mais paradoxal. Já que, além de sua ascensão política pouco caminhar ao lado dos interesses da população, longe disso, até este momento, era o prefeito o maior beneficiário daquela construção e a quem mais interessava o seu sucesso: invariavelmente, é necessário um vilão para que se crie o herói. Em tempos mornos, onde os grandes vilões vestem-se cada vez melhor com a manta de cordeiro e escondem a cara ao tapa, o Cemitério Quinto dos Infernos era um achado(...)”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-7038890510485337207?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/7038890510485337207/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=7038890510485337207&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7038890510485337207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7038890510485337207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2011/01/apenas-um-trecho.html' title='Apenas um trecho...'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-1648811842373629555</id><published>2010-10-28T16:03:00.000-02:00</published><updated>2010-10-28T16:03:06.211-02:00</updated><title type='text'>Dia seguinte</title><content type='html'>O cigarro parecia ocupar suas duas mãos.  Arcado, sentado, na cadeira de madeira no centro da sala, chorava sobre seu retrato. Como espasmos, às vezes interrompia aos olhos a imagem, levava as mãos à cabeça e saltavam, ornamentais, contíguas, cinzas de cigarro e caspas até pousarem no paletó preto, calça preta, retrato preto, dentro da sala cinza. Precisava tornar à fotografia para lembrar porque chorava, e tornava a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos anos haviam passado? Quão rápido e ao mesmo tempo trabalhoso chegar onde chegou? E, ao voltar para a casa fria, encontrou pela primeira vez aquele retrato, coberto pela poeira, sobre a escrivaninha da sala, num canto onde seus olhos – fieis às suas ambições – procuravam não passar. Sabia que estava, mas um estranho desejo, tão cativante quanto aterrorizante, insistia por alguém a observá-lo. Desejava, aos soluços, que sua temida e famosa bravura fossem descobertas por mais alguém. Não esperava por sua mãe, irmã ou mulher, mas por um vizinho ou colega; precisava de alguém sem paixão, sem traquejo com os sentimentos. Alguém que o observasse, a princípio, com certa compaixão – mesmo sem entender o que se despertava dentro dele–, mas que logo desse lugar a um julgamento frio, injusto, e, por fim, lançasse desprezo com os olhos e ironia com nos lábios e semblante. Sem palavras. Que desse as costas e partisse, deixando apenas o sono dos que adormecem chorando e o pesadelo do dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, aceitou o dia seguinte como o chão da sala aceita suas cinzas, bitucas e corpo. Mas não dorme ainda, jaz, cadáver acordado, sentindo (...) sensação sem pessoa correspondente. Quando enfim o desejo pelo inconsciente vence e é permitido dormir, dorme e acorda logo. Feliz, sob os primeiros raios do dia, volta a ser o que sempre quis e sai sem saber que nunca mais se lembrará de procurar, caído, no chão, sob a escrivaninha da sala cinza, fria e suja, seu retrato – de um dia tão feliz quanto longínquo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-1648811842373629555?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/1648811842373629555/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=1648811842373629555&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1648811842373629555'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1648811842373629555'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2010/10/dia-seguinte.html' title='Dia seguinte'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-8550179727411693795</id><published>2010-02-22T03:36:00.005-03:00</published><updated>2010-02-22T03:49:23.542-03:00</updated><title type='text'>Antes de dormir</title><content type='html'>Um choro estridente. Ao lado, um bebê chora. Grita, até acordar o que dorme. Late o cachorro, late o trabalho do dia seguinte; o bebê chora. Quem acorda e briga é homem; quem chora é criança – ou mulher, como se diz. Não acordo, nem durmo; não ouço. Sinto que um bebê chora e que vem um dia para nascer. Olhos fechados; apenas os tornozelos e pés descobertos; ouvidos surdos. Não preciso me levantar. “Ele reclama”, de quê será? Em meu quarto, só, basto, deito e este bebê chora. Estrebucha. Por que assim? Não é capricho, tem urgência. Como questão de vida que caminha para a morte, cobre toda a vontade de existir em soluços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho raiva do bebê. Esqueço se ele tem pai, ou mãe. “E seu eu for seu pai?”. Tenho raiva. Torço para que, entre seus soluços e ranho, ele se sufoque. Espero como um doente que espera a cura. “Nenhum chefe demite se um bebê se sufocar em muco.” O cachorro silencia para o bebê chorar: é arte maior. De repente tenho medo que o choro pare. Tenho medo da morte. A morte vem quando paramos de chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o bebê ainda chora, sem que eu o escute.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lentamente, tudo se torna criança descalça em trilha, com os pés frios pela lâmina de água que forma sobre a grama rala; logo percebemos que vamos encontrar o lago. Um galho suspenso, da grande árvore, vira cabide e a camiseta apóia. O personagem entra na água parada do lago em lua nova. Bóia com a justa, e velha, calça jeans. O som do vento submerge dentro d’água, e aproxima toda a existência a um céu molecular... Mas aí, já é sonho. E o bebê grita; ou, melhor, chora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-8550179727411693795?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/8550179727411693795/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=8550179727411693795&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8550179727411693795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8550179727411693795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2010/02/antes-de-dormir.html' title='Antes de dormir'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-831356937004600524</id><published>2009-08-31T17:17:00.000-03:00</published><updated>2009-08-31T17:18:32.635-03:00</updated><title type='text'>Tourada</title><content type='html'>Veste-se com zelo de antagonista amado: cinto, traje justo do século dezoito, rosas douradas bordadas na lapela preta. O público lota a praça de touro divertindo o anseio da espera entre guloseimas e olhares curiosos pelos corredores ovais da arquibancada. Surge silêncio solene. Surgem frente a frente: touro nu, marrom café; o tecido vermelho esconde a farpa do toureiro. Clássico, o touro coça a pata dianteira esquerda na terra batida; sublimes, querem manchar o chão com o sangue do oponente. Dançam, rodopiam, se cheiram, e as farpas se prendem no dorso do animal. O toureiro estufa o peito para a arquibancada, curva-se em cumprimento humilde, volta a estufar o peito -- de costas para o touro que busca dignidade, ar e o sangue que escorre por suas patas trêmulas. Falta a lança misericordiosa: touro e toureiro voltam seus olhares sem sentir os olhares de sangue dos expectadores. Toureiro caminha, toca com a mão direita o chifre duro e frágil do animal, saca da cinta a lança com seu brasão, enquanto o animal ameaça aguardar o golpe. Cerimonioso, o homem ergue a espada, apresentando ao público – girando o corpo para toda a multidão ovalada da arquibancada. E, num repente, touro frágil faz-se forte para se igualarem em fragilidade espetando o chifre direito nas costas do homem. Sangue de ambos, touro e toureiro, finalmente se igualam e deitam juntos no centro da arena imprimindo a morte na retina dos pagantes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-831356937004600524?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/831356937004600524/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=831356937004600524&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/831356937004600524'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/831356937004600524'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2009/08/tourada.html' title='Tourada'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-5205674914517569716</id><published>2009-05-14T11:46:00.003-03:00</published><updated>2009-05-14T18:24:01.591-03:00</updated><title type='text'>Profissional liberal</title><content type='html'>Tomou um susto quando entrou, pela porta do fundo, na cozinha da casa onde trabalhava. Encontrou tudo de cabeça para baixo; ainda quente, como se a baderna tivesse terminado há poucos instantes.  Garrafas pelo chão, dois cinzeiros transbordando, as cadeiras distantes da mesa central como se lutadores de sumo tivessem se reunido para uma roda de samba. Num canto, esquecida, a caixa-de-ferramentas que, até então, nunca tinha saído do armário da garagem, parecia ter passado por um tufão a parte: toda coberta por cal, destrambelhada, com o pó de outrora, agora, grisalho. A bagunça se espalhava pela sala, onde encontrou uma quantidade monstruosa de folhas de anotações amassadas. Pensou em seu salário, deu com os ombros e resolveu passar um café para ganhar ânimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao abrir a geladeira, uma garrafa de vinho pela metade, em pé, na grade superior, servia de apoio para um bilhete deixado pelo dono da casa: “Preta, bom dia! Estarei o dia todo trabalhando, NÃO ESTOU PARA NINGUÉM! Por favor, anote os recados. Até logo...”. Não entendeu o bilhete. Seu patrão costumava ir ao trabalho todos os dias – sem a pontualidade britânica que cobra dela, é verdade –, mas passa seus dias todos no escritório. Pensou que talvez aquele bilhete fosse apenas fruto daquelas garrafas de vinho estacionadas por toda a parte: às vezes, para tratar a confusão de seus pensamentos, quem bebe trata de explicar cada detalhe aos outros. Acreditando estar só em casa, iniciou a limpeza da cozinha, sala e banheiro – ambientes que pertenciam ao térreo do sobrado. Recolheu, ensacou, varreu, guardou, ensaboou, molhou, puxou, secou, limpou, saiu, entrou, jogou, agachou, suou, enxugou, desinfetou, despachou: em três horas ninguém poderia dizer que era a mesma casa. Com balde e pano em mãos, subiu os degraus que levavam ao quarto, escritório e banheiro com medo dos desdobramentos que a noite anterior pudesse ter causado no andar de cima da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo limpo, precisando apenas da manutenção regular. No quarto, que estava com a porta escancarada, apenas abriu a janela para o sol entrar e tirar o cheiro da noite, e da fumaça dos cigarros da madrugada que estacionaram naquele canto fechado da casa. A porta do escritório estava fechada e, pela fresta que formava entre porta e chão, fugia o som de um urso que hiberna em sua caverna. Deixou o balde no banheiro, em frente ao escritório, e correu para atender o telefone que chamava no andar de baixo. O relógio marcava quinze para o meio-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Alô? (...) – e com a voz trêmula de quem segue instrução sem sentido, continuou – Ele está trabalhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu do outro lado a voz estridente de um homem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como ele pode estar trabalhando se ele não está aqui?!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olha, não sei não senhor. Cheguei aqui e tinha um recado de que ele está trabalhando. Se quiser, posso anotar o recado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Diga para o filha da puta do seu patrão, que ele vai se ver comigo quando aparecer por aqui! – e desligou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela omitiu o “filha da puta do patrão” do recado, mas anotou no caderninho ao lado do telefone todo o resto: sem o nome do remetente ou o lugar onde ele ia “se ver” quando aparecesse. Assim mesmo, acreditava que ele iria entender: “Ligou um moço dizendo que você vai se ver quando aparecer lá”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando voltou à limpeza do banheiro, não escutava mais o sono de seu patrão no escritório em frente. Ouviu passos, a cadeira sendo arrastada, o computador ligando e os dedos estralando em torno do teclado. Não ouviu uma só tecla sendo apertada para preencher o documento aberto, em branco, do Word. Apressou a limpeza do banheiro e, quando acabou de descer a escada de volta ao térreo, ouviu a porta do escritório se abrir e a do banheiro se fechar. Ela não estava acostumada a dividir a casa com ele naquele horário. Convivia com seu patrão poucos minutos por dia: enquanto ele bebia apressado seu café antes de sair para o escritório. Não sabia o que fazer com ele lá ao meio-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bom dia, Preta – entrou pela porta principal da cozinha; descalço e de bermuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Perdeu a hora hoje? – respondeu curiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Primeiro, bom dia, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bom dia... Fiz café, mas já deve estar ruim, posso preparar outro... se quiser almoço, preciso de dinheiro para comprar carne no açougue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não se preocupe com isso, vou logo voltar ao trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Voltar ao trabalho?” – pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por falar em trabalho – avisou, fingindo que estava entretida organizando o armário debaixo da pia –, ligaram para você agorinha mesmo. Não quis te chamar, já que você disse que não estava para ninguém... Mas anotei o recado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Muito bem. Não era mesmo para me chamar, eu estava ocupado. Esta noite eu tive uma visão. A partir de agora, não trabalho para mais ninguém! Vou unir o útil ao agradável. Passei a noite instalando uma rede para dormir em meu escritório: vou escrever meu próprio livro sobre os sonhos que tenho enquanto durmo: vou produzir enquanto durmo, Preta! Encontrei um jeito de trabalhar dormindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí, ela não ouvia mais nada, só acenava com a cabeça e emitia ruídos para que ele continuasse falando sobre seu novo estilo de vida. Por fim, ele tomou um copo de leite e voltou para a rede dizendo ter esquecido os sonhos daquela manhã: precisava produzir mais. Enquanto ele produzia, ela lamentava – enquanto lia o classificado de empregos – pelo patrão que endoidou feliz da vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-5205674914517569716?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/5205674914517569716/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=5205674914517569716&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5205674914517569716'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5205674914517569716'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2009/05/profissional-liberal.html' title='Profissional liberal'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-5551928286259946267</id><published>2009-05-05T06:36:00.002-03:00</published><updated>2009-05-06T14:30:47.877-03:00</updated><title type='text'>Cadu</title><content type='html'>Já passava de oito horas de uma noite quente.  Voltava de uma visita à padaria, onde comprou maços de cigarros – vinha fumando o último cigarro do maço antigo – e um pequeno galão d’água, de cinco litros. A visita não cobrava belos trajes; nada além de um par de chinelos, bermuda e camiseta – no conjunto, já de partida, estava roto. A rua, pela qual seguiam seus passos – apenas os passos, já que os pensamentos se despediram logo na partida –, também estava amassada. Pedras, galhos de árvores, blocos de concretos desprendidos das calçadas e placas de sinalização arrancadas dos postes, apontavam os desníveis e rupturas no asfalto. Assim mesmo, motos, bicicletas e carros de moradores dos quarteirões que a rua atravessava ziguezagueavam entre as sinalizações para sair ou chegar às suas casas. A rua era pavimentada, mas seu asfalto dividia pertença com a areia que estacionava por lá, e permitia, em suas dobras, o surgimento de barbas-de-bode, rabos-de-burro e carrapichos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje tudo serve bem por lá, mas tratava-se, nesta época, de um bairro, sem expressão, em expansão. A população, que ia se esparramando pela margem litorânea deste continente, lentamente começava a ocupar aquele espaço. Talvez isto possa explicar a rua pela qual caminhava. Uma rua com pretensões a avenida. Provavelmente, servia bem a seu propósito antes de iniciarem a construção de condomínios ao seu redor; logo, os condôminos passaram a exigir uma rede de esgoto que comportasse seus anseios e à rua coube servir de fachada aos novos tubos que transitariam seus os dejetos ao mar. Às más condições daqueles quatrocentos metros de asfalto, com areia, barbas-de-bode, rabos-de-burro e carrapichos, apresentava sinais de existirem apenas pelo aquecimento imobiliário da região e não – como se comprovou depois de alguns meses – tardaria muito a tornar-se rua – mais próxima às suas pretensões de avenida – digna outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às suas margens intercalavam casas, terrenos baldios e construções; do mesmo modo, se entremetiam nas calçadas trechos pavimentados, matos e alçapões destrancados: convites pretensiosos às galerias subterrâneas. Os postes de luz, de tão frágeis, aparentavam traves suspensas pelos próprios fios de eletricidade que sustentavam. Além da luz-névoa que transmitiam, eram muito distantes uns dos outros; intercalando, ao passeio de quem andava por aquela rua, ora espetáculos em sombras, ora saltos ao esquecimento dos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, não podem condenar as condições da rua pela disgra que sucedeu. É certo que o bueiro não deva ficar aberto por onde se anda, mas não estamos para reflexões sobre tampa de bueiro. Que falta pode fazer a luz, a tampa, ou qualquer sinalização, quando os olhos decidem acompanhar os pensamentos para onde quer que eles os carreguem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pé direito foi o primeiro a enfiar-se no buraco; seu joelho teimou à queda e a quina metálica do bueiro meteu-lhe os dentes arrancando o sangue que transitava por lá. Então, o resto do corpo tratou de lançar-se buraco adentro sem qualquer reação, sofrendo durante a travessia lesões bem menos graves: pequenas escoriações no quadril, ombros, braços e rosto. Demoraram uns tantos segundos para seus olhos se acostumarem com a pouca luz subterrânea. Enquanto isso, suas mãos, em ocasiões assim, frenéticas, correram a percorrer seu corpo todo em busca do tecido mais ferido, de um osso partido que, quem sabe, estive exposto àquele ar e água podres; ou um metal enferrujado rasgando a pele e carne. Sentiu o liquido quente escorrer na parte interna de sua coxa direita e uma madeira ainda cravada no ferimento, além do talho do joelho direito, expostos às bactérias já quase desesperançosas de tanto esperar a oportunidade para produzir seu fim, a tetanospasmina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os olhos se adaptaram, pôde ver o que sentia: a perna esquerda mergulhada até o joelho em água barrenta e o corpo todo em penumbra. A câmara onde estava depositado tinha dois metros e meio por um e meio, e apenas uma circunferência de aproximadamente cinqüenta centímetros, no rodapé da parede oposta a que se apoiava, recebia luz da superfície. Em cada uma das paredes mais estreitas, seguiam os tubos que serviam para descarregar os dejetos que lhe eram oferecidos; enquanto nas paredes mais largas, havia dois degraus que, provavelmente, foram feitos para não deixar atolar quem, vez outra, querendo o destino, ou o ofício capital, tinha que descer ali. Enquanto a perna direita se apoiava em um destes degraus, procurava apoio para as mãos para que o corpo todo ajudasse a desatolar a perna esquerda.  Perdeu a consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*    *    *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aqui, os ratos não fogem da gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu pavor. Como se entornassem água gelada nos nervos de seu corpo contraindo todos os seus músculos, causando tremor em todo o corpo. Era uma voz de criança, ou mulher, não sabia bem. A câmara estava, estranhamente, mais iluminada, mesmo assim franziu os olhos e buscou o dono da voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei por que você veio parar aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma criança. Um menino de aproximadamente onze anos e naquela conversa despertou um menino que parecia feito de cera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aqui a gente fica encolhidinho no canto, porque os ratos não fogem da gente. Aqui a gente tem medo deles, como eles têm medo da gente lá em cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora podia ver ratos farejando sobre os pés encolhidos do menino. Quando os ratos seguiam, ele voltava a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu não tinha mais esperança de sair daqui, mas o senhor me encontrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava apavorado, precisava, em primeiro lugar, conter seus nervos que, contraídos, amarraram seu corpo. Era ele quem precisava de ajuda, não conseguiria ajudar ninguém como estava. E aquele menino... Começou tentando controlar a respiração: mesmo com o fedor estacionado na câmara, inspirou até sentir os pulmões cheios e expirou todo o ar que conteve por várias vezes. O exercício tratava de acalmar seu coração que, embora continuasse batendo mais forte do que o normal, já diminuía o ritmo. Como reflexo pelo susto causado pelo menino, suas unhas tentavam fincar na parede de concreto; acalmou as mãos e apoiou-se de cócoras – como o menino – na extremidade oposta a que o menino estava.  Exatamente na mesma posição, frente a frente, a dois metros de distância. Ao dobrar os joelhos, o beiço, recém inaugurado em seu joelho direito, abriu e o fez grunhir de dor lancinante, mas passageira. Um rato bebericava o sangue que pingava de sua bermuda no degrau onde estava apoiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O senhor veio para me tirar daqui. Veio me encontrar, desfazer, e me levar com o senhor. Aqui, os ratos não têm por que fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*    *    *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou sentindo fisgadas nos talhos da coxa e joelho direito. Três ratos experimentavam a carne exposta: dois mordiam o ferimento da coxa, enquanto outro beijava o lábio fino de seu joelho. Teve ânsia; tentou espantar os ratos, que não se intimidaram. Pensou no galão d’água que preferiu a superfície, quando seu corpo se lançou bueiro abaixo. “Aqui, os ratos não têm por que fugir”. A idéia de fumar aumentava ainda mais sua ânsia. A sede era tanta que aquela água não parecia mais tão podre. A vista e os sentidos lhe faltaram outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*    *    *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino se aproximou, em passos cuidadosos, e exortou os ratos a deixarem sua perna. Sentou-se ombro a ombro com ele, e agora sua voz parecia vir em notas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O senhor não está me reconhecendo. Eu vim para cá quando o senhor se convenceu que era Carlos Eduardo da Rocha Baptista, e não mais Cadu. Eu sou o Cadu. E você quis me buscar e me levar junto com o senhor para onde o senhor for de agora em diante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*    *    *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou a consciência, foram os sentidos, os olhos, a carne e o sangue devorados pelos ratos, que, no esgoto, não têm por que fugir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-5551928286259946267?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/5551928286259946267/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=5551928286259946267&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5551928286259946267'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5551928286259946267'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2009/05/cadu.html' title='Cadu'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-3061514991806140234</id><published>2009-04-30T20:38:00.002-03:00</published><updated>2009-04-30T20:59:46.422-03:00</updated><title type='text'>Uma consulta</title><content type='html'>Tinha a camisa, e a gravata (frouxa), e o paletó, amarrotados. Aceitou um copo d’água, aceitou um café, sentou na ponta da cadeira e disse não saber por onde começar. Estava, naquela tarde úmida, vivendo a metade de seus 38 anos. Tudo era cansaço no que aparentava e o frio não parecia incomodar sua angústia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Falar sobre a vida que carreguei até aqui? – em murmuro inaudível. Parecia se preocupar com o que desencadeou a lembrança de uma vida inteira. Não sabia como começou aquela vida, tão pouco como começaria a contá-la. Por um instante, tentou forçar o choro. Queria substituir as primeiras palavras por muco, lágrimas e soluços; mas os soluços, lágrimas e muco, junto com a coragem dos passos que o levaram até o consultório, também faltaram. À sua frente, o doutor fazia leves carícias no próprio queixo – carícias de um pensador, mas sem a barba dos psiquiatras que se prezam. Talvez tenha sido um engano – deixou o pensamento fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longos minutos com o silêncio cortado apenas pelo som da respiração forte de um e o roçar das mãos lisas no queixo áspero do outro. Até o doutor iniciar, lendo sua euforia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que traz o senhor aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu o coração acelerar, e a voz pareceu faltar, mas despontou numa alegria honesta quando conseguiu formar as primeiras frases.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei bem ao certo... Estou tão confuso agora. Achei que precisava falar com alguém... Não sei por onde começar. Quando me sentei aqui, senti como quem está curado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quando foi que decidiu marcar esta consulta? O que você estava sentindo... o que o senhor buscava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem se dar conta, com os olhos tentando ver os dois pés ao mesmo tempo, começou assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Me alegra ver fotos. Mas só as fotos com pessoas. Cheia de dentes, que mostram os olhos, bocas, narizes, sobrancelhas, cílios, orelhas, bochechas, sardas, cabelos, testas, queixos e tem ainda aquilo tudo mais que algumas fotos despertam. Por vezes, choro vendo fotos. Ligou, não sei bem por que; sei que antes, resolveu casar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os nervos pilharam, tirou do bolso o aparelho celular, apertou um, outro botão e despejou toques e tons pelo escritório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Anunciou como música seu telefonema: assenti, atendi. Desde muito, estive distante de suas ambições que não pude imaginar quem era. Não sei bem, nem sei se me lembro bem, parece que queria empregar uma amiga, também jornalista. Foi educada, depois de justificar a chamada, perguntou por onde ando, como tenho passado. Ainda não sei bem se ela queria mesmo saber: acho que não.  As fotos revelam mais do que um instante. Quantos olhares se perdem longe de nossa compreensão, sem passar pelo filtro de nossas expectativas? E, após aquele telefonema, revelou-se pra mim aqueles olhos na fotografia de anos antes. Se eu tivesse notado saberia, nunca iria ficar comigo.  Ela tem voz rouca; falou como quem suspira a palavra e o sorriso em som. Foi um telefonema. O que sei, foi: alô; quanto tempo; como vai; jura?!?; minha amiga (...); resolvi meu amor, minha vida completou, estou casada.  Sei bem o que esqueci estes anos todos. Tive que esquecer para viver estes anos todos, mas agora lembrei. A pergunta que me faço agora é : como posso viver em paz se agora perdi meu esquecimento? Estou tentando responder sua pergunta, doutor, mas outras perguntas surgem na frente. Acho que busco compreender, para a razão me levar outra vez para longe do que posso sentir. Mas aqueles olhos na fotografia me fizeram perceber, mais do que as palavras de seu telefonema: nunca seria minha. E éramos felizes; apaixonados!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– De maneira vulgar, diz-se que há uma diferença grande entre “estar feliz” e “ser feliz”. Quando “estamos felizes” associamos a uma condição emocional, que pode variar, e varia, a partir de determinadas situações ou acontecimentos. Neste caso, estamos sujeitos ações que podem desencadear uma série sensações de conflito. Quando “somos felizes”, associamos ao bem-estar: condição financeira, estrutura familiar, aspectos fisiológicos e psicológicos, e por aí vai. Cada vez mais creditasse a felicidade à qualidade de vida, e não a emoções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi interrompido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não estamos falando de felicidade, doutor! Dane-se a felicidade! Estou falando de amor! Amor nada tem a ver com felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Esteve por anos, posso dizer feliz?, sem seu amor. Por que agora tanto sofrimento? Talvez vê-la casada tenha colocado você em conflito com você mesmo: a vida seguiu para um de vocês...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pode ter razão... minha vida ficou parada. Não mereci, não mereci nem ofereci o amor para mais ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longa pausa. Doutor triunfante e paciente com os cotovelos nos joelhos, curvado, escondido debaixo da mesa, com as mãos na nuca. O paciente volta à posição ereta de quem está sentado e com o rosto estranhamente normal, volta a falar para o doutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Com prazer, ela descreveu a escolha. Seus vícios, prazeres, vitórias. Inclusive, incluiu-se como conquista e vitória. Com o rigor dos detalhes... – já em pé, prosseguiu – Muito obrigado, doutor, o senhor me ajudou muito. Muito obrigado, mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Na próxima semana no mesmo horário, então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, obrigado. Muito obrigado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-3061514991806140234?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/3061514991806140234/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=3061514991806140234&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/3061514991806140234'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/3061514991806140234'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2009/04/uma-consulta.html' title='Uma consulta'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-8229251997551808112</id><published>2009-03-10T18:24:00.007-03:00</published><updated>2010-10-28T16:02:14.044-02:00</updated><title type='text'>Esconderijo-secreto</title><content type='html'>No corre-corre da rua, eu gostava de ser o primeiro a ultrapassar a linha-imaginária. A linha-imaginária, da prova-imaginária, onde eu e meus amigos competíamos pela medalha olímpica, fazia de nossos vinte metros de asfalto a pista de cem metros-rasos do atletismo. Estes mesmos vinte metros de asfalto, todas as tardes, durante as férias escolares, se transformavam em Maracanã da molecada da vila. Na rua, chinelo de dedo não era chuteira de futebol, nem tênis de corrida; pra não perder, ou estragar, e levar a bronca descalça em casa, dos pés os chinelos corriam para as mãos e acompanham, como luvas, os Zicos, Sócrates e Pitas de nossos clássicos intermináveis. Apenas com o escuro da noite, nossas mães lembravam de seus apitos – que fazíamos questão de esquecer em casa – e surgiam árbitras para encerrar a partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava lembrando: tive tantos amigos e uma casa boa e grande. Em geral, as casas de meus amigos eram de materiais adaptados onde, por exemplo, madeiras serviam de apoio ao concreto quebrado das escadas e as desconstrutivas reformas começavam para nunca terem fim; ou então, eram pequenos quartos-banheiros escondidos no fundo do quintal de outras casas. O eco que minha bola de capotão fazia na garagem de Dona Ana – enquanto eu esperava pelo amigo do casebre do quintal, enquanto ele acabava de lavar a louça do café-da-manhã – nunca mais ouvi; e, como sabemos, as manhãs, tardes e noites também não se formam iguais às daqueles dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tive também, nunca mais, o mesmo calafrio de quando atravessava a viga – tapete-vermelho, para os meus olhos – que me carregava da calçada para dentro da casa do outro amigo. Este amigo, como era comum, era muito amigo. E se hoje ainda há amigo, ele ainda é. Sua casa oferecia tudo que uma criança poderia querer: tinha o tapete de terra batida, onde jogávamos fubeca; tinha um depósito de madeiras e tábuas, onde se escondiam os ratos e a gente conseguia matéria-prima para os jogos de taco da rua; tinha a ausência dos mais velhos, já que cedo todos corriam para ganhar o jantar.  Dependendo da disposição dos olhos, parecia construção abandonada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num fim de tarde, como já havia ocorrido em tantos outros fins-de-tarde, a mãe deste meu amigo veio bater à porta de casa a sua procura – minha casa era sempre a primeira opção, já que éramos como ‘unha e carne’. Foi surpreendida ao me ver de banho tomado, sem sinais da bagunça que por certo existiria se estivesse com seu filho. “Meu deus, onde se meteu esse menino”. Não demonstrei – um amigo jamais aumenta a preocupação da mãe do outro, o castigo por preocupar os pais varia de dois a dez dias sem sair de casa –, mas meu espanto era ainda maior: como é que eu não sabia onde ele estava? Sua mãe mal virou às costas, surge da esquina o vulto raquítico dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Minha mãe passou aqui, né? Deve estar indo para a casa do Márcio agora, depois me procura na pracinha e volta para casa – disse, safo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho a cinta vai cantar lá hoje, né? – redargüi, meio complacente e, talvez, com um leve sorriso. – Mas onde você se meteu, afinal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos lá em casa que te mostro. É até bom você estar lá comigo quando minha mãe voltar, ela tem vergonha de bater em mim na frente dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo sabendo que minha presença era medida paliativa – nós dois sabíamos disso – e que, de banho tomado, eram as regras daquele tempo, eu não poderia sair de casa para badernar, pulei o portão e nos pusemos a correr pelas ruas. Saltamos da calçada para dentro da casa sem usar a viga, subimos com cuidado, mas rapidez, pela escada de degraus estraçalhados, entramos na casa por um buraco onde deveria ter uma janela, passamos por quarto, sala e chegamos ao fundo da casa – onde ficava um espaço que sugeria que iria se tornar um outro quarto um dia. Onde, como eu suspeitava, a casa terminava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Cuidado para não enroscar na grade – indicava enquanto se contorcia para passar onde seria a janela do projeto de quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arranhei as costas na grade, mas consegui atravessar a janela, pulamos uma muretinha à esquerda e chegamos num ambiente que parecia um universo paralelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aqui é o meu esconderijo-secreto – anunciou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um esconderijo-secreto!!!”, em pensamento tão alto que não sei se apenas pensei ou deixei escapar entre os dentes. Era um terreno que tinha menos de um metro de largura, em barranco, onde, com algumas tábuas que sumiram de sua casa sem seu pai perceber, ele construiu um quartinho de madeira na pirambeira. O lugar estava cheio de parafernálias, como um ninho de rato. De cara, reconheci uma bola de capotão que a molecada da vizinhança andava procurando. Tinha lanterna, potes de bolas de gude – sem dúvida, algumas delas já haviam me pertencido –, gibis, pião, bilboquê, aquaplay: presentes que a vizinhança oferecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É aqui que eu venho quando quero ficar sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi naquele fim de tarde, pela primeira, vez a beleza, e necessidade, de ficar sozinho; com meu amigo de dez anos que criou um universo só seu. Entre paredes que ofereciam os sussurros de sua casa e da casa de sua vizinha sem que ele precisasse oferecer nada em troca. Era um fantasma quando estava lá. Voltamos para dentro da casa quando ouvimos a viga que iniciava a casa soluçar com os passos pesados da mãe.  Pelo olhar dela, confirmei com os olhos para meu amigo: “a cinta vai cantar”; ele ameaçou sorrir: já estava calejado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recusei o convite para jantar e desejei sorte para o meu amigo: a noite mal estava começando para ele. Voltei para casa chutando pedras e olhando pro chão, dobrei uma esquina e surgiu minha casa, como a casinha da Barbie: a coisa mais sem graça que poderia existir. Minha mãe no portão, não disfarçava sua preocupação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se o seu pai chega em casa e você está na rua, já viu, né? Afinal, onde você se meteu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem o menor cuidado para disfarçar o meu incômodo, respondi enquanto entrava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– No castelo do He-Man – e entrei com desgosto em minha casa perfeita.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-8229251997551808112?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/8229251997551808112/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=8229251997551808112&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8229251997551808112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8229251997551808112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2009/03/esconderijo-secreto.html' title='Esconderijo-secreto'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-2541514400067542730</id><published>2009-02-19T08:26:00.002-03:00</published><updated>2009-02-20T10:03:57.303-03:00</updated><title type='text'>Mais um adeus</title><content type='html'>Os pássaros anunciam o tempo dos sons e os dois podem rir um pouco mais alto: sobe o sol e aumenta o volume; até agora sussurravam. O dia tem o pé-direito alto, limpo, e encerra uma noite que faz valer a vida.  Não dormiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite anterior, quando ela chegou, o encontrou de banho tomado e sorriso. Ela adora seu sorriso, adora encontrá-lo de cabelos molhados. Apressou seu banho também – não passava das sete da noite –, para depois descobrir que, enquanto ensaboava o corpo, o vapor da água quente do chuveiro elétrico se cristalizava no espelho banheiro revelando uma mensagem – escrita a dedo – por seu amigo: “Hoje não precisará de espelho, verá em meus olhos como é linda. Com amor, seu menino”. Inflou de alegria, e vapor quente que dançava com o vento de sua toalha, e teve dúbia sensação de nunca mais poder lavar aquele espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele mal tocou a comida encomendada. Beberam vinho, contaram e riram do passado que criaram juntos e dos passados que criaram separados. E se beijavam apaixonados, brincando. Depois re-inventavam a tristeza para chorar um no colo do outro. E se beijaram cúmplices, misturando as lágrimas. Declarações de amor, sonhos para fazer do momento o eterno, e se beijavam com os olhos. A noite toda: ora com a cabeça nos pés do outro, ora combinando as posições. Olhavam para teto e deixavam as mãos brincar, ou fechavam os olhos para os corpos se verem nus. Ela não ficava vermelha com as baixarias declamadas por ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite e a história acabaram e chegou a hora do adeus. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.&lt;/span&gt; Mas já era dia e ele jazia acordado. O sono iria encontrá-la em seu vôo de volta. Ele voltou para o quarto, re-encostou no colchão, sentiu o seu cheiro no lençol, no travesseiro e nas mãos e estacionou com o pensamento distante no futuro. Deveria prestar-se ao que sobrou, o cheiro, que, como sua amiga, também desaparecerá e o deixará para sempre a imaginar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-2541514400067542730?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/2541514400067542730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=2541514400067542730&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2541514400067542730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2541514400067542730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2009/02/mais-um-adeus.html' title='Mais um adeus'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-8829958109528104321</id><published>2009-02-12T15:51:00.001-02:00</published><updated>2009-02-12T15:59:23.879-02:00</updated><title type='text'>Casamento II – ou paixões e choros</title><content type='html'>Em alguns anos, os votos diante do padre se esquecem longe do coração. Em pouco tempo. A paixão resolve perambular para longe da casa e teimosa – talvez desesperada –, às vezes se deixa errar por um colega do trabalho, ou por um amigo novo de uma amiga antiga. E insiste lançando convites para que saia da redoma. Apaixona-se e desconfia que o mesmo aconteça com seu marido. Um antigo amor prepara-se para se tornar pai pela terceira vez. Sente inveja, desejou um filho dele como nunca desejou de seu marido – com quem, ao casar, tornou-se amiga e passou a se esconder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As paixões surgem e desaparecem; ressurgem e somem outra vez; e se repetem até calejarem o peito e desaparecerem de uma vez por todas. Sem paixão, com um pequeno remorso por todas as noites que dormiu ao lado de seu marido carregando o vulgar de algum amante, deixa chorar. E sorri, durante o choro, ao lembrar namoros de antes de casar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada litúrgico, sai do elevador de um prédio do centro cidade ajeitando a alça do vestido. Estrala, diante dela, a fechadura da porta metálica; não olha para o porteiro, fecha a porta, e saí. Saí, mas fica ali parada. Chora mais uma vez. Sentada no chão, apoiada na porta, atrás da porta, para fora, para a rua. Se não chorasse talvez explodisse, e chora como quem evita a explosão, em convulsões. Até que o choro acaba: de repente o choro parece não precisar mais e a deixa sob um leve desconforto... e vem o sono dizer que dormir é o fim do choro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conhece o choro por solidão. Talvez inveje quem por solidão chora. Costuma fugir e se esconder quando quer chorar: gostaria de chorar parada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-8829958109528104321?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/8829958109528104321/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=8829958109528104321&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8829958109528104321'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8829958109528104321'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2009/02/casamento-ii-ou-paixoes-e-choros.html' title='Casamento II – ou paixões e choros'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-9191443366390294821</id><published>2009-02-06T19:26:00.001-02:00</published><updated>2009-02-06T19:29:23.939-02:00</updated><title type='text'>Casamento I – ou o ato litúrgico</title><content type='html'>A vida pareceu pedir um passo adiante; decidiu casar. Não que o noivo não importasse: importava, e muito. Mas tinha à mão um ideal: educado, amigo de seus amigos, bom amante, pouco dinheiro – como a maioria que pensam artisticamente –, mas de família abastada (no fundo, julgava que quando se casassem ele desistiria do violão e arrumaria um emprego com vencimentos); além disso, lhe agravada sua companhia. Nas novelas há sempre um personagem com as características do noivo: levemente, e estrategicamente, desarrumado, com a barba levemente, e estrategicamente, mal-feita, cabelos levemente, e estrategicamente, desarrumados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida precisava dar um passo à frente e o passo foi dado. Mais duas semanas, ou dois jantares, e estavam noivos. Põem-se a escolher as madrinhas, os padrinhos, a paróquia, o padre, enquanto as famílias dos dois já estão feitas. Flores, vestido, terno, salão para receber os convidados, viagem e hotel para consumarem; tudo arranjado. Noiva tranqüila, noivo disfarça. No altar, está como que outra pessoa: totalmente, e estrategicamente, arrumado. A noiva tem uma crise. Chora copiosamente dentro do carro. “Cuidado com a maquiagem”; “está tão emocionada”; “é um dia muito importante”. A noiva chora; mas não pela emoção a qual a creditam. Não pelo precipício matrimonial, ou pelo noivo que com o qual trocará votos: a escolha do marido lhe parece digna; chora porque pretende cumprir seus votos e um adeus antigo teimou em voltar, desta vez, com caráter bem mais severo: como se finalmente aquele adeus se tornasse adeus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorou, mas logo recompôs a paz. Deu todos os passos que subiram a escada, surgiu na igreja – “linda”, vibrou n’algum canto – firme. Sorriu para os amigos do colégio e faculdade, depois aos colegas de escritório, mais adiante aos parentes que não via há muito tempo, até encontrar as lágrimas dos irmãos na primeira fileira. Despediu-se do pai e se casou diante de padre, testemunhas e, como disse o padre, de deus. Mais tarde, deitou com prazer e ternura: finalmente, como ato litúrgico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-9191443366390294821?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/9191443366390294821/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=9191443366390294821&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/9191443366390294821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/9191443366390294821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2009/02/casamento-i-ou-o-ato-liturgico.html' title='Casamento I – ou o ato litúrgico'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-7246560770118936927</id><published>2008-12-10T03:49:00.001-02:00</published><updated>2008-12-10T03:56:01.489-02:00</updated><title type='text'>A menina que fez um homem</title><content type='html'>E com os olhos enormes, como uma criança que se vê descoberta pelo padre sozinha na sacristia, respondeu “não” com a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois têm ali quinze anos; idade quando isso acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não tenha medo. Beije meu corpo, sinta minha pele, sinta meu cheiro... descubra meu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino ia sem jeito, e vagaroso. A menina fechava os olhos e acendia todo o corpo; com o vento da respiração seus pêlos subiam e desciam. Suas mãos acariciavam sua nuca, enquanto lhe era beijado o ventre; a língua no umbigo arrepiou braço, perna e todo o dorso direito. Suspirava baixinho e sorria; com olhos fechados e os cachos de seus cabelos flutuando. Encontrou uma de suas mãos esquecida no travesseiro: beijou sua palma, cobriu o rosto com ela, tocou os lábios na ponta dos dedos e a pousou no seio esquerdo – acima de coração e pulmão que começavam a ofegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina já tinha tido outros namorados, não muitos. O menino era cordial; colocava sua curiosidade muito atrás do cuidado que tinha com ela. Tratava seu corpo como objeto que pudesse romper; estilhaçar. Alisou primeiro uma, depois a outra, perna – dos pés ao quadril; contornou a cintura; brincou com seu pêlos.  Voltou a beijar seus seios e pescoço, e parou diante dela. Estavam tão próximos que os olhos tiveram dificuldade para focar os olhos um do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não tenho medo. Aqui, em você, deixarei de ser menino e sempre que procurar este menino de volta, vou lembrar que ele está aqui; neste momento que durará para sempre em você e em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles se beijaram por toda aquela tarde. Brincaram com as delícias de seus corpos nas semanas e meses seguintes. Até adormecerem um para o outro e acordarem em outros olhares. Choveu muito até o homem se lembrar do menino. Quando se lembrou, a mulher que lhe guardou já gerava outra criança (de outro menino) que iria se tornar menino e crescer lentamente até se tornar o homem que ela viu nascer nela um dia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-7246560770118936927?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/7246560770118936927/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=7246560770118936927&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7246560770118936927'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7246560770118936927'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/12/menina-que-fez-um-homem.html' title='A menina que fez um homem'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-2394985287422723762</id><published>2008-12-05T05:21:00.002-02:00</published><updated>2008-12-05T05:26:33.877-02:00</updated><title type='text'>São Francisco, Estados Unidos, 05 de junho de 2003</title><content type='html'>Esta é a oitava carta entre dois irmãos chineses: Tài Tai Li de São Francisco (EUA), e Lao Peng Li que foi à China devido a morte do pai. Acompanhe as cartas anteriores: &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/12/jilin-china-02-de-dezembro-de-2002.html"&gt;primeira&lt;/a&gt;, de Aiko Koan, avisando a morte do pai; &lt;a href="http://vitormachadinho.blogspot.com/2007/12/jilin-china-20-de-dezembro-de-2002.html"&gt;segunda&lt;/a&gt;, de Lao Peng Li, assim que chegou na China; &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/01/so-francisco-estados-unidos-28-de.html"&gt;terceira&lt;/a&gt;, de Tài Tai; &lt;a href="http://vitormachadinho.blogspot.com/2008/01/jilin-china-03-de-janeiro-de-2003.html"&gt;quarta&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://vitormachadinho.blogspot.com/2008/02/jili-china-05-de-janeiro-de-2003.html"&gt;quinta&lt;/a&gt; de Lao Peng; &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/04/so-francisco-estados-unidos-13-de.html"&gt;sexta&lt;/a&gt; de Tài Tai; e &lt;a href="http://vitormachadinho.blogspot.com/2008/07/jilin-china-28-de-maio-de-2003.html"&gt;sétima&lt;/a&gt; de Lao Peng.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;São Francisco, Estados Unidos, 05 de junho de 2003&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Olá, querido irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanta angústia me acompanhou durante estes quatro meses que estive sem notícias suas. Chorei sobre cada palavra que dediquei a você em minha última carta. Depois dela, todas as semanas escrevi e enviei cartas e mais cartas ao seu destino: a princípio, cartas de perdão; depois, cartas desejando que o perdão viesse acompanhado por notícias; por fim, rezava sobre o papel apenas por um sinal de que estivesse vivo – mesmo que guardasse por mim todo o rancor do mundo. Agora que sabei que não está mais em Jilin, imagino que não tenha recebido nenhuma destas correspondências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de mais de cem dias de expectativa, depositando minhas cartas nas urnas do correio, como um náufrago lança seu pedido de socorro em garrafas pelos oceanos, recebo este envelope grafado com seu nome. Que alívio: seu nome, sua letra! Mas as notícias que me encaminha já se encarregaram de tornar a angústia ao meu peito. Coreanos à sua procura; esta misteriosa mulher, Xiao; você em Dandong nesta captura. Tudo muito misterioso. A princípio imaginei que esta moça pudesse fazer companhia a nosso pai nas noites em que se sentia muito só; mas parece que outras intenções, ou finalidades, ambos teriam com estes encontros. O que lhe parece, meu irmão? Quais impressões despertam seu medo? Evito pensar que haja qualquer relação entre nosso pai e os tais norte-coreanos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes meses de ausência o lucro da loja contínua sendo divido igualmente em nossas metades. Encaminho com a carta uma parte de “seu salário” do último mês. Não tenho certeza de que seja seguro mandar grandes quantidades num único envelope. Caso a entrega se comprove segura, e seja de sua vontade e necessidade, mando pouco a pouco, carta a carta, o dinheiro que é seu e está aqui comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vejo motivos para levar até você mais preocupações, quero que saiba que por aqui está tudo em ordem. A não ser por um ocorrido: Tung diz estar grávida de mim. Sua barriga já salta aos olhos, e isso parece não atrapalhar que continuem a lhe procurar na boate. Pedi que ela parasse de trabalhar, pelo menos por enquanto, mas, como seus clientes – cada vez mais numerosos –, parece não se importar. Diz que vai continuar servindo no bordel enquanto puder. Diz ainda que só sai de lá quando um homem se oferecer para cuidar dela e do filho; ou seja, se casar com ela. Não suporto a idéia de tantos outros a violarem enquanto carrega meu filho em seu ventre. Não sei o que fazer, irmão. Mas deixe que resolvo tudo aqui, não tenha preocupações comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escreva com urgência, não me deixe aqui aflito. Continua a vir aqui, de quinze em quinze dias, aquele senhor chinês a quem pagamos pela segurança da loja. Dizem que ele tem muitos contatos na China. Caso consiga mais informações e o nome completo de Xiao, posso pedir a ele que investigue com seus companheiros quem é esta moça. O que acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mantenha-se firme. Muito cuidado, não sabemos com quem você pode estar se metendo; cuidado irmão. E não deixe de escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Forte abraço,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tài Tai Li&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-2394985287422723762?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/2394985287422723762/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=2394985287422723762&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2394985287422723762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2394985287422723762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/12/so-francisco-estados-unidos-05-de-junho.html' title='São Francisco, Estados Unidos, 05 de junho de 2003'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-6766896582258468116</id><published>2008-12-02T15:26:00.003-02:00</published><updated>2008-12-02T15:51:22.559-02:00</updated><title type='text'>Blogs unidos por Santa Catarina</title><content type='html'>Esta página, até aqui dedicada exclusivamente a Contos, abre espaço para um assunto muito mais sério: a campanha de apoio às vítimas da chuva em Santa Catarina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/STV07BV3uSI/AAAAAAAAAGo/Wi2UJv047hY/s1600-h/blogsSantaCatarina.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 160px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/STV07BV3uSI/AAAAAAAAAGo/Wi2UJv047hY/s320/blogsSantaCatarina.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5275251095855675682" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Segue também o acesso para a página da &lt;a href="http://www.desastre.sc.gov.br/index.php?option=com_content&amp;amp;view=article&amp;amp;id=5:contas-bancarias&amp;amp;catid=13:doacoes&amp;amp;Itemid=2"&gt;Defesa Civil&lt;/a&gt;, onde encontrará mais informações.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-6766896582258468116?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/6766896582258468116/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=6766896582258468116&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/6766896582258468116'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/6766896582258468116'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/12/blogs-unidos-por-santa-catarina.html' title='Blogs unidos por Santa Catarina'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/STV07BV3uSI/AAAAAAAAAGo/Wi2UJv047hY/s72-c/blogsSantaCatarina.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-4926097338067214439</id><published>2008-11-27T03:03:00.002-02:00</published><updated>2008-11-27T03:28:10.019-02:00</updated><title type='text'>Sonhos sonhos são</title><content type='html'>Se fosse por deus um dia convocado a, por uma tarde que fosse, elucubrar e discutir sobre suas criações – os mundos, as pessoas, os animais e tudo mais o que fez e assinou – sei o elogio que faria para envaidecer o nosso senhor. E não faria tendo em vista ganhar ao algum prestígio junto à entidade máxima; receberia minhas palavras por merecimento – a partir do que vejo nas coisas, claro. No entanto, embora o elogio seja completamente honesto, provavelmente, como forma de retribuir-lhe a palavra quando tivesse retomado a simpatia por mim, adotaria um discurso que iniciaria pelas críticas e encerraria no elogio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão difícil, perto do impossível, encontrar natureza pura, cheia em prós e sem nenhum contra. Vejo, em tudo, árvores traiçoeiras, que oferecem frutos lisos em sua superfície, enquanto carregam bicheiras em suas entranhas. O mar, marchando como soldados sem sair do lugar, diz que por ora, talvez por um acordo entre cavalheiros, não invadir terra adentro; por ora! O vento vez em quando bate uma de minhas portas para lembrar que está aí; a chuva castiga com seus excessos, ou largas intermitências. O temperamento dos climas, o temperamento dos bichos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se em tudo que vejo há um quê de perigo, guardo para onde os olhos descansam, assim como a consciência, meu elogio: “deus, você acertou quando nos deu os sonhos”. Que belo trabalho. Há aqueles que preferem se restringir ao seu tempo e espaço e não vem à tona quando despertamos; mesmo a estes agradeço. Acordamos um pouco diferentes todos os dias sem saber por quê. Mesmo assim, talvez por características minhas – de certo, existem os que se assustam com os sonhos que têm e devem discordar de mim –, prefiro acordar trazendo o sonho comigo: recordar sob o chuveiro, enquanto ensabôo o corpo, a estranha história do macaco que, único habitante de uma ilhota perdida num oceano qualquer, atira bananas e cocos enquanto eu circundava aquele terreno dentro um minúsculo caiaque de volta ao continente. “O que será que tem esse macaco comigo?”, enquanto água e sabão vão levando ao ralo os detalhes desta história tão viva há segundos atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os sonhos dão-se de diferentes formas, graus, intensidades; têm seus caprichos, são adivinhos às vezes; ora sentem-se impregnados e são conduzidos por nossas angústias.  E, do mesmo jeito que podem passear pelo nosso consciente durante os primeiros momentos em quê acordamos – é raro, mas acontece –, podem convidar nossa consciência para participar da fantasia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma grande amiga de minha esposa trouxe outro dia à nossa casa uma história fantástica. Seu marido havia desaparecido. Segundo ela, quando acordou o sujeito estava às voltas pelo quarto; ora levava uma mão ao queixo, ora coçava a nuca. Nunca o vira acordar assim. Perguntou o que ele tinha; se estava bem. Quando ouviu sua mulher, finalmente ficou estático: “Querida, tive hoje a experiência mais fascinante de minha vida”. “Nunca o vi com aquele olhar”, dizia a mulher à minha esposa, enquanto eu assistia a história de longe. “Estavam todos lá” – repetindo as palavras e olhos do marido – “você, seu irmão, meu irmão, o cachorro da rua, a dona Sônia, a dona Maria, a dona Madalena, o homem da banca de jornal; o homem da banca de jornal!... todo mundo... meu chefe estava lá, meu estagiário; o cara da informática... Estávamos na chácara de seu pai. Mas não parecia a chácara de seu pai. Era como se quintal da casa onde nasci pertencesse à chácara de seu pai. Meu Deus, como era nítido. Estavam todos lá... até quem já morreu estava lá... meu pai, meus avós, meus cachorros, o periquito... ao fundo, bem escondidinhas, vi até as capivaras que desciam do barranco para o rio todo fim de tarde e que eu ia ver com a minha avó. Como pode ter sido tudo tão nítido?!?”. “Parecia um completo maluco”, parava às vezes para alguma consideração, o que me irritava muito, já que narrava e interpretava com a competência de um ator profissional, e estas interrupções tiravam fluência. Mas logo voltava ao papel do marido com mesma competência. “Eu estava sentado naquele banquinho que fica embaixo do limoeiro vendo as pessoas. Estava acontecendo uma espécie de festa, que às vezes parecia quadrilha, às vezes aniversário de criança... mas com todos lá... Sorridentes; sem dúvida era uma festa. Aí, algo foi acontecendo lentamente... pouco a pouco fui percebendo que se tratava de um sonho. Isso já tinha acontecido outras vezes, mas não como hoje! Geralmente, quando sei que estou sonhando, não tenho domínio da situação, sou um espectador ao lado de uma espécie de alter ego. Desta vez eu estava dentro de mim, era eu, como estou agora na sua frente, com total domínio de meu corpo e mente...”; “Como se ele parece ter total domínio da cabeça ali”, se interrompeu a mulher mais uma vez. “... Lembra daquele filme maluco que vimos outro dia, Waking Life? Lembra da cena que onde um cara diz que quando estamos sonhando e não sabemos se é sonho ou realidade devemos procurar um interruptor e tentar acender e apagar as luzes? Ele diz que se for sonho não acontece nada, lembra? Então, é balela. Eu sabia que era sonho, tinha certeza, e resolvi fazer o teste. Apaguei as luzes do quintal e levei a maior vaia da festa inteira... todos me vaiaram! As luzes se apagaram quando inverti o interruptor, entendeu? ... Que bela experiência que eu propus, se não tivesse consciente jamais faria isso: comecei a avisar a todos que estávamos num sonho, por isso poderíamos fazer o que quiséssemos. Seu irmão foi o primeiro a olhar para mim como se eu fosse um débil mental...”. “Ele nunca gostou do Rodnei”, fez questão de dizer à minha esposa. “Alguns riam, outros nem ligavam e continuavam a dançar. Mas agora eu sabia que tinha controle total do que estava acontecendo. Era como se eu fosse o Neo em Matrix! Primeiro, fiz o som parar com a força do pensamento. Todos ficaram emparelhados a mais ou menos quatro metros de distância de mim. Aquela menininha, filha do seu primo, foi a única a dizer algo: ‘olhem, um sapo’. Vinha um sapo saltando no corredor que se formou entre mim e as outras pessoas. Então eu disse: ‘Quero saibam que estamos diante de uma grande experiência; talvez única. Todos nós estamos em um sonho e se tivermos lucidez disso, podemos fazer o que quisermos. Eu sei disso e vou provar’. Todos permaneciam estáticos e eu disse: ‘Sapo, voe’. O sapo foi por sobre a cabeça das pessoas, como só pode acontecer em sonhos. Era incrível! mas o mais incrível é que as pessoas não acreditavam que era um sonho, começaram, quase que em coro, a dizer ‘mágico, é um mágico, tem poderes’ e eu insistindo, em vão, a tentar convencê-los de que era algo fantástico por ser um sonho. Me sentia desnorteado; não sabia mais o que fazer para convencê-los... então, resolvi eu mesmo voar... sei lá, Cristo foi pastor andando sobre as águas, talvez comigo voando funcionasse... Voava meio se jeito, como se precisasse de equilíbrio para se voar. ‘Mágica, que baita mágico, é mágica’, era só o que se ouvia lá embaixo... não agüentei e fui tomado, vaidoso, tendo a ignorância de todos como aliada de uma fantasia macabra, anunciei: ‘Não sou mágico, sou o deus de vocês!’... Quando vi que eles começavam a acreditar, tive medo de estar comprando meu lugar no inferno pela blasfêmia e acordei”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dois dias a mulher não tinha seu marido de volta para casa, não soube se voltou. Sabia dizer até aquele momento que ele foi para o escritório naquela manhã e pediu demissão sob a alegação de ser uma fraude entre tantas outras. Seu chefe, amigo de infância, não aceitou, mandou-o de volta para casa para descansar. Saiu sem dizer mais nada e sumiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que bela experiência a deste homem; um privilegiado. Bom, vou agora pegar meu caiaque e visitar meu macaquinho da ilhota. Quem sabe não encontre por lá este homem que quer fazer de seu sonho a prova de que todos vivemos a sonhar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-4926097338067214439?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/4926097338067214439/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=4926097338067214439&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/4926097338067214439'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/4926097338067214439'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/11/sonhos-sonhos-so.html' title='Sonhos sonhos são'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-7656605382982112203</id><published>2008-10-31T17:32:00.002-02:00</published><updated>2008-10-31T17:43:44.973-02:00</updated><title type='text'>Duas e vinte e três</title><content type='html'>Fechei meus olhos por dez minutos, não mais que isso. No entanto, o meu relógio ainda marca as mesmas duas horas e vinte três minutos da última vez que o notei. Devo ter cochilado; não me entreguei a sono profundo. As imagens que produzia, neste intervalo de dez minutos, não mais que isso, enquanto adormeci, escaparam apenas um pouco do que costuma mandar meu juízo; não eram totalmente soltas e intermitentes quanto nos sonhos em que desmaio. É tudo tão recente que ainda posso me lembrar de todos os passos do que percorreu em minha cabeça, ora em campo consciente, ora inconsciente, durante este estreito espaço de tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou após me acomodar na espreguiçadeira, num daqueles pensamentos mais probos; bucólico, nada exige ou interfere – posto tratar-se de um cochilo de tarde de domingo – na vida de mais ninguém. Pensava, sobre a espreguiçadeira, no caminho que faria para o banho de mar da manhã seguinte.  Típico, quando estamos prestes a adormecer, esqueci das sacolas que teria que carregar até a praia, e projetei-me pela avenida principal até a quitanda; projetei-me acariciando uma a uma as maçãs da quitandeira até chegar à preferida. Da quitanda, segui à praia, me acomodei numa rocha isolada de todas as outras rochas que havia sobre a areia e, que não se sabe por quem, tinha sido colocada ali para me encontrar neste semi-sonho. Por ali, deixei meu rosto ser coberto pelo vento. Aos poucos, com o vento, e o sal e a areia, a me castigar, saltei ao inconsciente e, aos poucos e pela primeira vez, a imagem de meu próprio rosto foi se formando nítida em minha mente. Mais nítida ainda que a imagem oferecida pelo espelho aos olhos; já que os olhos, como sabemos, enxergam apenas o que querem. Transformam signos imperfeitos em sutis traços – os amaciando diariamente durante o escovar de dentes de cada dia em que acordamos mais velhos. O vento, úmido com seus cristais, foram moldando em meu rosto uma máscara, como que de gesso, mas de sutileza microscópica; invisível, sensível apenas aos micro-nervos, que, até então, nem se quer sabia que existiam, e que, além disso, de uma hora para outra resolveram submeter seus estímulos aos lobos occipitais de meu cérebro. Meus cílios superiores, longos, se unem com os inferiores, e permitem à modelagem de minhas pálpebras: longas, parecem não ter fim, ao término dos olhos caídos, seguem abaixo, na vertical, como canaletas talhadas pelo curso das lágrimas até a minha boca. Boca, queijo, nariz, pêlos, orelhas, a testa proeminente; e a imagem de meu próprio boneco de cera foi se formando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso durou por volta de dez minutos; engraçado o relógio teimar.  Teimei em ler um rascunho de uma história que mal consegui inventar, e o relógio marcava duas e vinte dois; tomei um copo d’água, voltei ainda às duas e vinte e dois; chacoalhei a espreguiçadeira e me sobrepus a ela. Meu último ato, em nome da consciência, que costuma acusar o tempo que desperdiço a cochilar, serviria para reforçar à minha memória o horário em que me entreguei à preguiça a fim de desdenhar minha consciência quanto, posto novamente em pé, fosse subtrair o horário apontado pelo relógio ao que via quando me deitei: já eram duas e vinte e três. Agora, além de confuso, me falta o remorso pelo tempo desperdiçado a sonhar. Falta aquela sensação que, atrás de diminuir o prejuízo causado pelo ócio, faz com que eu produza dobrado – na eterna mentira que conto a mim mesmo: que a paz que preciso chega pelo tortuoso caminho do trabalho a exaustão. Mas hoje não. Sonhei sem sair do espaço e tempo. Vou desta vez para a cama, onde o tempo costuma passar mais rápido, sem trabalhar na fantástica história sobre &lt;span style="font-style: italic;"&gt;o desaparecimento do homem invisível&lt;/span&gt;, torcendo para que me traga outro sonho, desta vez, sem canaletas de lágrimas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-7656605382982112203?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/7656605382982112203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=7656605382982112203&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7656605382982112203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7656605382982112203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/10/duas-e-vinte-e-trs.html' title='Duas e vinte e três'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-1796702643403867641</id><published>2008-08-27T05:33:00.003-03:00</published><updated>2008-08-27T05:38:59.768-03:00</updated><title type='text'>Dia seguinte</title><content type='html'>O cigarro parecia ocupar suas duas mãos.  Arcado, sentado, na cadeira de madeira no centro da sala, chorava sobre seu retrato. Como espasmos, às vezes interrompia aos olhos a imagem, levava as mãos à cabeça e saltavam, ornamentais, contíguas, cinzas de cigarro e caspas até pousarem no paletó preto, calça preta, retrato preto, dentro da sala cinza. Precisava tornar à fotografia para lembrar porque chorava, e tornava a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos anos haviam passado? Quão rápido e ao mesmo tempo trabalhoso chegar onde chegou? E, ao voltar para a casa fria, encontrou pela primeira vez aquele retrato, coberto pela poeira, sobre a escrivaninha da sala, num canto onde seus olhos – fieis às suas ambições – procuravam não passar. Sabia que estava, mas um estranho desejo, tão cativante quanto aterrorizante, insistia por alguém a observá-lo. Desejava, aos soluços, que sua temida e famosa bravura fossem descobertas por mais alguém. Não esperava por sua mãe, irmã ou mulher, mas por um vizinho ou colega; precisava de alguém sem paixão, sem traquejo com os sentimentos. Alguém que o observasse, a princípio, com certa compaixão – mesmo sem entender o que se despertava dentro dele–, mas que logo desse lugar a um julgamento frio, injusto, e, por fim, lançasse desprezo com os olhos e ironia com nos lábios e semblante. Sem palavras. Que desse as costas e partisse, deixando apenas o sono dos que adormecem chorando e o pesadelo do dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, aceita o dia seguinte como o chão da sala aceita suas cinzas, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;bitucas&lt;/span&gt; e corpo. Mas não dorme ainda, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;jaz, cadáver acordado, sentindo (...) sensação sem pessoa correspondente&lt;/span&gt;. Quando o desejo pelo inconsciente vence e é permitido dormir, dorme e acorda logo. Feliz, sob os primeiros raios do dia, volta a ser o que sempre quis e sai sem saber que nunca mais se lembrará de procurar, caído, no chão, sob a escrivaninha da sala cinza, fria e suja, seu retrato – tão feliz quanto distante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-1796702643403867641?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/1796702643403867641/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=1796702643403867641&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1796702643403867641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1796702643403867641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/08/dia-seguinte.html' title='Dia seguinte'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-7525963252556392149</id><published>2008-08-14T18:22:00.000-03:00</published><updated>2008-08-14T18:23:24.932-03:00</updated><title type='text'>Caderno Azul</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Das anotações de seu diário, ele, que há muito deixou de acompanhar o calendário, vive seus últimos longos dias. Eram páginas amarelas de um diário antigo. No tempo, o mais comum era morrer moço e, nos diários, os dias seguiam em anotações que, muitas vezes, não eram da mesma pessoa que os iniciava: a vida reciclava-se nas anedotas interropidas pelos pais mortos que os filhos continuavam. Não é o caso de Caderno Azul, que inaugurou seu caderno, assim como a sua pena, assim que foi apresentado ao alfabeto e carrega até hoje, sob seus olhos vivos, o diário de sua vida. Este livro, de relatos em páginas amarelas cobertas por capa verde, registrou seu último depoimento no dia 05 de agosto de 1927. Desde então, na época com cinqüenta e nove anos, seu proprietário passa as suas horas lendo as linhas e busca compreender as entrelinhas de tudo que viveu até aquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história de Caderno Azul é daquelas lendárias. Lendárias, pode-se dizer, em povoados que nada têm de mais lendário a produzir do que seus poucos personagens. Afinal, Azul nasceu e vive há mais de um século num pequeno vale que pertence somente a deus e ao diabo. Onde os governos com seus soldados, policiais, delegados, capitães – como bedéis da desordem urbana – (...) juízes e ministros não chegaram e a ausência deles nunca foi notada. Enfim, a população habita um dos poucos lugares onde ainda reina a paz, a ordem – em desordem honesta – e o bom-senso. Em qualquer grande cidade, boas histórias – como a de Caderno Azul – se perdem no zum-zum-zum dos dias de trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caderno Azul é conhecido mesmo antes de nascer. Seu pai, forasteiro, chegou ao vilarejo de sabe-se-lá-onde com vinte e três anos e, mesmo com toda a desconfiança que o cercava, logo anunciou que chegará para ficar e procurava uma boa mulher para ser mãe de Caderno Azul. Uma única aspirante a mãe de Caderno Azul apareceu logo. Mulher de belo corpo que, à época, com quase trinta, fazia crer que as belas curvas de seu corpo estavam com os dias contados. Os anos contrariam a expectativa. Caderno Azul iniciava sua adolescência e sua mãe ainda inspirava suspiros, em sua maioria, velados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Registrado em dia dezenove de outubro de mil oitocentos e oitenta. Azul tinha doze anos, sua mãe quarenta e um: “Mamãe e eu passeamos para trocar a saca de arroz por umas galinhas e leite. As ofertas  não agradaram mamãe, mas o que deu o que falar foi um moço que parecia oferecer um cabrito ranhento em troca de algo sussurrado ao seu ouvido. Uma grande confusão se armou. Um amigo de meu pai, que passava por lá na hora, quase deu com a mão no rapaz. Já em casa, obedecendo minha mãe, fui para o banho. Quando saí, papai estava furioso e o amigo que antes queria bater no rapaz tentava convencer meu pai a ficar calmo. Por fim, conseguiu acalmá-lo. Fiz as minhas lições para a aula da professora Joana”. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há oitenta anos que a vida de Caderno Azul é baseada em anotações de cinqüenta e nove anos vividos. Lê e relê, linha por linha, suas anotações. Às vezes pára, olha distante com a mesma expressão que oferecia às páginas do diário, e curva-se outra vez às suas anotações. Certa vez, o mensageiro, que girava a matraca e convidava quem estivesse ao alcance de seu som para ouvir as notícias do mundo, calculou que Azul lia a última página de caderno a cada quatro meses. Mas não havia precisão no cálculo. A leitura de Azul, embora regular, não trazia linearidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca ninguém leu ou entendeu o que levou Azul ao estado letárgico em quê vive. A população entende este personagem apenas como um velho, coberto por farrapos, com a pele carcomida por sol e chuva e as pernas plantadas sob a terra até a metade das canelas. Consumido, pouco-a-pouco, pela memória, pelo tempo e pela terra. Quem lesse o diário saberia, nas anotações da juventude, de suas súplicas esquecidas por Maria, dos desafetos com João e dos pecados com Sebastiana. Em algumas páginas, como as que homenageavam a morte dos pais, encontrariam pequenos círculos amarelados e enrugados. Se Azul permitisse expectador às anotações, saberiam que desenhava bem: tinha o altar, no dia do casamento, e o pequeno caixão de seu filho, meses mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, mesmo que lessem, não entenderiam Caderno Azul – seu pé de raiz, seu diário roto, seu silêncio – isolado, plantado há décadas na praça central da cidade. Não foram os golpes ou galanteios da vida que o transformaram em excêntrico personagem lítico, mas a observação contundente de que, mesmo em sociedade das mais justas, o homem segue empresa daninha. Neste pequeno vale, sem governo, onde a ordem pública – ao contrário de uma, que, em nome da liberdade, admite inúmeras injustiças; ou de outra, em determinado momento, em nome da justiça, apresentou a severa face castradora, devorando a liberdade – oferece o mais sensato dos convívios, Azul se cansou das mesquinharias seguidas que o convívio com as outras pessoas oferecia diariamente. Sem &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Casa Verde&lt;/span&gt; para apropriá-lo, plantou-se em praça pública para assistir, em seu diário, repetida vezes sua vida e tentar encontrar o que o torna humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-7525963252556392149?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/7525963252556392149/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=7525963252556392149&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7525963252556392149'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/7525963252556392149'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/08/caderno-azul.html' title='Caderno Azul'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-4120254052878925400</id><published>2008-06-11T17:54:00.001-03:00</published><updated>2008-06-11T18:03:03.386-03:00</updated><title type='text'>A gérbera e o calendário</title><content type='html'>Quando estava prestes a completar seu quadragésimo aniversário – comemorado no primeiro dia do ano – foi à papelaria para comprar o calendário. Desde criança – quando comprar o calendário-de-mesa era um evento entre pai e filho –, escreve, sobre o ano gregoriano, seu ano de vida: este era seu calendário quarenta e um. Consultar seu arquivo de calendários é como consultar um sumário, inteligível, de sua vida. Sem legendas, os dias são marcados por círculos, quadrados, xises; sublinhados. Claro, muitos passam despercebidos às canetadas. Nos dias marcados, fica ao olhar a curiosidade de “o que aconteceu neste dezessete de maio que mereceu este xis vermelho”, ou “vinte e cinco de março, riscado de ponta a ponta”. Ninguém sabe o que um círculo significa; ou um xis, ou quadrado. Ninguém sabe nem mesmo se há significado ou padrão para cada um destes sinais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quinze anos, a residência do calendário vigente deixou de ser sua casa. Com vinte e cinco foi aprovado em concurso público e a Câmara Municipal recebeu o jovem relações públicas com seu calendário 26 debaixo do braço. Viveriam ainda lá o vinte e sete, o vinte e oito, o vinte e nove, até o, recém inaugurado, quarenta e um. Seu trabalho empolgou por pouco tempo; logo era “recorte e cole”. É responsável pela organização das cerimônias oferecidas pelos vereadores da casa a representantes públicos de outras regiões. Há, também, não tão raras, as cerimônias aos próprios munícipes. Com raras exceções, precisa apenas seguir uma lista de tarefas já preparada – por ele mesmo, em seus primeiros anos como servidor. Basicamente, seu trabalho limita-se em alterar a data, nome do evento e dos integrantes da mesa principal e imprimir cópias para os funcionários menores colocarem a mão na massa. O fornecedor chamado para preparar o coquetel era sempre o mesmo; os funcionários que cuidavam da limpeza e copa eram sempre os mesmos; e os enfeites de flores para as mesas eram sempre os mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, enquanto respirava a primeira página do calendário quarenta e um em um de seus de seus trinta e um dias, o trágico despertou sua vida. O floricultor, e florista, encarregado – desde sempre – pelo fornecimento de flores para os enfeites do salão e mesas, durante jornada no campo de cultivo, foi atacado por um enxame de abelhas. Não resistiu a investida, sucumbindo em colapso pulmonar.  O choque pela morte do veterano fornecedor teve que dar lugar à urgência por um novo. O relógio se aproximava das sete da noite quando recebeu a notícia. O evento, marcado para as nove da manhã do dia seguinte, receberia seus convidados a partir das oito, ou oito e meia, não faria menção à morte do floricultor com minuto de silêncio, ou sem um único arranjo como espécie de homenagem: “Sem você nada será como antes”. Dá-se pouca atenção à morte de floricultores nas Câmaras Municipais. Assim, não havia saída, senão brotar alguém que arranjasse os enfeites.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conseguiu, por indicação de um poeta conhecido, o telefone pessoal de uma florista de uma cidade vizinha. A doze horas da cerimônia, acertavam as questões logísticas da entrega, assim como as financeiras. Pontualmente, às cinco horas da manhã, o relações públicas, de jaqueta jeans, soprava – a esquentar – as palmas das mãos em frente ao salão da Câmara; quinze minutos depois, já inquieto, viu a Kombi da floricultura, de faróis acesos, embicar à entrada. Os funcionários responsáveis pela entrega traziam, além das flores, um recado da chefa: só teriam rosas-colombianas para metade das mesas, por isso as gérberas. O relações públicas quis morrer de azia. Nem tanto por ele – era simpático às gérberas –, mas pela esposa do presidente da Câmara que, na última solenidade, o elogiara pelo bom gosto com as rosas. Podia parecer desdém, após o elogio, a mudança. A nota fiscal também não veio com os funcionários; isso era compreensível: não deu tempo das flores passarem pelo escritório da floricultura, vieram direto do armazém. De certa forma, foi um gesto de confiança da proprietária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*    *    *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa era levemente desarrumada – o que não impedia suas belas manhãs, que invadiam sala, quartos e cozinha através de vidraças emolduradas pela poeira; belas tardes, um pouco mais amarelas que as manhãs; e noites, de amarelo-velho, das lâmpadas incandescentes. Uma extensão de seu trabalho, com muitos vasos de flores e plantas e algumas encomendas em papéis amontoados sobre a mesa principal.  Quando o telefone tocou, ela borrifava solução de inseticida diluído em água nas folhas verdes de suas camélias. O telefonema interrompeu. Fez as ligações que garantiriam a entrega do dia seguinte e deitou-se com o som de sua antiga vitrola a cobrir-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A loja onde vendia as flores nasceu de uma sociedade com um antigo amor. Com o passar do tempo, as flores eram cada vez mais pálidas, as plantas opacas e seu sócio ausente. Enquanto ele buscava flores belas de outros jardins, ela passou a dedicar-se a criar sozinha novas espécies. Os polens misturados não davam em nada e as flores que o sócio trazia duravam pouco. Em pouco, não fazia mais sentido à floricultura flores novas de outros jardins; tão pouco, as que jaziam antes mesmo de brotar entre os dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sozinha, deixou de dividir os lucros e dívidas da casa e da loja. Sozinha, logo um pólen fecundou e gérberas com pequenas pintas pretas começaram a nascer. Nunca entendeu bem por que. Enquanto isso, levou muitos amantes à casa amarela. Com o tempo a floricultura impôs um ritmo de vida decente, com o qual, vendia flores em quantidade suficiente para viver com o conforto que precisava. Com o tempo, sentia cada vez menos as ausências de qualquer um que, de qualquer maneira, já tivesse marcado sua vida amarela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As flores não lhe faziam companhia. Eram, na loja, seu objeto de penhora com a vida; e, em casa, fonte de cuidados que a faziam esquecer dos seus. Tinha uns poucos caprichos de comerciante: num deles, agradava trocar seu cultivo por trocados contados de pobres-diabos. Enxergava nas flores que eles levavam uma ansiedade singular – singular, como o dinheiro que lá deixavam. Quando anunciavam quanto dinheiro tinham para agradar alguém – quase sempre amores platônicos –, ela tratava de animá-los.Contava a história e o que cada flor do arranjo queria dizer como quem põe na boca do namorado as ternuras que devem ser ditas ao amor. Os pobres-diabos saiam, sem saber, com arranjos que valiam dez, quinze vezes mais do que pagavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*    *    *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O evento consumiu a manhã toda e transcorreu bem – sem o elogio da esposa do presidente da Câmara. O relações públicas esperou o almoço para colocar tudo em ordem: o pós-evento. Aproveitou o intervalo para resolver alguns assuntos no banco. Quando voltou, encontrou sobre a mesa um envelope com a nota fiscal e um bilhete, escrito à mão, sob um pequeno vazo de gérbera:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Querido, (...).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Desculpe a falta das rosas-colombianas. A urgência de sua encomenda impediu providência junto ao meu fornecedor. Enviei gérberas, como deve ter notado. Mas as trouxe com uma motivação especial: são de uma espécie que criei. Repare, suas pétalas amarelas têm pequenas pintas pretas. As pintas são tão pequenas que não costumam notar a diferença entre estas e as que encontramos por aí. Mas, agora que sabe, gostaria que entendesse como são especiais para mim.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Espero que seu evento tenha sido feliz.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Atenciosamente,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;(...)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estava acostumado com este tratamento. “Querido”? Este era o recado mais pessoal que recebia em anos. No entanto, o modo íntimo com que a floricultora o tratou, deu espaço a uma sensação, de tão antiga, desconhecida por ele. Providenciou que o pagamento pelos arranjos fosse realizado, ajeitou o vaso sobre a sua mesa e deixou as pequenas-tímidas-pintas-pretas saltarem aos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias, semanas e meses, continuam a seguir. Sem, no entanto, que o relações públicas se esqueça – toda sexta-feira –, quando a flor se inclina, murcha, e devolve aos seus olhos os dias vazios do calendário, de circular a próxima segunda-feira – quando deve visitar a florista para comprar a gérbera da semana seguinte. Murchando entre as flores, o tempo da florista também escorre, enquanto acha graça do senhor calado que toda semana leva um vaso de suas gérberas pintadas e não nota mais o tempo passar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-4120254052878925400?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/4120254052878925400/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=4120254052878925400&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/4120254052878925400'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/4120254052878925400'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/06/grbera-e-o-calendrio.html' title='A gérbera e o calendário'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-886248275529598083</id><published>2008-06-02T17:20:00.001-03:00</published><updated>2008-06-02T19:39:20.574-03:00</updated><title type='text'>Pequeno livro de uma história de amor</title><content type='html'>Meses&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não precisaram de anos. Alguns meses, e já não eram mais. Uniram as costas, passagens nas mãos, e voaram, cada um, cinco horas para onde a testa apontava. Em cinco horas, estavam a dez um do outro; em poucos meses, tornaram os mesmos de antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida tornou a castigar cada um – como estava acostumada a fazer antes de colocar um frente a frente com o outro – a sua maneira. Ele conseguiu emprego só quando gastou suas últimas moedas no ônibus que o carregou à entrevista. Ela, em suas noites, dividia com os olhos o teto do quarto e com os ouvidos os gemidos de sua amiga e namorado no quarto ao lado. Ele se esparramou nos bares; aumentou os copos, as atrizes, os cólos e as cicatrizes. E, sem saber bem porque, acordava no dia seguinte. Às vezes, ela pretendia calar o quarto vizinho com o barulho do seu, mas soava falso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*        *        *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que poder a morte possui para unir as pessoas! De cara, é causa mor do anseio por viver. Sobre sua perene sombra, há milhares de anos, corpos e almas atiram-se a favor de outros corpos e almas. Mas há também outras formas; como foi o caso deste casal: chegou a um amigo comum dos desquitados. Os dois partiram juntos para o mesmo destino; de volta. Ele se esforçava para não esquecer o amigo morto, ela também: a lembrança, um do outro, insistia em atraí-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela receava o reencontro. Tinha medo da frieza, de se ver diante de nova amante; de ter sido esquecida. Pelo contrário, ele queria vê-la. Deixava seu coração acelerado o abraço que seguramente viria ao se verem: com gosto de lágrima de velório e saudade. No entanto, nenhum sabia se o outro conseguiria ir: ela imaginava que pudesse estar sem dinheiro; ele, que o trabalho talvez a impedisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*        *        *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Missa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A igreja recebeu o casal em missa com o corpo presente. Evidentemente cansados, ambos entraram pela porta principal da igreja sem se encontrarem e se acomodaram de maneira com que ele poderia vê-la: ele à esquerda no fundo; ela na cadeira que mais se aproximava do centro da nave, no entanto, pertencente ao bloco de cadeiras à direita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele, nitidamente o mais cansado, sucumbiu ao sono. Ela, como se lembrasse de um dia ter sido católica, seguiu firme cada palavra do padre e, dê joelhos e olhos fechados, rezou até a igreja esvaziar; ou acreditar que estava só. Ele dormia com a cabeça quase encostada nos joelhos; parecia rezar. Mas, ateu desde a faculdade, trazia pendurado aos ouvidos tímidos fios de fones-de-ouvidos. Quando ela o encontrou, estavam sós. Sentou-se ao seu lado, puxou um dos fones e colocou em seu ouvido – ele permanecia entregue ao sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*        *        *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Música&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João disse: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vai minha tristeza&lt;/span&gt;... Pareceu ser para ela; ela obedeceu. Soltou o fone sobre o banco, beijou seu rosto e mão e partiu para o vôo da noite. Enquanto ela descia os degraus da igreja, ele dormia e balbuciava: Não quero mais esse negócio de você longe de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-886248275529598083?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/886248275529598083/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=886248275529598083&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/886248275529598083'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/886248275529598083'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/06/pequeno-livro-de-uma-histria-de-amor.html' title='Pequeno livro de uma história de amor'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-6718174532543688740</id><published>2008-05-27T02:29:00.001-03:00</published><updated>2008-05-27T02:32:25.418-03:00</updated><title type='text'>Por causa de umas tantas placas</title><content type='html'>Caminha, nesta estrada, o mundo todo igual: as placas foram 120; agora, 80; e o mundo, com 90, 110, 100, 105, foi extinto.  Morosas réplicas, imperfeitas réplicas, seguem sem ultrapassar o destino uns dos outros. Por causa das placas, anseios (quase sempre) distintos igualaram-se e os distintos destinos não cruzam mais como antes. Como antes, apenas, porque, mesmo com as placas, ainda existem alguns que vêem em 80 muito – e seguem a respeitá-lo como limite máximo, não como padrão – e os que ignoram as placas e caminham além delas.  Ambos são exceções; ambos são criticados quando ultrapassam ou são ultrapassados. O normal agora é distância igual do início ao fim da estrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armando, como a maioria, segue a 80 e segue a cartilha – há muito tempo vigente. Casou-se e intercala os fins-de-semana entre a casa de seus pais e a casa de seus sogros: em cidades opostas, casas geminadas, jardins suspensos, pouco riso, tudo rijo. Recebe um pouco de inveja que logo oferecerá aos desconhecidos como ele. Há muitos anos, seu pai leu de um doutor e Armando, a vida toda, não fumou. A mulher de Armando, tanto leu que o cabelo cacheou, cresceu, alisou, escureceu, amarelou. Ela, ao contrário de Armando, recebe de volta a pouca dose de inveja que antes dedicou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armando só lê o que está escrito para que todos leiam. Consulta o obituário e, esta semana, sabe que o gerente será promovido à vaga deixada pelo diretor, o coordenador será gerente e que ele será coordenador: mesmo que, no fundo, saiba que seu auxiliar merecesse - mais que ele mesmo - sorte melhor que o burocrático trabalho que assumirá. Todos caminham a trajetória idêntica de seu antecessor e dão o mesmo sorriso às novidades – em escala – a partir da morte de um diretor. Contam, logo que um obituário novo traz a boa nova: o novo diretor, primeiro à amante, depois à esposa; o novo gerente fala alto no bar e grita – para vizinhança escutar – em casa; o, agora coordenador, Armando leva a esposa para jantar – e deixa para ela a graça de contar aos pais –; e o ex-auxiliar só tem a mãe que vá escutar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos sentam em frente à televisão, confortam-se pela inesperada promoção e deixam o jornal trazer a glória das placas que punem quem anda a mais de 80. Então, boa noite.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-6718174532543688740?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/6718174532543688740/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=6718174532543688740&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/6718174532543688740'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/6718174532543688740'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/05/por-causa-de-umas-tantas-placas.html' title='Por causa de umas tantas placas'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-432144554150131686</id><published>2008-05-15T18:48:00.003-03:00</published><updated>2008-05-15T19:05:50.035-03:00</updated><title type='text'>Ao fechar a mala, ainda é tempo de não partir</title><content type='html'>Ao fechar a mala, ainda é tempo de não partir. Roupas dentro, livros intercalam; par de sapatos. Depois, correr os zíperes; palma das mãos, sobre a cama, entre as peças de roupas que decidiram ficar; olhos fecham e trazem o caminho a seguir. Medo de soltar a cama, onde vive acordado também. Cama preparada, como está costumava a aguardar seu único hóspede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há a saudade, em pré-visão, enquanto os olhos ainda silenciam. Ainda é tempo de ficar: roupas de volta ao armário, poetas à estante, vida ao juízo, corpo à cama; certo constrangimento. Tudo passa. Os olhos voltam a acender, as mãos e ombros às alças das bagagens e o alívio de já ter passado pelas despedidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O avião torna ao chão – os dias correm –, o vazio das primeiras semanas é preenchido e a saudade é gostosa recordação: pode agora mandar notícias ao passado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-432144554150131686?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/432144554150131686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=432144554150131686&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/432144554150131686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/432144554150131686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/05/ao-fechar-mala-ainda-tempo-de-no-partir.html' title='Ao fechar a mala, ainda é tempo de não partir'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-2353967829734051350</id><published>2008-04-23T18:09:00.012-03:00</published><updated>2008-04-23T18:41:57.563-03:00</updated><title type='text'>São Francisco, Estados Unidos, 13 de janeiro de 2003</title><content type='html'>&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;Esta é a sexta carta entre dois irmãos chineses: um (eu - Tài Tai Li) de São Francisco (EUA), outro (Lao Peng Li) que foi à China devido a morte do pai. Acompanhe as cartas anteriores: &lt;a href="http://vitormachadinho.blogspot.com/2007/12/jilin-china-20-de-dezembro-de-2002.html"&gt;primeira&lt;/a&gt;, de Aiko Koan, avisando a morte do pai; &lt;a href="http://vitormachadinho.blogspot.com/2007/12/jilin-china-20-de-dezembro-de-2002.html"&gt;segunda&lt;/a&gt;, de Lao Peng Li, assim que chegou na China; &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/12/jilin-china-02-de-dezembro-de-2002.html"&gt;terceira&lt;/a&gt;, de Tài Tai; &lt;a href="http://vitormachadinho.blogspot.com/2008/01/jilin-china-03-de-janeiro-de-2003.html"&gt;quarta&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://vitormachadinho.blogspot.com/2008/02/jili-china-05-de-janeiro-de-2003.html"&gt;quinta&lt;/a&gt;, Lao Peng.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;                            São Francisco, Estados Unidos, 13 de janeiro de 2003&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como os fatos que sucedem algumas de nossas iniciativas podem ser cruéis. Você, por exemplo, escreve – sem ao menos saber se voltaremos a nos ver – com a mesma petulância, e aplicando a mesma força, com a qual me educou e manteve sob seu domínio durante a vida. A diferença desta vez, irmão, é que você está longe. Não que a distância me tire o respeito por você; mas agora, que não o tenho por perto para proteger-me, não posso tê-lo para temer. Sua ida para a China me colocou de frente com a vida que eu sempre evitei encarar amparado em sua proteção. Espero não causar má impressão: é, para mim, a referência de segurança, equilibro e razão – mas quando está por perto! Dar ouvidos às suas implicâncias, seria como prostituta pagar aposentadoria a cafetão; se permite a analogia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando ao início da carta. Por descuido, muitas vezes começamos processos que desencadeiam em situações que até então pareciam improváveis. Meu irmão, entre os dias que sucederam – entre a penúltima e a última carta que me enviou – aconteceram mais coisas que o seu arrependimento pelas duras palavras que me dedicou. Como pode imaginar, o entusiasmo por receber uma carta sua e a decepção pelo conteúdo de suas palavras muito me se sensibilizaram. Como pôde questionar meus princípios, ou bagagem que carrego da minha cultura e de meus antepassados? Como ousa projetar sobre mim, as comemorações dos ritos da passagem de ano ocidental se – e sabe bem disso - pouco ligo para o calendário que eles adotam. E se a curiosidade persiste a tirar-lhe o sono e queira saber como comemorarei o a entrada do ano-chinês 4637, no início de fevereiro, cuido para acalmá-lo: respeitarei os quinze dias de nossa cultura; não comerei carne no primeiro; rezarei por nosso pai, mãe, irmão e todos nossos antepassados no segundo dia; ficarei em casa, enclausurado, no quinto; lamentarei a distância de você - meu único parente vivo - no oitavo dia; e acompanharei a procissão das crianças com as velas e lamparinas para iluminar o ano do carneiro que se inicia no décimo quinto dia. Mas como dizia, três dias foi tempo demais entre suas ofensas e os pedidos de desculpas. Embora estivesse entusiasmado pela postagem, só a abri após fechar a lojinha – precisava do silêncio para absorver melhor suas palavras; nisso, infelizmente, fui feliz. Não preciso dizer que o golpe foi duro demais. Anestesiado, saí pela rua em direção de casa... passei, como que flutuando, por sua entrada; fui dar-me no balcão da boate das putas. Não queria conversa, nem programa. Queria beber onde estivesse escuro o suficiente para me sentir invisível: mesmo sabendo – e atestando mais tarde – que não era. O movimento da clientela, que se amontoava conforme a noite corria, me empurrou para uma mesinha redonda no fundo da casa. Eu estava para ir embora quando Tung chegou. Ela se sentou sem ao menos pedir licença; talvez estivesse um pouco bêbada, talvez apenas exausta. Pediu ao garçom duas doses de vodca, disse que era “por conta da casa”. Ficamos em silêncio até as bebidas chegarem. Quando o garçom as trouxe, Tung – com o copo em mãos, em riste – fixou os olhos em mim como te visse, ou quisesse ver. Pode ser que eu tenha olhado para ela com este mesmo anseio, vê-lo. Assim, os anseios de ambos – eu e ela –, formaram um espelho de teu rosto na mesa daquele cabaré. Viramos nossos copos. Meu irmão, não pude controlar a tristeza; as lágrimas tomaram conta quando ela me perguntou por você. “Como ele está?”, só isso. Diante do frangalho que me tornei com a pergunta, me debulhando em lágrimas, aquela mulher foi a pessoa mais gentil e generosa de toda a minha vida. Com a cabeça entre seus seios chorei como nunca antes. Comecei por chorar de raiva – em homenagem a carta que você havia escrito –, depois aproveitei o colo para chorar nosso pai, nossa mãe e irmão, e, por fim, (não se percebi ou) passei a chorar por mim mesmo.  Ela ofereceu sua cama para que eu dormisse, rejeitei; no entanto, permiti me acompanhar até nosso apartamento. Eu ainda enxugava os olhos com as mangas, quando chegamos ao prédio. Foi com um beijo, de mãe que se despede do filho, que nos despedimos selando nossos lábios. Senti aliviado quando entrei em casa. No entanto, fervi durante toda a madrugada dando outra conotação àquele beijo. Durante os sonhos daquela mesma noite, éramos homem e mulher, eu e Tung, apenas. Nos dias seguintes, quarta – dia 8 – e quinta, não nos vimos. Apareceu, coincidentemente, com o carteiro que trouxe sua segunda carta, sexta-feira. Num almoço rápido, onde mal tivemos tempo para conversar, decidimos que ela tiraria a noite de folga na boate e iríamos nos encontrar para conversar. Sua carta, por sua vez, dormiu lacrada de sexta para sábado na loja: pode ser por medo de você e suas arrogantes insinuações e insultos; pode ser por medo de despertar uma consciência que eu não queria ter no desfecho daquele meu dia. Conto, até aqui, com detalhes, meu irmão, para diminuir as margens à sua imaginação pessimista, daninha. O que descobrimos, eu e Tung, na noite de sexta, é que somos carentes, de maneiras de distintas, de compaixão; de maneiras distintas, por amarmos você. Descobrimos, ou desconfiamos, que este fim-de-semana, que acabamos passando juntos, foi pouco; deu vontade de descobrir mais. Pensando bem, acho que faz mais sentido dizer que a primeira (das duas últimas cartas) carta chegou cedo demais, não foi a segunda que chegou muito tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após questionar minha origem, meu comportamento, meu sangue, e o sobrenome que carrego, não é difícil entender que tenha deixado a sua carta seguinte esfriar um pouco sobre o criado-mudo do escritório na loja. Esbocei, inclusive, um sorriso ao passar os olhos nas primeiras linhas – em seu pedido de desculpas. Mas não são desculpas de arrependimento; são de ocasião. Haja vista, como continua “Reafirmo que, do que disse, muito é verdade. Acredito, porém, que &lt;u&gt;nossa união nesse momento de conturbação é mais importante que as prateleiras da loja ou seu comportamento ocidental&lt;/u&gt;”. Caso eu aceite, sem antes questionar, seu pedido de desculpa, terei que aceitar que envergonho nossa família e antepassados. E isso, em minha opinião, os últimos acontecimentos tratam de contrariar. Lamento, após tantos anos, discordar de você: acho que neste período devemos deixar nossa relação em ordem, mas isso não se dá passando por cima de todas as diferenças que nos cercam. A única coisa de bom que resta de sua última mensagem é que ela carrega notícias suas; não começa e termina em críticas gratuitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que será difícil digerir todas as informações que esta carta carrega. Espero que saiba que nada faço para te prejudicar. Sinto-me liberto e talvez ainda não tenha aprendido a agir com tamanha liberdade. Ao mesmo tempo, não sinto te trair ao me aproximar de Tung, ou realizar mudanças na administração da loja. A propósito, ainda não fechei o caixa deste mês, mas, ao que tudo indica, ela dobrará sua receita este mês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejo, do fundo do coração, que encontre a paz necessária para realizar a nobre empreitada que o levou de volta à China.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico contente que após todos os anos de distância você e Aiko estejam se entendendo. Espero que o encontro tenha sido agradável. Caso a reencontre outra vez, estenda meus cumprimentos, assim como estenderei os seus a Tung.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rezo para que esteja iluminado para responder esta mensagem; rezo por você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tài Tai Li.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-2353967829734051350?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/2353967829734051350/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=2353967829734051350&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2353967829734051350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2353967829734051350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/04/so-francisco-estados-unidos-13-de.html' title='São Francisco, Estados Unidos, 13 de janeiro de 2003'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-2409946338918172935</id><published>2008-03-13T16:19:00.002-03:00</published><updated>2008-03-13T16:24:54.402-03:00</updated><title type='text'>Copo de leite</title><content type='html'>Só se sabe que ele estava só. No aposento, corpo no carpete, na casa; não tinha marcas, expressão, vontade, conforto; não tinha vida. Os pés – grudados às pernas que sonhavam de bruços – apontavam cada um para um lado: pareciam ter dado início a uma fuga onde discordaram sobre o lado que deviam seguir; o tronco, pesado, contorcia o quadril e pressionava o ombro esquerdo: diferente das pernas, da cintura para cima, dormia de lado. Notava-se que não quis se deitar. O peso lançado à base do braço esquerdo, e, pela posição do poeta morto, não parecia possível, mas o braço direito, durante a queda, chegou antes ao chão e fez-se fulcro da alavanca entre o ombro e a mão esquerda, rija, suspensa no ar: a quinze centímetros, um copo, inteiro, deitado derramava leite entre o carpete e o assoalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua poesia foi lida e comentada. Autor conhecido, não foi brilhante – embora se encontre, não poucas, passagens inspiradas em sua obra –, esteve entre os cinco escritores de sua geração que sempre eram citados nas conversas vazias nas mesas de estudantes de Comunicação. A herança deixada pelo pai – professor de escola de pública que economizava cada centavo para o futuro dos filhos – e pelo seu avô materno, ofereceu uma vida tranqüila onde trabalhou apenas para desenvolvimento pessoal. Mesmo assim, não costumava manter suas ocupações por mais de um ano: tempo estimado para o trabalho deixar de ser fonte de amadurecimento pessoal e se tornar perda de tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve algumas mulheres que, de certo, choram o corpo que esfria no carpete. Para cada uma delas escreveu poesias: umas delicadas, outras pornográficas, muitas trovas e até sermões; sempre respeitando métrica e rima. Alguns destes textos foram publicados, outros nunca; mas é certo que hoje estas senhoras, na juventude musas do poeta morto, fugirão dos maridos, se trancarão em seus banheiros, ligarão seus chuveiros deixando à água confundir-se com o som das folhas que entornarão, aos seus seios, sussurros do outro amor. É certo que as águas do chuveiro servirão para levar a nostalgia, traidora da razão, e ao saírem do banheiro e encontrarem seus companheiros, também velhinhos, lembrarão pela última vez do poeta, morto, e só, no apartamento: para sorrirem e desfrutarem da vaidosa felicidade por terem sido mais felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O círculo de amigos e parentes, que envolvia seu corpo, se enganava silenciosamente olhando o poeta e pensando nas paixões que o fez viver. O homem foi poeta na tortura da morte de cada uma de suas paixões e só pôde viver homem quando as esquecia. Seu único irmão – que já foi mais novo, mais velho e tinha a mesma idade do poeta quando morreu –, aventureiro anônimo de versos, se conformou um pouco mais com o leite derramado: quem carrega o conforto de um copo de leite da cozinha para o quarto matou muito antes o poeta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-2409946338918172935?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/2409946338918172935/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=2409946338918172935&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2409946338918172935'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2409946338918172935'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/03/copo-de-leite.html' title='Copo de leite'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-5591669487787104795</id><published>2008-02-27T12:07:00.002-03:00</published><updated>2008-02-27T12:14:42.915-03:00</updated><title type='text'>Campeonato de cambalhotas</title><content type='html'>Entre os vira-latas que passeavam soltos pelo Jardins, pelas  Oscar Freire, Lorena e Tietê, ladeirantes da Bela Cintra, Consolação e Haddock Lobo, causava estranheza seus colegas, cães, com presilhas, tosas, coleiras e perfumes que alcançavam de longe seus focinhos acostumados às sobras dos dias do caminhão do lixo passar. Estranhavam, mesmo, conforme os dois jovens sarnentos notaram, a felicidade dos outros: que havia o que havia de feliz naquela vida cheia de pompons perfumados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiam falta da atenção dos homens vez em quando, mas, geralmente, quando chamavam atenção deles, tinham que escapar das vassouras, paus e pedras. E, observá-los, trouxe aos amigos soltos indagações. Passaram a discutir nos fins de tarde, enquanto aguardavam os pães envelhecerem nas padarias, sobre a estranha satisfação que aqueles cachorros arrastavam, enquanto arranhavam os asfaltos, querendo ir à frente, à árvore, à urina de seu antecessor; enquanto, presos às coleiras, estão empunhados pelos severos patrões de óculos escuros que os impedem de ir à frente, quando o desejo é este, ou os arrastam sob a pressão da enforcadeira quando param.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Conheci, enquanto aguardava as sobras desta mesma padaria aquela semana que esteve naquela casa de família, uma fêmea de pêlos longos. Seus pêlos, aliás, brilhavam e cheiravam mais que os da dona que entrou na padaria e amarrou-a no poste aqui em frente. Eu estava ali, esperava os sacos de comida, e aquela cadela parecia para mim, nem mesmo sei dizer por que, mais um obstáculo para matar minha fome. Ela percebeu meu incômodo e tratou de me confortar: “Com licença, noto que minha presença o incomoda, mas saiba que sou adestrada, não disputo sua comida, não posso comer na rua”. Uma cachorra educada a não comer na rua!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Educada ou adestrada? – perguntou o colega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ela disse adestrada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como me contou, com detalhes, palavra por palavra que a donzela – com tom irônico à última palavra – empregou, bem pode ser as duas coisas: educada e adestrada. No entanto, são duas coisas distintas: uma, oferece bons modos que resultam em boas – com ironia, outra vez, nas palavras ‘bons’ e ‘boas’ – maneiras; a outra, acusa treinamento que bitola as patas e os focinhos a não obedecer às vontades até que elas, as vontades, morrem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não é possível. – Retorquiu, e continuou: – Como as nossas patas e focinhos, se treinados, podem abafar as nossas vontades e instintos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cão ia continuar, mas distraiu-se com um casal de pulgas que caminhavam de sua orelha esquerda às costas, onde resolveram brincar. Primeiro tentou acertá-las com as patas traseiras: primeiro a direita, depois a esquerda; não conseguia alcançá-las. Lançou a cabeça para trás, contorcido, tentava com os dentes encerrar o balé das pulgas. O colega compreendia a angústia do amigo em silêncio e aproveitou para observar três pequenos pássaros que pousaram a dois metros deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não seria lindo se pudéssemos voar? – O amigo ainda aplicava os dentes nas costas e rosnou algo que indicava que prestava atenção. Prosseguiu: – Nunca pudemos voar, estamos, como nossos colegas de coleiras, presos ao chão com nossas asas atadas. O que estes pássaros pensam de nós? O mesmo que os peixes pensam deles quando os vêem sobrevoando sem poder voar sob as águas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amigo que retomava o fôlego interveio ofegante:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas a comparação não vale. Nós, nascemos cachorros; estes três, pássaros; e os peixes, peixes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E saltou para espantar os pássaros que voaram. Voltou para o seu canto abanando o rabo, mais feliz um pouco. – O que me incomoda é ver irmãos cachorros, passeando sem liberdade, amarrados a um metro corda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aos meus olhos, parecem felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E isso não te surpreende?!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos quiseram diminuir a diferença entre os colegas soltos e os colegas amarrados, mas perceberam as atas que os impediam de tornar a vida entre os cães mais igual. Por piedade, decidiram privar a liberdade que gozavam para se divertir e criaram uma brincadeira que mesmo os cachorros amarrados, que aguardavam seus donos nas portas dos botequins, poderiam se divertir: o Campeonato de Cambalhotas. Brincadeira que não exigia brinquedo e o raio da corda aceitava. O problema para os dois amigos soltos, e, por terem criado a brincadeira, juízes dos saltos, é que sempre alguém interrompia a brincadeira a dar-lhes pontapés para não impregnar suas pulgas, carrapatos e cheiros nos felizes cães adestrados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-5591669487787104795?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/5591669487787104795/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=5591669487787104795&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5591669487787104795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5591669487787104795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/02/campeonato-de-cambalhotas.html' title='Campeonato de cambalhotas'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-1525992329301543062</id><published>2008-01-14T16:12:00.000-02:00</published><updated>2008-01-14T16:13:31.799-02:00</updated><title type='text'>Jardim de pedras</title><content type='html'>Quando a casa foi arrendada, embora o céu cinza, havia azaléias brancas e vermelhas que impediam a entrada de quem quer que fosse. O portão era baixo e convidativo aos que desejavam na casa entrar. Uma casinha de desenho: como um V, às avessas, o telhado cobria a parede inicial – de frente pra rua – azul clarinha, com os intervalos em seu concreto onde cabiam a porta e a janela. Borboletas, também azuis, chegavam até a varanda de entrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa estava conservada. Uma moça morou lá pouco mais de um ano. Parece que mentiu ser feliz e as borboletas azuis e as azaléias brancas e vermelhas acreditaram e tornou, à vista, a casa um belo cartão de modéstia invejável. Pareceu tudo superficial ao novo morador. Vasculhou sótão e caixa d’água, reparou nas rachaduras da parede da lavanderia e no ruídos dos degraus de madeira da escada que leva ao segundo andar. Procurou vestígios de cupins, corredores de formigas, fezes de ratos e asas de baratas. Por fim, sua exigência encontrou o desespero do proprietário e fecharam negócio por um preço baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia completado duas semanas como morador da casinha e o pó que as janelas cuspiam engasgaram nas traquéias das borboletas e contaminaram o pólen das azaléias. Tudo jazia sob o pó e o tilintar de uma máquina registradora. Após um mês, nem mesmo mariposas arriscavam-se nas paredes da casa; as flores e plantas do jardim refletiam a cor cinza do céu que cobria tudo o que havia para se ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A madeira da escada não ousa mais gemer os pisões do proprietário, as formigas não fazem caravanas nas imediações da casa, nem sinal de ratos, baratas e asas voaram pra longe – junto com as borboletas –, azaléias sem pernas curvaram-se podres e foram arrancadas. O portão, que em outro tempo e era pequeno e mal se notava sua existência pelas flores brancas e vermelhas que invadiam suas frestas, hoje parece grande e tem semblante sério. Grande o suficiente para fazer sombra a um jardim de pedras, cujo único trabalho ao seu dono contente é o de carpir os capins que teimam em nascer por lá após os dias de chuva.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-1525992329301543062?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/1525992329301543062/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=1525992329301543062&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1525992329301543062'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1525992329301543062'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/01/jardim-de-pedras.html' title='Jardim de pedras'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-3527173691697573379</id><published>2008-01-09T18:55:00.000-02:00</published><updated>2008-01-09T18:58:15.299-02:00</updated><title type='text'>São Francisco, Estados Unidos, 28 de dezembro de 2002</title><content type='html'>Querido, irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Causa tristeza acompanhar, pelas linhas que escreveu, o que tem passado em seu regresso à China. No entanto - talvez pela idade com que o abandonei -, não paro de pensar que a morte de nosso pai é menor que a separação que tive dele quando viemos pra cá; e, ainda menor, do que me separar de você agora. Com a mesma tristeza, sinto não poder ajudá-lo. Sinto falta de seu apoio na loja e de sua companhia nas noites com a tv. Sobre nosso pai, pobre, sôfrego que viu morrer mulher e filho morrerem, além de ter visto nós dois desperdiçá-lo pela fantasia de vida melhor na América, não me surpreende que trouxesse seu semblante fúnebre marcado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo em sua volta, após tantos e tantos anos, um grande desafio. Enterrar nosso pai, seus ensinamentos sóbrios e equilibrados, ao mesmo tempo severo na juventude que tive dele, é uma tarefa que eu não saberia cumprir. Ao mesmo tempo, encontro-me só. Separado de você. Com a loja, sua parte administrativa, me sinto confortável; na verdade, sua viagem, despertou em mim um prazer pelos afazeres da loja que até então não tinha. Espero que não se aborreça: mudei algumas prateleiras de lugar para enxergar melhor quem quer nos roubar, reajustei alguns preços de acordo com o uso bairro e coloquei placas que anunciam promoções na vidraça. A loja ainda fatura como antes, mas espero ter novidades logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, irmão, o que tenho pensado dói diferente. Ao morrer – enquanto a alma de nosso pai se funde ao espírito universal e vislumbra a plenitude de seus karmas – nos deixa somente memórias distorcidas de sua filosofia, a influência wu wei e o exemplo de espiritualidade de desenvolvimento espiritual que carregou durante sua vida. Hoje somos comerciantes, meu irmão! Quais ensinamentos ele nos deixou? Acredita que o seu exemplo e a sua preocupação com nossa formação espiritual foi em vão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que diferença há entre a morte de nosso pai – para mim – e a separação pela qual sou submetido enquanto você está na China. O consulado diz que não será fácil que consiga voltar. Vivo a esperança de seu retorno como passo a viver a esperança que a minha morte me leve à companhia de meu pai outra vez. A separação, assim como a morte que dá vida à alma e enterra a carne, liberta um enquanto escraviza o outro. Estou como escravo de saudade, de passaporte, de dinheiro; sinto falta de sua companhia dura, de caminhar sob a supervisão de seu entendimento e de agir sempre com o aval de seu olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho freqüentado mais vezes as putas, e mesmo elas, sem você, não têm sido a mesma coisa. Tung, ao me ver só nestas visitas, não se aproximou. Acredito que minha presença sem você a incomode e cause algum constrangimento ao aproximar-se dela algum cliente. Mesmo assim, garanto ser vago caso ela pergunte por você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mande lembranças a Aiko.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguardo notícias suas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carregado pela saudade,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tài Tai Li&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-3527173691697573379?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/3527173691697573379/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=3527173691697573379&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/3527173691697573379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/3527173691697573379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2008/01/so-francisco-estados-unidos-28-de.html' title='São Francisco, Estados Unidos, 28 de dezembro de 2002'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-1867561400150048267</id><published>2007-12-17T18:25:00.000-02:00</published><updated>2007-12-17T18:26:30.788-02:00</updated><title type='text'>Jilin, China, 02 de dezembro de 2002</title><content type='html'>Caros Lao Peng Li e Tài Tai Li.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motivo desta carta é triste, portanto, serei breve, sem muitas considerações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venho informá-los que o pai de vocês faleceu, ontem à noite, devido a uma infecção generalizada, advinda de um corte no pé feito com a enxada, enquanto carpia a lavoura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Friso, aqui, o quanto tentamos salvá-lo e, principalmente, o quanto ele foi valente, resistindo e lutando bravamente por quase um ano. Infelizmente, devido às sérias dificuldades que enfrentamos aqui não pudemos guarnecê-lo de todos os medicamentos e cuidados necessários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seus últimos dias de vida ele pronunciava incessantemente o nome de sua mãe e, pouco antes de morrer, me fez um último pedido: “Procure meus filhos que estão longe e diga a eles que retornem... eu vivenciei e posso assegurar-lhe que a busca pela sobrevivência não vale a renúncia de uma vida inteira...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que estejam bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus sentimentos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aiko Koan&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-1867561400150048267?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/1867561400150048267/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=1867561400150048267&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1867561400150048267'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1867561400150048267'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/12/jilin-china-02-de-dezembro-de-2002.html' title='Jilin, China, 02 de dezembro de 2002'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-1515772785667936245</id><published>2007-12-09T17:01:00.000-02:00</published><updated>2007-12-09T17:02:27.275-02:00</updated><title type='text'>Velho amigo sem volta</title><content type='html'>A mulher que eu amo, foi um homem do mato quem me trouxe.   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Não trouxe assim, numa apresentação, convite de felicidade; mas triste, de quem já viveu dor que não morre. Este homem do mato é um velho que, como a dor que carrega, teima com a morte, embora há muito tempo tenha decidido iniciar as despedidas entre os desconhecidos que acaba conhecendo – entre os quais, me incluo. Vê-se nele pouca educação, pouco manejo com as pessoas: criança não familiarizada com diplomacias de sociedade. Mesmo assim, não era inculto. Tenho a impressão que dedicou aos livros que leu seus melhores anos e aos poucos abandonou este hábito.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Atlântida, para ele, contou quando criamos certa intimidade, ninguém habitava; era terra deserta. Não encontrava um só por lá: filhos, mortos ou vivos; mulher, que tenha ou tivera; pai que valesse, ou mãe que pudesse ter a pretensão de contar com seu convite para fazer parte de sua saudade. Ninguém. Era um velho com uma única pretensão, satisfazer a morte. Para isso sim, também me contou, estava preparado. Há alguns anos, quase dez se ele não se engana, havia quitado um jazigo no cemitério municipal e carrega sempre no bolso instruções que indicam os procedimentos caso caia morto nalguma esquina. Este papel, nunca mostrou. Diz que serve apenas ao ocasional agente funerário para as suas formalidades cadavéricas, como descrevia. No entanto, dividiu comigo um trecho das instruções; justamente, o fim. Que, garantia, serve apenas para o “povo que é burro e tem mais medo de morto do que de vivo”. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Dizia como último suspiro dele, em registro vivo dele morto: &lt;i style=""&gt;Por fim, quis o destino que meus planos para a morte, registrados aqui neste documento que tens em mãos, ficassem sob sua responsabilidade. Não imagino que se sinta honrado com a tarefa. Provavelmente, nem mesmo nos conhecemos. Mas, para sua infelicidade, não há neste, ou em outro planeta, a quem possa transferir este compromisso reforçado a cada palavra que invade os seus olhos. Imagino que não seja fácil lidar com a confusão de sensações ao ler o pedido de um morto que planejou para ti que, neste exato momento, enquanto esfria minha carne, executasse minhas ambições para o descanso eterno. Tudo o que foi pedido acima pode ser realizado com certa facilidade, mesmo assim exige certa dose de atenção para que eu tenha minha justa recompensa pela vida que vive; pois, senão, sem paz, ou coisa melhor a fazer, estarei a atormentar você, que descumpriu meu desejo em vida, enquanto existir. Garanto o tormento eterno a quem não garantiu o descanso que mereço. Sem alternativas, aceite meu sincero agradecimento. De um ...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Não quis que eu lesse como se despediu. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Nós nos encontrávamos com certa freqüência. Mora afastado da cidade: ao lado de um asilo onde meu trabalho exigia que eu entregasse as refeições. Sou funcionário de uma empresa de alimentos. Sempre que saía pelos portões do asilo, às onze da manhã, encontrava com ele e sua cigarrilha de bermuda xadrez. A primeira vez que conversamos, foi por uma piada que ele fez: &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;– Se eu entrar aí saio assim, com essa cara de menino? &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Confesso que pensei nos caixões que, com freqüência, costumam levar os recém libertos do Lar Vivência, mas correspondi à &lt;st1:personname st="on"&gt;br&lt;/st1:PersonName&gt;incadeira.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;– Só os que comem a comida feita pela Coma Bem com Saúde – uma piada sem graça, é verdade, mas de espiritualidade compatível ao salário que recebo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;Passamos a nos conhecer melhor e a nossas conversas foram se desenvolvendo. Talvez pela solidão – porque não parecia que ele costumava falar destes assuntos com muita freqüência – os assuntos de nossos encontros sempre giraram em torno de seus pessimismos com a vida; de como a vida mudou e da falta de sentido de tudo. Não me interessava muito o assunto dele, aquele momento passou a ser meu intervalo para o cigarro. Chegava, entregava as refeições do Lar e sentava ao lado dele, por uns quinze minutos, num gramado para fumar. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Se amar implica numa gama incontável de combinações, a mais estranha delas trouxe de volta quem há muito habitava minha Atlântida. Desco&lt;st1:personname st="on"&gt;br&lt;/st1:PersonName&gt;i quem amo num encontro com o homem do mato. Não, na verdade, acho que mais justo dizer que desco&lt;st1:personname st="on"&gt;br&lt;/st1:PersonName&gt;i o amor. Um velho sem coração, sem história, que nunca amou. Sem pais, durante a infância, recebeu educação, moradia e refeição num orfanato. Nada, além disso, lhe foi oferecido; nenhum amor, mas, principalmente, nenhum ódio. As crianças e jovens do orfanato eram criadas por freiras que pareciam marionetes de deus. Eram frias, mas nunca hostis. Quando ficou mais velho um pouco e estudou mais so&lt;st1:personname st="on"&gt;br&lt;/st1:PersonName&gt;e os povos, deixou de recordá-las freiras e passou a imaginá-las na recordação como russas. Sem saudade.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Por outro lado, fui casado, por amor, um ano e meio da juventude. Dividíamos a cama mole e o pão quente com satisfação. Continuo jovem, mas o casamento acabou. O velho nunca soube disso; nunca questionou quem eu sou, ou fui, ou pretendo ser. Ele não soube que casei, nem do beijo que ela provou e provou que o amor só morre quando o apetite de nosso orgulho o engole. O velho seguia sua ladainha: e a vida, sugeria, era repetição, uma mesmice que vista sem emoção chega a soar ridícula; e por aí ia, como era o normal todos os dias. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas, neste dia, eu acho que havia sonhado com ela e pensava nela.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;– Tudo acaba onde estamos. Este instante, agorinha mesmo, é a nossa morte! Talvez a única diferença que eu carregue é a de não aceitar como oportunidade de ressurreição os momentos que estão por vir. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Eu estava acordado? Estas frases do velho foram as únicas que ficaram de toda a conversa. Mesmo assim, não foi instantânea, absorvi enquanto ele absorvia a fumaça de sua cigarrilha numa pausa onde digeria com satisfação sua filosofia barata. Mas quando esta idéia fermentou-se com a saudade, e a felicidade reapareceu como sentimento a meu alcance, senti que estava em dívida comigo. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Pronto está o homem do mato, da vila, do bar, do mato. Eu não! Tentei pensar como seria, para ela, passar por todas as paixões que eu tive depois dela. Recusei o exercício contrário e saí, com pressa, sem me despedir.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-1515772785667936245?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/1515772785667936245/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=1515772785667936245&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1515772785667936245'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/1515772785667936245'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/12/velho-amigo-sem-volta.html' title='Velho amigo sem volta'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-4802305381518764043</id><published>2007-10-08T12:10:00.002-03:00</published><updated>2010-10-28T16:03:48.214-02:00</updated><title type='text'>País do Sol</title><content type='html'>Mudei-me, aqui, para o País do Sol e as minhas pernas não cabem mais dentro das calças. Não sei se as pernas cresceram ou se foram as calças que diminuíram, mas parece não existir pernas que caibam em calça alguma no País do Sol. As calçadas estilhaçadas jogam as pessoas a caminhar nas ruas e as pessoas das ruas jogam os carros para as garagens. Esta gente que anda e pára para conversar na rua faz cheiro de feriado todo o dia no País do Sol. Cheiro de feriado e suor-salgado-bom-de-sol. Vim em busca de não sei o quê e acabei encontrando mais; muito mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atmosfera boa e tem o cheiro da praia acompanhando as três primeiras ruas paralelas à orla do País do Sol. Quando cheguei, forasteiro de vida nômade em diversos países e continentes submersos, tive vontade e decidi ficar mais. Descobri, graças à generosidade dos cidadãos do País do Sol, que dividiam comigo a cada encontro um pouco da história deste país amarelo, que seu cidadão mais ilustre foi um homem que viveu com uma cabeça de papelão. A grande estátua da praça principal da capital do País do Sol passou a fazer sentido: na altura de minha cabeça, estavam os sapatos; conforme subia os olhos, calça, paletó, gravata e um saco de papelão com dois buracos no lugar dos olhos. Assim estava registrado em pedra sabão o grande homem deste povo. Hoje não existe mais ninguém para se admirar mais que os outros. Estão todos iguais e felizes e não precisam mais de paletós. Gosto de pensar que a estátua é uma recordação distante dos países sem sol que eu não precisarei mais visitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz muitos amigos e uma amiga bonita que gosta de ver desenho em nuvens. Enquanto ando, com as mãos enfiadas nos bolsos da bermuda, e chuto os ramalhetes de plantas que ameaçam invadir a trilha da grande montanha do País do Sol, ela, linda, de saia azul com flores vermelhas, diz: tem um touro, com chifre e tudo, ali; uma tartaruga-marinha velha naquela outra, ou não, com aquele rabo comprido parece mais uma arraia; tá vendo? Ela deve perceber, só vejo manchas brancas boiando sobre nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vê? O vento está desfazendo o búfalo ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não era um touro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Touros viram búfalos num instante nas nuvens. – brinca comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento, quanto estava a meu favor, não em sentido, em intenção, trazia o cheiro desta moça bonita. Sempre com um quê de suor e axila e cabelo e coxas. Às vezes, o vento amigo parecia visitar sua saia antes. Em geral, era quieto e calmo em sua companhia, mas, algumas vezes, deixava meu coração acelerar. No País do Sol chove de vez em quando. Quando chove, meus amigos não aparecem para conversar na praça e, num dia desses de dilúvio, minha amiga bonita pareceu bonita pra mais alguém. E, por sua vez, este alguém atendia a prece na qual minha amiga bonita pedia alguém que fosse bonito para ela também. Perdi o interesse pelos amigos e sentia cada vez mais saudade da lua: branca e silenciosa em noite escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo em que passava tardes inteiras sentado, ao lado da minha amiga bonita, numa rocha que ficava no ventre da grande montanha apontando para o mar. Pela primeira vez, fui até lá sozinho. Brinquei com as nuvens e, também pela primeira, vi minha primeira imagem branca: um jacaré. Passeei os olhos para uma mancha ao lado: formou-se, em três dimensões, um canguru com o filhote na bolsa do seu ventre. E as imagens foram surgindo uma a uma diante dos meus olhos, como se enxergasse com os olhos da amiga que perdi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez, anoiteceu no País do Sol e eu adormeci.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-4802305381518764043?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/4802305381518764043/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=4802305381518764043&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/4802305381518764043'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/4802305381518764043'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/10/pas-do-sol.html' title='País do Sol'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-3041203274484178980</id><published>2007-08-27T19:22:00.000-03:00</published><updated>2007-09-03T18:52:53.479-03:00</updated><title type='text'>Antônio não quer imaginar</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtyBecQbOlI/AAAAAAAAAA0/XhPExFLHEj0/s1600-h/4.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Fotos: &lt;em&gt;&lt;a href="http://calebesimoes.blogspot.com/"&gt;Calebe Simões&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtNPKMQbOgI/AAAAAAAAAAM/VSVi24y7MGU/s1600-h/1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5103509839248308738" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtNPKMQbOgI/AAAAAAAAAAM/VSVi24y7MGU/s320/1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;De olhos fechados, todas as imagens esperam chegar ao homem pela sua imaginação. Assim como o homem, de olhos fechados, espera que as imagens e sensações, antes registradas, transitem por suas correntes de nervos tensos e se formem bem ali, dentro dele. Antônio, não. Fecha os olhos e tem o som do vento que entra em seus ouvidos; com as mãos, tem a terra úmida, cachaça úmida, mulher úmida; respira e tem do mato, quando está no mato, da cachaça, quando está no bar, e da mulher, quando está na cama, o cheiro. Antônio, com olhos fechados, não pensa. Os cheiros e os ventos agradam, ele não imagina porquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtNQN8QbOhI/AAAAAAAAAAU/5wAIhNxMqIQ/s1600-h/2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5103511003184445970" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 183px; CURSOR: hand; HEIGHT: 261px" height="323" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtNQN8QbOhI/AAAAAAAAAAU/5wAIhNxMqIQ/s320/2.jpg" width="230" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O contraste, como é praxe, existe. Embora haja na cabeça de Antônio o monótono, porém confortante e, acima de tudo, tranqüilo marasmo de pensamentos, há em seu trabalho a exigência brutal de seus músculos. Mas ele também não sabe disso. Desprovido de qualquer questionamento, acorda, porque deve acordar, bebe o café e engole o pão, porque é assim que tem que ser, e parte para o canavial, porque é o seu dever. Antônio deve à vida e paga durante 12 horas todos os dias. A mulher de Antônio deve a Antônio e paga varrendo seu chão, preparando sua comida, lavando suas roupas e deitando ao seu lado nas noites que o esgotamento dele se esquece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;* * * &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtyBmcQbOmI/AAAAAAAAAA8/JSrJDnF8nZM/s1600-h/3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5106098574951397986" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 175px; CURSOR: hand; HEIGHT: 236px" height="222" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtyBmcQbOmI/AAAAAAAAAA8/JSrJDnF8nZM/s320/3.jpg" width="144" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;A cana era cortada, o chão era varrido e uma cova era aberta. A mulher de Antônio pensava e varria. Por anos, pensou no sacrifício do marido para colocar um punhado de comida para os dois; outros tantos anos, pensou no filho que não puderam ter; e, por fim, pensou que não devia nada para a vida. Entregou-se à turbulência que a descoberta trouxe. O dono da quitanda foi simpático atrás da balança vermelha com prato cobre e a mulher não foi mais de Antônio. No dominó sob a única luz amarela da varanda de madeira da vendinha da vila, a notícia se espalhou. Não fosse pela mãe de Antônio, que sofria, sob o cuidado de vizinhos, seus últimos dias, o marido seria o último saber: o que não quer dizer que demorou muito a saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtNR-sQbOjI/AAAAAAAAAAk/qT1rZsTdJng/s1600-h/4.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5103512940214696498" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 185px; CURSOR: hand; HEIGHT: 266px" height="277" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtNR-sQbOjI/AAAAAAAAAAk/qT1rZsTdJng/s320/4.jpg" width="185" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Antônio deitou a mulher e a cobriu com terra. No dia seguinte, a terra do chão de sua casa roçou a sola dos sapatos de Antônio, que foi trabalhar sem café. Como pode perceber que imagina quem nunca imaginou? A cada piscar dos olhos de Antônio – que parecia dever ao dono imagens que não viu – saltava sua mulher nua com as mãos acariciando o peito e os pêlos do quitandeiro; calava a visão por mais um instante, ela jazia morta; novo beijo entre as pálpebras, lhe vinha o sorriso quinze anos atrás durante a festa junina. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Para o melhor manuseio da cana-de-açúcar do canavial ao depósito, o bóia-fria deve entregá-la inteira.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Às costas de Antônio, uma vida dedicada em terra fértil onde nunca existiu por que. Sua cabeça tirou a sua força e a cana triturada custou o sustento de quem não tem quem sustentar. “E agora, fazer o que?”.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtNSkMQbOkI/AAAAAAAAAAs/qMzzRwidNJM/s1600-h/5.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5103513584459790914" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtNSkMQbOkI/AAAAAAAAAAs/qMzzRwidNJM/s320/5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-3041203274484178980?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/3041203274484178980/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=3041203274484178980&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/3041203274484178980'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/3041203274484178980'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/08/antnio-no-quer-imaginar.html' title='Antônio não quer imaginar'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/RtNPKMQbOgI/AAAAAAAAAAM/VSVi24y7MGU/s72-c/1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-2593750971113708144</id><published>2007-08-16T13:28:00.000-03:00</published><updated>2007-08-16T13:49:27.153-03:00</updated><title type='text'>Confessionário de asfalto</title><content type='html'>Não dói. “Morrer não dói”, sempre me disseram. Quando ouvi o estampido e senti a carne de minhas costas sendo atravessada e minha costela estilhaçando, meu coração ameaçou acelerar seu exercício, como num susto; apenas ameaçou. Acho, mesmo, que sabia que logo não teria mais que trabalhar. Por isso, tratou de cadenciar suas batidas e irrigar pelos caminhos de minhas artérias grossas, em meu sangue grosso, pela última vez cada ramalhete de veias com um sentimento de paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu atravessava a rua para me apoiar na banca de jornais, onde costumava encontrar a minha criançada. Meu trabalho era encontrar crianças que foram abandonadas, ou que abandonaram suas famílias, e gerenciá-las. Por um pouco de cola, às vezes maconha, meninos e meninas espalhavam-se entre os carros, de janela em janela, e recolhiam – sempre com o consentimento do condutor – moedas de centavos. Às dez horas da noite, iam todos para a banca de jornais fechada e esvaziavam os bolsos – quando, em sua roupa, bolso cabia –, ou sacolas, nesta caixa de sapato que trago sob meu corpo, no asfalto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muita gente não gosta de mim. Sabia que alguém reservaria uma bala para mim desde que meus meninos apareceram na televisão explicando meu trabalho. A impressão que eu tenho é que os justiceiros estão pelos pequenos bares, sentados em círculo, batendo peças de dominó, com as televisões sintonizadas nos telejornais sempre no último volume. Há uma denúncia – sem contar as de Brasília – não demora aparecer um corpo; chegou a minha vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, espero pelo o que está por vir e seja o que deus quiser. Nunca achei certa a vida que levei, mas ainda me recordo como entrei nela. Vivia de trabalhos temporários, bicos e, vez ou outra, pequenos assaltos. Quando menino, roubava latas de cola de meu pai, que tinha uma sapataria na garagem de casa, para cheirar com meus amigos, mas nunca me viciei. Um dia, sem dinheiro e com o estômago nas costas, parei em frente a um trailer de cachorro-quente, e um garoto, também faminto, me pediu algum trocado para um lanche. Não tinha pra mim, vai dizer pra ele. Vi a cena do menino esfomeado, que pedia dinheiro para comer, se repetir em vão de mesa em mesa e – por deus que esta é a verdade –, com um sentimento de piedade honesto, o chamei. &lt;strong&gt;Eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos no deserto. Sua gratidão me confortou. Partimos em silêncio.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos perto de casa. Desde a morte de meu pai, nunca mais havia entrado na nossa garagem e sabia que lá encontraria algum pote bem preservado de cola. Nós dois cheiramos e dormimos no chão da antiga sapataria. Quando acordei, o menino não estava mais lá. Voltou, dois dias depois, com outro amiguinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pele esfriando no asfalto: confesso uma vida que desdenhou e se apropriou de tantas outras. Como ficarão meus meninos? Reconheci os erros que cometi, identifiquei como entrei nesta vida e não consegui me perdoar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-2593750971113708144?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/2593750971113708144/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=2593750971113708144&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2593750971113708144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2593750971113708144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/08/confessionrio-de-asfalto.html' title='Confessionário de asfalto'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-6366352908625695002</id><published>2007-07-31T17:22:00.000-03:00</published><updated>2007-08-31T19:29:19.376-03:00</updated><title type='text'>O elefante que se apaixonou por um aspirador de pó (fim)</title><content type='html'>Por muito tempo, meses, Nagu intercalou momentos de pé sem andar, com momentos deitado sem dormir. Embaixo de sua árvore favorita, preces e promessas impossíveis eram rogadas, em silêncio, sem parar. No entanto, se engana quem pensa que Nagu pedia a seu deus, Ganesha, felicidade ao lado de um aspirador de pó. Esta união, provavelmente, iria sugar toda a sua energia, principalmente por aspectos sociais. Qual elefante, em sã consciência, permitiria como membro da manada um aspirador de pó. E tinham outros ‘poréns’: diferenças culturais entre os imponentes elefantes e os submissos, por conseqüência, pouco confiáveis, aspiradores de pó. Estava apaixonado, mas ainda não tinha perdido totalmente seu bom-senso; por isso, demorou tanto a se render.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes, teve que certa eloqüência sentimental para convencer sua mente a liberar seu corpo a buscar sua felicidade: como poderiam – alma e carne e tromba e dentes de marfim – viver em paz com a inexplicável paixão dentro do peito e a memória com irritante competência a martelar o coração? Cada vez que se perguntava isso, sentia sua volta à grande casa dos fazendeiros mais próxima. “O que importa, sobre todas as coisas, é a minha plena felicidade e paz. Não serei feliz sem aquela estridente criaturinha, que alegra meus sentidos”. Despertado pela envolvente paixão, deixou que seu coração persuadisse sua mente e, sem saber que ao obedecer aquele impulso traia a si mesmo, foi para a casa-sede da gigantesca fazenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez todo o trajeto sem enxergar ao menos o chão. Noite sem lua; segui o faro de sua tromba. Quando chegou à casa, nem um som, além do produzido pela vegetação que apenas os elefantes podem escutar, escutava. Ainda estava escuro, sem sinais de que clarearia o céu novamente. Nagu, tocando apenas as pontas das patas, desviando de quaisquer folhas-secas que pudessem gritar o pisão e acordar a casa, contornou a sede metendo os olhos em cada fresta de vidraça. Não demorou muito, lá estava... As orelhas de Nagu se ergueram e, enquanto a vidraça da lavanderia se esforça para refletir a face de Nagu, em seus olhos era nítida a imagem do recipiente plástico com mangueira e cilindro cinza-pele-de-elefante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A janela estava apenas encostada, os rolamentos estavam bem lubrificados com graxa e não fizeram barulho quando Nagu correu as portinholas. Com sua tromba, alcançou o aspirador de pó e partiram juntos para a floresta – mas, desta vez, Nagu foi ao sentido contrário de sua manada. Durante a caminhada, nem Nagu, nem aspirador, emitiram som algum. Dormiram próximos ao rio. Quando acordou, para não despertar o ilustre seqüestrado, tomou muito cuidado para não fazer barulho em seu banho de rio e estava distraído pensando em quê o futuro o reservava quando ouviu mais novamente o som estridente do aspirador. Num pulo, que esvazio o rio, o elefante correu à margem de onde vinha o som.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Onde estamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nagu não conseguiu deixar de sentir certo desconforto. Não eram estas as primeiras palavras que queria ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Morro se cair na água. Pra isso que me trouxe aqui, quer me matar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não quero te matar – começou Nagu –, te trouxe aqui porque me apaixonei por você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, você por acaso não é o mesmo elefante que apareceu há umas semanas lá em casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso foi há meses...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quase que mata a mim e a minha patroa com o barulho que fez. Minha garantia já acabou, se quebro, vou para a lata do lixo, sabia? Sem enterro, lágrimas, recordações, nada. Sabe quais foram as últimas palavras que meu irmão, um aspirador dois anos mais velho que eu, ouviu? “Maldita lata velha imprestável”! Pra você ver, nem de lata nós somos feitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas não iam bem. Nada do sentimento que Nagu trazia pelo aspirador parecia ser recíproco. Também, pudera, desde quando aspirador se comove com juras e cenas de amor? O aspirador ligou e desembestou a falar, assim. “Aspirador gosta de aspirar”, veio a inspiração para Nagu. Ele pensou o que nenhum outro elefante apaixonado jamais pensou: para alguns o amor não existe. Afinal, comum é acreditar que, o que o indivíduo sente, motiva e norteia a vida de toda a comunidade. Nagu se aproximou do aspirador e, como quem oferece uma oportunidade, falou em tom sério:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que te proponho é uma vida que não acabará num latão de lixo. Se tua utilidade, para os homens, termina quando sua mangueira não suga mais o pó e a sujeira, para mim, que tenho tromba como mangueira, pouco importa esta sua utilidade. Vivendo ao meu lado, a principal característica que teve até hoje não valerá mais nada. Por outro lado, seu caráter efêmero de utilitário doméstico desaparece também. Percebe o que estou te propondo? ... Vida eterna!... Sem sua desgastante utilização, será eterno enquanto eu durar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas que razão tem viver um aspirador desligado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não proponho que seja um aspirador totalmente desligado. Proponho a você que me utilize como seu aspirador. Dê ordens e eu as cumprirei. Diga: “sugue aqui; aspire ali; não deixe sujeira acumular no canto”, eu terei prazer em servir.&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                •  •   •&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que o elefante que se apaixonou por um aspirador de pó encontrou para viver o resto de sua vida ao lado de seu amor. Uma sucessão de pequenos enganos e enganações uniu dois personagens tão diferentes entre si. Mas para que esta história desse certo, elefante, que já fora imponente, precisou se render à insensibilidade eletrônica de aspirar e engolir seco toda a sujeira e pó de paixões mal resolvidas.&lt;br /&gt;Viveram juntos para sempre.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-6366352908625695002?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/6366352908625695002/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=6366352908625695002&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/6366352908625695002'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/6366352908625695002'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/07/o-elefante-que-se-apaixonou-por-um.html' title='O elefante que se apaixonou por um aspirador de pó (fim)'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-2090241305089104115</id><published>2007-07-06T14:40:00.001-03:00</published><updated>2007-07-10T14:35:11.163-03:00</updated><title type='text'>O elefante que se apaixonou por um aspirador de pó</title><content type='html'>Não podemos dizer que estivesse na vida adulta há muito tempo, mas não era, absolutamente, jovem. Fazia algum tempo que caminhava sem a necessidade das orientações dos pais e, embora tivesse em seu pai o símbolo máximo de intelectualidade – sempre se lembrava dele por sua memória acima da média de toda a manada –, se sentia muito à vontade para decidir quais as melhores rotas e acomodações; escolher o melhor verde para se alimentar; saber qual parte do rio oferecia a água mais refrescante. Carregava uma experiência razoável para uma boa vida e um futuro tranqüilo; mesmo assim, não era desgarrado. Nem se quisesse poderia ser: como todos os seus companheiros de trombas, vivia na propriedade de um grande pecuarista numa gigantesca fazenda da África do Sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando analisamos um acontecimento por completo – com informações do princípio, meio e, principalmente, fim –, é praxe nos apropriarmos dos resultados de cada etapa para julgar qualquer suspiro de quem realizou a ação anterior. Nagu era um elefante como outro qualquer de sua idade. Carregava ainda nos olhos a obstinação por realizações que pudessem surpreender seus amigos e parentes, embora começasse a perder aquela inquietude por resultados imediatos. Era simples, sério, calmo e, acima de tudo, discreto. Um modelo como tantos outros ao seu redor. Ninguém que o conheceu, ou mesmo que tenha dividido intimamente sua companhia, seria honesto se viesse hoje apontar qualquer característica de Nagu como sinal para a desordem para o que seu coração de elefante aprontou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez movido por uma brisa de tédio – monotonia comum para bicho que vive resguardado pela segurança de território demarcado e vigiado –, resolveu que sua caminhada naquele fim de madrugada, começo de manhã, o levaria ao pomar próximo a sede da fazenda. Não era comum aquele passeio; tanto no que diz respeito ao horário, quanto à área a ser visitada. De fato, quando os donos da propriedade queriam ver seus elefantes, precisavam chamar um capataz com jipe e viajar, muitas vezes, por até meia-hora para encontrá-los. E, se fizessem questão que eles estivessem acordados (bem-dispostos), preferiam o fim de tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pretendia beliscar algumas jabuticabas do pomar, mas não era isso que motivava seu passeio. Para Nagu, as frutas que por lá brotavam não faziam sua retumbante tromba saracotear. Passeava por passear, já que os olhos teimaram em deixá-lo acordado mais cedo. Só.&lt;br /&gt;Demorou muito para chegar. O céu clareou ao compasso lento dos passos pesados de Nagu e chegou ao azul definitivo – chamo de definitivo para intensificar a claridade da manhã; sem ser apocalíptico ou desrespeitoso às matizes azuis do céu – assim que ele parou para descansar, em frente a casa. Ouvia o barulho da vassoura e, de onde estava, via que, pelo corredor da esquerda, uma porta da casa espirrava o pó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sede”. Havia se esquecido das sérias implicações que se afastar do rio oferecia. Isto era elementar para a sua sobrevivência. De repente, um choque! Pensou, “havia se esquecido das implicações que se afastar do rio causava”! Pensou que havia esquecido! Por ter a memória como principal fonte de orgulho, os elefantes esquecidos – e isso é raríssimo. Uns lembram mais que outros, mas poucos se esquecem – sentem a pior das angústias. Com as orelhas e a tromba – arqueada entre suas patas dianteiras – arrastando no chão, Nagu, cabisbaixo, caminhou até um enorme pneu de trator que estava apoiado num cercado e guardava um pouco de água da chuva.&lt;br /&gt;Tomado por grande humilhação, mal conseguia forças para sugar o líquido. Distraído com a água que o pneu reteve da chuva, escutou um som inédito: chiado, com acelerações intercaladas, às vezes com o som abafado, às vezes mais estridente; resultado da luta entre gás-poeira e sólido-tapete. Nagu esqueceu, e desta vez fez bem, a tristeza para valer a curiosidade. Olhava através da circunferência de seu reservatório de roda gasta de trator para a casa, que havia se tornado, amplificadora daquele som.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme o tempo passava, o som, que trazia a característica rara de ser tão monótono enquanto é imprevisível, ia aumentando. A porta principal da casa se abriu e surgiu uma jovem negra enrolada em panos, vermelho e branco, e carregava por uma alça um pequeno instrumento de onde vinha o som. A euforia causou em Nagu seu terceiro esquecimento da manhã, desta vez com conseqüências. Entretido, como estava, esqueceu sua tromba dentro da roda do trator e, resultado dos segundos sem respirar pela apreensão em conhecer o irreconhecível, quis sugar com força todo ar ao seu redor, mas sua tromba estava sob a água suja que o pneu guardou da chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– (aumente o volume) *!!*!!!!*!!!!!*!!!!!!*!!!!!!!!*!!!!!!!!!!*!!!!. – Nagu acabava de lançar o (sem medo de errar) seu mais forte bramido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coração da jovem que aspirava a casa se absorveu por um sobressalto e o susto que a atirou ao chão; com o tranco causado pelo salto da moça, fugiu da tomada o cabo elétrico do aspirador que silenciou; os pássaros, que piavam em seus galhos, também decidiram pelo silêncio. Nagu tratou de se esconder numa árvore próxima que o tronco, de tão fino, mal escondia sua tromba. Alguns segundos passaram como que se o barulho do espirro do elefante tivesse feito o tempo parar por ali: nem sinal da governanta negra, pó em paz no carpete e nenhum pio os pássaros ousavam. De onde estava, olhava o aspirador deitado em silêncio no chão com sua mangueira apontada para ele. Ficou por volta de um minuto registrando cada detalhe do aspirador de pó. Até o capataz chegar de jipe com a espingarda carregada nas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;• • •&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Um único disparo bastaria, mas o capataz deu pelo menos três tiros para cima enquanto Nagu adiantava seus passos de volta à manada. Completamente compenetrado em si, após sua longa caminhada, passou reto (sem ao menos ouvi-la) por sua mãe que queria saber por onde ele tinha andado e entregou seu corpo que fervia pela viagem a um banho de rio. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Demorou um pouco para se refazer. Conversou com a mãe sobre a longa viagem e quase fez de seu pai um elefante-branco ao perguntar se sabia o que era aquele objeto que o capataz trazia nas costas e que fazia um barulho de pequeno trovão. Mesmo estando em companhia mais que confiável e com o pensamento totalmente refém por aquele pequeno pedaço cúbico de plástico, mangueira, botões, fio e alça, em nenhum momento passou por sua cabeça falar sobre a outra máquina barulhenta que havia conhecido no mesmo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;...continua&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-2090241305089104115?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/2090241305089104115/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=2090241305089104115&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2090241305089104115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/2090241305089104115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/07/no-podemos-dizer-que-estivesse-na-vida.html' title='O elefante que se apaixonou por um aspirador de pó'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-954517013691892396</id><published>2007-06-08T19:26:00.001-03:00</published><updated>2007-06-08T19:47:18.788-03:00</updated><title type='text'>Arte e apreço</title><content type='html'>No tempo em que fui repórter, acompanhei muitas histórias. Passei, e pastei, por quase todas as editorias: coloquei no jornal a história de muitos pilantras de colarinho branco; viajei junto com a delegação da seleção brasileira; cobri show de banda adolescente, festa italiana, marroquina e até aniversário de filha de celebridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe como é em redação; de vez em quando, um jornalista fica emputecido e manda às favas o chefe de reportagem ou o editor: quem estiver mais a mão. De dentro do escritório, todo de vidro, do editor, a repórter de Cultura soltou um sonoro – para o quarteirão todo – “Vá à merda e enfie este jornal onde bem entender!”, bateu a porta e saiu. Os telefones da redação não se alteraram, continuaram a tocar; ninguém saiu para consolar a repórter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava terminando o roteiro cultural do fim-de-semana. Com três processos que carregava do tempo de Política, me empurraram esta função até a poeira baixar. O editor abriu a porta do escritório e, com a delicadeza de um elefante numa loja de cristais, “Marcelo, deixa esta merda de roteiro para um foca qualquer e vem aqui”. Com um repórter a menos em Cultura, meus meses de ostracismo roteirizando cinema e teatro chegaram ao fim e uma matéria decente caiu no meu colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grã-fino causou o maior escarcéu quando descobriu que A donna d’Marselha – quadro do artista plástico Ângelo Quântico –, comprado num leilão, era falso. Quando desci da redação, que ficava no quinto andar de um prédio no centro, o motorista do jornal me aguardava com o motor ligado. Em mãos, carregava apenas um bloco de notas com o endereço da casa do artista. Fui sem saber o que esperar. Deve ter sido mais um desses casos onde algum amigo oculto cochicha nos ouvidos do editor, porque, quando cheguei a casa, vi a seguinte cena: o grã-fino com cara de pastel, o artista com um sorriso monalisa e o casal de leiloeiros, que, enquanto a mulher se desdobrava para massagear o ego do artista e garantir o ressarcimento de seu cliente, o homem franzia a testa e segurava um rapaz pelo braço; todos em volta de uma mesa retangular na grande varanda que fazia fronteira com a sala e o jardim. Conseguia ver e escutar tudo do portão baixo que dava pra rua. Não havia outros jornalistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez pela confusão toda, não tive problema para entrar e fazer parte do grupo. Ninguém sabia ainda o paradeiro do quadro original, mas isso não era grande preocupação: o rapaz que o leiloeiro segurava pelo seu braço era seu filho e autor da falsificação. Provavelmente o original estivesse em seu quarto, queria apenas atenção com uma falsificação de bom nível. Quando cheguei, já estavam decididos a não envolver a polícia no caso – o que manteve a matéria na editoria de Cultura. O rapaz, de 20 anos, contou que, com a ajuda de um amigo, trocou os quadros após as três batidas do martelo, enquanto o quadro esperava pra ser encaixotado. Era apenas uma molecagem de garotos praticamente resolvida. No entanto, para o texto que ofereci aos leitores, meu caderno só anotou a emoção com que o artista se debruçou sobre a cópia.  Enquanto o casal de dedicava em tecer mil elogios a uma obra “que jamais poderia ser copiada”, ele implicava com os leiloeiros; apreciava mais os falsários. Via os gananciosos leiloeiros a falar com os bolsos e tinha a certeza que, não fosse o trabalho do falsificador, que estudou cada pincelada na tela, ninguém teria observado tão bem sua arte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-954517013691892396?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/954517013691892396/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=954517013691892396&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/954517013691892396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/954517013691892396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/06/arte-e-apreo.html' title='Arte e apreço'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-893316159566176757</id><published>2007-05-30T17:58:00.000-03:00</published><updated>2007-05-30T18:50:01.837-03:00</updated><title type='text'>Pântano</title><content type='html'>&lt;p&gt;Assim como nos contos de bruxas ou assombrações, insinuar as diferenças dos ambientes transportava-nos a certo torpor. Aguardávamos os detalhes imaginários e o surgimento de algo sobrenatural que transformaria para sempre a nossa vida; ou um algoz, estático, que nos surpreenderia no reflexo do espelho do quarto de banho. Fugíamos da angustiante presença destes seres desconhecidos, moradores dos pântanos; dos pântanos e vales que a escada da casa da avó nos levava. Podíamos encontrá-los, no breu da noite, com suas faces mortas, através das vidraças da grande sala de jantar. Vidraças que, quando revelavam o reflexo de nossos rostos, aproveitavam para confundir nossas faces com a dos fantasmas. E nos tornávamos imagem que se atravessa servindo de espírito às almas penadas no espelho transparente. De certa forma, para os olhos de quem buscava através de seu reflexo o pântano e seus moradores, a existência de seus fantasmas se confundiam com a de nossas almas, ambas levemente encobertas pelo rosto de quem buscava o pântano de dentro da sala e encontrava o próprio rosto no vidro gelado. Não podíamos vê-los, não notávamos o medo estampado em nossa cara, eles sim. Eram espíritos querendo roubar a paz e pleitear a eternidade de nossas almas: para o bem ou para mal? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;No reflexo da vidraça, meu olhar arriscava confrontar quem quer que flutuasse pela escadaria que levava ao pântano, enquanto evitava o olhar morto da moça pálida de cabelos castanhos, que começavam lisos e ralos em sua cabeça e acabavam em ondulações úmidas quase na cintura. Com grossas veias verdes no pescoço, dois passos atrás de mim, também no reflexo; me olhando pelo reflexo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Alguns ramos da dama-da-noite foram empurrados por galhos maiores para dentro da copa e da lavanderia pelas frestas das vidraças. Seu cheiro nos tornava reféns durante a primavera; suas flores, caídas no outono, deixavam as crianças brincarem de bermuda na neve até o escurecer. Porque, desde que me conheço por gente, quando começava a anoitecer, todos da família se reuniam, faziam um pequeno lanche e, dentro do quarto sem janelas, se lavavam com um pano úmido. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desde meu avô, quem construiu este quarto sem janela, fui o primeiro a sair durante a madrugada e perambular pelas outras partes da casa. Não sei dizer a idade que tinha, de repente senti que realizava um ritual sem pé nem cabeça. Todo dia, ou melhor, toda noite levava um grande copo de água, às vezes uma jarra, e algum livro e me trancava na câmara. Lá, a grossura das paredes e porta eram obstáculos intransponíveis a qualquer ruído do mundo externo. Era ensurdecedor; no entanto, sozinho dentro da câmara, após alguns segundos no silêncio absoluto e autocontrole, pode-se escutar o ar inflando nosso peito e alvéolos; depois gazes passeando pelas nossas vísceras; depois o coração; e após alguns minutos totalmente parado, toda a orquestra do corpo apresentava sua sinfonia. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E a noite passava e sempre passou. Quando saíamos, encontrávamos todos os móveis como havíamos deixado. Mas agora uma linda luz branca invadia a casa por todas suas frestas e vidraças refletindo com tanta força no assoalho que ninguém, ao acordar, conseguia andar cabisbaixo pela casa por causa do reflexo que vinha do chão. Era rotina naquelas manhãs de férias a guerra nos jardins verdes escaldantes: bem-te-vis e pardais reclamavam as agressões dos marimbondos nas jabuticabeiras, as esquivas de insetos e o sol a arder suas vistas. Pela manhã ainda, o pântano encerrava o terreno da propriedade na figura de um belo lago. Via-se durante todo o dia alguns botes com pescadores amistosos, namorados com seus poemas escondidos, estudantes com seus livros e silêncio. De vez enquanto, autoridades apareciam por lá chamando a atenção e curiosidade de todos ao redor do lago: sempre que a cidade perdia um de seus carros, objetos grandes, ou até mesmo alguém, mergulhadores se atiravam revirando as águas e entocando os peixes para desespero dos amantes da paz. &lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;* * *&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi por causa de um livro – onde a fluência das palavras do escritor suplantou o número de páginas que sua história exigiu e a leitura acabou antes do previsto – que fui estimulado a sair do quarto. Ainda estava com os argumentos do autor, que havia apresentado em sua prosa a enfadonha metade boa e a terrível metade má de um visconde cortado em duas partes, quando a insônia insinuou mais uma noite longa. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mesmo com o anúncio da jornada solitária da madrugada, a princípio, nem mesmo cogitei a possibilidade de sair do quarto sem janelas. Nos breves intervalos das inúmeras sensações despertadas por lembranças, conclusões precipitadas, projeções para o futuro, metades de visconde e música das engrenagens do meu corpo, lamentava ter levado apenas um livro. Dei conta do absurdo que era me manter enclausurado quando me lembrei criança naquela casa. Lembrei do medo das histórias que meu avô gostava de contar enquanto a gente se vestia para ir à igreja; do medo dos fantasmas da família que, supostamente, protegiam o tesouro escondido no porão; e do medo dos cantos e das melodias religiosas a Nossa Senhora quase inaudíveis que eu escutava quando encostava o ouvido nas paredes ásperas do casarão. Todas, sensações incabíveis à pessoa que me tornei: entre outras coisas, um comunista-ateu convicto. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Levantei do colchão duro de estrado num solavanco só. Não tinha medo. Era um adulto que resolveu sair do quarto, sem janelas, para buscar um livro na biblioteca e um copo d’água na cozinha. Lembrava que tinha entrado calçando chinelos no quarto, mas agora não os encontrava. Pé ante pé, pelo chão de assoalho sem janelas, cheguei à porta. A chave resistiu a girar, forcei um pouco e a fechadura destravou. Mão na maçaneta. Fazia – se é que silêncio se faz – um silêncio paradisíaco; quando a primeira fresta da porta abriu, um sopro ártico invadiu e sussurrou entre os botões do pijama algo que fez meu coração soluçar; passeou como peão pelos pêlos do meu peito, barba, espinha, lombo; desatou os cordões da barriga até se concentrar, como gaze úmida, nos calcanhares dos pés. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;A casa estava outra vez habitada. Sob a influência de todo o ritual que estava sendo quebrado a cada passo que dava, meus pés gelados, com as solas molhadas de suor, grudavam no chão de madeira. A madeira reclamava meu peso, de vez em quando, com leves gemidos que preenchiam toda casa. Não tinha medo. Enquanto atravessava de um ambiente para outro, era a criança que nunca desafiou o avô por medo. Agora eu já não tinha medo, já não tinha avô. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;No meio do caminho, antes de virar à esquerda, tocar os interruptores de luz e chegar à estante de livros, estava a enorme porta de vidro. Em noite como aquela, sem lua, não enxergava o lago. Era meu rosto refletido outra vez no espelho transparente e o cheiro mais puro que a dama-da-noite já havia oferecido. A única luz vinha do final do corredor, da porta entreaberta do quarto sem janelas, e iluminava a metade direita do meu rosto. Sabia que atrás da imagem que se formava na porta de vidro os degraus levavam ao jardim, onde meus fantasmas da infância habitavam; mas, olhando através do meu reflexo, aqueles degraus me levaram para outro pântano. Hipnotizado, todos os fantasmas que visitavam aquela vidraça quando eu era pequeno se uniram e formaram, sobre o meu rosto, o reflexo que parecia o do meu avô. O reflexo era meu e eu estava velho. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pelo medo das assombrações que moravam no pântano da minha infância me prendi no quarto sem janela. Por quanto tempo?&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-893316159566176757?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/893316159566176757/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=893316159566176757&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/893316159566176757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/893316159566176757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/05/pntano.html' title='Pântano'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-6877489722019693889</id><published>2007-05-15T13:24:00.000-03:00</published><updated>2007-05-15T14:40:51.153-03:00</updated><title type='text'>Teresa, a mãe da puta</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Lá vai Teresa trabalhar.&lt;br /&gt;Pobre, negra da favela, gorda. Gorda, com metade do peso seria saudável. A vida complicada ainda não conseguiu tirar dela alguma esperança que não se sabe do que. Para muitos, em seu lugar, sorte seria morrer na próxima esquina. Ela rezava: por sua saúde e de seu filho menino. Quando lembrava – ou esquecia tudo que ele já cometeu –, rezava pelo marido, padrasto de seu filho, que roubava o pouco de dignidade que a paz na família – se existisse – poderia oferecer.&lt;br /&gt;Sabia da vida de seu filho e das sainhas que ele gostava de usar. Mas o que acontecia depois que ele saía do barraco, Teresa ouviu falar numa dessas reportagens especiais de programas marrons que tornam celebres as ruínas sociais. O apresentador, com voz de penumbra, levou até os olhos, ouvidos e coração da mãe Teresa o espetáculo de crianças e adolescentes que viviam à beira da estrada submetendo suas mãos, bocas e bundas em postos das auto-estradas. Pobre, negro da favela, magro. Magro, de pedra e agulha, quinze de idade, era pele, osso e cabelo alisado com pontas que pinicavam a clavícula.&lt;br /&gt;Lá vai Teresa trabalhar.&lt;br /&gt;Carrega, em seu enorme corpo redondo, vergões nas costas e nos braços das frustrações de seu marido. Carrega ainda a saudade do filho que, violentado pelo padrasto, há quinze dias não aparece em casa. Enquanto caminha é a atração passageira nos becos e vielas. As bocas banguelas e os olhares contentes, dissimulados, dizem em sussurros altos:&lt;br /&gt;– Lá vai Teresa, a mãe da putinha.&lt;br /&gt;O serviço é a terapia. Pia com esponja, sabão, água, porcelanas, talheres e copos. Lava, seca e guarda. De certa forma, uma analogia com o que quer para a sua vida. Antes disso, chega às sete da manhã na casa que ainda dorme. Prepara café, busca jornal, o patrão sai correndo, esquenta o café para a patroa que só acorda às nove, tira a mesa, coloca as roupas no tanque, limpa o quintal e prepara o almoço. Enquanto limpa as sobras do almoço, está no momento mais distante de seus problemas. Saiu de casa, da comunidade, do marido, da espera do filho travesti há quase seis horas e está a mais de cinco de voltar para lá. Divide sua atenção entre a espera do caminhão de gás, o cachorro que late sem parar e o ventre molhado na pia. O cachorro latia à chegada do filho de seus patrões – dois anos mais velho que o seu – que não consegue almoçar com os pais por causa do curso para o vestibular.&lt;br /&gt;– Olá, Teresa, sobrou alguma coisa ou só vou almoçar o jantar? – e a Teresa sorri a piada simpática.&lt;br /&gt;O prato costuma estar separado quando ele chega. Às vezes conversam um pouco sobre alguma notícia que una seus mundos: a morte de algum famoso, a chuva que vem, o sol que não sai, a falta de água na rua.&lt;br /&gt;Hoje, Teresa trouxe uma carta e, analfabeta, perguntou se ele poderia ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;– “Mãe, espero que as coisas estejam melhores em casa. Desculpe escrever. Sei de sua dificuldade com as palavras escritas, mas não encontrei outro jeito de entrar em contato. Agradeço quem lê para você, como agradeço a Roberta, que escreve e organiza minhas palavras nesta carta. Peço desculpas também por expô-los a um problema que não lhes diz respeito”.&lt;br /&gt;O garoto parou, olhou para a empregada que sorria e continuou.&lt;br /&gt;– “Moro com ela agora. Pelo menos por um tempo. Não tenho tido problemas com roupa, comida ou segurança para viver. Tenho medo que aquele homem encontre esta carta antes de você e me persiga, por isso não conto onde moramos. Quero que você saiba que está tudo bom.&lt;br /&gt;Não sei se nos veremos outra vez; não sei como terei notícias suas; não posso voltar para casa. Sei que não fui um bom filho, mas durante toda minha vida você foi a única pessoa que realmente amei e que realmente me amou. Fiz, com a minha demência, com a minha doença, com o meu corpo e comportamento, com as minhas roupas, cabelo e vício, do meu caminhar a sua caminhada mais longa e triste. Coloquei sua reputação de mulher simples e forte, pobre e honesta, na boca daqueles miseráveis que não sabem do amor. Fiz seu marido desrespeitar você como mulher que não serve para parir. Lamento a falta de forças para tirar você daquele cafajeste. Assim como lamento a força que me faltou este tempo todo para tirar ele de cima de mim. Não sei algum dia vou me recuperar da idéia de ter sido mulher dele. Não sei se o asco foi maior por ter sido refém do homem que eu, ainda criança, já chamei de pai, ou por ter me tornado mulher e, de alguma forma mesmo que rendida, ter sido cúmplice da traição de seu marido. Mãe, pelo amor de deus, perdoe o que aconteceu aquele dia. Eu nunca me insinuei para este homem. Sabe bem que minha força perto da dele não serviria para nada. As vizinhas, que ouviram e bisbilhotaram entre as tábuas do barraco, devem hoje estar a te ofender também. Desculpe mãe, desculpe. Sei como as notícias correm por lá.&lt;br /&gt;Queria que esta carta falasse só do amor que a despedida me fez lembrar. Pelo menos assim, poderia deixar palavras de saudades. Talvez falar um pouco mais dos meus planos; talvez prometer que vou mudar. Mas esta é uma carta de desculpas e despedida. Para a única pessoa que me ama e sempre cuidou de mim. Para a pessoa que, entre tantas, eu ajudei a desgraçar a vida. Para o meu maior exemplo e amor.&lt;br /&gt;Fique em paz, sabendo que o filho está bem e que pretende te buscar quando tiver condições.&lt;br /&gt;Assinado: seu filho, Vandré”&lt;br /&gt;Há muito tempo o garoto havia reduzido seu tempo de leitura para evitar o momento em que teria que olhar para a Teresa outra vez. E ela sorriu; ele sabia mesmo antes de levantar os olhos e a primeira lágrima se desprender dos cílios laterais:&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;– Vou tentar me lembrar de cada palavra que o senhor leu pra mim. Se meu menino disse que vai voltar, ele volta mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-6877489722019693889?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/6877489722019693889/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=6877489722019693889&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/6877489722019693889'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/6877489722019693889'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/05/teresa-me-da-puta.html' title='Teresa, a mãe da puta'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-8035622794687666438</id><published>2007-04-26T17:07:00.000-03:00</published><updated>2007-04-26T19:03:34.064-03:00</updated><title type='text'>O Metrô e o Túnel do Tempo - Fim</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/03/o-metr-e-o-tnel-do-tempo.html#links"&gt;Parte 1&lt;/a&gt; &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-parte-2.html"&gt;Parte 2 &lt;/a&gt;&lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-parte-3.html"&gt;Parte 3&lt;/a&gt; &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-parte-4.html"&gt;Parte 4&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;Parte cinco - fim&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;As portas dos vagões abriram e fecharam sem que ele entrasse, mas o trem não partiu. As portas voltaram a se abrir, desta vez, exclusivamente ao único que permaneceu na plataforma: ele entrou. As velhinhas acostumadas a se arrastar estavam sentadas nos assentos reservados; os turistas de cadarços desamarrados com mapas e caras de interrogação intercalavam os olhares entre o quadro viário na parede interna do vagão e os guias de rua que carregavam; e os deficientes já estavam em casa nessa hora.&lt;br /&gt;Pensava na razão daquela viagem. Para onde estava indo, quem iria encontrar e porque iria encontrar; não queria chegar há lugar nenhum. Mal as portas se fecharam, abriram na estação seguinte. Quem tinha que descer, desceu; quem tinha que entrar, entrou. Em nenhum outro passageiro notava-se espanto ou perplexidade pela rapidez com que a estação seguinte havia chegado. E o processo se repetiu na estação seguinte: as portas mal se tocaram e já abriram na estação seguinte. O artista que viajava até sua primeira exposição olhou sobre os ombros, encarou os outros passageiros, coçou a cabeça, puxou a gola da camisa, esfregou os dois olhos com as mãos. Um casal que estava sentado a sua frente, enquanto conversava, de rabo-de-olho encarava com espanto o artista. Não estava a quarenta e cinco segundos dentro do trem e já tinha percorrido três estações. As senhoras desceram com seus passos arrastados, as portas aguardaram com toda paciência do mundo, dois segundos depois delas descerem o auto-falante do metrô anunciava a chegada na estação seguinte.&lt;br /&gt;Quando chegou à Serge Lê Tendre, saltou do trem e ficou encarando a trajetória da locomotiva à estação seguinte. Partiu lento, como era normal, e foi ganhando velocidade gradativamente conforme anunciavam os ruídos provocados pelo atrito entre metais. Acompanhou com os olhos até que ele desaparece na escuridão do túnel. Lembrou da última vez que havia descido ali. Parado, na plataforma via passageiros dos dois sentidos da linha chegando e se acomodando à espera do próximo metrô. Longe, no fim do corredor, estavam os degraus das escadas que, em outro tempo, ele subia aos saltos. Seus pensamentos, seu supercílio esquerdo, seu coração, os dedos das mãos e dos pés pulsavam. Como velocidade da viagem colocou em ordem o atraso para a exposição, tomado por um alvoroço de sentimentos e sensações – tristeza profunda, correntes de vento, saudade, rostos estranhos e nostalgia, obsorto pelo absurdo metrô e o seu túnel do tempo – decidiu fazer a viagem de volta. E o fenômeno se repetiu: em menos de dois minutos estava na Régis Loisel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;O artista não compareceu à sua exposição de estréia e a excêntrica ausência soou bem às madames e aos barões. Nas semanas que seguiram os visitantes esvaziaram seus bolsos e compraram todas as obras que estavam à venda. Os organizadores e responsáveis pelo evento não tinham notícia sobre o expositor desde a véspera da inauguração da exposição, há trinta e cinco dias. As autoridades estavam avisadas, cartazes com seu retrato foram colocados nos parques, praças e alguns estabelecimentos comerciais. Quando o encontraram, não puderam reconhecer.&lt;br /&gt;Roto, extremamente magro e de barba suja, mas incrivelmente cheiroso. Sentava sempre nos últimos acentos dos vagões: observava e rabiscava um caderno de ilustrações. Geralmente os outros passageiros não se aproximavam muito. Muitas vezes faziam caretas como se pudessem sentir o mau-cheiro do traste e, ao se aproximarem, sentiam vontade de roçar sua barba para saber se era dela aquele cheiro bom. Cheiro de casa da avó. Na Serge Lê Tendre entrava no trem, na Régis Loisel descia e vice-e-versa. Exercitava-se nas baldeações, gargalhava da velocidade da viagem que por muito tempo foi a mais lenta do mundo. Não entendia a indiferença dos outros passageiros no começo, depois ficou indiferente a todos: só olhava e rabiscava.&lt;br /&gt;Motivado por uma denúncia, um segurança do metrô foi ao encalço do mendigo. Compenetrado em seu caderno, não notou a aproximação. Sentiu um choque quando o calor da palma da mão direita do guarda segurou seu pulso, há muito tempo ninguém encostava nele. Arrastado para fora do vagão, numa estação intermediária de seu trajeto, não tinha força para lutar. Batia com a mão solta na cabeça, dobrou os joelhos e gritou com mais força enquanto era arrastado. Teve a idéia: enfiou a mão no bolso, encontrou seu lápis, a ponta bem apontada do lápis encontrou a coxa e riscou o fêmur do segurança que, espantado, apoiou numa placa de publicidade e deixou seu corpo deslizar até o chão onde permaneceu sentado. Quieto. O agressor andou, com passos firmes de assassino, ao encontro do segurança pálido, arrancou de sua perna o lápis e se jogou na vala onde só os trens podem caminhar. Sumiu na escuridão do túnel.&lt;br /&gt;Foram formados grupos que vasculharam cada centímetro da Linha Urutau e nunca encontraram ninguém. Mas ainda hoje, algumas vezes, quando um trem parte e deixa seu vácuo sugar o ar dos corredores subterrâneo, suga também algumas folhas de jornal e rascunhos – a lápis – de desenhos encantadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;Fim.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-8035622794687666438?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/8035622794687666438/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=8035622794687666438&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8035622794687666438'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8035622794687666438'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-fim.html' title='O Metrô e o Túnel do Tempo - Fim'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-8570080822053819039</id><published>2007-04-20T16:35:00.000-03:00</published><updated>2007-04-23T17:18:37.020-03:00</updated><title type='text'>O Metrô e o Túnel do Tempo - parte 4</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/03/o-metr-e-o-tnel-do-tempo.html#links"&gt;Parte 1&lt;/a&gt; &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-parte-2.html"&gt;Parte 2&lt;/a&gt; &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-parte-3.html"&gt;Parte 3&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;Parte quatro&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Estavam juntos há três anos, sem brigas, desconfianças, ciúmes, rancores. Viviam a relação adulta que os casais de final feliz em novelas anunciam. Primeiro foram amigos, não se desgrudavam; logo passaram a namorar e não se desgrudaram mais. Irretocáveis amantes cobertos pela dádiva de não causar inveja nos amigos: mesmo as vizinhas beatas aplaudiam a esta união que ignorava e suplantava qualquer manifestação de deus ou de seus tantos representantes na terra. Mas houve quem dissesse que foi a falta de deus que separou esses dois. Todos lamentaram. O que se seguiu na vida talvez tenha sido a única maneira do amor entre eles ser derrotado: chegou a morte. Chegou lenta, com olheiras, com cansaço, cólicas, com o amarelo apático, diarréia, sono, muito sono, andar arrastado, tosse no corredor, tosse no banheiro, desmaio no banheiro, banho na cama, médico no quarto, janelas do chão ao teto fechadas, mãe chorando enrolada na cortina bordô, panos úmidos na testa, poucas visitas e a última visita, último aperto na mão, última jura do namorado, uma lágrima, um sorriso, um suspiro.&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;Nos meses seguintes o ex-namorado seguiu sua rotina de cursos e os encontros vespertinos com seu amor deram lugar a choros, desenhos e poemas no parque de lembrar. Encontrava-se com os amigos de vez em quando, mas nenhum que conseguisse olhar nos seus olhos. Eles conversavam com o amigo em luto olhando à sua direita, como os modelos que conversavam com o desenhista sem conseguir tirar os olhos da namorada que apontava seus lápis de grafite 6B ao lado.&lt;br /&gt;Não fazia mais o caminho sobre-trilhos até a estação Serge Lê Tendre. Praticamente não submergia mais pelo concreto das linhas de metrô. Os dias só, de reclusão – estivesse no parque de lembrar, estivesse na escrivaninha do quarto ou nas salas lotadas de seus cursos –, tornaram suas imagens mais ricas, seu lápis mais sensível, sua olhar mais preciso, a sensação de perspectiva de seus retratos ultrapassavam as dimensões geométricas: retratavam também a alma que o artista emprestava a seus personagens.&lt;br /&gt;O sucesso passou a rondar o seu trabalho e o olhar do desenhista continuava a se entreter nos detalhes. Sua mente continuava distraída com uma saudade que parecia se misturar com anestésicos. Alguns admiradores organizaram uma exposição de seus rascunhos, afinal, nunca admitiu que uma obra sua estivesse terminada. No marasmo quase demente em que vivia, se vestiu com o que estava mais à mão, desceu as escadas da estação Régis Loisel, viu o horário no relógio pendurado do corredor principal, pensou no atraso que a viagem de dezessete minutos causaria e travou na frente do trem que o levaria à Serge Lê Tendre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;(continua...)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-8570080822053819039?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/8570080822053819039/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=8570080822053819039&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8570080822053819039'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/8570080822053819039'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-parte-4.html' title='O Metrô e o Túnel do Tempo - parte 4'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-5930570905983282650</id><published>2007-04-13T18:29:00.000-03:00</published><updated>2007-04-16T09:11:22.786-03:00</updated><title type='text'>O Metrô e o Túnel do Tempo - parte 3</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;Pode não parecer, mas caminhamos para um fim próximo. Provavelmente serão mais dois capítulos para o fim da saga...rs... Se você não leu a parte 1, &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/03/o-metr-e-o-tnel-do-tempo.html#links"&gt;CLIQUE AQUI&lt;/a&gt;, se não leu a parte 2, &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-parte-2.html"&gt;É AQUI&lt;/a&gt;.&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;Parte três&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A namorada era artesã e morava num sítio que ficava a quatro quilômetros da zona urbana da cidade. Acordava cedo e fazia o que se faz quem não tem o que fazer até a hora do almoço, quando se reunia com os pais. Comiam e conversavam numa copa de enorme com janelas, que pareciam ir do chão ao teto, sempre abertas à luz e ao retrato do quintal, com cortinas pesadas de pano cor de bordô. Sempre às onze e quarenta. Come devagar, pausando entre uma garfada e outra para concordar com o que o dizia, mesmo assim o almoço acabava rápido: meio-dia já estava se preparava para ir ao encontro de seu amor na estação Serge Lê Tendre. Montava em sua bicicleta, atravessa lentamente o jardim das hortênsias e azaléias e apressava suas pedalas quando dobrava o à esquerda depois da porteira sempre aberta. Chegava sempre no mesmo horário e precisava esperar pelo namorado. Às vezes sentia vontade de folhear revistas com dicas de beleza e comportamento feminino, mas embora soubesse que a espera por seu menino duraria quinze minutos – ou cinco enxurradas de passageiros –, ansiosa, não tirava os olhos das catracas e acompanhava com atenção as pessoas que transbordavam de três em três minutos.&lt;br /&gt;Ele chegava correndo dos cursos de artes que ocupam todas suas manhãs. Quando se encontravam se abraçavam e se beijavam com paixão e, freqüentemente, certa força desproporcional. De vez em quando, a namorada era surpreendida por pequenos pingentes, colares de miçangas, bijuterias ou retratos feitos por ele.&lt;br /&gt;Não demorava para que o calor do reencontro desse lugar às reclamações e impaciências do rapaz: a falta de dinheiro, a casa dos pais, a vida corrida, os anjinhos urinando em seus sonhos. Nada disso incomodava o a moça. Pouco depois das reclamações, assistia ao seu almoço apressado e, nos dias de bom-humor, escutava seus esperançosos planos para independência financeira rápida. Nas quartas-feiras reclamava da professora de aquarela, nas quintas da aula de anatomia e quando chegava sexta sempre dizia que “se já não tivesse jogado uma grana fora nestes cursos, já teria um atelier com o Birô”. Os almoços seguiam com as suas mãos se acariciando sobre a mesa e olhares de admiração da moça. Quando se levantavam e davam lugar aos outros clientes, iam a uma praça de se beijar. O namorado então perdia o peso de sua jornada, lamentava desejar a morte de todos que atrasaram sua viagem e assumia seu carma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;(continua...)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-5930570905983282650?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/5930570905983282650/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=5930570905983282650&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5930570905983282650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5930570905983282650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-parte-3.html' title='O Metrô e o Túnel do Tempo - parte 3'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-531636815869784789</id><published>2007-04-09T12:50:00.000-03:00</published><updated>2007-04-09T14:43:12.060-03:00</updated><title type='text'>O Metrô e o Túnel do Tempo - parte 2</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;* Esta é o segundo capítulo de um texto que eu honestamente não sei para onde vai. Se você não viu a primeira parte, &lt;a href="http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/03/o-metr-e-o-tnel-do-tempo.html" target="_blank&lt;"&gt;CLIQUE AQUI&lt;/a&gt; e acompanhe. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;Parte dois&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A viagem entre as sete estações durava exatamente dezessete minutos. Alguns passageiros deste trecho achavam que era pouco tempo para se dedicar, por exemplo, às linhas de Érico Veríssimo ou faixas de Manu Chao. Passageiros que utilizavam o metrô durante a madrugada não conseguiam chegar ao fim em seus sonhos e freqüentemente levantavam aos solavancos para alcançar a porta antes de fechar. A moça que fazia compras num supermercado próximo da estação Serge Lê Tendre e morava seis andares acima da Régis Loisel também queria uma viagem maior para esquecer-se de seu marido, da amante que ele tem e do amante que ela perdeu. Mas para o namorado era tempo demais! Seu espírito não há de ter perdão para as maldições rogadas contra as senhoras de lentidão cadavérica, os turistas desencontrados com cadarços desamarrados, os deficientes que se enroscam a cada passo: todos que atrasassem a sua jornada a caminho de sua namorada eram malvistos, malquistos pelo apaixonado. Não importavam os motivos ou infortúnios que a vida oferecia à pessoa que atrapalhasse sua viagem, nada justificava.&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Gostava de fazer caricaturas. Queria ganhar a vida como artista, mas não entendia bem como ia ganhar dinheiro assim. Enquanto isso, conseguia uns trocos fazendo retratos nas praças em dia de grande movimento. Sempre que podia ia ao Parque Dom, onde havia um grande chafariz cercado por oito anjinhos que afastavam qualquer pretendente a banhista apontando-lhes seus jatos de urina. O caricaturista, que se vendia como retratista no Dom, sentia-se enojado com aquele pano de fundo angelical que seus, não tão fiéis, clientes adoravam. No entanto, como havia estudado um pouco sobre sinais e mensagens subliminares, gostava de pensar que apontando os riscos urina dos anjos às costas do retratado estaria criando uma mensagem oculta em sua obra. Ou, igual fez com a garçonete mal-educada, colocar os mensageiros divinos ao fundo, e ao mesmo tempo ao lado do rosto de sardas e sorriso metálico, guerreando com suas espadas, ao sair do lápis do artista, iguais as de Luke Skywalker e Darth Vader.&lt;br /&gt;O nome do parque, Dom, merece uma menção. O prefeito resolveu fazer uma grande quantidade de parques e praças públicas para tornar a cidade mais terrestre. Criou-se uma mega operação envolvendo as secretarias de Infra-estrutura, Cultura, Transporte, Segurança, Educação, Saúde e Comunicação. Como estratégia de marketing, ficou decidido que durante o mês de agostos – quando a cidade comemora seu aniversário – todo fim-de-semana um parque e duas – às vezes três – praças seriam inauguradas. Tudo muito bem planejado e distribuído de maneira apropriada para atender e dar fácil acesso ao maior número de moradores. Doze praças e cinco parques foram inaugurados. Para as praças, por serem obras menores, que podiam levar o nome de ilustres cidadãos de menor expressão como homenagem, não tiveram problemas de batismo. Os parques seguiam o mesmo caminho: um levaria o nome de um político estadunidense que havia morrido e comovido alguns colonos; outros dois levaram nomes de atores nascidos na cidade que ficaram famosos em novelas e teatro; o governador, que liberou uma verba para as obras, também mereceu seu nome numa placa; e o último, que fica no centro, chamaria Dom Freitas. Padre e, especialmente, agente social adorado pelas inúmeras famílias que viviam afastadas dos córregos de dinheiro da cidade que havia sido, misteriosamente até então, morto a tiros. Acontece que, um dia antes da inauguração do parque, a perícia da polícia apresentou seu relatório sobre o crime bárbaro: d. Freitas se envolveu numa espécie de grupo subversivo que pretendia parar uma grande indústria que despejava seu lixo no rio que abastecia a cidade vizinha e que era comandada por um grande coronel, não do exército, da região. A notícia de que um capanga – por motivação própria. Sem que seu patrão houvesse pedido, segundo o relatório final – do coronel havia matado o padre causou enorme mal-estar entre industriários, intelectuais, representantes da esquerda, religiosos e população em geral. O governo não quis entrar nesta briga de foice e, sob o argumento de prudência, de não tornar aquele espaço um campo de batalha e manifestações, decidiu tirar o nome do líder religioso. Mas neste momento todas as placas já estavam postas os textos de divulgação para imprensa já rodavam nas caixas de mensagem dos assessores e jornalistas. Os jornais que, também nesta cidade, davam as mãos ao governo já editavam suas capas quando receberam a ligação de uma autoridade qualquer:&lt;br /&gt;– Tire o nome do Freitas desta matéria&lt;br /&gt;– O que coloco no lugar?&lt;br /&gt;– (...) Deixe o Dom, acho bonito... Dom!&lt;br /&gt;As placas que estampavam o nome do parque foram raspadas onde trazia a palavra Freitas. Até o engenheiro da obra, Antônio Goulard Freitas, na pressa da maquiagem toda, perdeu seu último sobrenome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;(continua...)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-531636815869784789?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/531636815869784789/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=531636815869784789&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/531636815869784789'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/531636815869784789'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/04/o-metr-e-o-tnel-do-tempo-parte-2.html' title='O Metrô e o Túnel do Tempo - parte 2'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-366420917153217791</id><published>2007-03-28T14:29:00.000-03:00</published><updated>2007-04-03T15:48:16.352-03:00</updated><title type='text'>O Metrô e o Túnel do Tempo: a Divina Misericórdia</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;Era rotina de toda a cidade, por volta de duzentas mil pessoas, acordar, espreguiçar, café preto e correr para o Metrô. Fosse só por diversão, pular dentro trem só para passear pelas galerias do centro, pelas compras e pelos bares; fosse para trabalhar - uma minoria dependia do serviço com pontualidade. Sem horários de picos ou filas intermináveis. Pensando bem, existia pelo menos uma bilheteria por estação, no entanto nunca vi ninguém trocar suas moedas pelos passes. A impressão é que, ainda criança, um micro chip era inserido em cada cidadão nascido na cidade e a passagem era livre e gratuita pelas catracas. Mas isso não era verdade.&lt;br /&gt;Lá não andava carro, seria extravagância. Pelas ruas apenas alguns ciclistas e muitos pedestres. Nenhum ônibus. De resto, para ir de um lado ou de outro, só metrô. Todos os dias, todos os horários. Durante a madrugada, metade dos vagões eram destinados ao transporte de mercadorias e materiais às indústrias – que não eram muitas e tinham suas próprias estações – e ao comércio. Nenhum caminhão.&lt;br /&gt;O secretário de Transportes Públicos e Infra-Estrutura Urbana era deus, ou melhor, o atual era neto de deus. Seu avô foi quem colocou toda sua energia costurando cada quarteirão da cidade com linhas do trem subterrâneo. E acabou instituindo a tendência das urnas nas últimas quatro décadas: se você for o secretário de Transportes e Infra-Estrutura, sem dúvida será o próximo prefeito. O prefeito da cidade, ex-secretário de Transportes, quando acabar o mandato volta ao antigo cargo. E é assim até que a morte interrompa o processo. Às vezes por causas não naturais ou muito suspeitas; historicamente, isso não é tão incomum.&lt;br /&gt;Nas antigas ruas de passear carro, nas manhãs e tardes de domingo, as mesas das sorveterias, lanchonetes, pastelarias e botequins invadem. Durante a semana, servem de passarela em eventos culturais, discursos públicos, maratonas públicas; eventos públicos previamente agendados na Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, SECEL, responsável por todo asfalto ao ar livre. Por iniciativa desta Secretaria, todas as ruas eram pintadas por grafiteiros e alunos do ensino público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tradição, que virou lei, dar nomes de pássaros aos corredores subsolos. Uns acreditam que era uma gozação destinada aos moradores que haviam sido contra as construções. Diziam, os opositores, que iam tornar aquela cidade em uma cidade de minhocas, enquanto o resto do mundo era formado por gaviões – referência à popularização dos aviões na mesma época – que voavam; outros, mais velhos, dizem se lembrar de ver o primeiro engenheiro das obras com pássaros engaiolados e, nas horas vagas, armar lunetas para apreciar os que ainda voavam soltos. Era um gringo, com cara vermelha e cabelo amarelo. Quando ele colocava o terno azul, era um Pica-pau (nome da primeira linha) escrito.&lt;br /&gt;No entanto os nomes de pássaros se restringiam às linhas, as estações podiam levar qualquer nome. Nos bairros industriais as estações homenageavam grandes nomes da revolução industrial, grandes empreendedores, e, pela pressão de líderes da esquerda representativa da cidade, alguns filósofos comunistas batizavam os pontos. No canto cultural da cidade muitos eram os homenageados também, alguns merecedores da menção outros, por falta de nome melhores, apareciam porque precisava de um nome simplesmente como referência. Jamais uma estação sem nome serviria de indicação para alguém. E a história toda começou neste bairro.&lt;br /&gt;Na última linha construída, a Linha Urutau, entre as estações Régis Loisel e Serge Lê Tendre, um percurso de três quilômetros, ou sete estações – como manda a métrica popular local: qualquer distância se mede por número de estações –, um namorado ansioso para encontrar seu par teve a impressão de que o tempo passava mais rápido. Quem não &lt;em&gt;tem um peito de lata&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;um nó de gravata no coração&lt;/em&gt; sabe que não é normal isso acontecer. Sabe que o tempo é obstáculo que se supera com muito custo e talha o coração de quem ama e encontra na recompensa de seu amor sua Divina Misericórdia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;(continua...) &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-366420917153217791?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/366420917153217791/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=366420917153217791&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/366420917153217791'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/366420917153217791'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/03/o-metr-e-o-tnel-do-tempo.html' title='O Metrô e o Túnel do Tempo: a Divina Misericórdia'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-5375409400239850694</id><published>2007-03-16T14:17:00.000-03:00</published><updated>2007-03-21T15:39:26.074-03:00</updated><title type='text'>O crocodilo e o ditado óbvio</title><content type='html'>Outro dia conheci um senhor que domesticou um crocodilo. Para mim bicho que se domestica é cachorro. Nem gato eu considero. Gato é bonitinho, mia pra lá, se lambe pra cá, vomita bola de pêlo; no mais, ele só convive com você, só isso. Não espere que ele pule na cabeça do ladrão para defender sua família. Mas isso não vem ao caso. Estamos falando de um crocodilo! Praticamente uma história sobre dinossauro.&lt;br /&gt;O dono insistiu, pagou a conta, disse que era seguro e eu, que não estava nem aí praquele samba, fui conhecer o animal tão estimado. Confirmei minhas suspeitas logo que cheguei. O crocodilo era domesticado daquele jeito (...). O dono entrou no cercadinho, mas não ficava muito de costas praquela boca cheia de dentes. Entrava, oferecia ao anfitrião de sangue frio um frango, carne ou ração que o valha e saía andando em marcha ré. Estava há duas semanas com o animal. Explicou que havia encontrado numa estrada no interior do interior de uma cidade qualquer.&lt;br /&gt;– Estava indo caçar tatu quando vi o que parecia um tronco na estrada. Ainda não tinha amanhecido direito e a luz do céu não ajudava muito, mesmo assim era melhor que a do carro. Desci da minha Variant e, quando dei com a sola do sapato para liberar a estrada, levei uma rasteira que não sei nem de onde veio.&lt;br /&gt;Até este momento, eu só não estava mais vidrado na conversa porque a grade do cercadinho não inspirava a menor confiança. Mas não interrompi a explicação; ansiava por seu desfecho e ele continuou:&lt;br /&gt;– Minha sorte foi que quando ele deu a rasteira, que só pode ter sido com o rabo, eu caí num pequeno barranco com uma vegetação parecida com a de manguezal quando está seco. Acho que ele ficou com preguiça de descer a atrás de mim. Lembrei que tinha no carro uma lanterna e uns barbantes. Joguei a luz no olho dele, ele ficou estático. Quando estava a meio metro de distância que fui pensar o que eu queria indo até lá. Você deve imaginar que naquele momento a história do tatu tinha ficado bem sem graça pra mim, né? – falou sorrindo. – Ainda não sabia se ia enfeitar a sala de casa com sua cabeça e fazer ensopado com sua carne, ou vendê-lo para algum excêntrico... – parou um pouco constrangido, havia percebido que tinha armado sua própria arapuca e – ainda não imaginava que o excêntrico seria eu. Cinco horas depois o bichão estava dentro da Variantizinha.&lt;br /&gt;– A vá! Vamos ver se eu entendi o que você está me dizendo. Você está me dizendo que meteu o pé num crocodilo achando que era tronco; com uma lanterna de bolso e uns barbantes o rendeu e, sozinho, colocou esta besta dentro da sua Variant(!!!) e trouxe para o quintal da sua casa, é isso?&lt;br /&gt;– É. – seco.&lt;br /&gt;Pensei em um ensinamento, provavelmente de algum velho mestre chinês, que diz: nunca provoque um homem que sozinho já capturou, conviveu ou dormiu com crocodilos.&lt;br /&gt;– Está aí uma histórias para os seus netos e bisnetos. – falei e não questionei mais um detalhe da história do adestrador.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-5375409400239850694?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/5375409400239850694/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=5375409400239850694&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5375409400239850694'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/5375409400239850694'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/03/o-crocodilo-e-o-ditado-bvio.html' title='O crocodilo e o ditado óbvio'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-3250057488308075307</id><published>2007-03-01T14:54:00.000-03:00</published><updated>2007-03-02T17:01:00.827-03:00</updated><title type='text'>E começa mais um grande amor</title><content type='html'>Quando acordei pela primeira vez não reconheci o quarto onde estava. Enxergava através do rosto do homem uma velha lâmpada amarela com sardas verde-oliva: frutos da última pintura no teto. Ainda não havia notado que o homem também via através de mim descrevendo seus sonhos em verdana 10. Deixei minha atenção passear por uma prateleira com troféus baratos, com uma velha foto e com alguns livros e cd’s. À esquerda da prateleira não entedia bem o que era um amontoado num baú entreaberto. Meses mais tarde, descobri ser uma pilha de lp’s, que aguardavam agulhas de vitrola para vaciná-los contra o ostracismo, e recortes de jornal, que sonhavam com a encadernação e a vida longe das traças. Havia ainda uma luminária à minha direita que, ao apagar da luz amarela do central do teto, acendia para dar vida a um fantástico mundo de sombras e penumbras no universo do quarto.&lt;br /&gt;Finalmente detive minha atenção ao homem que me lançava um olhar profundo e sem pedir licença roçava a minha barriga. Quando deixava de lado o ventre, com a ponta dos dedos, suavemente, tocava com uma regularidade, quase mecânica, partes diferentes de meu corpo. O semblante do invasor era assustadoramente sério e compenetrado. No entanto, com certa freqüência atirava suas costas ao encosto da cadeira, colocava as duas mãos na nuca ¬– geralmente sem tirar os olhos de mim – e, mesmo alterando tão levemente as expressões de rosto que eu mal posso dizer quais eram, demonstrava uma profunda satisfação. Às vezes repetia a massagem, com a ponta macia de seu dedo anular da mão direita, três vezes no mesmo lugar e lançava sorrisos (que eu julgava) maliciosos e me davam calafrios...&lt;br /&gt;Talvez ainda estivesse em estado de embriaguez pela ofuscante sensação de nascer pensando. De nascer com memória, saber exatamente a minha capacidade e o que poderia suportar por toda minha vida. Ter que conviver com as limitações de meu tempo e com uma consciência a me abortar a todo instante qualquer vestígio de esperança que pudesse apontar a um futuro mais evoluído. A esperança e busca interior para me tornar mais capaz nunca existiu ou existirá em mim. Posso aprender até um limite e, pesquisando a história de meus antepassados, sei que é pouco provável aproveitar minha capacidade máxima. Depende do dia, fico feliz ou triste pensando nisto.&lt;br /&gt;Mas com o passar dos meses acredito ter evoluído espiritualmente. Talvez junto de meu dono, que adora me convidar para pesquisas filosóficas-religiosas. Hoje nada me dá mais prazer do que acompanhar e servir às brincadeiras do meu patrão. Sinto-me aproximar do estado de nirvana quando correspondo às ordens de meu único e absoluto senhor. A estranheza inicial, que ia do teto verde-oliva até a fisionomia áspera daquele homem, se tornou dependência mútua. Como em alguns casamentos tradicionais, o brilho dos olhos que me olham com o passar do tempo não era mais o mesmo. Como em alguns casamentos tradicionais, ainda não me trocou porque, quando se mora junto, a união vai além do físico. A união se fortalece com os segredos, planos e ambições compartilhados. E isto nós temos de sobra. Sou seu confidente mais confiável e posso dizer que sem ele minha existência perde qualquer sentido.&lt;br /&gt;Não me importa que em dois anos tenha deixado de ser atraente para ele e passado a ser um objeto de utilidade básica. Não me importa que a cada dia se tornem mais recorrentes tapas em minha carcaça quando empaco pelo excesso de trabalho ao mesmo tempo. Eu não posso fugir dele, mas ele não pode fugir de mim. Sei de sua vida e sei o que ele ganhou com a dedicação que aplicamos em nossas madrugadas de trabalho... Nada! Conquistar modelos da moda custa caro.&lt;br /&gt;Ele já me chamou de máquina poderosa, hoje sou máquina de escrever.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-3250057488308075307?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/3250057488308075307/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=3250057488308075307&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/3250057488308075307'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/3250057488308075307'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/03/e-comea-mais-um-grande-amor.html' title='E começa mais um grande amor'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-250883630359880847</id><published>2007-02-14T14:04:00.000-02:00</published><updated>2007-02-14T14:05:06.647-02:00</updated><title type='text'>Atlântida</title><content type='html'>Este continente lendário, que durante a minha infância era ilha e eu visitava vez ou outra dentro de meu carrinho-submarino, me recebeu em excursão com minha caravana de pensamentos insones. Atlântida – suas estórias e mitos – fascina e de certa forma representa uma laguna entre a África, as Américas, a Europa e a Ásia e poderia pertencer à Oceania se não tivesse se rendido ao oceano. Tanto faz crédulos ou incrédulos, Atlantis é uma presença ausente, assim como a saudade. Consta que as primeiras menções sobre Atlântida foram feitas pelo filósofo grego Platão; a palavra saudade, ou outra compatível, nunca existiu para Platão e gregos. Talvez esta vala no vocabulário, a ausência de uma palavra que dissesse tudo que a saudade nos diz tenha impedido que a Saudade tivesse sua própria deusa, que chamaria Atlântida.&lt;br /&gt;Desta vez não foi como na minha infância, onde os dinossauros habitavam este antigo continente. Onde, mesmo sem saber, seu misterioso sumiço não representava uma tragédia sísmica. Quando ia para Atlântida, voltava no tempo e ingressava numa terra que misturava os Sacis-Pererês com as sereias e a rosa-dos-ventos perdia suas pontas. Para voltar para lá quase vinte anos mais tarde, não comprei passagem, não tirei passaporte ou recebi carta de cor violeta – como em &lt;em&gt;As Intermitências da Morte&lt;/em&gt; de Saramago. Fiquei no mesmo lugar enquanto outros partiam: uns com bilhete de volta, outros sem. E quando cheguei, na terra onde antes o tempo custava a passar, tive a impressão que ele – o tempo – havia se adiantado. Atlântida surgiu sob meus pés e carregava muita ternura com cheiro de crisântemo. Na mesma concha que vi pela última vez um casal de sereias negras, tem uma cadeira de madeira com meu avô sentado. Sorrindo. Na moita em que saci morava e saia todo fim de tarde, tenho nove anos, o rosto sujo, e a camiseta do São Paulo rasgada por ter enroscado num galho quando tentei recuperar minha primeira bola de capotão. Tem o vizinho que devolvia a bola quando caía em seu quintal, tem o vizinho que rasgava a bola. Mas nenhum deles se mexe. Pertencem à minha Atlântida e à Atlântida de todos que os conheceram.&lt;br /&gt;No entanto, nem tudo na minha terra oceânica parecia museu de cera. Há os que compraram passagem, voaram, foram e me trouxeram até aqui. Eles andam e correm e divertem-se entre si. Alguns estão felizes, outros nem tanto. Devem me encontrar em suas Atlântidas também, mas, só, só posso imaginar como me vêem. Os mais velhos podem preferir me encontrar criança, talvez um bebê estático, sem os vícios do que eu sou. E sem um retrato – como o de Dorian Gray – que estampe as marcas de meus atos imorais mostrando com clareza o que me tornei, apenas lamento lembrar que eu mandei alguns a Atlântida e com o passar do tempo eles me expulsaram de seu continente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-250883630359880847?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/250883630359880847/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=250883630359880847&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/250883630359880847'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/250883630359880847'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/02/atlntida.html' title='Atlântida'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-117027505179277270</id><published>2007-01-31T18:21:00.000-02:00</published><updated>2007-01-31T19:00:37.906-02:00</updated><title type='text'>Vizinhos</title><content type='html'>Eles dividem a mesma rua, as casas estão frente à frente uma da outra, e mal se cumprimentam. São duas famílias comuns formadas por dois casais: de pais e de filhos. Vou deixar claro que não estamos falando de vizinhos paulistanos. Moram numa cidade de pequeno, quase médio, porte. Eles se conhecem, sabem os nomes de uns dos outros, menos o dos filhos – dos outros –, e nunca dividiram xícara de açúcar, um guarda-chuva na ladeira ou a Kombi que leva a despesa do mês do mercadinho até a casa do cliente. A divisão destes vizinhos, nem cosmopolitas nem caipiras, não se limita a uns poucos metros de asfalto e concreto. Ninguém diz, é uma distinção velada como a maioria dos preconceitos brasileiros, mas são famílias separadas por questões sociais: uma é pobre e se acha pobre e a outra é pobre e se acha rica.&lt;br /&gt;Os filhos estudam na mesma escolinha municipal: o menino pobre rico está na terceira séria e sua irmã na primeira, ambos nas turmas A. Os pobres pobres seguem os mesmos anos do vizinhos, mas estão em letras diferentes: o menino, na E; a menina, na D. A mãe pobre rica nunca se vangloriou, mas se delicia com o som dos As de seus filhos. Mesmo que este mesmo som não chegue às carteirinhas de notas, não importa, tem um casalzinho A! O pai pobre pobre não está nem aí – é vigia das sete às dezessete em uma firma que faz o lacre de segurança para a tampa de copo de requeijão –, sai do serviço, passa em casa e vai para o boteco onde joga caxeta. Às vezes ganha um dinheirinho que esconde dentro de um Santo Antônio oco e sua mulher nem sonha. Todo dia, no café da manhã, jura em silêncio que vai gastar com um presente para a mulher; à noite, quando volta do bar, faz as contas para ver se consegue fugir de casa.  O pai pobre rico trabalha na empresa que faz a tampa para o copo de requeijão (nota: os donos das vacas que dão o leite para se fazer o requeijão é que são os ricos ricos da cidade). Ele opera uma pequena prensa que molda e faz o furo onde é encaixado o lacre de segurança. Acorda às quatro e meia todos os dias para ver o Telecurso na tv, não anota nada. Ensaia no espelho o pedido de promoção, talvez para se tornar encarregado em algum departamento. Quando bate o cartão, tem saudade e vai correndo para a casa; só diminui um pouco o passo quando lembra que não tem novidade. A mãe pobre pobre acha que está anêmica, teve rubéola, sarampo, catapora e o médico pediu para ela voltar semana que vem. &lt;br /&gt;O Fox é o cachorro pobre rico, Costela é o pobre pobre e cada um tem seu buraco na grade para escapar para a rua. Seis da manhã, o Costela faz xixi no portão pobre rico, afinal, chumbo trocado não dói, e o Fox deixa sua marca no portão pobre pobre às cinco e meia enquanto se prepara para perseguir o leiteiro. Às nove, os dois se divertem rolando no gramado da pracinha do quarteirão de baixo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-117027505179277270?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/117027505179277270/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=117027505179277270&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/117027505179277270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/117027505179277270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/01/vizinhos.html' title='Vizinhos'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-117010628234714268</id><published>2007-01-29T19:30:00.000-02:00</published><updated>2007-01-30T18:55:12.600-02:00</updated><title type='text'>Confissão</title><content type='html'>Outro dia emendei o almoço com o lanche da tarde, o lanche da tarde com o jantar e aproveitei meu fim de tarde para conversar com o Cristo, o carioca.  Vinte minutos de caminhada dentro da maior floresta urbana do mundo, a da Tijuca, nenhum quilo a menos, uma sede danada, e chego aos pés do grande irmão. Observador incansável e confidente de milhões, há muito tempo tem como principal ofício prestar-se como pano de fundo para as fotografias de turistas vermelhos com camisas floridas. &lt;br /&gt;Cheguei, a noite caía, tinha ainda uns 20 minutos de sol, e já tinha feito meu primeiro questionamento ao filho querido do pai de todos nós: – Com quê direito a combinação sol mais calor mais ladeira acima mais nosso senhor dá para um cidadão cobrar quatro pilas por uma garrafinha de água? (sem esquecer de mencionar, também em pensamento, o brilhantismo e competência de nosso senhor quando inventou este refresco natural) – quando resolvi olhar para o pedaço de terra que ele tem olhado nos últimos setenta e seis anos. Está lá, de frente para ele, Botafogo, a praia e o bairro, as casas, algumas árvores, as ruas, os moradores passeando, o mar e os barquinhos. Sua visão periférica, que se não for a melhor, sem dúvida é umas das melhores já criadas, ainda alcança Flamengo e Urca. Esta facilidade de alcançar as extremidades destra e canhota confunde muitos seguidores daquela região que acreditaram em sua onisciência e até mesmo exageraram sobre sua onipresença. “Como ele pode ter visto isso?” ou “Saber daquilo só estando lá e ele não saiu dali”. Mas ele não tem nada a ver com estas conclusões. Os fiéis, com os corações cheios de amor e fé, com espírito de Saulo, sempre tenderam a aumentar suas, reais, super qualidades. Ah, ajuda ainda sua visão o fato dos artistas, seus criadores, não terem pintado as retinas, assim o deixaram a vontade para olhar de soslaio. &lt;br /&gt;Invejei a paisagem. “Quando o homem lá de cima quis, caprichou mesmo.” Dei a volta no monumento, olhei para as costas da estátua, fui ao pára-peito e respirei toda aquela mata verde. O céu lançava uma luz amarela de fim de tarde que quase deixou o verde da mata azul.&lt;br /&gt;– Como está a vista? – eu ouvi e respondi sem tirar os olhos daquela selva que me convidava. &lt;br /&gt;– É viciante. &lt;br /&gt;– Tenho uma saudade da vista que tu tens agora. Quando minha cabeça foi posta sobre meus ombros e pescoço, fui abençoado pelo descuido de um dos funcionários que fê-la girar por duas vezes. Tenho em minha memória os poucos segundos que pude apreciar a imagem que você vê agora. Enquanto isso, sob os olhos tenho a confirmação lenta e gradativa da escalada de cimento e asfalto que invadem a cidade como lavas de um vulcão que resolveu despertar.&lt;br /&gt;– Mas a vista que você aprecia, com a luz do luar e as lâmpadas da cidade, preenchem todas as vinte quatro horas do dia. Além disso, é rica em movimentos e ações do homem que tornam a sua monótona existência de concreto, figas de ferro e pedra sabão mais emocionante, não? Claro, algumas vezes estas ações são daninhas à natureza e ao próprio ser humano que, quer queira quer não, faz parte desta mesma natureza. E me desculpe a intromissão, não quero ser petulante, mas sempre me disseram que você veio pra cá justamente para olhar nós. &lt;br /&gt;– Permita-me fazer uma confissão que só faço porque sei que nada poderá fazer com esta informação. Se contar para alguém, nada adiantará e ser ridicularizado será o máximo que conquistará. Já que levamos uma conversa informal deixarei o arcaiquismo de lado. O céu também traz sua organização e a manutenção deste planeta é sim prioridade de nosso patrão. Não estou desde o começo, mas o que consta foi que este modelo foi feito e precisou ser mantido sem nenhuma influência superior por muito tempo. Os homens se destacaram por conta própria e de poucos detalhes físicos, um deles a mão que pega o que quer e faz decidir o que fazer com o que pegou. Conforme os dias foram passando foi decidido pelo alto escalão que deveríamos dar mais atenção para o homem naquele momento. Sei que não foi consenso, os responsáveis pelos reinos dos minérios, vegetais e até mesmo um grupo dissidente do reino animal foi contra. Mas o chefe estava convencido que todos poderiam sair ganhando com uma raça inteligente que administrasse as coisas por aqui. Convenceu todos com a promessa de que o trabalho de todo mundo, ou melhor, de todo corpo celeste, para usar um termo que você compreenda, diminuiria. O problema era conduzir este povo todo para uma linha de conduta aceitável. Se vocês pudessem imaginar a quantidade de bons pastores que não conseguiram firmar. E fez-se a religião! – e ele faz com a boca um barulho de trovão bem mal feito – Grupos que facilitariam um entendimento coletivo de nossas propostas. No começo todo muito tribal sem o alcance desejado. Dava certo em pequena escala. Jogada de mestre do superior, sabendo do instinto competitivo de vocês, mandou pastores com propostas iguais, apenas caminhos distintos. Eu entro aí. &lt;br /&gt;– Entre tantos outros? Incluindo alguns que não tem sequer uma página destinada nos livros de história, incluindo os que falharam? &lt;br /&gt;– É um jogo de sorte ou azar. Num determinado momento, com o fracasso de alguns dos meus antecessores, mudadam algumas regras. Veja você o Buda, ele foi e voltou algumas vezes para conseguir provar seu ponto de vista e conquistar as pessoas. Eu falei, falei, falei, entreguei-me ao sacrifício humano, contei com um grupo de seguidores que divulgaram minhas idéias e mesmo assim me arrepio com as distorções que fazem com o que preguei. Já tive inclusive que prestar contas para meus superiores sobre o que meus fiéis estão fazendo com os meus ensinamentos. E, que fique entre nós, não reconheço quase nada de mim na boca dos pastores de hoje. &lt;br /&gt;– Estamos perdidos... – murmurei.&lt;br /&gt;– Não é pra tanto, mas as preocupações dos titereiros mudaram. Hoje priorizamos as árvores, as plantas e os animais que mantém o equilíbrio biológico. Precisamos que o mundo sobreviva e para que não tenhamos uma eternidade tediosa. Outros membros do comitê celestial ganharam força e o departamento em que trabalho, o dos homens, perdeu poder. Como o fluxo de trabalho diminuiu gostaria de poder voltar os olhos para o mato mais uma vez. Mesmo porque, com os pés cravados no concreto e os braços imobilizados com o peito à mostra, o máximo que posso fazer é escutar suas súplicas e chorar a impossibilidade de ajudá-los, mesmo em suas mesquinharias. &lt;br /&gt;– Vocês perderam o interesse por nós. &lt;br /&gt;– Não há santo que agüente a mesma ladainha, os mesmos erros, as mesmas inquietudes, os mesmos maus-tratos por tanto tempo. Claro, vocês vão sofrer com esta mudança política, mas a ignorância e arrogância estarão aí para que vocês continuem teimando serem senhores de si e acreditem que o mundo existe para contemplar seus interesses. Isso nem se quiséssemos conseguiríamos mudar. A mudança é gradual. &lt;br /&gt;– O que devo fazer?&lt;br /&gt;– O que você foi projetado para fazer, respire, recicle o ar para as árvores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-117010628234714268?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/117010628234714268/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=117010628234714268&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/117010628234714268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/117010628234714268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/01/confisso.html' title='Confissão'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116958622749171604</id><published>2007-01-23T18:41:00.000-02:00</published><updated>2007-01-29T14:47:27.486-02:00</updated><title type='text'>Careta é demais, careta é pouco</title><content type='html'>Se você não é um deles, sabe que eles estão aí e em bem maior número do que se imagina. Virou, mexeu esbarramos num gênio desses. Outro dia fui surpreendido, distraí e já estava no papo. É assim mesmo, em via de regra, eles começam devagar apresentam apressadamente certa preocupação humanitária e, lentamente, entram de cabeça numa loucura que, com um pouco de imaginação, parece com a do Dr. Richard, no filme Alta Ansiedade do diretor Mel Brooks. O personagem, por medo de altura, alucina e trava. Não consegue se mexer ou sair do lugar. Nosso companheiro trava nas idéias, inseguranças, preconceitos e, principalmente, medos. &lt;br /&gt;O bar estava cheio e o escolhido para ouvir a ladainha, mais uma vez, como de costume, como não poderia ser diferente, fui eu.&lt;br /&gt;O dono do bar que fez o favor de apontar esta bazuca-destra para o meu lado. &lt;br /&gt;– O Zé – que mais tarde eu daria o sobrenome de Ruela – é casado pode falar melhor que eu.&lt;br /&gt;– Comigo funcionou assim mesmo: sempre fui tranqüilo, respeito todo mundo, só não agüento quando vem me chamar de careta. – vale uma nota. Não estávamos falando de caretice. O dono do bar está pra casar e chamou o sabe-tudo para um depoimento – Pode ver, passo aqui no bar pra uma só. Antes das sete e quinze já estou a caminho de casa com o pãozinho e tudo. Agora minha mulher deu para me chamar do que? Careta! É impressionante como mulher gosta de ofender a gente justamente com...&lt;br /&gt;– Você é casado há muito tempo?&lt;br /&gt;– Toda mulher sonha com isso, viu? – a gente pergunta uma coisa e ele responde outra. Este é o outro sinal clássico desta tribo... sem ofensas aos índios – A mulher que fala que não está mentindo. Hoje falam que é meio... falam que é coisa do passado, né? Antiquado... um pouco. Mas vou falar, eu gostei. Demorei até me decidir e acertei, me casaria de novo. Todo mundo lá, a maior festa depois. Eu fui parar na piscina de roupa e tudo, depois não sobrou um seco. Só meu sogro que não deixou ninguém encostar. Ele fez exército, durão. Já tinha mais de sessenta quando nasceu minha mulher. Admiro a disciplina do exército, viu? Tudo funciona certinho. Não vou defender a ditadura aqui, sempre falam que eles exageraram na época, mas todo mundo andava na linha antigamente! Vê se você via bandido fumando maconha na rua. Fora esta moda agora de intelectual defendendo bandido. Direitos humanos... e a gente, quem defende? Eu não espero a polícia me defender. Daí aparece artista, que só visita favela com segurança, em carro blindado, falando em para votar a favor do desarmamento. O povo sabe das coisas, não cai nessa conversinha. Bandido fica armado e a gente, faz o que, ataca com estilingue?!? Não, não. Lá em casa, se eu ouço barulho no quintal, pego minha vinte e dois, corro para a janela do banheiro. &lt;br /&gt;– Vinte e dois é arma de mulher – comentário de um espirituoso bêbado que aguardava ser atendido no balcão.&lt;br /&gt;– Ninguém te chamou nesta conversa.  (...) Cara folgado. (...) Então, como eu estava falando, sempre quis ter um casal de filhos, né? Primeiro um menino, pra defender a irmã. Falei isso para minha mulher ela me chamou de careta! (...) Não vou dizer que aprovo: quando casamos, na igreja, nós dois de branco e, isso é só entre nós, não gosto de falar das particularidades da família, ela não era virgem. Eu sabia, ela tinha me contado. Mesmo não fiz nada antes de casar, preferi esperar. Coisa minha, sabe? Acho bonito esperar pela benção do padre. (...) Mesmo assim eu aceitei casar com ela. Parece que ela não enxerga essas coisas quando me chama de careta. Eu não tenho coragem de colocar filha no mundo sem ninguém para defender... Cheio de vagabundo e pilantra solto aí. Se alguém ofende a menina não sei o que faço. Agora, se querer uma família mais protegida é ser careta, então deixa ela me chamar de careta. Daqui a pouco tenho que ir. Eu nem sei se ela vai ser uma boa mãe. Antes dela começar com o grupo da igreja, começar ler a bíblia, confessou que era viciada em maconha no colegial, fumou umas três vezes e até matou aula para isso. Esse negócio, e pode até parecer esses médicos que não sabem de nada dizendo que não, estraga os genes. Fora isso ela é muito mole. Ela assiste a esses programas que só vão vagabundas na televisão. Outro dia tinha uma mãe com o filho bicha.  Acredita que ela falou que ia tratar como normal se tiver um filho assim? Prefiro meu filho bandido, roubando, que se enroscando com outro homem. Ela é muito nova, né? Com 19 anos eu também tinha umas idéias atrapalhadas. Depois dos 40 a gente enxerga melhor as coisas... Ela vai aprender. Tenho que ir, senão ela fica preocupada, nunca chego depois das sete e meia. Opa! Está bem? Que cara é essa? Nem bebeu, que porre é esse?&lt;br /&gt;– Nada não, nove horas, já vai?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116958622749171604?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116958622749171604/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116958622749171604&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116958622749171604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116958622749171604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/01/careta-demais-careta-pouco.html' title='Careta é demais, careta é pouco'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116855345895221203</id><published>2007-01-11T20:10:00.000-02:00</published><updated>2007-01-11T20:13:18.560-02:00</updated><title type='text'>Cantina Italiana</title><content type='html'>Um amigo de longe, longa data, de passagem, chama para almoçar. O tempo em que estamos distantes é suficiente para cada um querer, à sua maneira, impressionar o colega. Os problemas preferidos, ressaca, falta do que fazer, fila de banco, não seriam os assuntos. Reclamar da vida, lembrar o engarrafamento de manhã, mulher – porque se você tem mulher, reclama, se não tem, reclama também – nem pensar. Era hora de relembrar aquele projeto feito há dois anos atrás que o gerente não corrigiu uma vírgula. Não elogiou, não dividiu os méritos, não citou seu nome na cerimônia de premiação, é verdade. Mas, tratando-se deste gerente, o silêncio é o maior elogio. Lembrar e contar o maior feito da vida.&lt;br /&gt;E como animal acuado, tímido e inseguro, parto para o ataque.&lt;br /&gt;– Conheço uma cantina italiana super bacana.&lt;br /&gt;Está vendo, já começou mal. “Super bacana” é do tempo em que eu estava na escola e, no recreio, comia um enroladinho e tomava Fanta Uva... É do tempo do recreio. Depois do tempo do recreio a gente passa pela hora do lanche e intervalo antes de chegar a um almoço da vida adulta. &lt;br /&gt;– Ótimo, adoro a culinária italiana. Em Roma eu provei o melhor pizzicotti ai carciofi da minha vida!&lt;br /&gt;De três uma: virou fresco, está se mostrando ou é veado. Mas a cara de interrogação é por não conseguir ao menos imaginar que raio vem neste prato. Na verdade se ele pedir para repetir o nome do prato não sai nada. Ele ainda não percebeu, ou não quis perceber, que o vale-coxinha que eu recebo mal permite passar na frente deste restaurante. Pior ainda. Mal sabe que, para mim, comer massa italiana e mastigar toalha suja com molho de tomate dá na mesma. Sou xucro, vai encarar? &lt;br /&gt;O cardápio está na mão e o suor da testa já foi limpo com o guardanapo de pano. Enquanto isso o colega, todo pomposo, a minha frente já ajeitou o guardanapo sobre as pernas e tira, com as costas da mão, uma sujeira que, de tão pequena, eu só posso imaginar que exista em seu paletó. &lt;br /&gt;O restaurante é típico suficiente para se dar ao luxo de não explicar neca de pitibiriba daqueles palavrões de uma lista que aqui se chama menu.&lt;br /&gt;– Ó, eu acho que aquele prato você vai achar só em Roma mesmo. – e chamo o garçom – Que cerveja você tem? – de volta ao amigo – Toma uma Brahma?&lt;br /&gt;– Não consigo comer e beber cerveja, acho que é a idade. – e pergunta ao garçom – Boa tarde, vocês servem Barbaresco Gaja 95? &lt;br /&gt;No que este cara se transformou? Não é a mesma pessoa que jogava cimento na privada da escola e escrevia baixarias nos cadernos das meninas. Virou CEO de uma empresa qualquer e já começou com esses drinques extravagantes. Mais tarde descobri que era apenas um vinho. Mais tarde ainda, na hora da conta, vi que não era um vinho qualquer, muito pelo contrário. &lt;br /&gt;Já estava prestes a perguntar se eles serviam macarrão com molho de tomate e carne quanto o engomadinho pediu permissão – ele perguntou assim mesmo, permite que eu faça o pedido? – para escolher nossa gororoba. &lt;br /&gt;– Prepare um risotto alla milanese, com zafferano e o scaloppine alla pizzaiola, por favor. Vocês não colocam cebola, né? – E virou sorrindo para mim. – Pode ficar tranqüilo que não tem cebola.&lt;br /&gt;Pediu licença e foi ao banheiro. Eu estava perplexo. Só me senti melhor quando pensei que qualquer amigo meu, do convívio atual, estaria também. Além do cara pedir em italiano um prato com três nomes, lembrar que eu não como cebola e tomar a dianteira da situação, ele percebeu que se deixasse eu pedir prato provavelmente ia passar maus bocados. Perguntei para o garçom do que se tratava o prato enquanto o bom vivan não voltava. &lt;br /&gt;Sabe como são os pratos italianos, né? Uma fartura. Comi, bebi, a fome passou, o humor voltou. A única coisa que ficou na minha cabeça era o que de tudo que o garçom falou que viria no prato só reconhecia o contra filé. Mas tudo bem... Pô, o cara não tinha nada de arrogante. Subiu na vida porque era competente mesmo. Cheio de diplomas: mba pra cá, pós pra lá. O problema esta em mim, neste complexo de inferioridade infantil. Ele sempre foi um bom amigo, companheiro leal. Era engraçado vê-lo com as menininhas. Cada hora com uma história diferente para impressioná-las. Ai, ai, ele sempre foi especial mesmo. &lt;br /&gt;Chega a conta e, em meio a risadas das histórias passadas, diz ele.&lt;br /&gt;– O que achou do pedido?&lt;br /&gt;– Está de parabéns. Nada como andar com um profundo conhecedor da culinária, porque não dizer, universal! – e caímos às gargalhadas. &lt;br /&gt;As lembranças me rejuvenesceram, lembrei do décimo terceiro salário – não tenho filho para presentear no Natal – e meio embriagado peguei a conta e num golpe rápido passei o cartão de crédito ao garçom. &lt;br /&gt;– Que é isso – tentou reagir o melhor amigo que já tive – permita-me pagar?&lt;br /&gt;– Permita-me pagar?!? Pra que este fruqui-fruqui, fala direito comigo! – brinquei – A próxima é sua. Reencontrá-lo me valeu muito mais, ainda vai me pagar em conhecimento, dando aulas sobre o mundo – falei um pouco emocionado.  &lt;br /&gt;Como é mesmo o nome desse mundaréu de comida que a gente pediu? Chamei o garçom. &lt;br /&gt;– Companheiro, deixa só eu anotar o nome deste prato, vou ficar decorando em casa para, se deus permitir, algum dia eu possa impressionar alguém com o este pedido. – murmurei.&lt;br /&gt;– O que acabamos de comer foi um risotto alla milanese, com zafferano e o scaloppine alla pizzaiola muito bem feito, aliás. – disse o poliglota, enquanto eu lia que o prato servido havia sido Escalope ao Málaga. &lt;br /&gt;!&lt;br /&gt;Ele não fazia idéia do que tinha pedido ou comido e vice-versa. Deve ter decorado o nome para impressionar alguém. &lt;br /&gt;Lembrei de suas historinhas para conquistar as menininhas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116855345895221203?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116855345895221203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116855345895221203&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116855345895221203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116855345895221203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2007/01/cantina-italiana.html' title='Cantina Italiana'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116474241210894409</id><published>2006-11-28T17:29:00.003-02:00</published><updated>2010-10-28T16:04:13.145-02:00</updated><title type='text'>À Revolução de Agudo à Crase (título criado ao término do texto)</title><content type='html'>Hoje acordei, abri meu computador e fui preparar um cafe preto enquanto ele decidia se ia (ou não) trabalhar. O coitado sofre para iniciar sua jornada diaria, demora, trava, pensa e não age; o outlook – judiação! – carrega minhas mensagens, pela manhã, so com mas noticias. As primeiras elucubrações eletrônicas da minha maquina são sofriveis.  Tudo bem, afinal de contas, cada um tem o computador que merece.&lt;br /&gt;Mas hoje, dia 27 de novembro – de calor e provavel temporal no fim da tarde – o problema foi mais grave: meu computador acordou sem o acento agudo! E agora, o que sera de meus comentarios pontuais? Tem mais: assim como &lt;i&gt;a Rita levou os meus 20 anos, o meu coração e – alem de tudo – deixou mudo o violão&lt;/i&gt;, o Agudo levou com ele a Crase... E que falta estes dois opostos num so me fazem. Com o Agudo a relação e mais antiga. Cometi muitos deslizes nestes anos de convivio, o deixei de lado, fora de muitas construções gramaticais, mas nada que justificasse sumir assim. Ja a crase e paixão recente. Suas nuances, seu desprezo total por verbos, masculinos, cidades, formas de tratamento... O despertar da faculdade para o seu uso facultativo: nome de mulheres e pronomes possessivos...&lt;br /&gt;Minha manhã passei assim, inconformado por evidências de uma ausência, possivelmente, trameira. Mensagens importantes foram arquivadas e o apetite sumiu. A teclinha preta, com duas gotinhas de tinta branca, invertidas uma em relação a outra, era mais importante para mim do que sempre supus. Revirei todos os papeis, abri gavetas, lambi o carpete sob a escrivaninha. Nada. Meu cafe ficou frio e esteve fraco desde que saiu da cafeteira italiana, fui para a padaria. &lt;br /&gt;Comprei um jornal inteiro pensando so na pagina de Esportes, sentei na varanda para fumar sem muita vergonha e pouco incômodo; chamei o Indio, chamei um expresso. Esqueço a tecla. Pensei em escrever uma mensagem que parabenizasse o trabalho da diretoria do meu time. Lembrei da tecla, virei o cafe, queimei a boca, apaguei o cigarro pela metade e deixei o troco como gorjeta.&lt;br /&gt;Quando voltei, para terminar um texto que comecei teimosamente e havia deixado pela metade, uma pitada de surpresa, alegria honesta e muito espanto: “o Agudo e a Crase voltaram!”. A tecla estava mal ajeitada, ao invés de um ponto sobre o outro – e o outro sob um – estavam de lado agora, mas funcionava! Pensei nas razões: talvez o maltrato de anos com a escrita e a utilização imprecisa destes símbolos tivesse revoltado a dupla; pensei também que ambos, presos numa tecla só, quisessem lembrar de sua importância numa gramática onde os ‘as’ ‘és’ ‘is’ ‘ós’ ‘us’ prevalecem mesmo quando comparados a consoantes – que por sua vez sobressaem, de longe, sobre os acentos e os sinais. Por fim – e foi a explicação que escolhi e tirou (coincidentemente e) completamente qualquer sensação de culpa – acreditei que o casamento entre Agudo e Crase não suportava mais a hierarquia horizontal que, ao contrário da nossa, privilegia quem abaixo está. &lt;br /&gt;Minha rotina manteve-se intacta. A manifestação surtiu efeito, meus acentos hoje são mais valorizados e, em contrapartida, voltei a contar com a colaboração de Agudos e Crases que agora dividem a mesma tecla em posição de igualdade, um ao lado do outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Baseado em fatos reais&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116474241210894409?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116474241210894409/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116474241210894409&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116474241210894409'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116474241210894409'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/11/revoluo-de-agudo-crase-ttulo-criado-ao_28.html' title='À Revolução de Agudo à Crase (título criado ao término do texto)'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116378190835237729</id><published>2006-11-17T14:44:00.001-02:00</published><updated>2006-11-26T05:04:33.230-02:00</updated><title type='text'>Sem jeito para a timidez</title><content type='html'>“Eu sou mulher e vou dizer para você: homem interessante é homem tímido!” Ponto. (E) Dancei, maldita hora que eu fui escolher para me vangloriar, há cinco minutos eu me enquadrava perfeitamente no perfil ‘homem interessante’. E olha do que: de uns golzinhos do futebol de várzea, ela não está nem aí para futebol, foi contar uma história que aconteceu com ela num dos jogos da Copa – “Qual foi aquele jogo que deu a maior confusão em São Paulo?” – e eu desembestei a falar do meu futebolzinho; depois parti para as habilidades artísticas, “Escrever música que nem o Milton não é tão complicado assim”. Ai, ai, ai... “Homem... tímido” &lt;br /&gt;E ela deu seus sinais. Olhou para o relógio mais de uma vez, coçou a sobramcelha e – tenha certeza que por educação – segurou uns três bocejos. Eu vi. Não estava, juro, botando panca de galanteador. Olhe que irônico: só estava tentando disfarçar a timidez! “Sou mulher... homem tímido”... Pô, se a idéia fosse impressionar, o sucesso estava garantido. Agora sim, estou totalmente desconfortável. “Maldita timidez, se eu fosse um pouco mais descolado conseguiria explicar que de fui ator, que sou tímido de nascença”. Agora sim eu preciso impressionar, mas como demonstrar o acanhamento? Não adianta demonstrar. &lt;br /&gt;Discretamente anoto num guardanapo “Canção do Sal”, peço “por gentileza” que o garçom leve meu pedido ao músico. O fator sorte ajuda e o músico, não sugere “Coração de Estudante”. A música começa e eu sorrio sem jeito, “Fácil, né, escrever igual O CARA!”... Torço para ela entender a ironia... Anuncio a saideira, “Mais uminha só que amanhã tenho que brincar de bola com os outros meninos”. “Garçom mais uma cerveja e a conta, por favor” ... Será que ela engole essa?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116378190835237729?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116378190835237729/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116378190835237729&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116378190835237729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116378190835237729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/11/sem-jeito-para-timidez.html' title='Sem jeito para a timidez'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116378187504720312</id><published>2006-11-17T14:44:00.000-02:00</published><updated>2006-11-27T12:13:05.210-02:00</updated><title type='text'>O DIABO E A MULHER</title><content type='html'>Texto do meu tio (e mestre de cerimônia na maior parte dos vídeos da minha infância) Luiz. Conhecê-lo e ouvir suas histórias é diversão garantida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O DIABO E A MULHER&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Conta uma pequena história (lenda), que o diabo via frustradas muitas de suas tentativas de fazer o mal, por interferência da mulher.&lt;br /&gt;Toda vez que o homem perdia a paciência ou desanimava, lá estava ela, com sua paz e energia, levantando o equilíbrio dele.&lt;br /&gt;O diabo reuniu-se com seus assessores e depois de muito discutir chegou a seguinte conclusão :- "a mulher deveria descer ao mesmo nível do homem". Ela que sempre foi elevada, e neste aspecto era respeitada até pelos demônios, teria que mudar de papel, e baixar suas vibrações para cair ao ponto do orgulhoso homem que, ilusoriamente, se julgava superior.&lt;br /&gt;Mas como fazer isso ? A tarefa não era fácil, pois a vaidade feminina se resumia apenas no embelezamento físico e não na idéia de comando.&lt;br /&gt;Contratou um perito das sombras, em tarefas relacionadas com o orgulho e a vaidade humana, e este, que das trevas era um especialista, criou o movimento feminista.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116378187504720312?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116378187504720312/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116378187504720312&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116378187504720312'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116378187504720312'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/11/o-diabo-e-mulher.html' title='O DIABO E A MULHER'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116197261120269383</id><published>2006-10-27T15:06:00.000-03:00</published><updated>2006-10-27T15:10:11.210-03:00</updated><title type='text'>Veja e (é) Geraldo para presidente</title><content type='html'>Pô, eu não ia entrar em questões políticas, mas esta eu não resisti. Curtinha e mata dois coelhos numa machadada só...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão falando por aí que, por causa da revista VEJA, vão mudar o nome do Geraldo Alckmin. Agora vão escrever com “J” para facilitar. &lt;br /&gt;Vai ficar assim: &lt;strong&gt;V&lt;/strong&gt;ote &lt;strong&gt;E&lt;/strong&gt;m &lt;strong&gt;J&lt;/strong&gt;eraldo &lt;strong&gt;A&lt;/strong&gt;lckmim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116197261120269383?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116197261120269383/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116197261120269383&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116197261120269383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116197261120269383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/10/veja-e-geraldo-para-presidente.html' title='Veja e (é) Geraldo para presidente'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116197078836973832</id><published>2006-10-27T14:38:00.000-03:00</published><updated>2006-10-27T15:22:25.886-03:00</updated><title type='text'>Instruções para comer um pastel de pizza na feira</title><content type='html'>Em homenagem a Júlio Cortázar, escritor argentino – embora tenha nascido em Bruxelas, Bélgica [&lt;a href="http://www.juliocortazar.com.ar/"target=_blank&gt;CLIQUE AQUI&lt;/a&gt; e visite seu sítio oficial. É argentino, está em espanhol, beleza?] – que em seu livro &lt;em&gt;História de cronópios e famas&lt;/em&gt; oferece ao leitor instruções para chorar, matar formigas em Roma, dar corda no relógio. Sem esquecer das, para mim, utilíssimas “Instruções para entender três pinturas famosas”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não. Na verdade vou fazer justiça aqui. Quero homenagear minha irmã e mãe coruja do Louis – meu sobrinho chique –, Carmen [&lt;a href="http://perso.orange.fr/carmennovo/"target=_target&gt;VISITE AQUI&lt;/a&gt; o sítio dela]. Se eu tenho um pé (leia curiosidade) no mundo das artes, certamente foi influência dela. Por suas análises, comentários e tudo que ela sempre me apresentou este texto vai pra ela. Inclusive, o livro que inspira o texto que segue, foi ela que me deu com uma de suas dedicatórias maravilhosas. Ah, além de tudo, é a maior divulgadora deste Blog (rs)... &lt;br /&gt;Não está à altura da (os) homenageada (os), assim mesmo, segue o texto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Instruções para comer um pastel de pizza na feira&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na feira você deve passear. Se quiser realmente apreciar o passeio pela feira, tem que ser pela manhã; de chinelo, bermuda ou ex-calça jeans com as pernas cortadas, camisa bonita há alguns anos, um ar sereno e o olhar desconfiado para as frutas e os legumes. Depois de andar e comprar apenas meia-dúzia de limões é obrigação fazer valer a ronda e dar uma força para o estômago que, em casa, vai ter que esperar até às três da tarde para o almoço sair. &lt;br /&gt;Aí, da segunda fileira de pessoas que cercam o trailer do pasteleiro, o japonês, suando, grita: “Bomdia!Qualosabor?”  Nunca peça sem ter certeza. Se você disser um “queeeeero” mais comprido o ajudante – que é os ouvidos, braços, ânimo e pressa do dono do quiosque – já jogou um pastel de queijo no óleo! Não há tempo para se perder e adivinhação não é o forte em pastelarias. &lt;br /&gt;Você chega decidido e, sem pestanejar, solta um sonoro “O meu é pizza”. Além dos cuidados normais que sua mãe ensina na infância e repete pelo resto da vida, “Corta uma pontinha antes”, “Tem que tomar cuidado com o vapor, uma moça já ficou cega por isso” – aqui vale uma nota: como alguém que escuta isto pode comer um pastel tranquilamente –, “Cuidado que vai pingar na calça”, “Cuidado que vai pingar no tênis”, “Cuidado que vai pingar na blusa”, “Cuidado que vai (e vai mesmo, acredite) pingar!”, existem outros cuidados. &lt;br /&gt;O pastel de pizza tradicional, deixando os regionalismos – ou melhor, considerando minha região como a tradicional (o que está longe de ser verdade) –, é feito de massa, muito óleo, pouco queijo, uma pitadinha de orégano e TOMATE! &lt;br /&gt;O pastel fica dividido em três níveis de calor: o óleo e a massa não têm erro, dois sopros, a temperatura fica a ideal, e assunto encerrado; o queijo é aquele negócio. Escorre, é quente, não parte direito, você tem que inclinar para frente, empurrar o pastel, segura o filetinho de queijo, tenta parti-lo, gruda no guardanapo – se não fosse o aspecto pouco higiênico de todo contexto, você lamberia o papel... é uma briguinha, que no fim das contas chega a ser bacana; sobre o orégano, por questões óbvias, eu não vou falar nada; o problema todo está no tomate. Ele parece reter mais calor que todos os outros ingredientes juntos, dizem que é pela quantidade de água, sei lá. O devorador desavisado, afoito pela fome, atropela-se mordida atrás de mordida, quando chega à fruta – que por muito tempo a civilização achou que era venenosa – é traído pela quentura e quando tenta se desvencilhar a pele – ainda pressa em uma das extremidades da rodela vermelha – traz todo o recheio fervente ao seu queixo. – O amigo da minha prima de segundo grau teve sua cara deformada assim... sério! &lt;br /&gt;Para se comer um pastel de pizza na feira, em primeiro lugar, você deve saber até que ponto consegue controlar seu ímpeto comedor. Se for jogar boca a dentro o pastel todo em uma tacada só, a melhor coisa que você faz é pedir um de carne, frango com requeijão ou até mesmo o simples de queijo. Mas se o pizza é o seu predileto mesmo, aproveite os minutos em que estará dedicado à empreitada para saborear os molhos que a esposa do japonês preparou: uma mordida e um pouquinho de molho de alho; outra e um pouco da pimenta – é de bom alvitre começar sempre pela pimenta mais fraca, tem uns japas sarcásticos por aí –; quando chegar o tomate, que sempre fica do meio para o fim, por que não experimentá-lo com um vinagrete fresquinha? Dê uma sopradinha antes, morda com a convicção de que pele será totalmente partida por seus dentes afiados e boas!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116197078836973832?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116197078836973832/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116197078836973832&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116197078836973832'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116197078836973832'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/10/instrues-para-comer-um-pastel-de-pizza.html' title='Instruções para comer um pastel de pizza na feira'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116129700876933464</id><published>2006-10-19T19:19:00.000-03:00</published><updated>2006-10-19T19:34:27.006-03:00</updated><title type='text'>Brasil de Fato</title><content type='html'>Segue uma sugestão a amigos e visitantes em geral. O texto que descreve o Jornal Brasil de Fato copiei na íntegra no sítio deles. [&lt;a href="http://www.brasildefato.com.br"target=_blank&gt;CLIQUE AQUI&lt;/a&gt; e vá à página]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornei-me assinante – neste momento, ainda não peguei nenhuma edição para para emitir opinião – e recomento, a princípio, por absoluta simpatia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isso aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;strong&gt;Jornal Brasil de Fato&lt;/strong&gt; foi lançado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 25 de janeiro de 2003. Com tiragem de 50 mil exemplares (16 páginas coloridas, tamanho standard), o Brasil de Fato é um jornal semanal, com circulação nacional.&lt;br /&gt;Por entender que, na luta por uma sociedade justa e fraterna, a democratização dos meios de comunicação é fundamental, movimentos sociais como o MST, a Via Campesina, a Consulta Popular e as pastorais sociais criaram o jornal Brasil de Fato — um semanal político, de circulação nacional, para contribuir no debate de idéias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais em nosso país.&lt;br /&gt;Plural e diversificado, o Brasil de Fato reúne jornalistas, articulistas e intelectuais do Brasil e do Mundo, personalidades renomadas como: Ariovaldo Umbelino, Emir Sader, Plinio Arruda Sampaio, Sebastião Salgado, Dom Mauro Morelli, Dom Demétrio Valentini, Dom Tomás Balduíno, João Pedro Stedile, Zé Geraldo, Chico César, Letícia Sabatella, Augusto Boal entre outros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116129700876933464?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116129700876933464/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116129700876933464&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116129700876933464'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116129700876933464'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/10/brasil-de-fato.html' title='Brasil de Fato'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116128749831757263</id><published>2006-10-19T16:49:00.000-03:00</published><updated>2006-10-19T17:00:39.456-03:00</updated><title type='text'>Ônibus</title><content type='html'>Voltei aos pontos de ônibus. Já tinha esquecido como era triste esta vida! Anda, anda (...), anda; vê e não vê gente, esbarra, toma garoa, escapamento dos outros ônibus. Tudo cinza daltônico. Chacoalha, sacode, dorme, cai o livro, toca o telefone: estou atrasado.&lt;br /&gt;“Neste momento deve estar saindo do terminal o trólebus que eu deveria pegar se estivesse no horário, se tivesse levantado quando abri o olho pela primeira vez. E eu estou aqui, a meia-hora de lá”.&lt;br /&gt;Estou há meia-hora dela também. Enquanto me arrumava resmungou alguma coisa, virou e dormiu. Ah se eu pudesse, arrancava a alma de dentro dela e colocava a minha ali.&lt;br /&gt;Volta o sono e o olho não agüenta. Barulho de freio, acordo. O chuvisco está lá fora e aqui dentro também, “a moça perfumada da frente sente calor?” Com cabelo bem enrolado e curto, com o pescoço a 38 centímetros do meu nariz, posso vê-la arrepiada. “Por que esta janela está aberta? Não me incomoda, no fundo até me agrada tomar um pouco desta chuva. Por algum motivo tira a sensação de estar respirando ar reciclado. Esqueço que o ar – que sai da boca do cidadão sentado ao meu lado – entra em mim, passa pelos pêlos do meu nariz, pulmão, sangue...credo”.&lt;br /&gt;“Relutei por uma hora para não vir para este lugar e agora não queria ter que descer”. Puxa a cordinha, escorrega, caí o papel da seguradora do carro roubado que agora marca meu livro. “O bafo é ruim, mas o coração é generoso”: o mesmo gordinho que me espremia pega o papel que molhou no chão de aço da condução. Freia, escorrego, quase caio, seguro no corrimão – se é que posso chamar aquela barra de ferro de corrimão – degrau, degrau, mais um degrau e pulo pra rua.&lt;br /&gt;“Esqueci de olhar se vinha a moto.” Uma kombi espera o ônibus voltar a andar. “Será que consigo atravessar enquanto isso.” Asfalto, duas faixas amarelas, mais asfalto. Carros dos dois lados e eu parado sobre as faixas. A garoa vem de lado e os cílios não dão conta, as gotas chegam à retina.&lt;br /&gt;Pronto, estou do outro lado, agora é encarar esta ladeira e as pessoas que se atropelam com determinação. A mão está molhada, o peito – assim como toda a parte da frente – está ensopado, o náilon do tênis já desistiu de segurar a água e a lombada do livro deixa de ser nova.&lt;br /&gt;Ando, ando e ando. Descuido e pego o bilhete magnético do trólebus com a mão molhada – tinha que secar nas costas antes – e invisto na catraca: Pééééééé!&lt;br /&gt;– Deve ter molhado. Vá a bilheteria e troque. “De vida.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116128749831757263?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116128749831757263/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116128749831757263&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116128749831757263'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116128749831757263'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/10/nibus.html' title='Ônibus'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116051749000530030</id><published>2006-10-10T18:51:00.000-03:00</published><updated>2006-10-10T19:03:37.243-03:00</updated><title type='text'>É música, poema e um pouco da gente</title><content type='html'>Hoje, a caminho do trabalho, estava ouvindo &lt;em&gt;Fado Tropical&lt;/em&gt; (sempre Chico, né? ...previsível...) e achei interessante falar da música assinada por Chico Buarque e Ruy Guerra neste espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Censurada durante a ditadura militar e criada pouco antes de Chico Buarque ser exilado, Fado Tropical descreve a tristeza de um brasileiro que se vê obrigado a deixar o país.&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;“Oh, musa do meu fado&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Oh, minha mãe gentil&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Te deixo consternado&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;No primeiro abril&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Mas não sê tão ingrata&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Não esquece quem te amou&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;E em tua densa mata&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Se perdeu e se encontrou&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. (...)&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;Mas, além de servir como retrato da situação política que mal-tratou nosso (para resumir bem!!!) país por 21 anos, o diretor e roteirista de cinema, compositor (...) moçambicano, Ruy Guerra, recita um poema (brilhante), que humaniza um carrasco e expõe suas crises. A consciência de uma personagem que não esperamos que tenha consciência. A partir deste ponto esta música torna-se eterna, atemporal. &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;“Sabe, no fundo eu sou um sentimental&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...(além dasífilis, é claro)&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;E continua, após algumas estrofes apresentadas por Chico, seu depoimento:&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;"Meu coração tem um sereno jeito&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;E as minhas mãos o golpe duro e presto&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;De tal maneira que, depois de feito&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Desencontrado, eu mesmo me contesto&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Se trago as mãos distantes do meu peito&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;É que há distância entre intenção e gesto&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;E se o meu coração nas mãos estreito&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Me assombra a súbita impressão de incesto&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Quando me encontro no calor da luta&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Ostento a aguda empunhadora à proa&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Mas o meu peito se desabotoa&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;E se a sentença se anuncia bruta&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Mais que depressa a mão cega executa&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Pois que senão o coração perdoa..."&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Podemos pensar neste poema como uma confissão e enxergar a angústia de quem faz o mal. Ver um caráter emotivo e piedoso em quem exerce o ofício de não pestanejar, que jamais perdoa, mas que &lt;em&gt;depois de feito, desencontrado, ele mesmo se contesta&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Este carrasco não tem muito de nós? (Corro o risco aqui de começar a discutir o óbvio achando que ‘encontrei ouro’) Sem entrar no mérito da natureza humana, se somos bons ou maus. Falo de nossas opções, prioridades, do que abrimos mão sem darmos conta. E aí, podemos falar do que quisermos, serve para todos. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Será que não trazemos “as mãos distantes do peito”? E, “no calor da luta”, nossas parábolas, nossa independência proclamada aos quatro cantos ou apenas para si mesmo não são mentiras? Espero que não (embora não acredite nisso). Tenho certeza que, ao baixar do cutelo, se perceber que durante toda a vida alguma alienação, ou motivação secundária, fez com que eu não fizesse nada, tenho certeza, o coração não há de perdoar!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116051749000530030?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116051749000530030/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116051749000530030&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116051749000530030'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116051749000530030'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/10/msica-poema-e-um-pouco-da-gente.html' title='É música, poema e um pouco da gente'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116041984352515669</id><published>2006-10-09T15:38:00.000-03:00</published><updated>2006-10-09T15:50:43.793-03:00</updated><title type='text'>Texto de Luis Gustavo Imperatore</title><content type='html'>Luis Gustavo Imperatore, consultor do Grupo Cherto, gentilmente permitiu que eu postasse seu relato sobre sua experiência em uma favela no Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Compartilho com vocês uma visão da experiência que tive numa favela do Rio de Janeiro.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No projeto da Fundação Roberto Marinho, em que estamos desenhando o modelo de expansão de "Telessalas" (salas de aula de ensino fundamental e médio que usam a metodologia de ensino do Telecurso 2000, o mesmo que passa na Rede Globo), fui conhecer uma dessas Telessalas numa comunidade do Complexo da Maré, conjunto de 19 favelas na zona norte do Rio. Estas Telessalas na Maré são operadas pela ONG Viva Rio, parceira da Fundação Roberto Marinho.&lt;br /&gt;No Complexo há escolas públicas, mas como não conseguem atender a toda demanda destas comunidades, há espaço para a atuação de projetos sócio-educacionais do Terceiro Setor.&lt;br /&gt;Estas comunidades são dominadas pelo tráfico de drogas, violência gritante e explícita no dia a dia e na porta de casa, baixo nível educacional e profissional e conseqüente baixa estima generalizada de seus moradores. Vivem sob um código de conduta social próprio e imposto pelos chefes do tráfico, que isola a comunidade e cria territórios segregados da sociedade civil organizada e do Estado de Direito. A presença do Estado só se faz sentir pelos serviços públicos de água-luz-telefone, ruas asfaltadas, escolas públicas em condições precárias e da polícia que visita com freqüência o território "proibido" em veículos militares blindados em operações de repressão. &lt;br /&gt;Chegamos ao Complexo com uma informação que só piorou a expectativa formada anteriormente: a favela Nova Holanda, que iríamos visitar, é uma das mais violentas. Porém, tínhamos o consolo de que o pessoal do Viva Rio é respeitado e protegido lá dentro. Entramos na comunidade à noite, com um motorista do Viva Rio, já conhecido pelos vigias do tráfico. Para evitar uma recepção agressiva, algumas regras que podem ser vitais: vidros abertos, luz interna acesa, velocidade baixa, nenhuma manobra agressiva, e o percurso que passe por menos "bocas" do tráfico.&lt;br /&gt;No caminho até o prédio do Viva Rio, verdadeiro contraste de excelência em meio à selvageria do estado de permanente guerra civil, algumas visões surpreendentes da forma como a vida e a economia se organizam sob estas condições. Ruas estreitas tomadas por lojas bem montadas, pequenos supermercados e muita gente por todo lado, mesmo à noite. Nenhum sinal de que estejam mal ou desabastecidos. Aparentemente ninguém "de fora" freqüenta o local, a não ser os que consomem os produtos distribuídos nas "bocas". Mas o comércio é fervilhante, parecido com as áreas comerciais de Ciudad del Este, no Paraguay.&lt;br /&gt;Em nosso trajeto, passamos por vários vigias com armamento pesado, no meio da rua, a poucos metros da Av. Brasil e de um quartel da Polícia Militar, fortificação situada nos limites do Complexo. A tensão de estar ali é resultado de um misto da perplexidade do que se vê, insegurança por nos sentirmos intrusos em território alheio e da iminência de atentados que podem acontecer e acontecem rotineiramente. Naquele dia tinha havido pelo menos dois assassinatos na comunidade. Enquanto estávamos na visita às Telessalas, ouvíamos explosões de fogos de artifício, avisos dos "fogueteiros" de que o "caveirão", veículo blindado da polícia, estava entrando no Complexo.&lt;br /&gt;Na mesma noite em que havia um Flamengo e Vasco no "Maraca", salas de aula cheias de moradores da comunidade, faixa etária variando de 15 a mais de 50, sedentos por educação, aprendendo a entender seu papel na sociedade, e tendo, talvez pela primeira vez na vida, o sonho e a perspectiva de melhorar de vida. Os que já conseguiram não querem sair de lá. Sentem-se responsáveis por mudar o meio em que nasceram e vivem, e se comprometem a dar melhores oportunidades às próximas gerações.&lt;br /&gt;Antes de ir embora, uma professora da Telessala pede para esperarmos, vai consultar uma fonte de informação e volta com a "liberação" e o roteiro a seguirmos até a Av. Brasil. &lt;br /&gt;Pouco menos de uma hora dentro da Maré e surge uma série de questionamentos que põem em cheque nosso modelo social, muitos dos quais vão se evidenciar somente com o tempo. Além do alívio de sair do "território inimigo", ficam lições imediatas:&lt;br /&gt;(1) na ausência do Estado surge um poder paralelo que pode ser mais organizado e mais eficiente que muitos governos oficiais&lt;br /&gt;(2) as pessoas são o resultado da formação que a sociedade lhes dá&lt;br /&gt;(3) mesmo em ambiente adverso existe um mercado interessante e canais de venda se estruturam e vivem bem&lt;br /&gt;Mais do que qualquer coisa, a visão é de que somente reclamar e se distanciar de tudo isso não resolve absolutamente nada. Modelos que dêem educação, perspectiva e um sentido à vida das pessoas parecem ser o melhor caminho para soluções sustentáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;Luis Gustavo Imperatore&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116041984352515669?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116041984352515669/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116041984352515669&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116041984352515669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116041984352515669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/10/texto-de-luis-gustavo-imperatore.html' title='Texto de Luis Gustavo Imperatore'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116016655642899686</id><published>2006-10-06T17:27:00.000-03:00</published><updated>2006-10-06T17:39:48.110-03:00</updated><title type='text'>O Egoísmo Narcisista de um Herói à Espreita</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/1273/3967/1600/Eu2.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 108px; CURSOR: hand; HEIGHT: 125px" height="143" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/1273/3967/320/Eu2.jpg" width="113" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Desde pequeno acreditei que algo extraordinário iria acontecer comigo. Assim, com seres evoluídos de outra galáxia, num disco voador, que depois de acompanharem meu nascimento, infância, e me saberem especial, viriam me abduzir. Seres com um grau de evolução impensável para um humano se curvariam a minha capacidade intelectual e física e, com técnicas estratosféricas, literalmente, tirariam todos os obstáculos da minha mente e me tornariam único.Talvez fosse herói num seqüestro. O seqüestro da mais bonita seria resolvido após batalhas de dar inveja. Inteligência e destreza, atitude arrojadas e tranqüilidade de monge. Contaria com a ajuda de amigos (coadjuvantes, é claro!) que ao fim difundiriam pelo resto de suas vidas a incrível história do amigo que inacreditável que tiveram.Ah, não pode faltar esta: o gol no último minuto, na final! Sem querer, pode ser, mas comprovadamente um gol de quem tem estrela, de quem a bola procura esbarrar antes de entrar no retângulo horizontal. Estaria eu defendendo o time dos amigos sofridos da vila, que me idolatraram na história anterior, e salvaria o suor de um campeonato inteiro sob o olhar atento da mais bonita que me deve a vida salva na noite anterior. Daria o prazer de existir, entende? Até E.T. telepático me amaria. Você já deve estar desconfiado de que nada disso aconteceu. Até o início deste ensaio, nada aconteceu que me tornasse especial ou herói. Não conto com a sorte de ficar enganchado pela capa quando estava para cair do precipício, mas com a dos normais (se você, amigo, não tem super-poderes entenderá bem o significado disto): tenho mulher que me satisfaz mais que eu a ela. Que me sabe não especial, não me admira em nada, mas criada pela monotonia me dá o prazer de não querer saber para onde vou ou vim.A bola esbarra, de vez em quando, e entra. Certo que meu time não é chegado a decisões, finais de campeonato. Nunca sob o olhar da mais bela a aplaudir com o olhar admirado como quem vê um gladiador voltar vivo da arena com leões. Mas considero-os com o mesmo carinho de pai a filho incompetente. Numa oportunidade vi luzes no céu, pensei estarem chegando, e o coração bateu um pouco mais forte. Luminosos de um fábrica, a mesma que escurece o azul do dia, iluminava o breu. Não chamavam por Batman ou coisa parecida, divertiam-se apenas e eu caí, não eram meus companheiros intergalácticos. Não aconteceu. Caminho com a obstinação dos teimosos, a crença dos fracos, o ‘impávido colosso’ dos obesos; vivo confortável no sofá ocioso dos preguiçosos. Mas sou generoso comigo. Construo com estas e outras características meu ‘eu herói’, o herói que está à espreita dos acontecimentos. Que espera a violência à burguesa para salvá-la e recortar a notícia do jornal da manhã seguinte. Ainda tenho trunfos de herói genuíno: obstinação dos certos, crença dos mais que humanos, ‘impávido colosso’ dos mais fortes que armas; tudo coberto pelo ócio de sabedoria milenar, fonte da frieza e calma onde todos se desesperam. Posso dizer que sou um herói à espera da oportunidade. Talvez um deus qualquer, um com espírito de mãe, me proteja, me coloque longe das grandes tragédias para não correr perigo por meu ímpeto ousado. Talvez me prive de sucessos menores para apresentar-me ao mundo no Grand Finale, com status de herói novo carregando a esperança sobre os ombros.Convivo com pequenos milagres caseiros que não impressionam, mas dizem muito. A observação dos anos de sofá não me deixa perder a volta do programa televisivo após o intervalo de nenhum canal; posso prever o exato momento que o relógio digital do vídeo vai mudar o minuto; do banco do carro, como passageiro, não sei guiar, pressinto a hora exata que a luz verde vai acender. Curto cada um destes sinais de heroísmo existente. Difícil, confidente, é entender porque ninguém nunca notou isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Gustavo Novo&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116016655642899686?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116016655642899686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116016655642899686&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116016655642899686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116016655642899686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/10/o-egosmo-narcisista-de-um-heri.html' title='O Egoísmo Narcisista de um Herói à Espreita'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-35619710.post-116016563644747213</id><published>2006-10-06T17:07:00.000-03:00</published><updated>2006-10-06T17:25:52.170-03:00</updated><title type='text'>Seja bem-vindo!</title><content type='html'>Olá, amigo internauta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi criar este blog sem muita coisa em mente. Talvez para criar (mais) uma rotina na minha vida, ter uma espécie de diário público. (Duvido muito que hajam atualizações diárias, se conseguir semanalmente já será uma vitória.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, é isso aí, conforme as idéias surjam, publico meus textos, pensamentos, piadas, dilemas... O espaço é democrático e a participação de todos é muito bem-vinda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande abraço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/35619710-116016563644747213?l=blogdogustavonovo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/feeds/116016563644747213/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=35619710&amp;postID=116016563644747213&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116016563644747213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/35619710/posts/default/116016563644747213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdogustavonovo.blogspot.com/2006/10/seja-bem-vindo.html' title='Seja bem-vindo!'/><author><name>Gustavo Novo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15514463120343558822</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_tPcL5ddr_t8/Sktp_7WYP-I/AAAAAAAAA6s/rdvaI8Eoj74/S220/jumento+e+eu.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
