14 de fevereiro de 2007

Atlântida

Este continente lendário, que durante a minha infância era ilha e eu visitava vez ou outra dentro de meu carrinho-submarino, me recebeu em excursão com minha caravana de pensamentos insones. Atlântida – suas estórias e mitos – fascina e de certa forma representa uma laguna entre a África, as Américas, a Europa e a Ásia e poderia pertencer à Oceania se não tivesse se rendido ao oceano. Tanto faz crédulos ou incrédulos, Atlantis é uma presença ausente, assim como a saudade. Consta que as primeiras menções sobre Atlântida foram feitas pelo filósofo grego Platão; a palavra saudade, ou outra compatível, nunca existiu para Platão e gregos. Talvez esta vala no vocabulário, a ausência de uma palavra que dissesse tudo que a saudade nos diz tenha impedido que a Saudade tivesse sua própria deusa, que chamaria Atlântida.
Desta vez não foi como na minha infância, onde os dinossauros habitavam este antigo continente. Onde, mesmo sem saber, seu misterioso sumiço não representava uma tragédia sísmica. Quando ia para Atlântida, voltava no tempo e ingressava numa terra que misturava os Sacis-Pererês com as sereias e a rosa-dos-ventos perdia suas pontas. Para voltar para lá quase vinte anos mais tarde, não comprei passagem, não tirei passaporte ou recebi carta de cor violeta – como em As Intermitências da Morte de Saramago. Fiquei no mesmo lugar enquanto outros partiam: uns com bilhete de volta, outros sem. E quando cheguei, na terra onde antes o tempo custava a passar, tive a impressão que ele – o tempo – havia se adiantado. Atlântida surgiu sob meus pés e carregava muita ternura com cheiro de crisântemo. Na mesma concha que vi pela última vez um casal de sereias negras, tem uma cadeira de madeira com meu avô sentado. Sorrindo. Na moita em que saci morava e saia todo fim de tarde, tenho nove anos, o rosto sujo, e a camiseta do São Paulo rasgada por ter enroscado num galho quando tentei recuperar minha primeira bola de capotão. Tem o vizinho que devolvia a bola quando caía em seu quintal, tem o vizinho que rasgava a bola. Mas nenhum deles se mexe. Pertencem à minha Atlântida e à Atlântida de todos que os conheceram.
No entanto, nem tudo na minha terra oceânica parecia museu de cera. Há os que compraram passagem, voaram, foram e me trouxeram até aqui. Eles andam e correm e divertem-se entre si. Alguns estão felizes, outros nem tanto. Devem me encontrar em suas Atlântidas também, mas, só, só posso imaginar como me vêem. Os mais velhos podem preferir me encontrar criança, talvez um bebê estático, sem os vícios do que eu sou. E sem um retrato – como o de Dorian Gray – que estampe as marcas de meus atos imorais mostrando com clareza o que me tornei, apenas lamento lembrar que eu mandei alguns a Atlântida e com o passar do tempo eles me expulsaram de seu continente.

31 de janeiro de 2007

Vizinhos

Eles dividem a mesma rua, as casas estão frente à frente uma da outra, e mal se cumprimentam. São duas famílias comuns formadas por dois casais: de pais e de filhos. Vou deixar claro que não estamos falando de vizinhos paulistanos. Moram numa cidade de pequeno, quase médio, porte. Eles se conhecem, sabem os nomes de uns dos outros, menos o dos filhos – dos outros –, e nunca dividiram xícara de açúcar, um guarda-chuva na ladeira ou a Kombi que leva a despesa do mês do mercadinho até a casa do cliente. A divisão destes vizinhos, nem cosmopolitas nem caipiras, não se limita a uns poucos metros de asfalto e concreto. Ninguém diz, é uma distinção velada como a maioria dos preconceitos brasileiros, mas são famílias separadas por questões sociais: uma é pobre e se acha pobre e a outra é pobre e se acha rica.
Os filhos estudam na mesma escolinha municipal: o menino pobre rico está na terceira séria e sua irmã na primeira, ambos nas turmas A. Os pobres pobres seguem os mesmos anos do vizinhos, mas estão em letras diferentes: o menino, na E; a menina, na D. A mãe pobre rica nunca se vangloriou, mas se delicia com o som dos As de seus filhos. Mesmo que este mesmo som não chegue às carteirinhas de notas, não importa, tem um casalzinho A! O pai pobre pobre não está nem aí – é vigia das sete às dezessete em uma firma que faz o lacre de segurança para a tampa de copo de requeijão –, sai do serviço, passa em casa e vai para o boteco onde joga caxeta. Às vezes ganha um dinheirinho que esconde dentro de um Santo Antônio oco e sua mulher nem sonha. Todo dia, no café da manhã, jura em silêncio que vai gastar com um presente para a mulher; à noite, quando volta do bar, faz as contas para ver se consegue fugir de casa. O pai pobre rico trabalha na empresa que faz a tampa para o copo de requeijão (nota: os donos das vacas que dão o leite para se fazer o requeijão é que são os ricos ricos da cidade). Ele opera uma pequena prensa que molda e faz o furo onde é encaixado o lacre de segurança. Acorda às quatro e meia todos os dias para ver o Telecurso na tv, não anota nada. Ensaia no espelho o pedido de promoção, talvez para se tornar encarregado em algum departamento. Quando bate o cartão, tem saudade e vai correndo para a casa; só diminui um pouco o passo quando lembra que não tem novidade. A mãe pobre pobre acha que está anêmica, teve rubéola, sarampo, catapora e o médico pediu para ela voltar semana que vem.
O Fox é o cachorro pobre rico, Costela é o pobre pobre e cada um tem seu buraco na grade para escapar para a rua. Seis da manhã, o Costela faz xixi no portão pobre rico, afinal, chumbo trocado não dói, e o Fox deixa sua marca no portão pobre pobre às cinco e meia enquanto se prepara para perseguir o leiteiro. Às nove, os dois se divertem rolando no gramado da pracinha do quarteirão de baixo.

29 de janeiro de 2007

Confissão

Outro dia emendei o almoço com o lanche da tarde, o lanche da tarde com o jantar e aproveitei meu fim de tarde para conversar com o Cristo, o carioca. Vinte minutos de caminhada dentro da maior floresta urbana do mundo, a da Tijuca, nenhum quilo a menos, uma sede danada, e chego aos pés do grande irmão. Observador incansável e confidente de milhões, há muito tempo tem como principal ofício prestar-se como pano de fundo para as fotografias de turistas vermelhos com camisas floridas.
Cheguei, a noite caía, tinha ainda uns 20 minutos de sol, e já tinha feito meu primeiro questionamento ao filho querido do pai de todos nós: – Com quê direito a combinação sol mais calor mais ladeira acima mais nosso senhor dá para um cidadão cobrar quatro pilas por uma garrafinha de água? (sem esquecer de mencionar, também em pensamento, o brilhantismo e competência de nosso senhor quando inventou este refresco natural) – quando resolvi olhar para o pedaço de terra que ele tem olhado nos últimos setenta e seis anos. Está lá, de frente para ele, Botafogo, a praia e o bairro, as casas, algumas árvores, as ruas, os moradores passeando, o mar e os barquinhos. Sua visão periférica, que se não for a melhor, sem dúvida é umas das melhores já criadas, ainda alcança Flamengo e Urca. Esta facilidade de alcançar as extremidades destra e canhota confunde muitos seguidores daquela região que acreditaram em sua onisciência e até mesmo exageraram sobre sua onipresença. “Como ele pode ter visto isso?” ou “Saber daquilo só estando lá e ele não saiu dali”. Mas ele não tem nada a ver com estas conclusões. Os fiéis, com os corações cheios de amor e fé, com espírito de Saulo, sempre tenderam a aumentar suas, reais, super qualidades. Ah, ajuda ainda sua visão o fato dos artistas, seus criadores, não terem pintado as retinas, assim o deixaram a vontade para olhar de soslaio.
Invejei a paisagem. “Quando o homem lá de cima quis, caprichou mesmo.” Dei a volta no monumento, olhei para as costas da estátua, fui ao pára-peito e respirei toda aquela mata verde. O céu lançava uma luz amarela de fim de tarde que quase deixou o verde da mata azul.
– Como está a vista? – eu ouvi e respondi sem tirar os olhos daquela selva que me convidava.
– É viciante.
– Tenho uma saudade da vista que tu tens agora. Quando minha cabeça foi posta sobre meus ombros e pescoço, fui abençoado pelo descuido de um dos funcionários que fê-la girar por duas vezes. Tenho em minha memória os poucos segundos que pude apreciar a imagem que você vê agora. Enquanto isso, sob os olhos tenho a confirmação lenta e gradativa da escalada de cimento e asfalto que invadem a cidade como lavas de um vulcão que resolveu despertar.
– Mas a vista que você aprecia, com a luz do luar e as lâmpadas da cidade, preenchem todas as vinte quatro horas do dia. Além disso, é rica em movimentos e ações do homem que tornam a sua monótona existência de concreto, figas de ferro e pedra sabão mais emocionante, não? Claro, algumas vezes estas ações são daninhas à natureza e ao próprio ser humano que, quer queira quer não, faz parte desta mesma natureza. E me desculpe a intromissão, não quero ser petulante, mas sempre me disseram que você veio pra cá justamente para olhar nós.
– Permita-me fazer uma confissão que só faço porque sei que nada poderá fazer com esta informação. Se contar para alguém, nada adiantará e ser ridicularizado será o máximo que conquistará. Já que levamos uma conversa informal deixarei o arcaiquismo de lado. O céu também traz sua organização e a manutenção deste planeta é sim prioridade de nosso patrão. Não estou desde o começo, mas o que consta foi que este modelo foi feito e precisou ser mantido sem nenhuma influência superior por muito tempo. Os homens se destacaram por conta própria e de poucos detalhes físicos, um deles a mão que pega o que quer e faz decidir o que fazer com o que pegou. Conforme os dias foram passando foi decidido pelo alto escalão que deveríamos dar mais atenção para o homem naquele momento. Sei que não foi consenso, os responsáveis pelos reinos dos minérios, vegetais e até mesmo um grupo dissidente do reino animal foi contra. Mas o chefe estava convencido que todos poderiam sair ganhando com uma raça inteligente que administrasse as coisas por aqui. Convenceu todos com a promessa de que o trabalho de todo mundo, ou melhor, de todo corpo celeste, para usar um termo que você compreenda, diminuiria. O problema era conduzir este povo todo para uma linha de conduta aceitável. Se vocês pudessem imaginar a quantidade de bons pastores que não conseguiram firmar. E fez-se a religião! – e ele faz com a boca um barulho de trovão bem mal feito – Grupos que facilitariam um entendimento coletivo de nossas propostas. No começo todo muito tribal sem o alcance desejado. Dava certo em pequena escala. Jogada de mestre do superior, sabendo do instinto competitivo de vocês, mandou pastores com propostas iguais, apenas caminhos distintos. Eu entro aí.
– Entre tantos outros? Incluindo alguns que não tem sequer uma página destinada nos livros de história, incluindo os que falharam?
– É um jogo de sorte ou azar. Num determinado momento, com o fracasso de alguns dos meus antecessores, mudadam algumas regras. Veja você o Buda, ele foi e voltou algumas vezes para conseguir provar seu ponto de vista e conquistar as pessoas. Eu falei, falei, falei, entreguei-me ao sacrifício humano, contei com um grupo de seguidores que divulgaram minhas idéias e mesmo assim me arrepio com as distorções que fazem com o que preguei. Já tive inclusive que prestar contas para meus superiores sobre o que meus fiéis estão fazendo com os meus ensinamentos. E, que fique entre nós, não reconheço quase nada de mim na boca dos pastores de hoje.
– Estamos perdidos... – murmurei.
– Não é pra tanto, mas as preocupações dos titereiros mudaram. Hoje priorizamos as árvores, as plantas e os animais que mantém o equilíbrio biológico. Precisamos que o mundo sobreviva e para que não tenhamos uma eternidade tediosa. Outros membros do comitê celestial ganharam força e o departamento em que trabalho, o dos homens, perdeu poder. Como o fluxo de trabalho diminuiu gostaria de poder voltar os olhos para o mato mais uma vez. Mesmo porque, com os pés cravados no concreto e os braços imobilizados com o peito à mostra, o máximo que posso fazer é escutar suas súplicas e chorar a impossibilidade de ajudá-los, mesmo em suas mesquinharias.
– Vocês perderam o interesse por nós.
– Não há santo que agüente a mesma ladainha, os mesmos erros, as mesmas inquietudes, os mesmos maus-tratos por tanto tempo. Claro, vocês vão sofrer com esta mudança política, mas a ignorância e arrogância estarão aí para que vocês continuem teimando serem senhores de si e acreditem que o mundo existe para contemplar seus interesses. Isso nem se quiséssemos conseguiríamos mudar. A mudança é gradual.
– O que devo fazer?
– O que você foi projetado para fazer, respire, recicle o ar para as árvores.

23 de janeiro de 2007

Careta é demais, careta é pouco

Se você não é um deles, sabe que eles estão aí e em bem maior número do que se imagina. Virou, mexeu esbarramos num gênio desses. Outro dia fui surpreendido, distraí e já estava no papo. É assim mesmo, em via de regra, eles começam devagar apresentam apressadamente certa preocupação humanitária e, lentamente, entram de cabeça numa loucura que, com um pouco de imaginação, parece com a do Dr. Richard, no filme Alta Ansiedade do diretor Mel Brooks. O personagem, por medo de altura, alucina e trava. Não consegue se mexer ou sair do lugar. Nosso companheiro trava nas idéias, inseguranças, preconceitos e, principalmente, medos.
O bar estava cheio e o escolhido para ouvir a ladainha, mais uma vez, como de costume, como não poderia ser diferente, fui eu.
O dono do bar que fez o favor de apontar esta bazuca-destra para o meu lado.
– O Zé – que mais tarde eu daria o sobrenome de Ruela – é casado pode falar melhor que eu.
– Comigo funcionou assim mesmo: sempre fui tranqüilo, respeito todo mundo, só não agüento quando vem me chamar de careta. – vale uma nota. Não estávamos falando de caretice. O dono do bar está pra casar e chamou o sabe-tudo para um depoimento – Pode ver, passo aqui no bar pra uma só. Antes das sete e quinze já estou a caminho de casa com o pãozinho e tudo. Agora minha mulher deu para me chamar do que? Careta! É impressionante como mulher gosta de ofender a gente justamente com...
– Você é casado há muito tempo?
– Toda mulher sonha com isso, viu? – a gente pergunta uma coisa e ele responde outra. Este é o outro sinal clássico desta tribo... sem ofensas aos índios – A mulher que fala que não está mentindo. Hoje falam que é meio... falam que é coisa do passado, né? Antiquado... um pouco. Mas vou falar, eu gostei. Demorei até me decidir e acertei, me casaria de novo. Todo mundo lá, a maior festa depois. Eu fui parar na piscina de roupa e tudo, depois não sobrou um seco. Só meu sogro que não deixou ninguém encostar. Ele fez exército, durão. Já tinha mais de sessenta quando nasceu minha mulher. Admiro a disciplina do exército, viu? Tudo funciona certinho. Não vou defender a ditadura aqui, sempre falam que eles exageraram na época, mas todo mundo andava na linha antigamente! Vê se você via bandido fumando maconha na rua. Fora esta moda agora de intelectual defendendo bandido. Direitos humanos... e a gente, quem defende? Eu não espero a polícia me defender. Daí aparece artista, que só visita favela com segurança, em carro blindado, falando em para votar a favor do desarmamento. O povo sabe das coisas, não cai nessa conversinha. Bandido fica armado e a gente, faz o que, ataca com estilingue?!? Não, não. Lá em casa, se eu ouço barulho no quintal, pego minha vinte e dois, corro para a janela do banheiro.
– Vinte e dois é arma de mulher – comentário de um espirituoso bêbado que aguardava ser atendido no balcão.
– Ninguém te chamou nesta conversa. (...) Cara folgado. (...) Então, como eu estava falando, sempre quis ter um casal de filhos, né? Primeiro um menino, pra defender a irmã. Falei isso para minha mulher ela me chamou de careta! (...) Não vou dizer que aprovo: quando casamos, na igreja, nós dois de branco e, isso é só entre nós, não gosto de falar das particularidades da família, ela não era virgem. Eu sabia, ela tinha me contado. Mesmo não fiz nada antes de casar, preferi esperar. Coisa minha, sabe? Acho bonito esperar pela benção do padre. (...) Mesmo assim eu aceitei casar com ela. Parece que ela não enxerga essas coisas quando me chama de careta. Eu não tenho coragem de colocar filha no mundo sem ninguém para defender... Cheio de vagabundo e pilantra solto aí. Se alguém ofende a menina não sei o que faço. Agora, se querer uma família mais protegida é ser careta, então deixa ela me chamar de careta. Daqui a pouco tenho que ir. Eu nem sei se ela vai ser uma boa mãe. Antes dela começar com o grupo da igreja, começar ler a bíblia, confessou que era viciada em maconha no colegial, fumou umas três vezes e até matou aula para isso. Esse negócio, e pode até parecer esses médicos que não sabem de nada dizendo que não, estraga os genes. Fora isso ela é muito mole. Ela assiste a esses programas que só vão vagabundas na televisão. Outro dia tinha uma mãe com o filho bicha. Acredita que ela falou que ia tratar como normal se tiver um filho assim? Prefiro meu filho bandido, roubando, que se enroscando com outro homem. Ela é muito nova, né? Com 19 anos eu também tinha umas idéias atrapalhadas. Depois dos 40 a gente enxerga melhor as coisas... Ela vai aprender. Tenho que ir, senão ela fica preocupada, nunca chego depois das sete e meia. Opa! Está bem? Que cara é essa? Nem bebeu, que porre é esse?
– Nada não, nove horas, já vai?

11 de janeiro de 2007

Cantina Italiana

Um amigo de longe, longa data, de passagem, chama para almoçar. O tempo em que estamos distantes é suficiente para cada um querer, à sua maneira, impressionar o colega. Os problemas preferidos, ressaca, falta do que fazer, fila de banco, não seriam os assuntos. Reclamar da vida, lembrar o engarrafamento de manhã, mulher – porque se você tem mulher, reclama, se não tem, reclama também – nem pensar. Era hora de relembrar aquele projeto feito há dois anos atrás que o gerente não corrigiu uma vírgula. Não elogiou, não dividiu os méritos, não citou seu nome na cerimônia de premiação, é verdade. Mas, tratando-se deste gerente, o silêncio é o maior elogio. Lembrar e contar o maior feito da vida.
E como animal acuado, tímido e inseguro, parto para o ataque.
– Conheço uma cantina italiana super bacana.
Está vendo, já começou mal. “Super bacana” é do tempo em que eu estava na escola e, no recreio, comia um enroladinho e tomava Fanta Uva... É do tempo do recreio. Depois do tempo do recreio a gente passa pela hora do lanche e intervalo antes de chegar a um almoço da vida adulta.
– Ótimo, adoro a culinária italiana. Em Roma eu provei o melhor pizzicotti ai carciofi da minha vida!
De três uma: virou fresco, está se mostrando ou é veado. Mas a cara de interrogação é por não conseguir ao menos imaginar que raio vem neste prato. Na verdade se ele pedir para repetir o nome do prato não sai nada. Ele ainda não percebeu, ou não quis perceber, que o vale-coxinha que eu recebo mal permite passar na frente deste restaurante. Pior ainda. Mal sabe que, para mim, comer massa italiana e mastigar toalha suja com molho de tomate dá na mesma. Sou xucro, vai encarar?
O cardápio está na mão e o suor da testa já foi limpo com o guardanapo de pano. Enquanto isso o colega, todo pomposo, a minha frente já ajeitou o guardanapo sobre as pernas e tira, com as costas da mão, uma sujeira que, de tão pequena, eu só posso imaginar que exista em seu paletó.
O restaurante é típico suficiente para se dar ao luxo de não explicar neca de pitibiriba daqueles palavrões de uma lista que aqui se chama menu.
– Ó, eu acho que aquele prato você vai achar só em Roma mesmo. – e chamo o garçom – Que cerveja você tem? – de volta ao amigo – Toma uma Brahma?
– Não consigo comer e beber cerveja, acho que é a idade. – e pergunta ao garçom – Boa tarde, vocês servem Barbaresco Gaja 95?
No que este cara se transformou? Não é a mesma pessoa que jogava cimento na privada da escola e escrevia baixarias nos cadernos das meninas. Virou CEO de uma empresa qualquer e já começou com esses drinques extravagantes. Mais tarde descobri que era apenas um vinho. Mais tarde ainda, na hora da conta, vi que não era um vinho qualquer, muito pelo contrário.
Já estava prestes a perguntar se eles serviam macarrão com molho de tomate e carne quanto o engomadinho pediu permissão – ele perguntou assim mesmo, permite que eu faça o pedido? – para escolher nossa gororoba.
– Prepare um risotto alla milanese, com zafferano e o scaloppine alla pizzaiola, por favor. Vocês não colocam cebola, né? – E virou sorrindo para mim. – Pode ficar tranqüilo que não tem cebola.
Pediu licença e foi ao banheiro. Eu estava perplexo. Só me senti melhor quando pensei que qualquer amigo meu, do convívio atual, estaria também. Além do cara pedir em italiano um prato com três nomes, lembrar que eu não como cebola e tomar a dianteira da situação, ele percebeu que se deixasse eu pedir prato provavelmente ia passar maus bocados. Perguntei para o garçom do que se tratava o prato enquanto o bom vivan não voltava.
Sabe como são os pratos italianos, né? Uma fartura. Comi, bebi, a fome passou, o humor voltou. A única coisa que ficou na minha cabeça era o que de tudo que o garçom falou que viria no prato só reconhecia o contra filé. Mas tudo bem... Pô, o cara não tinha nada de arrogante. Subiu na vida porque era competente mesmo. Cheio de diplomas: mba pra cá, pós pra lá. O problema esta em mim, neste complexo de inferioridade infantil. Ele sempre foi um bom amigo, companheiro leal. Era engraçado vê-lo com as menininhas. Cada hora com uma história diferente para impressioná-las. Ai, ai, ele sempre foi especial mesmo.
Chega a conta e, em meio a risadas das histórias passadas, diz ele.
– O que achou do pedido?
– Está de parabéns. Nada como andar com um profundo conhecedor da culinária, porque não dizer, universal! – e caímos às gargalhadas.
As lembranças me rejuvenesceram, lembrei do décimo terceiro salário – não tenho filho para presentear no Natal – e meio embriagado peguei a conta e num golpe rápido passei o cartão de crédito ao garçom.
– Que é isso – tentou reagir o melhor amigo que já tive – permita-me pagar?
– Permita-me pagar?!? Pra que este fruqui-fruqui, fala direito comigo! – brinquei – A próxima é sua. Reencontrá-lo me valeu muito mais, ainda vai me pagar em conhecimento, dando aulas sobre o mundo – falei um pouco emocionado.
Como é mesmo o nome desse mundaréu de comida que a gente pediu? Chamei o garçom.
– Companheiro, deixa só eu anotar o nome deste prato, vou ficar decorando em casa para, se deus permitir, algum dia eu possa impressionar alguém com o este pedido. – murmurei.
– O que acabamos de comer foi um risotto alla milanese, com zafferano e o scaloppine alla pizzaiola muito bem feito, aliás. – disse o poliglota, enquanto eu lia que o prato servido havia sido Escalope ao Málaga.
!
Ele não fazia idéia do que tinha pedido ou comido e vice-versa. Deve ter decorado o nome para impressionar alguém.
Lembrei de suas historinhas para conquistar as menininhas.

28 de novembro de 2006

À Revolução de Agudo à Crase (título criado ao término do texto)

Hoje acordei, abri meu computador e fui preparar um cafe preto enquanto ele decidia se ia (ou não) trabalhar. O coitado sofre para iniciar sua jornada diaria, demora, trava, pensa e não age; o outlook – judiação! – carrega minhas mensagens, pela manhã, so com mas noticias. As primeiras elucubrações eletrônicas da minha maquina são sofriveis. Tudo bem, afinal de contas, cada um tem o computador que merece.
Mas hoje, dia 27 de novembro – de calor e provavel temporal no fim da tarde – o problema foi mais grave: meu computador acordou sem o acento agudo! E agora, o que sera de meus comentarios pontuais? Tem mais: assim como a Rita levou os meus 20 anos, o meu coração e – alem de tudo – deixou mudo o violão, o Agudo levou com ele a Crase... E que falta estes dois opostos num so me fazem. Com o Agudo a relação e mais antiga. Cometi muitos deslizes nestes anos de convivio, o deixei de lado, fora de muitas construções gramaticais, mas nada que justificasse sumir assim. Ja a crase e paixão recente. Suas nuances, seu desprezo total por verbos, masculinos, cidades, formas de tratamento... O despertar da faculdade para o seu uso facultativo: nome de mulheres e pronomes possessivos...
Minha manhã passei assim, inconformado por evidências de uma ausência, possivelmente, trameira. Mensagens importantes foram arquivadas e o apetite sumiu. A teclinha preta, com duas gotinhas de tinta branca, invertidas uma em relação a outra, era mais importante para mim do que sempre supus. Revirei todos os papeis, abri gavetas, lambi o carpete sob a escrivaninha. Nada. Meu cafe ficou frio e esteve fraco desde que saiu da cafeteira italiana, fui para a padaria.
Comprei um jornal inteiro pensando so na pagina de Esportes, sentei na varanda para fumar sem muita vergonha e pouco incômodo; chamei o Indio, chamei um expresso. Esqueço a tecla. Pensei em escrever uma mensagem que parabenizasse o trabalho da diretoria do meu time. Lembrei da tecla, virei o cafe, queimei a boca, apaguei o cigarro pela metade e deixei o troco como gorjeta.
Quando voltei, para terminar um texto que comecei teimosamente e havia deixado pela metade, uma pitada de surpresa, alegria honesta e muito espanto: “o Agudo e a Crase voltaram!”. A tecla estava mal ajeitada, ao invés de um ponto sobre o outro – e o outro sob um – estavam de lado agora, mas funcionava! Pensei nas razões: talvez o maltrato de anos com a escrita e a utilização imprecisa destes símbolos tivesse revoltado a dupla; pensei também que ambos, presos numa tecla só, quisessem lembrar de sua importância numa gramática onde os ‘as’ ‘és’ ‘is’ ‘ós’ ‘us’ prevalecem mesmo quando comparados a consoantes – que por sua vez sobressaem, de longe, sobre os acentos e os sinais. Por fim – e foi a explicação que escolhi e tirou (coincidentemente e) completamente qualquer sensação de culpa – acreditei que o casamento entre Agudo e Crase não suportava mais a hierarquia horizontal que, ao contrário da nossa, privilegia quem abaixo está.
Minha rotina manteve-se intacta. A manifestação surtiu efeito, meus acentos hoje são mais valorizados e, em contrapartida, voltei a contar com a colaboração de Agudos e Crases que agora dividem a mesma tecla em posição de igualdade, um ao lado do outro.

*Baseado em fatos reais

17 de novembro de 2006

Sem jeito para a timidez

“Eu sou mulher e vou dizer para você: homem interessante é homem tímido!” Ponto. (E) Dancei, maldita hora que eu fui escolher para me vangloriar, há cinco minutos eu me enquadrava perfeitamente no perfil ‘homem interessante’. E olha do que: de uns golzinhos do futebol de várzea, ela não está nem aí para futebol, foi contar uma história que aconteceu com ela num dos jogos da Copa – “Qual foi aquele jogo que deu a maior confusão em São Paulo?” – e eu desembestei a falar do meu futebolzinho; depois parti para as habilidades artísticas, “Escrever música que nem o Milton não é tão complicado assim”. Ai, ai, ai... “Homem... tímido”
E ela deu seus sinais. Olhou para o relógio mais de uma vez, coçou a sobramcelha e – tenha certeza que por educação – segurou uns três bocejos. Eu vi. Não estava, juro, botando panca de galanteador. Olhe que irônico: só estava tentando disfarçar a timidez! “Sou mulher... homem tímido”... Pô, se a idéia fosse impressionar, o sucesso estava garantido. Agora sim, estou totalmente desconfortável. “Maldita timidez, se eu fosse um pouco mais descolado conseguiria explicar que de fui ator, que sou tímido de nascença”. Agora sim eu preciso impressionar, mas como demonstrar o acanhamento? Não adianta demonstrar.
Discretamente anoto num guardanapo “Canção do Sal”, peço “por gentileza” que o garçom leve meu pedido ao músico. O fator sorte ajuda e o músico, não sugere “Coração de Estudante”. A música começa e eu sorrio sem jeito, “Fácil, né, escrever igual O CARA!”... Torço para ela entender a ironia... Anuncio a saideira, “Mais uminha só que amanhã tenho que brincar de bola com os outros meninos”. “Garçom mais uma cerveja e a conta, por favor” ... Será que ela engole essa?

O DIABO E A MULHER

Texto do meu tio (e mestre de cerimônia na maior parte dos vídeos da minha infância) Luiz. Conhecê-lo e ouvir suas histórias é diversão garantida.

O DIABO E A MULHER

Conta uma pequena história (lenda), que o diabo via frustradas muitas de suas tentativas de fazer o mal, por interferência da mulher.
Toda vez que o homem perdia a paciência ou desanimava, lá estava ela, com sua paz e energia, levantando o equilíbrio dele.
O diabo reuniu-se com seus assessores e depois de muito discutir chegou a seguinte conclusão :- "a mulher deveria descer ao mesmo nível do homem". Ela que sempre foi elevada, e neste aspecto era respeitada até pelos demônios, teria que mudar de papel, e baixar suas vibrações para cair ao ponto do orgulhoso homem que, ilusoriamente, se julgava superior.
Mas como fazer isso ? A tarefa não era fácil, pois a vaidade feminina se resumia apenas no embelezamento físico e não na idéia de comando.
Contratou um perito das sombras, em tarefas relacionadas com o orgulho e a vaidade humana, e este, que das trevas era um especialista, criou o movimento feminista.

27 de outubro de 2006

Veja e (é) Geraldo para presidente

Pô, eu não ia entrar em questões políticas, mas esta eu não resisti. Curtinha e mata dois coelhos numa machadada só...

Estão falando por aí que, por causa da revista VEJA, vão mudar o nome do Geraldo Alckmin. Agora vão escrever com “J” para facilitar.
Vai ficar assim: Vote Em Jeraldo Alckmim.

Instruções para comer um pastel de pizza na feira

Em homenagem a Júlio Cortázar, escritor argentino – embora tenha nascido em Bruxelas, Bélgica [CLIQUE AQUI e visite seu sítio oficial. É argentino, está em espanhol, beleza?] – que em seu livro História de cronópios e famas oferece ao leitor instruções para chorar, matar formigas em Roma, dar corda no relógio. Sem esquecer das, para mim, utilíssimas “Instruções para entender três pinturas famosas”.

Não, não. Na verdade vou fazer justiça aqui. Quero homenagear minha irmã e mãe coruja do Louis – meu sobrinho chique –, Carmen [VISITE AQUI o sítio dela]. Se eu tenho um pé (leia curiosidade) no mundo das artes, certamente foi influência dela. Por suas análises, comentários e tudo que ela sempre me apresentou este texto vai pra ela. Inclusive, o livro que inspira o texto que segue, foi ela que me deu com uma de suas dedicatórias maravilhosas. Ah, além de tudo, é a maior divulgadora deste Blog (rs)...
Não está à altura da (os) homenageada (os), assim mesmo, segue o texto:

Instruções para comer um pastel de pizza na feira

Na feira você deve passear. Se quiser realmente apreciar o passeio pela feira, tem que ser pela manhã; de chinelo, bermuda ou ex-calça jeans com as pernas cortadas, camisa bonita há alguns anos, um ar sereno e o olhar desconfiado para as frutas e os legumes. Depois de andar e comprar apenas meia-dúzia de limões é obrigação fazer valer a ronda e dar uma força para o estômago que, em casa, vai ter que esperar até às três da tarde para o almoço sair.
Aí, da segunda fileira de pessoas que cercam o trailer do pasteleiro, o japonês, suando, grita: “Bomdia!Qualosabor?” Nunca peça sem ter certeza. Se você disser um “queeeeero” mais comprido o ajudante – que é os ouvidos, braços, ânimo e pressa do dono do quiosque – já jogou um pastel de queijo no óleo! Não há tempo para se perder e adivinhação não é o forte em pastelarias.
Você chega decidido e, sem pestanejar, solta um sonoro “O meu é pizza”. Além dos cuidados normais que sua mãe ensina na infância e repete pelo resto da vida, “Corta uma pontinha antes”, “Tem que tomar cuidado com o vapor, uma moça já ficou cega por isso” – aqui vale uma nota: como alguém que escuta isto pode comer um pastel tranquilamente –, “Cuidado que vai pingar na calça”, “Cuidado que vai pingar no tênis”, “Cuidado que vai pingar na blusa”, “Cuidado que vai (e vai mesmo, acredite) pingar!”, existem outros cuidados.
O pastel de pizza tradicional, deixando os regionalismos – ou melhor, considerando minha região como a tradicional (o que está longe de ser verdade) –, é feito de massa, muito óleo, pouco queijo, uma pitadinha de orégano e TOMATE!
O pastel fica dividido em três níveis de calor: o óleo e a massa não têm erro, dois sopros, a temperatura fica a ideal, e assunto encerrado; o queijo é aquele negócio. Escorre, é quente, não parte direito, você tem que inclinar para frente, empurrar o pastel, segura o filetinho de queijo, tenta parti-lo, gruda no guardanapo – se não fosse o aspecto pouco higiênico de todo contexto, você lamberia o papel... é uma briguinha, que no fim das contas chega a ser bacana; sobre o orégano, por questões óbvias, eu não vou falar nada; o problema todo está no tomate. Ele parece reter mais calor que todos os outros ingredientes juntos, dizem que é pela quantidade de água, sei lá. O devorador desavisado, afoito pela fome, atropela-se mordida atrás de mordida, quando chega à fruta – que por muito tempo a civilização achou que era venenosa – é traído pela quentura e quando tenta se desvencilhar a pele – ainda pressa em uma das extremidades da rodela vermelha – traz todo o recheio fervente ao seu queixo. – O amigo da minha prima de segundo grau teve sua cara deformada assim... sério!
Para se comer um pastel de pizza na feira, em primeiro lugar, você deve saber até que ponto consegue controlar seu ímpeto comedor. Se for jogar boca a dentro o pastel todo em uma tacada só, a melhor coisa que você faz é pedir um de carne, frango com requeijão ou até mesmo o simples de queijo. Mas se o pizza é o seu predileto mesmo, aproveite os minutos em que estará dedicado à empreitada para saborear os molhos que a esposa do japonês preparou: uma mordida e um pouquinho de molho de alho; outra e um pouco da pimenta – é de bom alvitre começar sempre pela pimenta mais fraca, tem uns japas sarcásticos por aí –; quando chegar o tomate, que sempre fica do meio para o fim, por que não experimentá-lo com um vinagrete fresquinha? Dê uma sopradinha antes, morda com a convicção de que pele será totalmente partida por seus dentes afiados e boas!

19 de outubro de 2006

Brasil de Fato

Segue uma sugestão a amigos e visitantes em geral. O texto que descreve o Jornal Brasil de Fato copiei na íntegra no sítio deles. [CLIQUE AQUI e vá à página]

Tornei-me assinante – neste momento, ainda não peguei nenhuma edição para para emitir opinião – e recomento, a princípio, por absoluta simpatia.

É isso aí.

O Jornal Brasil de Fato foi lançado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 25 de janeiro de 2003. Com tiragem de 50 mil exemplares (16 páginas coloridas, tamanho standard), o Brasil de Fato é um jornal semanal, com circulação nacional.
Por entender que, na luta por uma sociedade justa e fraterna, a democratização dos meios de comunicação é fundamental, movimentos sociais como o MST, a Via Campesina, a Consulta Popular e as pastorais sociais criaram o jornal Brasil de Fato — um semanal político, de circulação nacional, para contribuir no debate de idéias e na análise dos fatos do ponto de vista da necessidade de mudanças sociais em nosso país.
Plural e diversificado, o Brasil de Fato reúne jornalistas, articulistas e intelectuais do Brasil e do Mundo, personalidades renomadas como: Ariovaldo Umbelino, Emir Sader, Plinio Arruda Sampaio, Sebastião Salgado, Dom Mauro Morelli, Dom Demétrio Valentini, Dom Tomás Balduíno, João Pedro Stedile, Zé Geraldo, Chico César, Letícia Sabatella, Augusto Boal entre outros.

Ônibus

Voltei aos pontos de ônibus. Já tinha esquecido como era triste esta vida! Anda, anda (...), anda; vê e não vê gente, esbarra, toma garoa, escapamento dos outros ônibus. Tudo cinza daltônico. Chacoalha, sacode, dorme, cai o livro, toca o telefone: estou atrasado.
“Neste momento deve estar saindo do terminal o trólebus que eu deveria pegar se estivesse no horário, se tivesse levantado quando abri o olho pela primeira vez. E eu estou aqui, a meia-hora de lá”.
Estou há meia-hora dela também. Enquanto me arrumava resmungou alguma coisa, virou e dormiu. Ah se eu pudesse, arrancava a alma de dentro dela e colocava a minha ali.
Volta o sono e o olho não agüenta. Barulho de freio, acordo. O chuvisco está lá fora e aqui dentro também, “a moça perfumada da frente sente calor?” Com cabelo bem enrolado e curto, com o pescoço a 38 centímetros do meu nariz, posso vê-la arrepiada. “Por que esta janela está aberta? Não me incomoda, no fundo até me agrada tomar um pouco desta chuva. Por algum motivo tira a sensação de estar respirando ar reciclado. Esqueço que o ar – que sai da boca do cidadão sentado ao meu lado – entra em mim, passa pelos pêlos do meu nariz, pulmão, sangue...credo”.
“Relutei por uma hora para não vir para este lugar e agora não queria ter que descer”. Puxa a cordinha, escorrega, caí o papel da seguradora do carro roubado que agora marca meu livro. “O bafo é ruim, mas o coração é generoso”: o mesmo gordinho que me espremia pega o papel que molhou no chão de aço da condução. Freia, escorrego, quase caio, seguro no corrimão – se é que posso chamar aquela barra de ferro de corrimão – degrau, degrau, mais um degrau e pulo pra rua.
“Esqueci de olhar se vinha a moto.” Uma kombi espera o ônibus voltar a andar. “Será que consigo atravessar enquanto isso.” Asfalto, duas faixas amarelas, mais asfalto. Carros dos dois lados e eu parado sobre as faixas. A garoa vem de lado e os cílios não dão conta, as gotas chegam à retina.
Pronto, estou do outro lado, agora é encarar esta ladeira e as pessoas que se atropelam com determinação. A mão está molhada, o peito – assim como toda a parte da frente – está ensopado, o náilon do tênis já desistiu de segurar a água e a lombada do livro deixa de ser nova.
Ando, ando e ando. Descuido e pego o bilhete magnético do trólebus com a mão molhada – tinha que secar nas costas antes – e invisto na catraca: Pééééééé!
– Deve ter molhado. Vá a bilheteria e troque. “De vida.”

10 de outubro de 2006

É música, poema e um pouco da gente

Hoje, a caminho do trabalho, estava ouvindo Fado Tropical (sempre Chico, né? ...previsível...) e achei interessante falar da música assinada por Chico Buarque e Ruy Guerra neste espaço.

Censurada durante a ditadura militar e criada pouco antes de Chico Buarque ser exilado, Fado Tropical descreve a tristeza de um brasileiro que se vê obrigado a deixar o país.

“Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. (...)

Mas, além de servir como retrato da situação política que mal-tratou nosso (para resumir bem!!!) país por 21 anos, o diretor e roteirista de cinema, compositor (...) moçambicano, Ruy Guerra, recita um poema (brilhante), que humaniza um carrasco e expõe suas crises. A consciência de uma personagem que não esperamos que tenha consciência. A partir deste ponto esta música torna-se eterna, atemporal.

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...(além dasífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

E continua, após algumas estrofes apresentadas por Chico, seu depoimento:
"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."
Podemos pensar neste poema como uma confissão e enxergar a angústia de quem faz o mal. Ver um caráter emotivo e piedoso em quem exerce o ofício de não pestanejar, que jamais perdoa, mas que depois de feito, desencontrado, ele mesmo se contesta.
Este carrasco não tem muito de nós? (Corro o risco aqui de começar a discutir o óbvio achando que ‘encontrei ouro’) Sem entrar no mérito da natureza humana, se somos bons ou maus. Falo de nossas opções, prioridades, do que abrimos mão sem darmos conta. E aí, podemos falar do que quisermos, serve para todos.
Será que não trazemos “as mãos distantes do peito”? E, “no calor da luta”, nossas parábolas, nossa independência proclamada aos quatro cantos ou apenas para si mesmo não são mentiras? Espero que não (embora não acredite nisso). Tenho certeza que, ao baixar do cutelo, se perceber que durante toda a vida alguma alienação, ou motivação secundária, fez com que eu não fizesse nada, tenho certeza, o coração não há de perdoar!

9 de outubro de 2006

Texto de Luis Gustavo Imperatore

Luis Gustavo Imperatore, consultor do Grupo Cherto, gentilmente permitiu que eu postasse seu relato sobre sua experiência em uma favela no Rio de Janeiro.


Compartilho com vocês uma visão da experiência que tive numa favela do Rio de Janeiro.

No projeto da Fundação Roberto Marinho, em que estamos desenhando o modelo de expansão de "Telessalas" (salas de aula de ensino fundamental e médio que usam a metodologia de ensino do Telecurso 2000, o mesmo que passa na Rede Globo), fui conhecer uma dessas Telessalas numa comunidade do Complexo da Maré, conjunto de 19 favelas na zona norte do Rio. Estas Telessalas na Maré são operadas pela ONG Viva Rio, parceira da Fundação Roberto Marinho.
No Complexo há escolas públicas, mas como não conseguem atender a toda demanda destas comunidades, há espaço para a atuação de projetos sócio-educacionais do Terceiro Setor.
Estas comunidades são dominadas pelo tráfico de drogas, violência gritante e explícita no dia a dia e na porta de casa, baixo nível educacional e profissional e conseqüente baixa estima generalizada de seus moradores. Vivem sob um código de conduta social próprio e imposto pelos chefes do tráfico, que isola a comunidade e cria territórios segregados da sociedade civil organizada e do Estado de Direito. A presença do Estado só se faz sentir pelos serviços públicos de água-luz-telefone, ruas asfaltadas, escolas públicas em condições precárias e da polícia que visita com freqüência o território "proibido" em veículos militares blindados em operações de repressão.
Chegamos ao Complexo com uma informação que só piorou a expectativa formada anteriormente: a favela Nova Holanda, que iríamos visitar, é uma das mais violentas. Porém, tínhamos o consolo de que o pessoal do Viva Rio é respeitado e protegido lá dentro. Entramos na comunidade à noite, com um motorista do Viva Rio, já conhecido pelos vigias do tráfico. Para evitar uma recepção agressiva, algumas regras que podem ser vitais: vidros abertos, luz interna acesa, velocidade baixa, nenhuma manobra agressiva, e o percurso que passe por menos "bocas" do tráfico.
No caminho até o prédio do Viva Rio, verdadeiro contraste de excelência em meio à selvageria do estado de permanente guerra civil, algumas visões surpreendentes da forma como a vida e a economia se organizam sob estas condições. Ruas estreitas tomadas por lojas bem montadas, pequenos supermercados e muita gente por todo lado, mesmo à noite. Nenhum sinal de que estejam mal ou desabastecidos. Aparentemente ninguém "de fora" freqüenta o local, a não ser os que consomem os produtos distribuídos nas "bocas". Mas o comércio é fervilhante, parecido com as áreas comerciais de Ciudad del Este, no Paraguay.
Em nosso trajeto, passamos por vários vigias com armamento pesado, no meio da rua, a poucos metros da Av. Brasil e de um quartel da Polícia Militar, fortificação situada nos limites do Complexo. A tensão de estar ali é resultado de um misto da perplexidade do que se vê, insegurança por nos sentirmos intrusos em território alheio e da iminência de atentados que podem acontecer e acontecem rotineiramente. Naquele dia tinha havido pelo menos dois assassinatos na comunidade. Enquanto estávamos na visita às Telessalas, ouvíamos explosões de fogos de artifício, avisos dos "fogueteiros" de que o "caveirão", veículo blindado da polícia, estava entrando no Complexo.
Na mesma noite em que havia um Flamengo e Vasco no "Maraca", salas de aula cheias de moradores da comunidade, faixa etária variando de 15 a mais de 50, sedentos por educação, aprendendo a entender seu papel na sociedade, e tendo, talvez pela primeira vez na vida, o sonho e a perspectiva de melhorar de vida. Os que já conseguiram não querem sair de lá. Sentem-se responsáveis por mudar o meio em que nasceram e vivem, e se comprometem a dar melhores oportunidades às próximas gerações.
Antes de ir embora, uma professora da Telessala pede para esperarmos, vai consultar uma fonte de informação e volta com a "liberação" e o roteiro a seguirmos até a Av. Brasil.
Pouco menos de uma hora dentro da Maré e surge uma série de questionamentos que põem em cheque nosso modelo social, muitos dos quais vão se evidenciar somente com o tempo. Além do alívio de sair do "território inimigo", ficam lições imediatas:
(1) na ausência do Estado surge um poder paralelo que pode ser mais organizado e mais eficiente que muitos governos oficiais
(2) as pessoas são o resultado da formação que a sociedade lhes dá
(3) mesmo em ambiente adverso existe um mercado interessante e canais de venda se estruturam e vivem bem
Mais do que qualquer coisa, a visão é de que somente reclamar e se distanciar de tudo isso não resolve absolutamente nada. Modelos que dêem educação, perspectiva e um sentido à vida das pessoas parecem ser o melhor caminho para soluções sustentáveis.

Luis Gustavo Imperatore

6 de outubro de 2006

O Egoísmo Narcisista de um Herói à Espreita

Desde pequeno acreditei que algo extraordinário iria acontecer comigo. Assim, com seres evoluídos de outra galáxia, num disco voador, que depois de acompanharem meu nascimento, infância, e me saberem especial, viriam me abduzir. Seres com um grau de evolução impensável para um humano se curvariam a minha capacidade intelectual e física e, com técnicas estratosféricas, literalmente, tirariam todos os obstáculos da minha mente e me tornariam único.Talvez fosse herói num seqüestro. O seqüestro da mais bonita seria resolvido após batalhas de dar inveja. Inteligência e destreza, atitude arrojadas e tranqüilidade de monge. Contaria com a ajuda de amigos (coadjuvantes, é claro!) que ao fim difundiriam pelo resto de suas vidas a incrível história do amigo que inacreditável que tiveram.Ah, não pode faltar esta: o gol no último minuto, na final! Sem querer, pode ser, mas comprovadamente um gol de quem tem estrela, de quem a bola procura esbarrar antes de entrar no retângulo horizontal. Estaria eu defendendo o time dos amigos sofridos da vila, que me idolatraram na história anterior, e salvaria o suor de um campeonato inteiro sob o olhar atento da mais bonita que me deve a vida salva na noite anterior. Daria o prazer de existir, entende? Até E.T. telepático me amaria. Você já deve estar desconfiado de que nada disso aconteceu. Até o início deste ensaio, nada aconteceu que me tornasse especial ou herói. Não conto com a sorte de ficar enganchado pela capa quando estava para cair do precipício, mas com a dos normais (se você, amigo, não tem super-poderes entenderá bem o significado disto): tenho mulher que me satisfaz mais que eu a ela. Que me sabe não especial, não me admira em nada, mas criada pela monotonia me dá o prazer de não querer saber para onde vou ou vim.A bola esbarra, de vez em quando, e entra. Certo que meu time não é chegado a decisões, finais de campeonato. Nunca sob o olhar da mais bela a aplaudir com o olhar admirado como quem vê um gladiador voltar vivo da arena com leões. Mas considero-os com o mesmo carinho de pai a filho incompetente. Numa oportunidade vi luzes no céu, pensei estarem chegando, e o coração bateu um pouco mais forte. Luminosos de um fábrica, a mesma que escurece o azul do dia, iluminava o breu. Não chamavam por Batman ou coisa parecida, divertiam-se apenas e eu caí, não eram meus companheiros intergalácticos. Não aconteceu. Caminho com a obstinação dos teimosos, a crença dos fracos, o ‘impávido colosso’ dos obesos; vivo confortável no sofá ocioso dos preguiçosos. Mas sou generoso comigo. Construo com estas e outras características meu ‘eu herói’, o herói que está à espreita dos acontecimentos. Que espera a violência à burguesa para salvá-la e recortar a notícia do jornal da manhã seguinte. Ainda tenho trunfos de herói genuíno: obstinação dos certos, crença dos mais que humanos, ‘impávido colosso’ dos mais fortes que armas; tudo coberto pelo ócio de sabedoria milenar, fonte da frieza e calma onde todos se desesperam. Posso dizer que sou um herói à espera da oportunidade. Talvez um deus qualquer, um com espírito de mãe, me proteja, me coloque longe das grandes tragédias para não correr perigo por meu ímpeto ousado. Talvez me prive de sucessos menores para apresentar-me ao mundo no Grand Finale, com status de herói novo carregando a esperança sobre os ombros.Convivo com pequenos milagres caseiros que não impressionam, mas dizem muito. A observação dos anos de sofá não me deixa perder a volta do programa televisivo após o intervalo de nenhum canal; posso prever o exato momento que o relógio digital do vídeo vai mudar o minuto; do banco do carro, como passageiro, não sei guiar, pressinto a hora exata que a luz verde vai acender. Curto cada um destes sinais de heroísmo existente. Difícil, confidente, é entender porque ninguém nunca notou isso.

Gustavo Novo

Seja bem-vindo!

Olá, amigo internauta!

Decidi criar este blog sem muita coisa em mente. Talvez para criar (mais) uma rotina na minha vida, ter uma espécie de diário público. (Duvido muito que hajam atualizações diárias, se conseguir semanalmente já será uma vitória.)

Bom, é isso aí, conforme as idéias surjam, publico meus textos, pensamentos, piadas, dilemas... O espaço é democrático e a participação de todos é muito bem-vinda!

Grande abraço.