5 de fevereiro de 2016

O elefante que se apaixonou por um aspirador de pó

Não podemos dizer que estivesse na vida adulta há muito tempo, mas não era, absolutamente, jovem. Fazia algum tempo que caminhava sem a necessidade das orientações dos pais e, embora tivesse em seu pai o símbolo máximo de intelectualidade – reconhecido por sua memória acima da média de toda a manada –, se sentia muito à vontade para decidir quais melhores rotas e acomodações; escolher o melhor verde para se alimentar; saber qual parte do rio oferecia a água que mais o agradava. Carregava uma experiência razoável para uma boa vida e um futuro tranqüilo; mesmo assim, não era desgarrado. Nem se quisesse poderia ser: como todos os seus companheiros de trombas, vivia na propriedade de um grande pecuarista numa fazenda continental da África do Sul.
Quando analisamos um acontecimento por completo – com informações do princípio, meio e, principalmente, fim –, é praxe nos apropriarmos dos resultados de cada etapa para julgar qualquer suspiro de quem realizou a ação anterior. Nagu era um elefante como outro qualquer de sua idade. Carregava ainda nos olhos a obstinação por realizações que pudessem surpreender seus amigos e parentes, embora começasse a perder aquela inquietude por resultados imediatos. Era simples, sério, calmo e, acima de tudo, discreto. Um modelo como tantos outros ao seu redor. Ninguém que o conheceu, ou mesmo que tenha dividido intimamente sua companhia, seria honesto se viesse hoje apontar qualquer característica de Nagu como sinal para a desordem para o que sucedeu com o seu probo-coração.
Talvez movido por uma brisa de tédio – monotonia comum para bicho que vive resguardado pela segurança de território demarcado e vigiado –, resolveu que sua caminhada naquele fim de madrugada, começo de manhã, o levaria ao pomar próximo a sede da fazenda. Não era comum aquele passeio; tanto no que diz respeito ao horário, quanto à área a ser visitada. De fato, quando os donos da propriedade queriam ver seus elefantes, precisavam chamar um capataz com jipe e viajar, muitas vezes, por até meia-hora para encontrá-los. E, se fizessem questão que eles estivessem acordados e bem-dispostos, preferiam o fim de tarde.
Poderia beliscar algumas jabuticabas do pomar, mas esse não era o motivo. Para Nagu, as frutas que por lá brotavam não faziam sua retumbante tromba saracotear. Passeava por passear, já que os olhos teimaram em deixá-lo acordado mais cedo. Só.
Demorou muito para chegar. O céu clareou ao compasso lento e pesado de Nagu e chegou ao azul definitivo – chamo de definitivo para intensificar a claridade da manhã; sem ser apocalíptico ou desrespeitoso às matizes azuis do céu – assim que ele parou para descansar em frente à casa. Ouvia o barulho da vassoura e, de onde vinha o barulho, uma porta da casa espirrava o pó.
“Sede”. Estava distante do rio. Havia se esquecido do que implicava se afastar do rio, elementar. Um espasmo, um choque, pensou que havia “se esquecido”! Pensou que havia esquecido! Falha na memória, pontada aguda no orgulho proboscídeo. Evidentemente, uns lembram mais que outros (ou pelo menos se vangloriam mais que outros), mas poucos, ou nenhum, admitem o esquecimento – a pior de suas angústias. Com as orelhas e a tromba – arqueada entre suas patas dianteiras – arrastando no chão, Nagu, caminhou até um enorme pneu de trator que estava apoiado num cercado e guardava um pouco de água da chuva. Deprimido, Nagu mal encontrava forças para sugar o líquido.
Estava distraído entre o gosto amargo da água e o pneumático esquecimento quando escutou um som inédito: chiado, com acelerações intercaladas, às vezes com o som abafado, às vezes mais estridente; resultado da luta entre ar e poeira, poeira e tapete. Nagu esqueceu – e desta vez fez bem – a tristeza em detrimento à curiosidade. Olhava através da circunferência de seu reservatório de roda gasta de trator para a casa, que amplificava daquele som.
Conforme o tempo passava, o som, que trazia a união rara entre monotonia e imprevisibilidade, ia aumentando. A porta principal da casa se abriu e surgiu uma jovem negra enrolada em panos, vermelho e branco, e carregava por uma alça um pequeno instrumento de onde vinha o som. A euforia causou em Nagu seu terceiro esquecimento da manhã, desta vez com conseqüências. Completamente absorto ao chiliquento aparato, esqueceu-se que deixara sua tromba dentro da roda do trator. Quando o corpo lembrou-se a necessidade de ar, quis sugar com força todo ar ao seu redor, mas sua tromba estava sob a água suja que o pneu guardou da chuva.
 (aumente o volume)
-- *!!*!!!!*!!!!!*!!!!!!*!!!!!!!!*!!!!!!!!!!*!!!!. – Nagu acabara de lançar o seu mais forte bramido.
O susto atirou a jovem negra ao chão que, no solavanco, fez com que o cabo elétrico do aspirador fugisse da tomada. Estavam todos em silencio; os pássaros, que antes faziam sua algazarra, também decidiram pelo silêncio. Nagu tratou de se esconder numa árvore próxima, que o tronco, de tão fino, mal escondia sua tromba. Alguns segundos passaram parados, como se o espirro do elefante tivesse feito o tempo parar por ali: nem sinal da governanta negra, pó em paz no carpete e nenhum pio os pássaros ousavam. De onde estava, olhava o aspirador deitado em silêncio no chão com sua mangueira apontada para ele. Ficou por volta de um minuto registrando cada detalhe do aspirador de pó. Até o capataz chegar de jipe com a espingarda carregada nas costas.
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Um único disparo bastaria, mas o capataz deu pelo menos três tiros para cima enquanto Nagu adiantava seus passos de volta à manada. Completamente compenetrado em si, após sua longa caminhada, passou reto por sua mãe que queria saber por onde ele tinha andado e entregou seu corpo, que fervia, a um banho de rio.
Demorou um pouco para se refazer. Conversou com a mãe sobre a longa viagem e fez de seu pai um elefante-branco ao perguntar se ele sabia o que era aquele objeto que o capataz trazia nas costas e que fazia um barulho de pequeno trovão. Mesmo estando em companhia mais que confiável, em nenhum momento passou por sua cabeça falar sobre a outra máquina barulhenta que havia conhecido no mesmo dia.
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Bitolado por aquele objeto estridente, de tromba longa, alça, botões, fio e tomada, Nagu passou a intercalar momentos em que ficava em pé sem andar, com momentos deitado sem dormir. Embaixo de sua árvore favorita, preces e promessas eram rogadas, em silêncio, intermitentemente, quase desconexas. Mas Nagu não pedia a seu deus, Ganesha, felicidade ao lado do aspirador de pó. Essa união, provavelmente, iria sugar toda a sua energia, principalmente por aspectos sociais. Qual elefante, em perfeito atributo de suas memórias, permitiria como membro da manada um aspirador de pó. E tinham outros ‘poréns’: diferenças culturais entre os imponentes elefantes e os submissos, por conseqüência, pouco confiáveis, aspiradores de pó. Estava apaixonado, mas ainda não tinha perdido totalmente seu bom-senso; por isso, demorou tanto a se render.
Antes, teve que certa eloqüência sentimental para convencer sua mente a liberar seu corpo a buscar sua felicidade: como poderiam – alma e carne e tromba e dentes de marfim – viver em paz com a inexplicável paixão dentro do peito e a memória com irritante competência a martelar o coração?  Cada vez que se perguntava isso, sentia mais evidências de que voltaria à grande casa dos fazendeiros. Castigado pela paixão, deixou que seu coração persuadisse a sua mente e, traindo a si mesmo, foi para a casa-sede da gigantesca fazenda.
Fez todo o trajeto sem enxergar ao menos o chão. Noite sem lua. Seguiu o caminho a faro e tato de tromba. Quando chegou à casa, nem um som, além da brisa sobre as copas do pomar. Um som tão sutil que apenas o coração de Nagu poderia escutar. Ainda estava escuro quando Nagu, tocando apenas as pontas das patas, desviando de quaisquer folhas-secas que pudessem gritar o pisão e acordar a casa, contornou a sede metendo os olhos em cada fresta de vidraça. Não demorou muito, lá estava... As orelhas de Nagu se ergueram e, enquanto a vidraça da lavanderia se esforça para refletir a face de Nagu, em seus olhos era nítida a imagem do recipiente plástico com mangueira e cilindro cinza-pele-de-elefante. 
A janela estava apenas encostada, os rolamentos bem lubrificados não fizeram barulho quando Nagu correu as portinholas. Com sua tromba, alcançou o aspirador de pó e partiram juntos para a floresta. Mas desta vez Nagu foi ao sentido contrário de sua manada. Durante a caminhada, nem Nagu, nem aspirador, emitiram som algum. Dormiram próximos à margem do rio. Quando acordou, para não despertar o ilustre seqüestrado, tomou muito cuidado para não fazer barulho em seu banho de rio e estava distraído pensando em quê o futuro o reservava quando ouviu mais novamente o som estridente do aspirador. Num pulo, que esvaziou o rio e encheu as margens por um segundo, o elefante partiu em direção ao som.
– Onde estamos?
Nagu não conseguiu deixar de sentir certo desconforto.
– Morro se cair na água. Pra que me trouxe aqui? Não aspiro terra, não.
– Não quero te matar – começou Nagu –, estamos aqui porque me apaixonei por você.
– Ah, você por acaso não é o mesmo elefante que apareceu há umas semanas lá em casa?
– Isso foi há meses...
– Quase que mata a mim e a minha patroa com o barulho que fez. Minha garantia já acabou, se quebro, vou para a lata do lixo, sabia? Sem enterro, lágrimas, recordações, nada. Sabe o que falam quando morrem um dos nossos? “Maldita lata velha imprestável”! Pra você ver, nem de lata nós somos feitos.
As coisas não iam bem. A ilusão acompanhava apenas o elefante apaixonado. Talvez para alguns o amor não comova. “Mas o que isso importa?” Nagu se aproximou do aspirador; sério:
– Te proponho uma vida que não acabará em latão de lixo. Se tua utilidade, para os homens, termina quando sua mangueira não suga mais o pó e a sujeira, para mim, que tenho tromba como mangueira, pouco importa essa sua virtude.
– Mas que razão tem viver um aspirador desligado?
– Não estará desligado. Serei feliz em cumprir suas ordens. Dê as ordens e eu as cumprirei. “Assopre aqui; aspire ali; não deixe sujeira acumular no canto”, eu terei prazer em servir.
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Assim, o elefante que se apaixonou por um aspirador de pó encontrou um meio para viver o resto de sua vida. Uma sucessão de pequenos enganos e engodos uniu os dois mambembes. E, para que essa história desse certo, elefante, antes imponente, rendeu-se à rotineira insensibilidade eletrônica de aspirar e engolir a seco toda a sujeira e pó das paixões irresolúveis.
Viveram juntos para sempre.

1 de novembro de 2013

Olhos ao mar

Pilantragem, pode até ser. Mas guarde a atiradeira no bolso de trás, como exige o figurino, porque ninguém há de lançar a pedra fundamental da discórdia quando afirmo: todo mundo já aplicou um versinho (que seja) de algum compositor nalguma quebrada das tortuosas e mal iluminadas vias da conquista. 
Chamar de pilantragem é sacanagem, embora possa até ser. 
Afinal, como se sabe, não é todo mundo (sim, é um eufemismo) que cai por aqui com o bojo de um Vinícius; de um Caetano; Chico; Tom; Lupicínio; Gil; e tantos outros fabricantes deste arsenal de flechas versadas que, pelo menos uma vez na vida, nem que seja por desespero, lançamos sem pudor.  Às vezes, incrementadas com um tom meio Seu Jorge, entre um gole e outro e olhar-43-cafa-Sinatra. 
Chame do que quiser, mas, você há de convir, casal que se presa tem trilha sonora. Musiquinhas que aumentam o som do rádio, do arcabouço, e põe aquele sorrisinho no canto da boca – abre a cova na bochecha, enquanto o coração caleja a caixa tentando se desenterrar de dentro do peito. 
Há, todavia, lei tácita que rege o bom uso dos poemas-cancioneiros-populares. Não pode, por exemplo, como fiz em meus primeiros e embaralhados passos, disparar Soneto do Amor Total, de Vinícius, a torto e a direito. Berrar no ouvido da pobrezinha que esbarrou em você na discoteca – isso mesmo, baladinha era chamada de discoteca –, no compasso, disputando com o puts-puts amplificado, “amo-te tanto, meu amor, não cante o humano coração com mais verdades. amo-te como amigo e como amante numa sempre e diversa realidade(...)”. Isso não pode dar certo. Na verdade, não deveria. Embora, às vezes... Enfim, antes “é preciso sagrar-se cavalheiro” e, não menos importante, respeitar o contexto. 
O tempo faz entender melhor os cenários. Coloca a prova qualquer recalco musical e prova que, para viver de biscate, o bom e velho “você é luz, é raio, estrela e luar”, pode sim, tem lugar e, muitas vezes, dá mais em ia-ia e iô-iô, que desmilinguir-se todo subindo a “(...) montanha, não como anda um corpo, mas um sentimento”. 
O tempo mostra o cenário, ensina, mas aos poucos. Num tic-tac de relógio de corda, segue-se a vida “aperfeiçoando o imperfeito, dando um tempo, dando um jeito, [muitas vezes] desprezando a perfeição”, meta defendida pelo goleiro da seleção, e sempre tem uma liçãozinha a mais. 
Superei há muitos anos o, tantas vezes reciclado, reutilizado, Soneto do Amor Total – guardado para, quem sabe no tálamo derradeiro, quem sabe precisando ajeitar seu tempo verbal, voltar a declamá-lo com a probidade que, tanto o poema e quanto a musa, merecem. Mas, se desta armadilha me preservo, outra chega a cavalo, ou no píer das desilusões. 
A clave de sol, no caso, era uma moça triste, de sobrancelhonas-pretas-e-zóiões-verdes-água. O namorado lançara-se ao mar, hóspede de um navio, e tardava a voltar. A conheci onde gente triste se conhece. Descobrimos um amigo em comum. Me angustiei com a sua angustia, me comovi com todo o seu sentimento e depois vi que tudo aquilo pertencia a nós dois e todo o mundo. Poesia solta do papel; sem compostura. 
“Morena dos olhos d’água, tire seus olhos do mar, vem ver que a vida ainda guarda o sorriso que eu tenho pra lhe dar”. Não levei mais de um minuto contando a história para o grande amigo César-engenheiro-Boy, e ele, displicentemente, Burt Bacharach enxerido no meu filme, impôs a trilha sonora. Impôs, digo, por precisão, competência. A letra de Caetano tinha a caligrafia daquela dissertação. 
O dilema moral estava travado: posso aplicar a poesia de um, que foi indicação de outro, na história que eu quero construir? Afinal, qual minha participação nesta história? Afinal-dois, o que o cara tinha que abrir a boca dele? Eu ia chegar à mesma música sozinho, certeza. “Certeza?... Certeza!”. Pode chamar de pilantra, com uma pitada de constrangimento, cantei a música. 
Lançados ao mar, todos os olhos são d’água. Às vezes, no entanto, emerge um continente, talvez Atlântida perdida, sobre as águas dos olhos. E a ordem só pode se restabelecer com o retorno do engenhoso, preciso e estável navio. Sem atraso, a nau ancorou de volta e os olhos dela embotaram. 
Eu sigo “caminhando e cantando e seguindo a canção”, Zé Qualquer conversando com Almirante de Tamandaré. “’Seu’ Marquês, ‘seu’ Almirante do semblante meio contrariado, que fazes parado no meio dessa nota de um cruzeiro rasgado. ‘Seu’ Marquês, ‘seu’ Almirante sei que antigamente era bem diferente, desculpe a liberdade e o samba sem maldade deste Zé qualquer. Perdão Marquês de Tamandaré. Pois é, Tamandaré, a maré não tá boa, vai virar a canoa e este mar não dá pé. Tamandaré cadê as batalhas? Cadê as medalhas? Cadê a nobreza? Cadê a marquesa, cadê? Não diga que o vento levou teu amor até...” e chutando pedrinhas em portos abandonados.

*Escrito para o tema Qual é a Música, para a página Situações Crônicas 

22 de agosto de 2013

O sagui de Paranoá

Agir pelo não agir; lei do mínimo esforço; ócio criativo; ou a máxima de Mário Quintana, que convence que “a preguiça é a mãe do progresso”, concluindo que “se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda“. Ah, poucas coisas podem nos acalentar melhor do que a recordação destas sentenças (e tantas outras) suspenso numa rede enquanto o chinelo estala a queda ao chão onde permanecerá. Ou, noutro cenário, noutro clima, na outra estação que, mesmo que não façamos nada, nunca deixou chegar: sob a coberta, sob o teto, sob as telhas sob o frio lá de fora; em frente à televisão; sobre o sofá que lamenta um pouquinho cada vez que o corpo se mexe.
Mas não vou aprofundar homenagens a esta ninfa morosa. Além da filosofia que a sustenta ser frágil, ela, a preguiça, não há de esperar que este fiel servo seja provocado a debates sobre a necessidade do trabalho, sua importância social, econômica, familiar. A quem se propuser, e levantar esta bandeira, as batatas. “Demasiadas palavras, fraco impulso de vida”, pode cantar.
Considero as observações necessárias, não como apologia à vadiagem. Seria contra-senso; desserviço. No entanto, é importante mostrar que a filosofia do ócio – repito aos debatentes de plantão, comprovadamente falida –, mesmo mal embasada, está enraizada e há muito tempo ocupa meus devaneios nesta espécie de alquimia, onde o tubo de ensaio é o sofá, de conquistas sem diligência; ou sob as leis do mínimo esforço.
Réu confesso. E não poderia ser diferente, dada a quantidade de testemunhas de meus não atos. Testemunha que tenho e posso evocar seu depoimento caso levantem suspeita sobre a veracidade da história que contarei.
À época namorada, ainda hoje grande amiga e companheira, cuja idoneidade dispensa qualquer defesa, com nome e sobrenome, Mariana Navarro, estava lá. Nós, em campana vadia, na varanda de uma casa em Paranoá, cidade satélite de Brasília, nos primeiros dias 2003. Tínhamos saído dias antes de São Paulo para acompanhar a posse do presidente Lula. A casa onde estávamos hospedados – talvez o certo fosse chamar de sítio – era visitada todos os finais de tarde por um grupo de sagüis interessados num pomar com jabuticabeiras e outras árvores de frutas que os anfitriões ofereciam. Logo adaptamos nossa rotina a observá-los em sua última refeição, enquanto tomávamos o café para rebater o que sobrara da noitada anterior.
Antes de prosseguir, explico que não me dispus a contar esta história para entrar na lista de desafetos do padre Quevedo, ou virar personagem dos programas da tarde que ele gosta de participar. Não tinha fita métrica, mas estava dentro do limite (a menos de cinquenta metros do alvo da manifestação) que ele, o padre-parapsicólogo, cobra como distância máxima antes de dizer “isso no ecxiste! este homem és una farsa!”.
Dito isso, voltamos à varanda. Eu e a Mari sentados nos degraus da escada; um ventinho bom levando a fumaça e espalhando o cheiro dos copos de café; os macaquinhos agindo como macaquinhos no pomar. O pensamento pulava de idéia em idéia no ritmo dos sagüis até quebrar o silêncio.
-- Má, você sabe que a nossa mente tem poder?
-- Hum.
-- É, se quisermos, podemos mexer objetos, atrair coisas só com o poder da mente.
-- Hum.
-- É, telecinese.
A verdade é que eu só queria puxar assunto, mesmo que o silêncio não incomodasse.
-- (...) Tá vendo aquele macaco?
Tinha um macaco longe do resto do grupo; numa árvore um pouco afastada.
-- (...) Então, se a gente quiser, a gente pode derrubá-lo apenas com a força do pensamento.
-- Hum.
-- Fica vendo.
Encarei o saguizinho, levei os dedos indicadores e médios das duas mãos às têmporas dando pequenas voltas e permaneci por não mais de cinco segundos. Como uma jaca amarelada pelo tempo, o macaco despencou da árvore e se estatelou no chão. Levantou, deu uma sacudida, coçou a nuca, olhou para os outros macacos para ver se algum caçoava e subiu ágil de volta às entranhas da jabuticabeira.
Se eu tivesse presença de espírito, seria minha consagração; Uri Geller teria um concorrente. Mas aquele macaco caiu e subiu muito mais rápido que as minhas fichas. Olhei para o lado e os olhos arregalados da minha companheira orientalizaram-se em comparação com os meus. Estava mais assustado que ela.
 O susto acalmou e os anos continuaram a passar pouco a pouco diluindo a esperança que aquele acontecimento nutriu em mim. Quantos exercícios em vão. Quantos filas em lotéricas. É verdade, aproveito para confessar, a vida me transformou num socialista de fila de lotérica. E, até agora, se somos mesmos dotados daquela habilidade, só serviu para derrubar o coitado do sagüi. Parapsicólogo de merda.

Agora, com licença, vou mandar uns currículos porque o dinheiro não está caindo de árvores. 

16 de julho de 2013

Em julho, Londres bandida nos visitava

Poucos períodos talvez sejam tão emblemáticos e representem melhor o meu caráter do que as férias de julho; ou férias de inverno no hemisfério sul deste planeta, próximo ao trópico de Capricórnio, 23° 41′ 38″ S, 46° 33′ 54″ W, onde fui criado e vivo.
Passado o entusiasmo inicial do primeiro dia de aula, em fevereiro, quando a saudade dos amigos nos fazia esquecer a maratona acadêmica que começava, logo vislumbrava no calendário o início de julho. Com os ouvidos embaçados à palestra inicial da diretora da escola, aquele sétimo quadrado, quadriculado, com números de 1 a 31, induzia meu pensamento à cama. Ao acordar sozinho na casa em silêncio, apenas sob uma leve névoa de inveja daqueles que, por não serem mais estudantes, logo cedo haviam virado fumaça.
No entanto, a mesma aspiração que me carregava ao descanso prescrito das manhãs, abduzia à minha razão um ponto fundamental: fazia frio. Bastante frio. E, com os amigos todos entocados, dissipar o entusiasmo vadio e energia de um menino de onze anos não era exercício trivial. Por isso, na primeira manhã de férias, vestia as meias de lã confeccionadas pela minha mãe e corria para a folhinha admirar e convocar o dia 1º de dezembro: férias de verão, de três meses; de rua com hidrante aberto esguichando água na molecada. Não aquela moeda gelada de um mês que o somítico calendário escolar oferecia.
Em julho o dia faz-se claro tarde, escurece muito cedo e a Serra do Mar, principalmente naqueles anos, soprava uma névoa de cegar todos os fins de tarde. E fazia frio; bastante frio. Mesmo que algumas festas juninas que não cabiam em seu mês invadissem o mês seguinte, geralmente, elas vinham acompanhadas das recuperações que eu e meus amigos trazíamos do semestre letivo. No entanto, mesmo com a resistência gelada, nunca faltou quórum para as brincadeiras de rua que terminavam com a fumaça, do cigarro imaginário, que nossos pulmões quentes ofegavam através de nossas bocas.
Do frio e do sereno, o que falava a nós era um não-sei-quê de Sherlock Holmes ou Scotland Yard no encalço de Jack, o Estripador. E, inconscientemente, nossas brincadeiras eram pautadas e se adaptavam a este cenário de romance policial.
A regra, ao contrário daqueles dias, sempre foi muito clara e não variava entre nenhuma mãe: escureceu tem que estar dentro de casa. O que variava era o castigo por seu descumprimento. Em geral, aos delinqüentes, sobravam umas palmadas e uma bela fração das férias trancado dentro de casa. Embora deva cometer justiça aqui: nunca levei as tais palmadas, tão pouco fiquei de castigo, mesmo desafiando a ordem regularmente. Mas sofria por tabela às punições aplicadas sobre meus amigos. Incontáveis foram as longas e cinzas tardes que passei conversando com eles pelo vão da porta ou da janela; eles presos dentro de casa e eu à necessidade de suas companhias.
E geralmente eram nesses dias que combinávamos o que faríamos durante o intervalo entre o castigo vigente e o próximo. Mulheres ainda não eram alvos de nossa atenção – eufemismo à parte. Nossas referências de pessoas respeitadas naquele tempo eram os garotos mais velhos que aterrorizam o bairro: ladrõezinhos de padaria com alvará do ensino formal. Juntando isso àquele cenário londrino, ou de Gothan City de Batman ausente, não era de se surpreender que nessas reuniões surgissem idéias de contravenções estapafúrdias.
Com os dias anoitecendo por volta das cinco da tarde e os pais, em sua maioria, dependendo do transporte público para voltarem do trabalho, tínhamos pelo menos duas horas para aproveitar a anárquica escuridão e o anonimato que ela oferecia. Então, assim que a névoa da tarde encerrava a guerra de pipas no céu, nossa diversão era invadir escolas, construções, bibliotecas e todo e qualquer lugar onde houvesse pelo menos um vigia.
Nosso lugar de incursão predileto era o Elis Regina. Um espaço grande, sem grades nos jardins e estacionamento que o cercavam, com biblioteca, teatro, e pelo menos três vigias por turno. Antes de invadir, identificávamos onde cada guarda fazia o sua ronda, traçávamos metas e a rota de nossa fuga. Não havia plano de vandalismo ou qualquer apropriação indébita. O objetivo era sempre o mesmo: invadir, ser descoberto e fugir sob o sons dos apitos dos guardas. Completamente alienados às emoções que os livros da biblioteca poderiam oferecer, ou as apresentações de teatro, íamos para o espaço cultural em busca da adrenalina mais básica -- das perseguições.  
Se os anos trouxeram algum bom senso que me afastou da delinqüência, sigo retratado naquele menino dos primeiros dias de aula. Anelando o alívio e a satisfação mais próxima, porém míope para o seu contexto amplo, acabo por ter que fantasiar sobre as imperfeições do objetivo alcançado e traço planos e projetos onde possa encontrar graça e me divertir sob a névoa onde existo.

5 de junho de 2013

Capitão Kong

“A memória é uma ilha de edição” pertence àquele grupo de sentenças certeiras que parecem ficar vagando, no oceano suspenso e invisível de idéias, ao redor de nós, até serem pescadas por alguém. Os preguiçosos difusores da coletânea-clichê “O primeiro (amor, transa, sutiã, carrinho de rolimã, talho na testa, ou seja lá o que for...) a gente nunca esquece”, devem ficar intrigados com a frase fisgada pelo anzol de Waly Salomão. Poucos são aqueles que, talvez por alguma disfunção neurológica, guardam cada detalhe de tudo o vivenciaram ou viram – fotógrafos de memórias. Mas para estes o exercício, recordar o primeiro amor, provavelmente não sirva. Estão condenados a viverem aprisionados junto às lembranças que não dão lacunas à poetização leviana que nós, com cérebros menos competentes, temos o prazer de oferecer às sessões imaginárias do grande filme que protagonizamos. A eles restam as certezas.
Assim enfloro, firulo, como subjugo, o resultado que está por vir. A história começa assim – ou melhor, começa um pouco antes, assim:  
Sentado no chão da sala de casa, tenho à minha frente uma grande arca suporta a TV e centenas de fitas VHS da JVC, ou Maxell, em sua maioria, já defloradas. Ao lado da TV, trabalham dois vídeos cacetes e um emaranhado de fios acostumados a desafiar FBI Warning que iniciam os filmes alugados e advertem sobre as punições aos piratas. Sexta-feira é dia de alugar três filmes pelo preço de dois e devolver só na segunda, rebobinados, evidentemente. Com quatro anos, sem saber ler ou escrever, meu pai sempre traz um filme dublado para o filho caçula.
Ao som do portão se abrindo, corro para receber meu pai. Os cumprimentos à sua chegada nesses dias são protocolares. As mãos e olhos logo correm para o pacote que carrega os filmes. “Este é o seu, Gugu”. E assim meus pais garantiam pelo menos duas horas de sossego.
Foi numa destas sextas-feiras que meu pai chegou com este filme. Na capa, um macaco enorme, lutando contra aviões e helicópteros, com um pé em cada uma das torres do que eu viria saber, anos tarde, chamar World Trade Center.
Aos meus olhos, a viagem exótica à ilha desconhecida, o barco, os nativos e o macaco logo sucumbem à personagem resgatada pelos exploradores em sua jornada. Os nativos logo perceberam que não haveria oferenda melhor para acalmar a fera que Dwan (Jessica Lange). Linda, entregue com todas as pompas de estrela hollywoodiana ao gorila gigante, em seu banho de cachoeira, além do coração do símio, desfibrilou também meu pequenino coração. Fiquei vidrado. Gastei a cópia que fizemos e nunca mais pude ser o mesmo; ou pensar em viver apenas comigo mesmo.
Mas há muito, mesmo para Platão, neste disparate que mereça receber o louro de “primeiro amor”. Como disse, comecei um pouco antes. Este preâmbulo serve apenas de embasamento para o que viria a ser minha primeira viagem aos meandros deste “comboio de cordas (‘que gira a entreter a razão’) chamado coração”.
Reinava hostilidade na EMEI Guilherme de Almeida, próxima a minha casa. Os alunos do pré I, II e III se dividiam em grupos e alguns territórios eram demarcados pelos grupos – Faixa-de-Gaza-Fraldinha. O grupo que liderava chamava-se Thundercats e nossa base era embaixo da “árvore do sangue-do-diado” – por causa da seiva vermelha que escorria em seu tronco. Mas o amor é mesmo o mais poderoso antídoto à violência. Em meio às articulações de guerras de mamonas, campanas e emboscadas, incursões às lancheiras inimigas e operações-tachinhas na volta do recreio, estava claro que não tinha mais o mesmo entusiasmo.
Apenas suspirava, “Ah, a Cris”. A Cris era uma japonesinha de calça azul, camiseta listrada, como exigia o uniforme, e lacinhos ora vermelhos, ora amarelos, ora azuis prendendo os cabelos. Além de dividir a mesma sala de aula e as atenções da tia Marli todas as manhãs, morava na mesma rua que eu. Mas, como se sabe, naquele tempo os portões eram muito mais altos, os cadeados não tinham chaves e a rua bem mais comprida. Restava, às matinês, buscá-la de binóculos pelo vão da grade de ferro de meu portão.
Dediquei desenhos. Sentei ao seu lado nos recreios. Suei frio atrás de assuntos que puxava. Ela seguia impassível.
Convoquei uma reunião entre os Thundercats.
Sob a árvore do sangue-do-diabo, expliquei o plano. Não iríamos atacar os meninos da Fubem, ou da vila Ferreira. Nossa cruzada naquela manhã tinha outro propósito: eu ia beijar a Cris. Dividimos a turma. Um grupo ficou responsável por distrair a tia Marli; outro armou a insídia. Coitadinha. Enquanto brincava, nos aproximamos. Meus comparsas fizeram a cobertura, tornando aquele espaço do pátio o altar de oferenda pagã. Rompi o bloqueio, lutamos um pouco e, no chão, não pôde evitar o selinho que lhe dei.  
Ela chorou; eu corri – já arrependimento. De volta à árvore do sangue-do-diabo, talvez eu fosse o mais constrangido nas comemorações com o grupo. E, para o remorso ser ainda maior, na saída, com as bochechas e narizinho vermelhos pelo choro, veio em minha direção, ao lado da mãe, para entregar o convite de seu aniversário. Com o braço estendido, quando peguei o convite – feito a mão –, vi que seu dedinho trazia agora um Band-Aid. O choro era pelo beijo roubado, ou por tê-la machucado? Nunca soube, embora creia que tenha sido pelos dois.
Mesmo assim, continuamos amigos até o primário (e um caminhão da Graneiro) nos separar.
Outros tiveram Clark Gable, Marlon Brando, James Dean, Sinatra. Tive o King Kong como modelo de conquistador de cinema. Acho que foi isso.
Embora consiga editar um pouquinho do que aconteceu naquele tempo, fora da tela não há como rebobinar. Talvez, se pudesse, ao contrário de King Kong, não caísse nas mesmas armadilhas todas as vezes. Talvez em outras; piores ou melhores. Mas decidi: não queria mais o protagonismo de macaco grande e bravo. Sigo desemaranhando os cordões do peito, pouco a pouco, capitão da nau, com o leme solto em busca da próxima ilha desconhecida.

6 de março de 2013

O Homenageado

Caminha sem pensar cada passo, mas nas pegadas sobre a neve que segue deitando. Não olha para as pegadas que deixa para trás, não pode vê-las; mas as cria na imaginação em formado ideal. De fato, sonha maiores que os calçados que veste. E segue seu registro em linha reta, no centro da rua, a esmo. Espólio que sucumbe lentamente sob cada floco que cai e retoma em planície o asfalto-branco.
Pensa compassado:
“Não devia ter ficado quieto”; “e ela”; “que burrice”; “consigo lembrar o cheiro”; “por que o pavor”; “saudade hoje?”; “que segurança a razão me dá?”; “ainda?”; “a bateria do telefone”; “velho?”; “gostei daquela mostarda”; “olhos verdes”; “há quantos anos foi isso?”; “não, eram de mel”; “acho que faria igual”; “falei ou só pensei?”; “deixei no criado-mudo”; “ninguém por perto”; “assim mesmo venci”; “uma janela aberta”; “qual era o nome daquela mostarda?”... dividem-se, entre os aflitos nervos do peito e as aflitas palpitações de seu cérebro, as pegadas no chão.
Sem cobrar de seu pescoço flácido mais que o trabalho de sustentar a cabeça levemente inclinada para baixo, os olhos caminharam à direita, depois à esquerda e retornaram a neve que precedia a cunha de seu pé – primeiro o direito, depois o esquerdo. Alguma melancolia fez subir uma das pontas de seu lábio: um sorriso? Um sorriso.
A neve parece preferir seus ombros ao grisalho do cabelo, barba, sobrancelhas e cílios, destoando do lôbrego paletó que também conota a cena.
“”Olhos macios e quase líquidos’, onde li isso?”. E sentindo marear os olhos duros, sentiu os passos mais vagarosos, o pensamento vago, os passos mais vagarosos, os cabelos pararem de crescer, os passos mais vagarosos, a barba enrijecer, os passos mais vagarosos, os olhos congelarem, os passos mais vagarosos, um arrepio, os passos mais vagarosos, os joelhos arranharem, os passos mais vagarosos, os lábios lívidos, os passos mais vagarosos, a mão esquerda fincada no bolso da calça, os passos mais vagarosos, arrepio nas costas, os passos mais vagarosos, os pêlos como agulhas... e estacionou. Prostrado em pé no cruzamento vazio.
A neve lenta, eficaz e constante, seguiria a apagar os passos que o conduziram até a manhã se precipitar junto com os passos da moça que pulou a janela e volta para casa antes de seus pais acordarem. Ela será a primeira a encontrá-lo estátua. E se, como um garantia Michelangelo, “não tem o ótimo artista algum conceito que o mármore não circunscreva”, o que se dirá deste homem, esculpido pela vida e estátua de fora para dentro, sem pegadas, sem história? Sei o que dirão. Os simpáticos, conformistas confortantes católicos, mantenedores da ordem que, em geral, mexem seus lábios em contraponto às suas ambições e pregam palavras de paz e ordem, repetirão até tornar-se verdade que aquele senhor bem vestido e sorridente morreu feliz. Que, homenageado por deus – que a todos oferece o merecido –, tornou-se a escultura que mereceu por uma vida digna; servidor modesto em ofício sepulcral.

29 de fevereiro de 2012

Comunhão entre pobres demônios

Neste mundo de continente, de pessoas espremidas, de pernas que se entrelaçam – e saem entre as pernas, outro par de pernas que logo se espremerão – sinto abafado o meu passo. Uma vocação alienada parece levar para lugares onde o espaço já foi ocupado. E para que caminhar com passos tão parecidos aos demais?

Não tenho ambição alguma a não ser o conforto dos pequenos, tardios, relapsos, abafados, curupiros passos de uma cômoda à outra – sem precisar atravessar porta alguma. Ou, se tiver, que sejam portas entre cômodos.

Descalço os sapatos para que um dia, quem sabe, logo volte a caminhar com os cadarços amarrados um ao outro.

Mas, quando saio, sinto que os donos das pernas que me confundem, amedrontam e dão calafrio, compõem os parafusos que devem ser parafusados; e que as palavras que invento, muito antes de serem ditas, já valeram, com extraordinária beleza e competência, a ouvidos e olhos muito mais atentos que os meus.

Os filmes são produzidos; os carros são produzidos; o óleo é extraído; os médicos consertam pacientes que perdem as pernas de tanto usá-las; as árvores são arrancadas e fatiadas e molduradas e carregadas e aleijadas na sala de estar; os bares devolvem os cascos de cerveja vazios e a cervejaria acaba por enchê-los.

Minha cama permanece inerte. O lençol, cada dia mais roto, com dobras que se confundem com as minhas, continua a marcar as minhas costas gordas.
Pairo descalço. E quando olho para o baixo-chão-próximo vejo o par de sapatos com os cadarços amarrados um no outro.

E, da vidraça do alto de um prédio, não vejo campo belo. As pernas que durante o dia são percalços às demais, e prometem entrelaçarem-se às outras quando há noite, ao lusco-fusco-olhar parecem as patas que sobraram junto à carcaça do besouro que serviu de banquete às formigas.

Madrugada. Nem uma comemoração nos biombos suspensos ao meu redor. Não vejo terra, ou sinto seu cheiro. Imagino o quão belo possa ter sido o sítio onde hoje plaino descalço. Há, distante, uma árvore triste. Posso ver uma árvore triste e sentir o estômago reclamar a saliva que engulo.

21 de novembro de 2011

Luísa quer aprender a ser feliz

A limpeza e a organização da superfície sem rugas de sua mesa de madeira de maneira alguma despertam a curiosidade ou preparam a expectativa de seus convidados para as gavetas inundadas por papéis franzidos pelo sulco de lápis que já perderam a ponta. Luísa segue destemida e concentrada em seu cenário. Focada em seu trabalho e em manter a mesma organização em sua vida. É lisa a testa, como a maça do rosto, como o aceiro ao redor e entre as sobrancelhas e as sutis estrias no canto dos olhos. O sorriso há alguns anos deixou de fazer cova e a vida apenas a espera.

As folhas manchadas envelhecem histórias impublicáveis. Não por pudor-cristão-bobo – recato que, além de a cada dia estar menos em voga, Luísa jamais alimentou. Na gaveta emperrada estão registros sem memória; passado isolado; blecaute; esquinas erradas; esboços de uma personagem que viveu e desapareceu na trigésima página do livro: o romance perdeu seu protagonista; a ficção está no cacifo; Luísa pode viver indiferente. Dobrados, amassados, rasgados e presos, os registros de um passado não tão distante são letras embaralhadas: anagramas emperrados.

Às vezes distraída, esquece de deixar o orbe oco do atelier que carrega em si, e unta a argila fresca em suas mãos nas mãos de seus clientes; ou em torno-pescoço, nuca, peito, costas, quadril, bunda, pau, escroto e coxas de seus amantes. E sem querer cria modelos frívolos. Desenha sem querer estradas e mais estradas que não pertencem a mapa algum e nem mesmo estão conectadas entre si.

Em sua redoma, vedada, vive chapada para se desacostumar com a dor. Mesmo que às vezes a mente a traia numa música que toca abafada dentro da gaveta; na linha escrita por algum escritor que acidentalmente desvenda um ou outro de seus anagramas; na maconha que a solta da sacada. Nessas horas, como uma pontada, tudo volta e Luísa quer aprender a ser feliz. O lúdico surge à tona, respira um pouquinhos, mas educadamente volta a submergir. 

Só que hoje isso pode estar mudando. Enquanto as letras vão sendo desenhadas nesta folha, as mãos de Luísa, limpas de argila, parte lisas parte calejadas, estão sendo esculpidas por outras mãos e os seus olhos não encontram mais refúgio oco. Deixa desfibrilar o coração? Sente uma ponta de egoísmo, duvida um pouco de que tudo possa dar certo e sente o vazio de tudo que conquistou sem paixão.

14 de outubro de 2011

Jarbas não quer morrer



Desperdiçando mais uma chance de garantir alguns tostões, entregando as pálpebras à gravidade do sono e o espírito à sua liberdade flutuante, enquanto dorme numa cadeira universitária, na sala de espera de uma empresa de telemarketing, Jarbas não escuta o chamado para o início da dinâmica entrevista em grupo que será na sala ao lado. Os outros poucos candidatos que também aguardam, acordados-sadios, levantam-se e vão. Jarbas dorme.
Dorme sem querer acordar; dorme sem querer dormir; sonha sem saber. Jarbas não pensa em morrer, ou que morre a cada intermitência de sua consciência. Às vezes, sonha sem saber, ou querer. Entorpecido a qualquer hora, como nesta sala de espera, enquanto faz jus ao nome da sala, entregando-se com esperança de ouvir o seu chamado.
Voltando para casa, andando na calçada, olhando à calçada, para as pessoas, para os sapatos ora desamarrados, não sabe dizer o que quer: olha tudo sem foco.  Mas, sem saber, quer o cadarço amarrado, quer o sapato calçado, quer uma chance; não desperta ou pensa em ter foco. Pensa na vontade, pensa na carteira. Anda e atravessa. Atravessa sem vontade.
Jarbas às vezes pensa em morrer. Não quer casar, não quer construir, não quer garantir, não quer filhos ou lar que valha. O carro não quer vender nem pode abastecer.
Mas mesmo sem pensar ou ambicionar, sabe aonde o leva os calçados desamarrados. Não ao lindo futuro. Não ao personagem que inspire ou sirva de exemplo em comerciais de margarina; tão pouco perfil de alvo da próxima campanha publicitária do novo sedan da Toyota. Vai para onde recebe a recompensa imediata – ao amigo, a qualquer mulher, ao botequim. Nessas horas, com seus pares, encontra-se consigo mesmo. Enxerga, argumenta, defende, se expõe; deixa de se sentir ficção.
Então, entusiasmado, eufórico, inventa o seu próprio futuro e suas únicas alternativas para refazer o seu destino. Inventa o aplicativo que oferece o playlist das rádios; o pão de que já vem em três fatias; a rede social que aproxima as pessoas que estão próximas umas das outras; um par de luvas-retrovisor, com um pequeno espelho flexível em cada palma; um quiosque numa praia poluída que se chama Impróprio para o Banho, a coleira-gps para ninguém mais perder seu animal de estimação ou seu companheiro.
E Jarbas não quer morrer.
Quando chega ao ápice, goza o pleno prazer e dorme. E goza os melhores sonhos. Por vezes têm super poderes: mediunidade, invisibilidade, pode voar, lê pensamentos, anima objetos. Mesmo quando morre, acorda com o tórax às vésperas da quarta-feira de cinzas, mas com a lua decrescente estampada nos lábios de seu rosto. É a sua vivência; a maior experiência que carrega.
Ao acordar volta ao seu estado letárgico e tudo volta a ser invenção em seus delírios; nada se materializa. E embora a vida lhe pareça um tanto inadequada, Jarbas não quer morrer. Míope, volta a procurar em sua ilha o espaço para a sua realização. A morte lhe chega como matéria produzida. Solução prática, mas pobre, comum demais – até um pouco brega. Prefere deixá-la apenas como substantivo para a sobrevivência de suas religiões.     

16 de setembro de 2011

Carta a Luiza

Olha, eu estou tentando, mas está difícil sair algo novo. Então recorri a um texto "de gaveta". Noutro tempo; numa dedicatória. Peço licença à homenageada, Luiza, que nasceu um dia antes deste texto, há quase três anos.
É uma homenagem da qual, com a modéstia a escanteio, me orgulho. Com a ajuda do mestre Caetano e, claro, da pequena musa.



Cabedelo, Paraíba, 22 de novembro de 2008
               
Seja bem-vinda, Luiza!

                                                                               “Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz...
                                                                              Céu azul que vem/ Até onde os pés tocam a terra/ E a terra inspira e exala seus azuis...
                                                                              Reza, reza o rio/ Córrego pro rio e rio pro mar/ Reza a correnteza, roça a beira, doura a areia...
                                                                              Marcha um homem sobre o chão/ Leva no coração uma ferida acesa/ Dono do sim e do não/ Diante da visão, da infinita beleza/ Finda por ferir com a mão essa delicadeza/ A coisa mais querida, a glória, da vida...
                                                                              Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz”.

                               Escolhi esta música de Caetano Veloso, que presta homenagem ao nascimento do sol, para dedicar a sua chegada, Luiza. A música canta bonita para mim, como li bonita as linhas que seu pai escreveu te anunciando. O sol, e a sua luz, como logo perceberá, traz a todos, igualmente, força para seguirmos nossas vidas e realizações. Aproveito esta dedicatória, para chamar sua atenção aos olhos, e olhares, – apaixonados – que recebe de seus pais, parentes e amigos: Luiza, “a coisa mais querida, a glória da vida” é “verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz”.
                               Alegra-me muito sua chegada, Luiza. O mundo que te recebe, e que te acolherá, precisa de boas pessoas. Nasce você em “berço esplêndido” – como canta o hino da pátria –, sendo filha de Fernanda e Gustavo, tenho certeza que chega para fazer do mundo um lugar mais belo, justo, honesto, agradável; enfim, melhor. Tem em casa excelentes modelos para isso, saiba.


                               Mais uma vez, seja bem-vinda, pequena Luiza. Materializo nestas linhas, meus melhores e mais profundos votos de felicidade, paz, alegria, saúde... Nesta grande sala de aula que é a vida, há espaço para brincar, se divertir e fazer muitos amigos com os quais poderá contar sempre: aqui, atrás destas palavras, tem um.
                               Um grande beijo, com o coração aberto à amizade.

21 de janeiro de 2011

Apenas um trecho...

 Ando meio sumido daqui, por isso, resolvi postar um trecho de um texto que eu não sei no que vai dar.  Espero postar com mais frequência neste 2011 que está apenas em seus primeiros passos.

Abraços.

“(...) Embora algumas pessoas manifestassem grande insatisfação por, de uma hora para a outra, passarem a viver na cidade de o Quinto dos Infernos, foi necessária a organizada igreja católica entrar em ação para que o repúdio por aquela instituição se tornasse algo organizado. Juntou fiéis, preparou manifestações, comícios em praça pública; entendeu que o momento era de união entre os cristãos e, liturgicamente, propôs a união entre católicos e protestantes – mesmo assim, reunidos, católicos e protestantes decidiriam, por bem, manter suas imagens distantes de representantes das religiões negras, como o candomblé ou a umbanda, mesmo que estes demonstrassem ser contra o Quinto dos Infernos. Enfim, formaram a, batizada, “A união contra o mau, sob a graça do Senhor”. Batinas e ternos se revezavam sobre os palcos em atos ecumênicos. A uma semana da inauguração, organizaram seu evento principal. Exatamente ao meio-dia da sexta-feira, dia seis, as igrejas evangélicas e a católica, em sua matriz, abriram suas portas para seus seguidores assinarem um abaixo-assinado contra a abertura do Cemitério Quinto dos Infernos. Uma procissão iniciada na igreja matriz deu início às duas da tarde, passando por todas as duas igrejas evangélicas da cidade, unindo seus fiéis e cadernos assinados rumo à sede da prefeitura, onde pretendiam evocar o prefeito a atuar por eles, junto a Deus. Embora uma análise minuciosa pudesse revelar alguns números de CPF repetidos, nada tão escandaloso, apresentaram ao prefeito mais vinte mil assinaturas e uma multidão a vazar pelos ladrões – ruas adjacentes – à sua porta. A esta época, a imprensa nacional já havia cumprido seu papel divulgando o estapafúrdio cemitério, o que levou à cidade fiéis de todo o país, que puderam gozar da recém inaugurada rede hoteleira da cidade, para a manifestação. Era um salto político para o prefeito; a maioria das pessoas que aguardavam a sua aparição sequer sabia o seu nome, que dirá partido político. Clamavam por um representante político com o coração tomado por divina sensibilidade e ofereciam, à sua porta, sabia o prefeito, uma oportunidade para santificar o vosso nome. Antes de emergir pela sacada da prefeitura, pensou no senado federal.
O anúncio, semanas antes, da procissão que culminaria na prefeitura, deu tempo para que o prefeito pudesse decorar um discurso carregado de citações bíblicas, parábolas importantes, outras menos famosas, que enchiam de ternura e admiração o distinto público. Confessou ter trocado diversos telefonemas com o governador e até senadores alertando sobre o mal que estava prestes a se instaurar naquela região, a qual, segundo ele, trazia estampada em sua natureza e seu povo provas mais que suficientes de se tratar de uma terra abençoada por Deus. Garantiu, ainda, crer que nenhum enlaço legal pode suprimir a vontade de Deus, o que o dava absoluta confiança de que aquele pandemônio tinha seus dias contados. Comovido, lamentou as limitações de seu cargo, mas prometeu ir até onde fosse necessário em sua carreira política para, envolto aos princípios cristãos, atuar de maneira firme para que entidades como esta entendam que este planeta pertence a Deus. Por fim, pediu que os representantes religiosos o aguardassem e caminhou como pôde entre apertos de mão, abraços, cumprimentos eufóricos, até o caderno e assinou o abaixo-assinado. De volta ao interior da prefeitura, ouvia os aplausos, seu nome se espalhando pela multidão, mas, mais alto do que tudo, o seu pensamento: “senador”.
Sem demora, o prefeito tratou de convocar seus assessores, chamou sua equipe jurídica que, como se sabe, e o prefeito sabia bem, quando se trata de arrumar mais trabalho entram à sala de reunião cheios de negativas. Mas, neste caso, tinham razão. Não havia na legislação nada que pudesse proibir o funcionamento do cemitério. No entanto, o mais importante era demonstrar vontade política. Mostrar para a população cristã que o poder público daquela cidade era sua aliada. A manifestação ecumênica surtiu efeito e, desde então, a cidade passou ainda a conviver diariamente com a imprensa. Alguns ficavam como sentinelas à porta do cemitério, outros entrevistavam pessoas, buscavam informações sobre a região; programas de culinária falavam dos pratos da dona Zefa e até o time de futebol da cidade ganhou espaço em programas esportivos. Tornou-se parte da rotina do prefeito atender a imprensa ao término de cada redundante reunião, onde, às portas fechadas, pouco, ou nenhum, avanço era apresentado. Todo o fim de tarde, o prefeito era figura carimbada nos telejornais policiais. Sempre suado, demonstrando certa fadiga pelo empenho contra o Quinto dos Infernos. Nada poderia ser mais paradoxal. Já que, além de sua ascensão política pouco caminhar ao lado dos interesses da população, longe disso, até este momento, era o prefeito o maior beneficiário daquela construção e a quem mais interessava o seu sucesso: invariavelmente, é necessário um vilão para que se crie o herói. Em tempos mornos, onde os grandes vilões vestem-se cada vez melhor com a manta de cordeiro e escondem a cara ao tapa, o Cemitério Quinto dos Infernos era um achado(...)”

28 de outubro de 2010

Dia seguinte

O cigarro parecia ocupar suas duas mãos. Arcado, sentado, na cadeira de madeira no centro da sala, chorava sobre seu retrato. Como espasmos, às vezes interrompia aos olhos a imagem, levava as mãos à cabeça e saltavam, ornamentais, contíguas, cinzas de cigarro e caspas até pousarem no paletó preto, calça preta, retrato preto, dentro da sala cinza. Precisava tornar à fotografia para lembrar porque chorava, e tornava a chorar.

Quantos anos haviam passado? Quão rápido e ao mesmo tempo trabalhoso chegar onde chegou? E, ao voltar para a casa fria, encontrou pela primeira vez aquele retrato, coberto pela poeira, sobre a escrivaninha da sala, num canto onde seus olhos – fieis às suas ambições – procuravam não passar. Sabia que estava, mas um estranho desejo, tão cativante quanto aterrorizante, insistia por alguém a observá-lo. Desejava, aos soluços, que sua temida e famosa bravura fossem descobertas por mais alguém. Não esperava por sua mãe, irmã ou mulher, mas por um vizinho ou colega; precisava de alguém sem paixão, sem traquejo com os sentimentos. Alguém que o observasse, a princípio, com certa compaixão – mesmo sem entender o que se despertava dentro dele–, mas que logo desse lugar a um julgamento frio, injusto, e, por fim, lançasse desprezo com os olhos e ironia com nos lábios e semblante. Sem palavras. Que desse as costas e partisse, deixando apenas o sono dos que adormecem chorando e o pesadelo do dia seguinte.

Por fim, aceitou o dia seguinte como o chão da sala aceita suas cinzas, bitucas e corpo. Mas não dorme ainda, jaz, cadáver acordado, sentindo (...) sensação sem pessoa correspondente. Quando enfim o desejo pelo inconsciente vence e é permitido dormir, dorme e acorda logo. Feliz, sob os primeiros raios do dia, volta a ser o que sempre quis e sai sem saber que nunca mais se lembrará de procurar, caído, no chão, sob a escrivaninha da sala cinza, fria e suja, seu retrato – de um dia tão feliz quanto longínquo.

22 de fevereiro de 2010

Antes de dormir

Um choro estridente. Ao lado, um bebê chora. Grita, até acordar o que dorme. Late o cachorro, late o trabalho do dia seguinte; o bebê chora. Quem acorda e briga é homem; quem chora é criança – ou mulher, como se diz. Não acordo, nem durmo; não ouço. Sinto que um bebê chora e que vem um dia para nascer. Olhos fechados; apenas os tornozelos e pés descobertos; ouvidos surdos. Não preciso me levantar. “Ele reclama”, de quê será? Em meu quarto, só, basto, deito e este bebê chora. Estrebucha. Por que assim? Não é capricho, tem urgência. Como questão de vida que caminha para a morte, cobre toda a vontade de existir em soluços.

Tenho raiva do bebê. Esqueço se ele tem pai, ou mãe. “E seu eu for seu pai?”. Tenho raiva. Torço para que, entre seus soluços e ranho, ele se sufoque. Espero como um doente que espera a cura. “Nenhum chefe demite se um bebê se sufocar em muco.” O cachorro silencia para o bebê chorar: é arte maior. De repente tenho medo que o choro pare. Tenho medo da morte. A morte vem quando paramos de chorar.

Mas o bebê ainda chora, sem que eu o escute.

Lentamente, tudo se torna criança descalça em trilha, com os pés frios pela lâmina de água que forma sobre a grama rala; logo percebemos que vamos encontrar o lago. Um galho suspenso, da grande árvore, vira cabide e a camiseta apóia. O personagem entra na água parada do lago em lua nova. Bóia com a justa, e velha, calça jeans. O som do vento submerge dentro d’água, e aproxima toda a existência a um céu molecular... Mas aí, já é sonho. E o bebê grita; ou, melhor, chora.

31 de agosto de 2009

Tourada

Veste-se com zelo de antagonista amado: cinto, traje justo do século dezoito, rosas douradas bordadas na lapela preta. O público lota a praça de touro divertindo o anseio da espera entre guloseimas e olhares curiosos pelos corredores ovais da arquibancada. Surge silêncio solene. Surgem frente a frente: touro nu, marrom café; o tecido vermelho esconde a farpa do toureiro. Clássico, o touro coça a pata dianteira esquerda na terra batida; sublimes, querem manchar o chão com o sangue do oponente. Dançam, rodopiam, se cheiram, e as farpas se prendem no dorso do animal. O toureiro estufa o peito para a arquibancada, curva-se em cumprimento humilde, volta a estufar o peito -- de costas para o touro que busca dignidade, ar e o sangue que escorre por suas patas trêmulas. Falta a lança misericordiosa: touro e toureiro voltam seus olhares sem sentir os olhares de sangue dos expectadores. Toureiro caminha, toca com a mão direita o chifre duro e frágil do animal, saca da cinta a lança com seu brasão, enquanto o animal ameaça aguardar o golpe. Cerimonioso, o homem ergue a espada, apresentando ao público – girando o corpo para toda a multidão ovalada da arquibancada. E, num repente, touro frágil faz-se forte para se igualarem em fragilidade espetando o chifre direito nas costas do homem. Sangue de ambos, touro e toureiro, finalmente se igualam e deitam juntos no centro da arena imprimindo a morte na retina dos pagantes.

14 de maio de 2009

Profissional liberal

Tomou um susto quando entrou, pela porta do fundo, na cozinha da casa onde trabalhava. Encontrou tudo de cabeça para baixo; ainda quente, como se a baderna tivesse terminado há poucos instantes. Garrafas pelo chão, dois cinzeiros transbordando, as cadeiras distantes da mesa central como se lutadores de sumo tivessem se reunido para uma roda de samba. Num canto, esquecida, a caixa-de-ferramentas que, até então, nunca tinha saído do armário da garagem, parecia ter passado por um tufão a parte: toda coberta por cal, destrambelhada, com o pó de outrora, agora, grisalho. A bagunça se espalhava pela sala, onde encontrou uma quantidade monstruosa de folhas de anotações amassadas. Pensou em seu salário, deu com os ombros e resolveu passar um café para ganhar ânimo.

Ao abrir a geladeira, uma garrafa de vinho pela metade, em pé, na grade superior, servia de apoio para um bilhete deixado pelo dono da casa: “Preta, bom dia! Estarei o dia todo trabalhando, NÃO ESTOU PARA NINGUÉM! Por favor, anote os recados. Até logo...”. Não entendeu o bilhete. Seu patrão costumava ir ao trabalho todos os dias – sem a pontualidade britânica que cobra dela, é verdade –, mas passa seus dias todos no escritório. Pensou que talvez aquele bilhete fosse apenas fruto daquelas garrafas de vinho estacionadas por toda a parte: às vezes, para tratar a confusão de seus pensamentos, quem bebe trata de explicar cada detalhe aos outros. Acreditando estar só em casa, iniciou a limpeza da cozinha, sala e banheiro – ambientes que pertenciam ao térreo do sobrado. Recolheu, ensacou, varreu, guardou, ensaboou, molhou, puxou, secou, limpou, saiu, entrou, jogou, agachou, suou, enxugou, desinfetou, despachou: em três horas ninguém poderia dizer que era a mesma casa. Com balde e pano em mãos, subiu os degraus que levavam ao quarto, escritório e banheiro com medo dos desdobramentos que a noite anterior pudesse ter causado no andar de cima da casa.

Tudo limpo, precisando apenas da manutenção regular. No quarto, que estava com a porta escancarada, apenas abriu a janela para o sol entrar e tirar o cheiro da noite, e da fumaça dos cigarros da madrugada que estacionaram naquele canto fechado da casa. A porta do escritório estava fechada e, pela fresta que formava entre porta e chão, fugia o som de um urso que hiberna em sua caverna. Deixou o balde no banheiro, em frente ao escritório, e correu para atender o telefone que chamava no andar de baixo. O relógio marcava quinze para o meio-dia.

– Alô? (...) – e com a voz trêmula de quem segue instrução sem sentido, continuou – Ele está trabalhando.

Ouviu do outro lado a voz estridente de um homem:

– Como ele pode estar trabalhando se ele não está aqui?!?

– Olha, não sei não senhor. Cheguei aqui e tinha um recado de que ele está trabalhando. Se quiser, posso anotar o recado.

– Diga para o filha da puta do seu patrão, que ele vai se ver comigo quando aparecer por aqui! – e desligou.

Ela omitiu o “filha da puta do patrão” do recado, mas anotou no caderninho ao lado do telefone todo o resto: sem o nome do remetente ou o lugar onde ele ia “se ver” quando aparecesse. Assim mesmo, acreditava que ele iria entender: “Ligou um moço dizendo que você vai se ver quando aparecer lá”.

Quando voltou à limpeza do banheiro, não escutava mais o sono de seu patrão no escritório em frente. Ouviu passos, a cadeira sendo arrastada, o computador ligando e os dedos estralando em torno do teclado. Não ouviu uma só tecla sendo apertada para preencher o documento aberto, em branco, do Word. Apressou a limpeza do banheiro e, quando acabou de descer a escada de volta ao térreo, ouviu a porta do escritório se abrir e a do banheiro se fechar. Ela não estava acostumada a dividir a casa com ele naquele horário. Convivia com seu patrão poucos minutos por dia: enquanto ele bebia apressado seu café antes de sair para o escritório. Não sabia o que fazer com ele lá ao meio-dia.

– Bom dia, Preta – entrou pela porta principal da cozinha; descalço e de bermuda.

– Perdeu a hora hoje? – respondeu curiosa.

– Primeiro, bom dia, né?

– Bom dia... Fiz café, mas já deve estar ruim, posso preparar outro... se quiser almoço, preciso de dinheiro para comprar carne no açougue.

– Não se preocupe com isso, vou logo voltar ao trabalho.

“Voltar ao trabalho?” – pensou.

– Por falar em trabalho – avisou, fingindo que estava entretida organizando o armário debaixo da pia –, ligaram para você agorinha mesmo. Não quis te chamar, já que você disse que não estava para ninguém... Mas anotei o recado.

– Muito bem. Não era mesmo para me chamar, eu estava ocupado. Esta noite eu tive uma visão. A partir de agora, não trabalho para mais ninguém! Vou unir o útil ao agradável. Passei a noite instalando uma rede para dormir em meu escritório: vou escrever meu próprio livro sobre os sonhos que tenho enquanto durmo: vou produzir enquanto durmo, Preta! Encontrei um jeito de trabalhar dormindo.

A partir daí, ela não ouvia mais nada, só acenava com a cabeça e emitia ruídos para que ele continuasse falando sobre seu novo estilo de vida. Por fim, ele tomou um copo de leite e voltou para a rede dizendo ter esquecido os sonhos daquela manhã: precisava produzir mais. Enquanto ele produzia, ela lamentava – enquanto lia o classificado de empregos – pelo patrão que endoidou feliz da vida.

5 de maio de 2009

Cadu

Já passava de oito horas de uma noite quente. Voltava de uma visita à padaria, onde comprou maços de cigarros – vinha fumando o último cigarro do maço antigo – e um pequeno galão d’água, de cinco litros. A visita não cobrava belos trajes; nada além de um par de chinelos, bermuda e camiseta – no conjunto, já de partida, estava roto. A rua, pela qual seguiam seus passos – apenas os passos, já que os pensamentos se despediram logo na partida –, também estava amassada. Pedras, galhos de árvores, blocos de concretos desprendidos das calçadas e placas de sinalização arrancadas dos postes, apontavam os desníveis e rupturas no asfalto. Assim mesmo, motos, bicicletas e carros de moradores dos quarteirões que a rua atravessava ziguezagueavam entre as sinalizações para sair ou chegar às suas casas. A rua era pavimentada, mas seu asfalto dividia pertença com a areia que estacionava por lá, e permitia, em suas dobras, o surgimento de barbas-de-bode, rabos-de-burro e carrapichos.

Hoje tudo serve bem por lá, mas tratava-se, nesta época, de um bairro, sem expressão, em expansão. A população, que ia se esparramando pela margem litorânea deste continente, lentamente começava a ocupar aquele espaço. Talvez isto possa explicar a rua pela qual caminhava. Uma rua com pretensões a avenida. Provavelmente, servia bem a seu propósito antes de iniciarem a construção de condomínios ao seu redor; logo, os condôminos passaram a exigir uma rede de esgoto que comportasse seus anseios e à rua coube servir de fachada aos novos tubos que transitariam seus os dejetos ao mar. Às más condições daqueles quatrocentos metros de asfalto, com areia, barbas-de-bode, rabos-de-burro e carrapichos, apresentava sinais de existirem apenas pelo aquecimento imobiliário da região e não – como se comprovou depois de alguns meses – tardaria muito a tornar-se rua – mais próxima às suas pretensões de avenida – digna outra vez.

Às suas margens intercalavam casas, terrenos baldios e construções; do mesmo modo, se entremetiam nas calçadas trechos pavimentados, matos e alçapões destrancados: convites pretensiosos às galerias subterrâneas. Os postes de luz, de tão frágeis, aparentavam traves suspensas pelos próprios fios de eletricidade que sustentavam. Além da luz-névoa que transmitiam, eram muito distantes uns dos outros; intercalando, ao passeio de quem andava por aquela rua, ora espetáculos em sombras, ora saltos ao esquecimento dos olhos.

Contudo, não podem condenar as condições da rua pela disgra que sucedeu. É certo que o bueiro não deva ficar aberto por onde se anda, mas não estamos para reflexões sobre tampa de bueiro. Que falta pode fazer a luz, a tampa, ou qualquer sinalização, quando os olhos decidem acompanhar os pensamentos para onde quer que eles os carreguem?

O pé direito foi o primeiro a enfiar-se no buraco; seu joelho teimou à queda e a quina metálica do bueiro meteu-lhe os dentes arrancando o sangue que transitava por lá. Então, o resto do corpo tratou de lançar-se buraco adentro sem qualquer reação, sofrendo durante a travessia lesões bem menos graves: pequenas escoriações no quadril, ombros, braços e rosto. Demoraram uns tantos segundos para seus olhos se acostumarem com a pouca luz subterrânea. Enquanto isso, suas mãos, em ocasiões assim, frenéticas, correram a percorrer seu corpo todo em busca do tecido mais ferido, de um osso partido que, quem sabe, estive exposto àquele ar e água podres; ou um metal enferrujado rasgando a pele e carne. Sentiu o liquido quente escorrer na parte interna de sua coxa direita e uma madeira ainda cravada no ferimento, além do talho do joelho direito, expostos às bactérias já quase desesperançosas de tanto esperar a oportunidade para produzir seu fim, a tetanospasmina.

Quando os olhos se adaptaram, pôde ver o que sentia: a perna esquerda mergulhada até o joelho em água barrenta e o corpo todo em penumbra. A câmara onde estava depositado tinha dois metros e meio por um e meio, e apenas uma circunferência de aproximadamente cinqüenta centímetros, no rodapé da parede oposta a que se apoiava, recebia luz da superfície. Em cada uma das paredes mais estreitas, seguiam os tubos que serviam para descarregar os dejetos que lhe eram oferecidos; enquanto nas paredes mais largas, havia dois degraus que, provavelmente, foram feitos para não deixar atolar quem, vez outra, querendo o destino, ou o ofício capital, tinha que descer ali. Enquanto a perna direita se apoiava em um destes degraus, procurava apoio para as mãos para que o corpo todo ajudasse a desatolar a perna esquerda. Perdeu a consciência.

* * *

– Aqui, os ratos não fogem da gente.

Sentiu pavor. Como se entornassem água gelada nos nervos de seu corpo contraindo todos os seus músculos, causando tremor em todo o corpo. Era uma voz de criança, ou mulher, não sabia bem. A câmara estava, estranhamente, mais iluminada, mesmo assim franziu os olhos e buscou o dono da voz.

– Eu sei por que você veio parar aqui.

Era uma criança. Um menino de aproximadamente onze anos e naquela conversa despertou um menino que parecia feito de cera.

– Aqui a gente fica encolhidinho no canto, porque os ratos não fogem da gente. Aqui a gente tem medo deles, como eles têm medo da gente lá em cima.

Agora podia ver ratos farejando sobre os pés encolhidos do menino. Quando os ratos seguiam, ele voltava a falar.

– Eu não tinha mais esperança de sair daqui, mas o senhor me encontrou.

Estava apavorado, precisava, em primeiro lugar, conter seus nervos que, contraídos, amarraram seu corpo. Era ele quem precisava de ajuda, não conseguiria ajudar ninguém como estava. E aquele menino... Começou tentando controlar a respiração: mesmo com o fedor estacionado na câmara, inspirou até sentir os pulmões cheios e expirou todo o ar que conteve por várias vezes. O exercício tratava de acalmar seu coração que, embora continuasse batendo mais forte do que o normal, já diminuía o ritmo. Como reflexo pelo susto causado pelo menino, suas unhas tentavam fincar na parede de concreto; acalmou as mãos e apoiou-se de cócoras – como o menino – na extremidade oposta a que o menino estava. Exatamente na mesma posição, frente a frente, a dois metros de distância. Ao dobrar os joelhos, o beiço, recém inaugurado em seu joelho direito, abriu e o fez grunhir de dor lancinante, mas passageira. Um rato bebericava o sangue que pingava de sua bermuda no degrau onde estava apoiado.

– O senhor veio para me tirar daqui. Veio me encontrar, desfazer, e me levar com o senhor. Aqui, os ratos não têm por que fugir.

* * *

Acordou sentindo fisgadas nos talhos da coxa e joelho direito. Três ratos experimentavam a carne exposta: dois mordiam o ferimento da coxa, enquanto outro beijava o lábio fino de seu joelho. Teve ânsia; tentou espantar os ratos, que não se intimidaram. Pensou no galão d’água que preferiu a superfície, quando seu corpo se lançou bueiro abaixo. “Aqui, os ratos não têm por que fugir”. A idéia de fumar aumentava ainda mais sua ânsia. A sede era tanta que aquela água não parecia mais tão podre. A vista e os sentidos lhe faltaram outra vez.

* * *

O menino se aproximou, em passos cuidadosos, e exortou os ratos a deixarem sua perna. Sentou-se ombro a ombro com ele, e agora sua voz parecia vir em notas.

– O senhor não está me reconhecendo. Eu vim para cá quando o senhor se convenceu que era Carlos Eduardo da Rocha Baptista, e não mais Cadu. Eu sou o Cadu. E você quis me buscar e me levar junto com o senhor para onde o senhor for de agora em diante.

* * *

Voltou a consciência, foram os sentidos, os olhos, a carne e o sangue devorados pelos ratos, que, no esgoto, não têm por que fugir.

30 de abril de 2009

Uma consulta

Tinha a camisa, e a gravata (frouxa), e o paletó, amarrotados. Aceitou um copo d’água, aceitou um café, sentou na ponta da cadeira e disse não saber por onde começar. Estava, naquela tarde úmida, vivendo a metade de seus 38 anos. Tudo era cansaço no que aparentava e o frio não parecia incomodar sua angústia.

– Falar sobre a vida que carreguei até aqui? – em murmuro inaudível. Parecia se preocupar com o que desencadeou a lembrança de uma vida inteira. Não sabia como começou aquela vida, tão pouco como começaria a contá-la. Por um instante, tentou forçar o choro. Queria substituir as primeiras palavras por muco, lágrimas e soluços; mas os soluços, lágrimas e muco, junto com a coragem dos passos que o levaram até o consultório, também faltaram. À sua frente, o doutor fazia leves carícias no próprio queixo – carícias de um pensador, mas sem a barba dos psiquiatras que se prezam. Talvez tenha sido um engano – deixou o pensamento fugir.

Longos minutos com o silêncio cortado apenas pelo som da respiração forte de um e o roçar das mãos lisas no queixo áspero do outro. Até o doutor iniciar, lendo sua euforia:

– O que traz o senhor aqui?

Sentiu o coração acelerar, e a voz pareceu faltar, mas despontou numa alegria honesta quando conseguiu formar as primeiras frases.

– Não sei bem ao certo... Estou tão confuso agora. Achei que precisava falar com alguém... Não sei por onde começar. Quando me sentei aqui, senti como quem está curado.

– Quando foi que decidiu marcar esta consulta? O que você estava sentindo... o que o senhor buscava?

Sem se dar conta, com os olhos tentando ver os dois pés ao mesmo tempo, começou assim:

– Me alegra ver fotos. Mas só as fotos com pessoas. Cheia de dentes, que mostram os olhos, bocas, narizes, sobrancelhas, cílios, orelhas, bochechas, sardas, cabelos, testas, queixos e tem ainda aquilo tudo mais que algumas fotos despertam. Por vezes, choro vendo fotos. Ligou, não sei bem por que; sei que antes, resolveu casar.

Os nervos pilharam, tirou do bolso o aparelho celular, apertou um, outro botão e despejou toques e tons pelo escritório.

– Anunciou como música seu telefonema: assenti, atendi. Desde muito, estive distante de suas ambições que não pude imaginar quem era. Não sei bem, nem sei se me lembro bem, parece que queria empregar uma amiga, também jornalista. Foi educada, depois de justificar a chamada, perguntou por onde ando, como tenho passado. Ainda não sei bem se ela queria mesmo saber: acho que não. As fotos revelam mais do que um instante. Quantos olhares se perdem longe de nossa compreensão, sem passar pelo filtro de nossas expectativas? E, após aquele telefonema, revelou-se pra mim aqueles olhos na fotografia de anos antes. Se eu tivesse notado saberia, nunca iria ficar comigo. Ela tem voz rouca; falou como quem suspira a palavra e o sorriso em som. Foi um telefonema. O que sei, foi: alô; quanto tempo; como vai; jura?!?; minha amiga (...); resolvi meu amor, minha vida completou, estou casada. Sei bem o que esqueci estes anos todos. Tive que esquecer para viver estes anos todos, mas agora lembrei. A pergunta que me faço agora é : como posso viver em paz se agora perdi meu esquecimento? Estou tentando responder sua pergunta, doutor, mas outras perguntas surgem na frente. Acho que busco compreender, para a razão me levar outra vez para longe do que posso sentir. Mas aqueles olhos na fotografia me fizeram perceber, mais do que as palavras de seu telefonema: nunca seria minha. E éramos felizes; apaixonados!

– De maneira vulgar, diz-se que há uma diferença grande entre “estar feliz” e “ser feliz”. Quando “estamos felizes” associamos a uma condição emocional, que pode variar, e varia, a partir de determinadas situações ou acontecimentos. Neste caso, estamos sujeitos ações que podem desencadear uma série sensações de conflito. Quando “somos felizes”, associamos ao bem-estar: condição financeira, estrutura familiar, aspectos fisiológicos e psicológicos, e por aí vai. Cada vez mais creditasse a felicidade à qualidade de vida, e não a emoções.

Foi interrompido.

– Não estamos falando de felicidade, doutor! Dane-se a felicidade! Estou falando de amor! Amor nada tem a ver com felicidade.

– Esteve por anos, posso dizer feliz?, sem seu amor. Por que agora tanto sofrimento? Talvez vê-la casada tenha colocado você em conflito com você mesmo: a vida seguiu para um de vocês...

– Pode ter razão... minha vida ficou parada. Não mereci, não mereci nem ofereci o amor para mais ninguém.

Longa pausa. Doutor triunfante e paciente com os cotovelos nos joelhos, curvado, escondido debaixo da mesa, com as mãos na nuca. O paciente volta à posição ereta de quem está sentado e com o rosto estranhamente normal, volta a falar para o doutor.

– Com prazer, ela descreveu a escolha. Seus vícios, prazeres, vitórias. Inclusive, incluiu-se como conquista e vitória. Com o rigor dos detalhes... – já em pé, prosseguiu – Muito obrigado, doutor, o senhor me ajudou muito. Muito obrigado, mesmo.

– Na próxima semana no mesmo horário, então?

– Não, obrigado. Muito obrigado.

10 de março de 2009

Esconderijo-secreto

No corre-corre da rua, eu gostava de ser o primeiro a ultrapassar a linha-imaginária. A linha-imaginária, da prova-imaginária, onde eu e meus amigos competíamos pela medalha olímpica, fazia de nossos vinte metros de asfalto a pista de cem metros-rasos do atletismo. Estes mesmos vinte metros de asfalto, todas as tardes, durante as férias escolares, se transformavam em Maracanã da molecada da vila. Na rua, chinelo de dedo não era chuteira de futebol, nem tênis de corrida; pra não perder, ou estragar, e levar a bronca descalça em casa, dos pés os chinelos corriam para as mãos e acompanham, como luvas, os Zicos, Sócrates e Pitas de nossos clássicos intermináveis. Apenas com o escuro da noite, nossas mães lembravam de seus apitos – que fazíamos questão de esquecer em casa – e surgiam árbitras para encerrar a partida.

Estava lembrando: tive tantos amigos e uma casa boa e grande. Em geral, as casas de meus amigos eram de materiais adaptados onde, por exemplo, madeiras serviam de apoio ao concreto quebrado das escadas e as desconstrutivas reformas começavam para nunca terem fim; ou então, eram pequenos quartos-banheiros escondidos no fundo do quintal de outras casas. O eco que minha bola de capotão fazia na garagem de Dona Ana – enquanto eu esperava pelo amigo do casebre do quintal, enquanto ele acabava de lavar a louça do café-da-manhã – nunca mais ouvi; e, como sabemos, as manhãs, tardes e noites também não se formam iguais às daqueles dias.

Não tive também, nunca mais, o mesmo calafrio de quando atravessava a viga – tapete-vermelho, para os meus olhos – que me carregava da calçada para dentro da casa do outro amigo. Este amigo, como era comum, era muito amigo. E se hoje ainda há amigo, ele ainda é. Sua casa oferecia tudo que uma criança poderia querer: tinha o tapete de terra batida, onde jogávamos fubeca; tinha um depósito de madeiras e tábuas, onde se escondiam os ratos e a gente conseguia matéria-prima para os jogos de taco da rua; tinha a ausência dos mais velhos, já que cedo todos corriam para ganhar o jantar. Dependendo da disposição dos olhos, parecia construção abandonada.

Num fim de tarde, como já havia ocorrido em tantos outros fins-de-tarde, a mãe deste meu amigo veio bater à porta de casa a sua procura – minha casa era sempre a primeira opção, já que éramos como ‘unha e carne’. Foi surpreendida ao me ver de banho tomado, sem sinais da bagunça que por certo existiria se estivesse com seu filho. “Meu deus, onde se meteu esse menino”. Não demonstrei – um amigo jamais aumenta a preocupação da mãe do outro, o castigo por preocupar os pais varia de dois a dez dias sem sair de casa –, mas meu espanto era ainda maior: como é que eu não sabia onde ele estava? Sua mãe mal virou às costas, surge da esquina o vulto raquítico dele.

– Minha mãe passou aqui, né? Deve estar indo para a casa do Márcio agora, depois me procura na pracinha e volta para casa – disse, safo.

– Acho a cinta vai cantar lá hoje, né? – redargüi, meio complacente e, talvez, com um leve sorriso. – Mas onde você se meteu, afinal?

– Vamos lá em casa que te mostro. É até bom você estar lá comigo quando minha mãe voltar, ela tem vergonha de bater em mim na frente dos outros.

Mesmo sabendo que minha presença era medida paliativa – nós dois sabíamos disso – e que, de banho tomado, eram as regras daquele tempo, eu não poderia sair de casa para badernar, pulei o portão e nos pusemos a correr pelas ruas. Saltamos da calçada para dentro da casa sem usar a viga, subimos com cuidado, mas rapidez, pela escada de degraus estraçalhados, entramos na casa por um buraco onde deveria ter uma janela, passamos por quarto, sala e chegamos ao fundo da casa – onde ficava um espaço que sugeria que iria se tornar um outro quarto um dia. Onde, como eu suspeitava, a casa terminava.

– Cuidado para não enroscar na grade – indicava enquanto se contorcia para passar onde seria a janela do projeto de quarto.

Arranhei as costas na grade, mas consegui atravessar a janela, pulamos uma muretinha à esquerda e chegamos num ambiente que parecia um universo paralelo.

– Aqui é o meu esconderijo-secreto – anunciou.

“Um esconderijo-secreto!!!”, em pensamento tão alto que não sei se apenas pensei ou deixei escapar entre os dentes. Era um terreno que tinha menos de um metro de largura, em barranco, onde, com algumas tábuas que sumiram de sua casa sem seu pai perceber, ele construiu um quartinho de madeira na pirambeira. O lugar estava cheio de parafernálias, como um ninho de rato. De cara, reconheci uma bola de capotão que a molecada da vizinhança andava procurando. Tinha lanterna, potes de bolas de gude – sem dúvida, algumas delas já haviam me pertencido –, gibis, pião, bilboquê, aquaplay: presentes que a vizinhança oferecia.

– É aqui que eu venho quando quero ficar sozinho.

Percebi naquele fim de tarde, pela primeira, vez a beleza, e necessidade, de ficar sozinho; com meu amigo de dez anos que criou um universo só seu. Entre paredes que ofereciam os sussurros de sua casa e da casa de sua vizinha sem que ele precisasse oferecer nada em troca. Era um fantasma quando estava lá. Voltamos para dentro da casa quando ouvimos a viga que iniciava a casa soluçar com os passos pesados da mãe. Pelo olhar dela, confirmei com os olhos para meu amigo: “a cinta vai cantar”; ele ameaçou sorrir: já estava calejado.

Recusei o convite para jantar e desejei sorte para o meu amigo: a noite mal estava começando para ele. Voltei para casa chutando pedras e olhando pro chão, dobrei uma esquina e surgiu minha casa, como a casinha da Barbie: a coisa mais sem graça que poderia existir. Minha mãe no portão, não disfarçava sua preocupação.

– Se o seu pai chega em casa e você está na rua, já viu, né? Afinal, onde você se meteu?

Sem o menor cuidado para disfarçar o meu incômodo, respondi enquanto entrava:

– No castelo do He-Man – e entrei com desgosto em minha casa perfeita.

19 de fevereiro de 2009

Mais um adeus

Os pássaros anunciam o tempo dos sons e os dois podem rir um pouco mais alto: sobe o sol e aumenta o volume; até agora sussurravam. O dia tem o pé-direito alto, limpo, e encerra uma noite que faz valer a vida. Não dormiram.

Na noite anterior, quando ela chegou, o encontrou de banho tomado e sorriso. Ela adora seu sorriso, adora encontrá-lo de cabelos molhados. Apressou seu banho também – não passava das sete da noite –, para depois descobrir que, enquanto ensaboava o corpo, o vapor da água quente do chuveiro elétrico se cristalizava no espelho banheiro revelando uma mensagem – escrita a dedo – por seu amigo: “Hoje não precisará de espelho, verá em meus olhos como é linda. Com amor, seu menino”. Inflou de alegria, e vapor quente que dançava com o vento de sua toalha, e teve dúbia sensação de nunca mais poder lavar aquele espelho.

Ele mal tocou a comida encomendada. Beberam vinho, contaram e riram do passado que criaram juntos e dos passados que criaram separados. E se beijavam apaixonados, brincando. Depois re-inventavam a tristeza para chorar um no colo do outro. E se beijaram cúmplices, misturando as lágrimas. Declarações de amor, sonhos para fazer do momento o eterno, e se beijavam com os olhos. A noite toda: ora com a cabeça nos pés do outro, ora combinando as posições. Olhavam para teto e deixavam as mãos brincar, ou fechavam os olhos para os corpos se verem nus. Ela não ficava vermelha com as baixarias declamadas por ele.

A noite e a história acabaram e chegou a hora do adeus. Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. Mas já era dia e ele jazia acordado. O sono iria encontrá-la em seu vôo de volta. Ele voltou para o quarto, re-encostou no colchão, sentiu o seu cheiro no lençol, no travesseiro e nas mãos e estacionou com o pensamento distante no futuro. Deveria prestar-se ao que sobrou, o cheiro, que, como sua amiga, também desaparecerá e o deixará para sempre a imaginar.

12 de fevereiro de 2009

Casamento II – ou paixões e choros

Em alguns anos, os votos diante do padre se esquecem longe do coração. Em pouco tempo. A paixão resolve perambular para longe da casa e teimosa – talvez desesperada –, às vezes se deixa errar por um colega do trabalho, ou por um amigo novo de uma amiga antiga. E insiste lançando convites para que saia da redoma. Apaixona-se e desconfia que o mesmo aconteça com seu marido. Um antigo amor prepara-se para se tornar pai pela terceira vez. Sente inveja, desejou um filho dele como nunca desejou de seu marido – com quem, ao casar, tornou-se amiga e passou a se esconder.

As paixões surgem e desaparecem; ressurgem e somem outra vez; e se repetem até calejarem o peito e desaparecerem de uma vez por todas. Sem paixão, com um pequeno remorso por todas as noites que dormiu ao lado de seu marido carregando o vulgar de algum amante, deixa chorar. E sorri, durante o choro, ao lembrar namoros de antes de casar.

Nada litúrgico, sai do elevador de um prédio do centro cidade ajeitando a alça do vestido. Estrala, diante dela, a fechadura da porta metálica; não olha para o porteiro, fecha a porta, e saí. Saí, mas fica ali parada. Chora mais uma vez. Sentada no chão, apoiada na porta, atrás da porta, para fora, para a rua. Se não chorasse talvez explodisse, e chora como quem evita a explosão, em convulsões. Até que o choro acaba: de repente o choro parece não precisar mais e a deixa sob um leve desconforto... e vem o sono dizer que dormir é o fim do choro.

Não conhece o choro por solidão. Talvez inveje quem por solidão chora. Costuma fugir e se esconder quando quer chorar: gostaria de chorar parada.