31 de outubro de 2008

Duas e vinte e três

Fechei meus olhos por dez minutos, não mais que isso. No entanto, o meu relógio ainda marca as mesmas duas horas e vinte três minutos da última vez que o notei. Devo ter cochilado; não me entreguei a sono profundo. As imagens que produzia, neste intervalo de dez minutos, não mais que isso, enquanto adormeci, escaparam apenas um pouco do que costuma mandar meu juízo; não eram totalmente soltas e intermitentes quanto nos sonhos em que desmaio. É tudo tão recente que ainda posso me lembrar de todos os passos do que percorreu em minha cabeça, ora em campo consciente, ora inconsciente, durante este estreito espaço de tempo.

Começou após me acomodar na espreguiçadeira, num daqueles pensamentos mais probos; bucólico, nada exige ou interfere – posto tratar-se de um cochilo de tarde de domingo – na vida de mais ninguém. Pensava, sobre a espreguiçadeira, no caminho que faria para o banho de mar da manhã seguinte. Típico, quando estamos prestes a adormecer, esqueci das sacolas que teria que carregar até a praia, e projetei-me pela avenida principal até a quitanda; projetei-me acariciando uma a uma as maçãs da quitandeira até chegar à preferida. Da quitanda, segui à praia, me acomodei numa rocha isolada de todas as outras rochas que havia sobre a areia e, que não se sabe por quem, tinha sido colocada ali para me encontrar neste semi-sonho. Por ali, deixei meu rosto ser coberto pelo vento. Aos poucos, com o vento, e o sal e a areia, a me castigar, saltei ao inconsciente e, aos poucos e pela primeira vez, a imagem de meu próprio rosto foi se formando nítida em minha mente. Mais nítida ainda que a imagem oferecida pelo espelho aos olhos; já que os olhos, como sabemos, enxergam apenas o que querem. Transformam signos imperfeitos em sutis traços – os amaciando diariamente durante o escovar de dentes de cada dia em que acordamos mais velhos. O vento, úmido com seus cristais, foram moldando em meu rosto uma máscara, como que de gesso, mas de sutileza microscópica; invisível, sensível apenas aos micro-nervos, que, até então, nem se quer sabia que existiam, e que, além disso, de uma hora para outra resolveram submeter seus estímulos aos lobos occipitais de meu cérebro. Meus cílios superiores, longos, se unem com os inferiores, e permitem à modelagem de minhas pálpebras: longas, parecem não ter fim, ao término dos olhos caídos, seguem abaixo, na vertical, como canaletas talhadas pelo curso das lágrimas até a minha boca. Boca, queijo, nariz, pêlos, orelhas, a testa proeminente; e a imagem de meu próprio boneco de cera foi se formando.

Tudo isso durou por volta de dez minutos; engraçado o relógio teimar. Teimei em ler um rascunho de uma história que mal consegui inventar, e o relógio marcava duas e vinte dois; tomei um copo d’água, voltei ainda às duas e vinte e dois; chacoalhei a espreguiçadeira e me sobrepus a ela. Meu último ato, em nome da consciência, que costuma acusar o tempo que desperdiço a cochilar, serviria para reforçar à minha memória o horário em que me entreguei à preguiça a fim de desdenhar minha consciência quanto, posto novamente em pé, fosse subtrair o horário apontado pelo relógio ao que via quando me deitei: já eram duas e vinte e três. Agora, além de confuso, me falta o remorso pelo tempo desperdiçado a sonhar. Falta aquela sensação que, atrás de diminuir o prejuízo causado pelo ócio, faz com que eu produza dobrado – na eterna mentira que conto a mim mesmo: que a paz que preciso chega pelo tortuoso caminho do trabalho a exaustão. Mas hoje não. Sonhei sem sair do espaço e tempo. Vou desta vez para a cama, onde o tempo costuma passar mais rápido, sem trabalhar na fantástica história sobre o desaparecimento do homem invisível, torcendo para que me traga outro sonho, desta vez, sem canaletas de lágrimas.

27 de agosto de 2008

Dia seguinte

O cigarro parecia ocupar suas duas mãos. Arcado, sentado, na cadeira de madeira no centro da sala, chorava sobre seu retrato. Como espasmos, às vezes interrompia aos olhos a imagem, levava as mãos à cabeça e saltavam, ornamentais, contíguas, cinzas de cigarro e caspas até pousarem no paletó preto, calça preta, retrato preto, dentro da sala cinza. Precisava tornar à fotografia para lembrar porque chorava, e tornava a chorar.

Quantos anos haviam passado? Quão rápido e ao mesmo tempo trabalhoso chegar onde chegou? E, ao voltar para a casa fria, encontrou pela primeira vez aquele retrato, coberto pela poeira, sobre a escrivaninha da sala, num canto onde seus olhos – fieis às suas ambições – procuravam não passar. Sabia que estava, mas um estranho desejo, tão cativante quanto aterrorizante, insistia por alguém a observá-lo. Desejava, aos soluços, que sua temida e famosa bravura fossem descobertas por mais alguém. Não esperava por sua mãe, irmã ou mulher, mas por um vizinho ou colega; precisava de alguém sem paixão, sem traquejo com os sentimentos. Alguém que o observasse, a princípio, com certa compaixão – mesmo sem entender o que se despertava dentro dele–, mas que logo desse lugar a um julgamento frio, injusto, e, por fim, lançasse desprezo com os olhos e ironia com nos lábios e semblante. Sem palavras. Que desse as costas e partisse, deixando apenas o sono dos que adormecem chorando e o pesadelo do dia seguinte.

Por fim, aceita o dia seguinte como o chão da sala aceita suas cinzas, bitucas e corpo. Mas não dorme ainda, jaz, cadáver acordado, sentindo (...) sensação sem pessoa correspondente. Quando o desejo pelo inconsciente vence e é permitido dormir, dorme e acorda logo. Feliz, sob os primeiros raios do dia, volta a ser o que sempre quis e sai sem saber que nunca mais se lembrará de procurar, caído, no chão, sob a escrivaninha da sala cinza, fria e suja, seu retrato – tão feliz quanto distante.

14 de agosto de 2008

Caderno Azul


Das anotações de seu diário, ele, que há muito deixou de acompanhar o calendário, vive seus últimos longos dias. Eram páginas amarelas de um diário antigo. No tempo, o mais comum era morrer moço e, nos diários, os dias seguiam em anotações que, muitas vezes, não eram da mesma pessoa que os iniciava: a vida reciclava-se nas anedotas interropidas pelos pais mortos que os filhos continuavam. Não é o caso de Caderno Azul, que inaugurou seu caderno, assim como a sua pena, assim que foi apresentado ao alfabeto e carrega até hoje, sob seus olhos vivos, o diário de sua vida. Este livro, de relatos em páginas amarelas cobertas por capa verde, registrou seu último depoimento no dia 05 de agosto de 1927. Desde então, na época com cinqüenta e nove anos, seu proprietário passa as suas horas lendo as linhas e busca compreender as entrelinhas de tudo que viveu até aquele dia.

A história de Caderno Azul é daquelas lendárias. Lendárias, pode-se dizer, em povoados que nada têm de mais lendário a produzir do que seus poucos personagens. Afinal, Azul nasceu e vive há mais de um século num pequeno vale que pertence somente a deus e ao diabo. Onde os governos com seus soldados, policiais, delegados, capitães – como bedéis da desordem urbana – (...) juízes e ministros não chegaram e a ausência deles nunca foi notada. Enfim, a população habita um dos poucos lugares onde ainda reina a paz, a ordem – em desordem honesta – e o bom-senso. Em qualquer grande cidade, boas histórias – como a de Caderno Azul – se perdem no zum-zum-zum dos dias de trabalhar.

Caderno Azul é conhecido mesmo antes de nascer. Seu pai, forasteiro, chegou ao vilarejo de sabe-se-lá-onde com vinte e três anos e, mesmo com toda a desconfiança que o cercava, logo anunciou que chegará para ficar e procurava uma boa mulher para ser mãe de Caderno Azul. Uma única aspirante a mãe de Caderno Azul apareceu logo. Mulher de belo corpo que, à época, com quase trinta, fazia crer que as belas curvas de seu corpo estavam com os dias contados. Os anos contrariam a expectativa. Caderno Azul iniciava sua adolescência e sua mãe ainda inspirava suspiros, em sua maioria, velados.


Registrado em dia dezenove de outubro de mil oitocentos e oitenta. Azul tinha doze anos, sua mãe quarenta e um: “Mamãe e eu passeamos para trocar a saca de arroz por umas galinhas e leite. As ofertas não agradaram mamãe, mas o que deu o que falar foi um moço que parecia oferecer um cabrito ranhento em troca de algo sussurrado ao seu ouvido. Uma grande confusão se armou. Um amigo de meu pai, que passava por lá na hora, quase deu com a mão no rapaz. Já em casa, obedecendo minha mãe, fui para o banho. Quando saí, papai estava furioso e o amigo que antes queria bater no rapaz tentava convencer meu pai a ficar calmo. Por fim, conseguiu acalmá-lo. Fiz as minhas lições para a aula da professora Joana”.


Há oitenta anos que a vida de Caderno Azul é baseada em anotações de cinqüenta e nove anos vividos. Lê e relê, linha por linha, suas anotações. Às vezes pára, olha distante com a mesma expressão que oferecia às páginas do diário, e curva-se outra vez às suas anotações. Certa vez, o mensageiro, que girava a matraca e convidava quem estivesse ao alcance de seu som para ouvir as notícias do mundo, calculou que Azul lia a última página de caderno a cada quatro meses. Mas não havia precisão no cálculo. A leitura de Azul, embora regular, não trazia linearidade.

Nunca ninguém leu ou entendeu o que levou Azul ao estado letárgico em quê vive. A população entende este personagem apenas como um velho, coberto por farrapos, com a pele carcomida por sol e chuva e as pernas plantadas sob a terra até a metade das canelas. Consumido, pouco-a-pouco, pela memória, pelo tempo e pela terra. Quem lesse o diário saberia, nas anotações da juventude, de suas súplicas esquecidas por Maria, dos desafetos com João e dos pecados com Sebastiana. Em algumas páginas, como as que homenageavam a morte dos pais, encontrariam pequenos círculos amarelados e enrugados. Se Azul permitisse expectador às anotações, saberiam que desenhava bem: tinha o altar, no dia do casamento, e o pequeno caixão de seu filho, meses mais tarde.

No entanto, mesmo que lessem, não entenderiam Caderno Azul – seu pé de raiz, seu diário roto, seu silêncio – isolado, plantado há décadas na praça central da cidade. Não foram os golpes ou galanteios da vida que o transformaram em excêntrico personagem lítico, mas a observação contundente de que, mesmo em sociedade das mais justas, o homem segue empresa daninha. Neste pequeno vale, sem governo, onde a ordem pública – ao contrário de uma, que, em nome da liberdade, admite inúmeras injustiças; ou de outra, em determinado momento, em nome da justiça, apresentou a severa face castradora, devorando a liberdade – oferece o mais sensato dos convívios, Azul se cansou das mesquinharias seguidas que o convívio com as outras pessoas oferecia diariamente. Sem Casa Verde para apropriá-lo, plantou-se em praça pública para assistir, em seu diário, repetida vezes sua vida e tentar encontrar o que o torna humano.

11 de junho de 2008

A gérbera e o calendário

Quando estava prestes a completar seu quadragésimo aniversário – comemorado no primeiro dia do ano – foi à papelaria para comprar o calendário. Desde criança – quando comprar o calendário-de-mesa era um evento entre pai e filho –, escreve, sobre o ano gregoriano, seu ano de vida: este era seu calendário quarenta e um. Consultar seu arquivo de calendários é como consultar um sumário, inteligível, de sua vida. Sem legendas, os dias são marcados por círculos, quadrados, xises; sublinhados. Claro, muitos passam despercebidos às canetadas. Nos dias marcados, fica ao olhar a curiosidade de “o que aconteceu neste dezessete de maio que mereceu este xis vermelho”, ou “vinte e cinco de março, riscado de ponta a ponta”. Ninguém sabe o que um círculo significa; ou um xis, ou quadrado. Ninguém sabe nem mesmo se há significado ou padrão para cada um destes sinais.

Há quinze anos, a residência do calendário vigente deixou de ser sua casa. Com vinte e cinco foi aprovado em concurso público e a Câmara Municipal recebeu o jovem relações públicas com seu calendário 26 debaixo do braço. Viveriam ainda lá o vinte e sete, o vinte e oito, o vinte e nove, até o, recém inaugurado, quarenta e um. Seu trabalho empolgou por pouco tempo; logo era “recorte e cole”. É responsável pela organização das cerimônias oferecidas pelos vereadores da casa a representantes públicos de outras regiões. Há, também, não tão raras, as cerimônias aos próprios munícipes. Com raras exceções, precisa apenas seguir uma lista de tarefas já preparada – por ele mesmo, em seus primeiros anos como servidor. Basicamente, seu trabalho limita-se em alterar a data, nome do evento e dos integrantes da mesa principal e imprimir cópias para os funcionários menores colocarem a mão na massa. O fornecedor chamado para preparar o coquetel era sempre o mesmo; os funcionários que cuidavam da limpeza e copa eram sempre os mesmos; e os enfeites de flores para as mesas eram sempre os mesmos.

Mas, enquanto respirava a primeira página do calendário quarenta e um em um de seus de seus trinta e um dias, o trágico despertou sua vida. O floricultor, e florista, encarregado – desde sempre – pelo fornecimento de flores para os enfeites do salão e mesas, durante jornada no campo de cultivo, foi atacado por um enxame de abelhas. Não resistiu a investida, sucumbindo em colapso pulmonar. O choque pela morte do veterano fornecedor teve que dar lugar à urgência por um novo. O relógio se aproximava das sete da noite quando recebeu a notícia. O evento, marcado para as nove da manhã do dia seguinte, receberia seus convidados a partir das oito, ou oito e meia, não faria menção à morte do floricultor com minuto de silêncio, ou sem um único arranjo como espécie de homenagem: “Sem você nada será como antes”. Dá-se pouca atenção à morte de floricultores nas Câmaras Municipais. Assim, não havia saída, senão brotar alguém que arranjasse os enfeites.

Conseguiu, por indicação de um poeta conhecido, o telefone pessoal de uma florista de uma cidade vizinha. A doze horas da cerimônia, acertavam as questões logísticas da entrega, assim como as financeiras. Pontualmente, às cinco horas da manhã, o relações públicas, de jaqueta jeans, soprava – a esquentar – as palmas das mãos em frente ao salão da Câmara; quinze minutos depois, já inquieto, viu a Kombi da floricultura, de faróis acesos, embicar à entrada. Os funcionários responsáveis pela entrega traziam, além das flores, um recado da chefa: só teriam rosas-colombianas para metade das mesas, por isso as gérberas. O relações públicas quis morrer de azia. Nem tanto por ele – era simpático às gérberas –, mas pela esposa do presidente da Câmara que, na última solenidade, o elogiara pelo bom gosto com as rosas. Podia parecer desdém, após o elogio, a mudança. A nota fiscal também não veio com os funcionários; isso era compreensível: não deu tempo das flores passarem pelo escritório da floricultura, vieram direto do armazém. De certa forma, foi um gesto de confiança da proprietária.

* * *

A casa era levemente desarrumada – o que não impedia suas belas manhãs, que invadiam sala, quartos e cozinha através de vidraças emolduradas pela poeira; belas tardes, um pouco mais amarelas que as manhãs; e noites, de amarelo-velho, das lâmpadas incandescentes. Uma extensão de seu trabalho, com muitos vasos de flores e plantas e algumas encomendas em papéis amontoados sobre a mesa principal. Quando o telefone tocou, ela borrifava solução de inseticida diluído em água nas folhas verdes de suas camélias. O telefonema interrompeu. Fez as ligações que garantiriam a entrega do dia seguinte e deitou-se com o som de sua antiga vitrola a cobrir-lhe.

A loja onde vendia as flores nasceu de uma sociedade com um antigo amor. Com o passar do tempo, as flores eram cada vez mais pálidas, as plantas opacas e seu sócio ausente. Enquanto ele buscava flores belas de outros jardins, ela passou a dedicar-se a criar sozinha novas espécies. Os polens misturados não davam em nada e as flores que o sócio trazia duravam pouco. Em pouco, não fazia mais sentido à floricultura flores novas de outros jardins; tão pouco, as que jaziam antes mesmo de brotar entre os dois.

Sozinha, deixou de dividir os lucros e dívidas da casa e da loja. Sozinha, logo um pólen fecundou e gérberas com pequenas pintas pretas começaram a nascer. Nunca entendeu bem por que. Enquanto isso, levou muitos amantes à casa amarela. Com o tempo a floricultura impôs um ritmo de vida decente, com o qual, vendia flores em quantidade suficiente para viver com o conforto que precisava. Com o tempo, sentia cada vez menos as ausências de qualquer um que, de qualquer maneira, já tivesse marcado sua vida amarela.

As flores não lhe faziam companhia. Eram, na loja, seu objeto de penhora com a vida; e, em casa, fonte de cuidados que a faziam esquecer dos seus. Tinha uns poucos caprichos de comerciante: num deles, agradava trocar seu cultivo por trocados contados de pobres-diabos. Enxergava nas flores que eles levavam uma ansiedade singular – singular, como o dinheiro que lá deixavam. Quando anunciavam quanto dinheiro tinham para agradar alguém – quase sempre amores platônicos –, ela tratava de animá-los.Contava a história e o que cada flor do arranjo queria dizer como quem põe na boca do namorado as ternuras que devem ser ditas ao amor. Os pobres-diabos saiam, sem saber, com arranjos que valiam dez, quinze vezes mais do que pagavam.


* * *

O evento consumiu a manhã toda e transcorreu bem – sem o elogio da esposa do presidente da Câmara. O relações públicas esperou o almoço para colocar tudo em ordem: o pós-evento. Aproveitou o intervalo para resolver alguns assuntos no banco. Quando voltou, encontrou sobre a mesa um envelope com a nota fiscal e um bilhete, escrito à mão, sob um pequeno vazo de gérbera:

Querido, (...).

Desculpe a falta das rosas-colombianas. A urgência de sua encomenda impediu providência junto ao meu fornecedor. Enviei gérberas, como deve ter notado. Mas as trouxe com uma motivação especial: são de uma espécie que criei. Repare, suas pétalas amarelas têm pequenas pintas pretas. As pintas são tão pequenas que não costumam notar a diferença entre estas e as que encontramos por aí. Mas, agora que sabe, gostaria que entendesse como são especiais para mim.
Espero que seu evento tenha sido feliz.

Atenciosamente,
(...)

Não estava acostumado com este tratamento. “Querido”? Este era o recado mais pessoal que recebia em anos. No entanto, o modo íntimo com que a floricultora o tratou, deu espaço a uma sensação, de tão antiga, desconhecida por ele. Providenciou que o pagamento pelos arranjos fosse realizado, ajeitou o vaso sobre a sua mesa e deixou as pequenas-tímidas-pintas-pretas saltarem aos olhos.

Dias, semanas e meses, continuam a seguir. Sem, no entanto, que o relações públicas se esqueça – toda sexta-feira –, quando a flor se inclina, murcha, e devolve aos seus olhos os dias vazios do calendário, de circular a próxima segunda-feira – quando deve visitar a florista para comprar a gérbera da semana seguinte. Murchando entre as flores, o tempo da florista também escorre, enquanto acha graça do senhor calado que toda semana leva um vaso de suas gérberas pintadas e não nota mais o tempo passar.

2 de junho de 2008

Pequeno livro de uma história de amor

Meses

Não precisaram de anos. Alguns meses, e já não eram mais. Uniram as costas, passagens nas mãos, e voaram, cada um, cinco horas para onde a testa apontava. Em cinco horas, estavam a dez um do outro; em poucos meses, tornaram os mesmos de antes.

A vida tornou a castigar cada um – como estava acostumada a fazer antes de colocar um frente a frente com o outro – a sua maneira. Ele conseguiu emprego só quando gastou suas últimas moedas no ônibus que o carregou à entrevista. Ela, em suas noites, dividia com os olhos o teto do quarto e com os ouvidos os gemidos de sua amiga e namorado no quarto ao lado. Ele se esparramou nos bares; aumentou os copos, as atrizes, os cólos e as cicatrizes. E, sem saber bem porque, acordava no dia seguinte. Às vezes, ela pretendia calar o quarto vizinho com o barulho do seu, mas soava falso.

* * *

Morte

Que poder a morte possui para unir as pessoas! De cara, é causa mor do anseio por viver. Sobre sua perene sombra, há milhares de anos, corpos e almas atiram-se a favor de outros corpos e almas. Mas há também outras formas; como foi o caso deste casal: chegou a um amigo comum dos desquitados. Os dois partiram juntos para o mesmo destino; de volta. Ele se esforçava para não esquecer o amigo morto, ela também: a lembrança, um do outro, insistia em atraí-los.

Ela receava o reencontro. Tinha medo da frieza, de se ver diante de nova amante; de ter sido esquecida. Pelo contrário, ele queria vê-la. Deixava seu coração acelerado o abraço que seguramente viria ao se verem: com gosto de lágrima de velório e saudade. No entanto, nenhum sabia se o outro conseguiria ir: ela imaginava que pudesse estar sem dinheiro; ele, que o trabalho talvez a impedisse.

* * *

Missa

A igreja recebeu o casal em missa com o corpo presente. Evidentemente cansados, ambos entraram pela porta principal da igreja sem se encontrarem e se acomodaram de maneira com que ele poderia vê-la: ele à esquerda no fundo; ela na cadeira que mais se aproximava do centro da nave, no entanto, pertencente ao bloco de cadeiras à direita.

Ele, nitidamente o mais cansado, sucumbiu ao sono. Ela, como se lembrasse de um dia ter sido católica, seguiu firme cada palavra do padre e, dê joelhos e olhos fechados, rezou até a igreja esvaziar; ou acreditar que estava só. Ele dormia com a cabeça quase encostada nos joelhos; parecia rezar. Mas, ateu desde a faculdade, trazia pendurado aos ouvidos tímidos fios de fones-de-ouvidos. Quando ela o encontrou, estavam sós. Sentou-se ao seu lado, puxou um dos fones e colocou em seu ouvido – ele permanecia entregue ao sono.

* * *

Música

João disse: Vai minha tristeza... Pareceu ser para ela; ela obedeceu. Soltou o fone sobre o banco, beijou seu rosto e mão e partiu para o vôo da noite. Enquanto ela descia os degraus da igreja, ele dormia e balbuciava: Não quero mais esse negócio de você longe de mim.

Mas...

27 de maio de 2008

Por causa de umas tantas placas

Caminha, nesta estrada, o mundo todo igual: as placas foram 120; agora, 80; e o mundo, com 90, 110, 100, 105, foi extinto. Morosas réplicas, imperfeitas réplicas, seguem sem ultrapassar o destino uns dos outros. Por causa das placas, anseios (quase sempre) distintos igualaram-se e os distintos destinos não cruzam mais como antes. Como antes, apenas, porque, mesmo com as placas, ainda existem alguns que vêem em 80 muito – e seguem a respeitá-lo como limite máximo, não como padrão – e os que ignoram as placas e caminham além delas. Ambos são exceções; ambos são criticados quando ultrapassam ou são ultrapassados. O normal agora é distância igual do início ao fim da estrada.

Armando, como a maioria, segue a 80 e segue a cartilha – há muito tempo vigente. Casou-se e intercala os fins-de-semana entre a casa de seus pais e a casa de seus sogros: em cidades opostas, casas geminadas, jardins suspensos, pouco riso, tudo rijo. Recebe um pouco de inveja que logo oferecerá aos desconhecidos como ele. Há muitos anos, seu pai leu de um doutor e Armando, a vida toda, não fumou. A mulher de Armando, tanto leu que o cabelo cacheou, cresceu, alisou, escureceu, amarelou. Ela, ao contrário de Armando, recebe de volta a pouca dose de inveja que antes dedicou.

Armando só lê o que está escrito para que todos leiam. Consulta o obituário e, esta semana, sabe que o gerente será promovido à vaga deixada pelo diretor, o coordenador será gerente e que ele será coordenador: mesmo que, no fundo, saiba que seu auxiliar merecesse - mais que ele mesmo - sorte melhor que o burocrático trabalho que assumirá. Todos caminham a trajetória idêntica de seu antecessor e dão o mesmo sorriso às novidades – em escala – a partir da morte de um diretor. Contam, logo que um obituário novo traz a boa nova: o novo diretor, primeiro à amante, depois à esposa; o novo gerente fala alto no bar e grita – para vizinhança escutar – em casa; o, agora coordenador, Armando leva a esposa para jantar – e deixa para ela a graça de contar aos pais –; e o ex-auxiliar só tem a mãe que vá escutar.

Todos sentam em frente à televisão, confortam-se pela inesperada promoção e deixam o jornal trazer a glória das placas que punem quem anda a mais de 80. Então, boa noite.

15 de maio de 2008

Ao fechar a mala, ainda é tempo de não partir

Ao fechar a mala, ainda é tempo de não partir. Roupas dentro, livros intercalam; par de sapatos. Depois, correr os zíperes; palma das mãos, sobre a cama, entre as peças de roupas que decidiram ficar; olhos fecham e trazem o caminho a seguir. Medo de soltar a cama, onde vive acordado também. Cama preparada, como está costumava a aguardar seu único hóspede.

Há a saudade, em pré-visão, enquanto os olhos ainda silenciam. Ainda é tempo de ficar: roupas de volta ao armário, poetas à estante, vida ao juízo, corpo à cama; certo constrangimento. Tudo passa. Os olhos voltam a acender, as mãos e ombros às alças das bagagens e o alívio de já ter passado pelas despedidas.

O avião torna ao chão – os dias correm –, o vazio das primeiras semanas é preenchido e a saudade é gostosa recordação: pode agora mandar notícias ao passado.

23 de abril de 2008

São Francisco, Estados Unidos, 13 de janeiro de 2003

Esta é a sexta carta entre dois irmãos chineses: um (eu - Tài Tai Li) de São Francisco (EUA), outro (Lao Peng Li) que foi à China devido a morte do pai. Acompanhe as cartas anteriores: primeira, de Aiko Koan, avisando a morte do pai; segunda, de Lao Peng Li, assim que chegou na China; terceira, de Tài Tai; quarta e quinta, Lao Peng.


São Francisco, Estados Unidos, 13 de janeiro de 2003


Como os fatos que sucedem algumas de nossas iniciativas podem ser cruéis. Você, por exemplo, escreve – sem ao menos saber se voltaremos a nos ver – com a mesma petulância, e aplicando a mesma força, com a qual me educou e manteve sob seu domínio durante a vida. A diferença desta vez, irmão, é que você está longe. Não que a distância me tire o respeito por você; mas agora, que não o tenho por perto para proteger-me, não posso tê-lo para temer. Sua ida para a China me colocou de frente com a vida que eu sempre evitei encarar amparado em sua proteção. Espero não causar má impressão: é, para mim, a referência de segurança, equilibro e razão – mas quando está por perto! Dar ouvidos às suas implicâncias, seria como prostituta pagar aposentadoria a cafetão; se permite a analogia.

Voltando ao início da carta. Por descuido, muitas vezes começamos processos que desencadeiam em situações que até então pareciam improváveis. Meu irmão, entre os dias que sucederam – entre a penúltima e a última carta que me enviou – aconteceram mais coisas que o seu arrependimento pelas duras palavras que me dedicou. Como pode imaginar, o entusiasmo por receber uma carta sua e a decepção pelo conteúdo de suas palavras muito me se sensibilizaram. Como pôde questionar meus princípios, ou bagagem que carrego da minha cultura e de meus antepassados? Como ousa projetar sobre mim, as comemorações dos ritos da passagem de ano ocidental se – e sabe bem disso - pouco ligo para o calendário que eles adotam. E se a curiosidade persiste a tirar-lhe o sono e queira saber como comemorarei o a entrada do ano-chinês 4637, no início de fevereiro, cuido para acalmá-lo: respeitarei os quinze dias de nossa cultura; não comerei carne no primeiro; rezarei por nosso pai, mãe, irmão e todos nossos antepassados no segundo dia; ficarei em casa, enclausurado, no quinto; lamentarei a distância de você - meu único parente vivo - no oitavo dia; e acompanharei a procissão das crianças com as velas e lamparinas para iluminar o ano do carneiro que se inicia no décimo quinto dia. Mas como dizia, três dias foi tempo demais entre suas ofensas e os pedidos de desculpas. Embora estivesse entusiasmado pela postagem, só a abri após fechar a lojinha – precisava do silêncio para absorver melhor suas palavras; nisso, infelizmente, fui feliz. Não preciso dizer que o golpe foi duro demais. Anestesiado, saí pela rua em direção de casa... passei, como que flutuando, por sua entrada; fui dar-me no balcão da boate das putas. Não queria conversa, nem programa. Queria beber onde estivesse escuro o suficiente para me sentir invisível: mesmo sabendo – e atestando mais tarde – que não era. O movimento da clientela, que se amontoava conforme a noite corria, me empurrou para uma mesinha redonda no fundo da casa. Eu estava para ir embora quando Tung chegou. Ela se sentou sem ao menos pedir licença; talvez estivesse um pouco bêbada, talvez apenas exausta. Pediu ao garçom duas doses de vodca, disse que era “por conta da casa”. Ficamos em silêncio até as bebidas chegarem. Quando o garçom as trouxe, Tung – com o copo em mãos, em riste – fixou os olhos em mim como te visse, ou quisesse ver. Pode ser que eu tenha olhado para ela com este mesmo anseio, vê-lo. Assim, os anseios de ambos – eu e ela –, formaram um espelho de teu rosto na mesa daquele cabaré. Viramos nossos copos. Meu irmão, não pude controlar a tristeza; as lágrimas tomaram conta quando ela me perguntou por você. “Como ele está?”, só isso. Diante do frangalho que me tornei com a pergunta, me debulhando em lágrimas, aquela mulher foi a pessoa mais gentil e generosa de toda a minha vida. Com a cabeça entre seus seios chorei como nunca antes. Comecei por chorar de raiva – em homenagem a carta que você havia escrito –, depois aproveitei o colo para chorar nosso pai, nossa mãe e irmão, e, por fim, (não se percebi ou) passei a chorar por mim mesmo. Ela ofereceu sua cama para que eu dormisse, rejeitei; no entanto, permiti me acompanhar até nosso apartamento. Eu ainda enxugava os olhos com as mangas, quando chegamos ao prédio. Foi com um beijo, de mãe que se despede do filho, que nos despedimos selando nossos lábios. Senti aliviado quando entrei em casa. No entanto, fervi durante toda a madrugada dando outra conotação àquele beijo. Durante os sonhos daquela mesma noite, éramos homem e mulher, eu e Tung, apenas. Nos dias seguintes, quarta – dia 8 – e quinta, não nos vimos. Apareceu, coincidentemente, com o carteiro que trouxe sua segunda carta, sexta-feira. Num almoço rápido, onde mal tivemos tempo para conversar, decidimos que ela tiraria a noite de folga na boate e iríamos nos encontrar para conversar. Sua carta, por sua vez, dormiu lacrada de sexta para sábado na loja: pode ser por medo de você e suas arrogantes insinuações e insultos; pode ser por medo de despertar uma consciência que eu não queria ter no desfecho daquele meu dia. Conto, até aqui, com detalhes, meu irmão, para diminuir as margens à sua imaginação pessimista, daninha. O que descobrimos, eu e Tung, na noite de sexta, é que somos carentes, de maneiras de distintas, de compaixão; de maneiras distintas, por amarmos você. Descobrimos, ou desconfiamos, que este fim-de-semana, que acabamos passando juntos, foi pouco; deu vontade de descobrir mais. Pensando bem, acho que faz mais sentido dizer que a primeira (das duas últimas cartas) carta chegou cedo demais, não foi a segunda que chegou muito tarde.

Após questionar minha origem, meu comportamento, meu sangue, e o sobrenome que carrego, não é difícil entender que tenha deixado a sua carta seguinte esfriar um pouco sobre o criado-mudo do escritório na loja. Esbocei, inclusive, um sorriso ao passar os olhos nas primeiras linhas – em seu pedido de desculpas. Mas não são desculpas de arrependimento; são de ocasião. Haja vista, como continua “Reafirmo que, do que disse, muito é verdade. Acredito, porém, que nossa união nesse momento de conturbação é mais importante que as prateleiras da loja ou seu comportamento ocidental”. Caso eu aceite, sem antes questionar, seu pedido de desculpa, terei que aceitar que envergonho nossa família e antepassados. E isso, em minha opinião, os últimos acontecimentos tratam de contrariar. Lamento, após tantos anos, discordar de você: acho que neste período devemos deixar nossa relação em ordem, mas isso não se dá passando por cima de todas as diferenças que nos cercam. A única coisa de bom que resta de sua última mensagem é que ela carrega notícias suas; não começa e termina em críticas gratuitas.

Sei que será difícil digerir todas as informações que esta carta carrega. Espero que saiba que nada faço para te prejudicar. Sinto-me liberto e talvez ainda não tenha aprendido a agir com tamanha liberdade. Ao mesmo tempo, não sinto te trair ao me aproximar de Tung, ou realizar mudanças na administração da loja. A propósito, ainda não fechei o caixa deste mês, mas, ao que tudo indica, ela dobrará sua receita este mês.

Desejo, do fundo do coração, que encontre a paz necessária para realizar a nobre empreitada que o levou de volta à China.

Fico contente que após todos os anos de distância você e Aiko estejam se entendendo. Espero que o encontro tenha sido agradável. Caso a reencontre outra vez, estenda meus cumprimentos, assim como estenderei os seus a Tung.

Rezo para que esteja iluminado para responder esta mensagem; rezo por você.



Tài Tai Li.

13 de março de 2008

Copo de leite

Só se sabe que ele estava só. No aposento, corpo no carpete, na casa; não tinha marcas, expressão, vontade, conforto; não tinha vida. Os pés – grudados às pernas que sonhavam de bruços – apontavam cada um para um lado: pareciam ter dado início a uma fuga onde discordaram sobre o lado que deviam seguir; o tronco, pesado, contorcia o quadril e pressionava o ombro esquerdo: diferente das pernas, da cintura para cima, dormia de lado. Notava-se que não quis se deitar. O peso lançado à base do braço esquerdo, e, pela posição do poeta morto, não parecia possível, mas o braço direito, durante a queda, chegou antes ao chão e fez-se fulcro da alavanca entre o ombro e a mão esquerda, rija, suspensa no ar: a quinze centímetros, um copo, inteiro, deitado derramava leite entre o carpete e o assoalho.

Sua poesia foi lida e comentada. Autor conhecido, não foi brilhante – embora se encontre, não poucas, passagens inspiradas em sua obra –, esteve entre os cinco escritores de sua geração que sempre eram citados nas conversas vazias nas mesas de estudantes de Comunicação. A herança deixada pelo pai – professor de escola de pública que economizava cada centavo para o futuro dos filhos – e pelo seu avô materno, ofereceu uma vida tranqüila onde trabalhou apenas para desenvolvimento pessoal. Mesmo assim, não costumava manter suas ocupações por mais de um ano: tempo estimado para o trabalho deixar de ser fonte de amadurecimento pessoal e se tornar perda de tempo.

Teve algumas mulheres que, de certo, choram o corpo que esfria no carpete. Para cada uma delas escreveu poesias: umas delicadas, outras pornográficas, muitas trovas e até sermões; sempre respeitando métrica e rima. Alguns destes textos foram publicados, outros nunca; mas é certo que hoje estas senhoras, na juventude musas do poeta morto, fugirão dos maridos, se trancarão em seus banheiros, ligarão seus chuveiros deixando à água confundir-se com o som das folhas que entornarão, aos seus seios, sussurros do outro amor. É certo que as águas do chuveiro servirão para levar a nostalgia, traidora da razão, e ao saírem do banheiro e encontrarem seus companheiros, também velhinhos, lembrarão pela última vez do poeta, morto, e só, no apartamento: para sorrirem e desfrutarem da vaidosa felicidade por terem sido mais felizes.

O círculo de amigos e parentes, que envolvia seu corpo, se enganava silenciosamente olhando o poeta e pensando nas paixões que o fez viver. O homem foi poeta na tortura da morte de cada uma de suas paixões e só pôde viver homem quando as esquecia. Seu único irmão – que já foi mais novo, mais velho e tinha a mesma idade do poeta quando morreu –, aventureiro anônimo de versos, se conformou um pouco mais com o leite derramado: quem carrega o conforto de um copo de leite da cozinha para o quarto matou muito antes o poeta.

27 de fevereiro de 2008

Campeonato de cambalhotas

Entre os vira-latas que passeavam soltos pelo Jardins, pelas Oscar Freire, Lorena e Tietê, ladeirantes da Bela Cintra, Consolação e Haddock Lobo, causava estranheza seus colegas, cães, com presilhas, tosas, coleiras e perfumes que alcançavam de longe seus focinhos acostumados às sobras dos dias do caminhão do lixo passar. Estranhavam, mesmo, conforme os dois jovens sarnentos notaram, a felicidade dos outros: que havia o que havia de feliz naquela vida cheia de pompons perfumados.

Sentiam falta da atenção dos homens vez em quando, mas, geralmente, quando chamavam atenção deles, tinham que escapar das vassouras, paus e pedras. E, observá-los, trouxe aos amigos soltos indagações. Passaram a discutir nos fins de tarde, enquanto aguardavam os pães envelhecerem nas padarias, sobre a estranha satisfação que aqueles cachorros arrastavam, enquanto arranhavam os asfaltos, querendo ir à frente, à árvore, à urina de seu antecessor; enquanto, presos às coleiras, estão empunhados pelos severos patrões de óculos escuros que os impedem de ir à frente, quando o desejo é este, ou os arrastam sob a pressão da enforcadeira quando param.

– Conheci, enquanto aguardava as sobras desta mesma padaria aquela semana que esteve naquela casa de família, uma fêmea de pêlos longos. Seus pêlos, aliás, brilhavam e cheiravam mais que os da dona que entrou na padaria e amarrou-a no poste aqui em frente. Eu estava ali, esperava os sacos de comida, e aquela cadela parecia para mim, nem mesmo sei dizer por que, mais um obstáculo para matar minha fome. Ela percebeu meu incômodo e tratou de me confortar: “Com licença, noto que minha presença o incomoda, mas saiba que sou adestrada, não disputo sua comida, não posso comer na rua”. Uma cachorra educada a não comer na rua!

– Educada ou adestrada? – perguntou o colega.

– Ela disse adestrada...

– Como me contou, com detalhes, palavra por palavra que a donzela – com tom irônico à última palavra – empregou, bem pode ser as duas coisas: educada e adestrada. No entanto, são duas coisas distintas: uma, oferece bons modos que resultam em boas – com ironia, outra vez, nas palavras ‘bons’ e ‘boas’ – maneiras; a outra, acusa treinamento que bitola as patas e os focinhos a não obedecer às vontades até que elas, as vontades, morrem.

– Não é possível. – Retorquiu, e continuou: – Como as nossas patas e focinhos, se treinados, podem abafar as nossas vontades e instintos?

O cão ia continuar, mas distraiu-se com um casal de pulgas que caminhavam de sua orelha esquerda às costas, onde resolveram brincar. Primeiro tentou acertá-las com as patas traseiras: primeiro a direita, depois a esquerda; não conseguia alcançá-las. Lançou a cabeça para trás, contorcido, tentava com os dentes encerrar o balé das pulgas. O colega compreendia a angústia do amigo em silêncio e aproveitou para observar três pequenos pássaros que pousaram a dois metros deles.

– Não seria lindo se pudéssemos voar? – O amigo ainda aplicava os dentes nas costas e rosnou algo que indicava que prestava atenção. Prosseguiu: – Nunca pudemos voar, estamos, como nossos colegas de coleiras, presos ao chão com nossas asas atadas. O que estes pássaros pensam de nós? O mesmo que os peixes pensam deles quando os vêem sobrevoando sem poder voar sob as águas.

O amigo que retomava o fôlego interveio ofegante:

– Mas a comparação não vale. Nós, nascemos cachorros; estes três, pássaros; e os peixes, peixes.

– E saltou para espantar os pássaros que voaram. Voltou para o seu canto abanando o rabo, mais feliz um pouco. – O que me incomoda é ver irmãos cachorros, passeando sem liberdade, amarrados a um metro corda.

– Aos meus olhos, parecem felizes.

– E isso não te surpreende?!?

Ambos quiseram diminuir a diferença entre os colegas soltos e os colegas amarrados, mas perceberam as atas que os impediam de tornar a vida entre os cães mais igual. Por piedade, decidiram privar a liberdade que gozavam para se divertir e criaram uma brincadeira que mesmo os cachorros amarrados, que aguardavam seus donos nas portas dos botequins, poderiam se divertir: o Campeonato de Cambalhotas. Brincadeira que não exigia brinquedo e o raio da corda aceitava. O problema para os dois amigos soltos, e, por terem criado a brincadeira, juízes dos saltos, é que sempre alguém interrompia a brincadeira a dar-lhes pontapés para não impregnar suas pulgas, carrapatos e cheiros nos felizes cães adestrados.

14 de janeiro de 2008

Jardim de pedras

Quando a casa foi arrendada, embora o céu cinza, havia azaléias brancas e vermelhas que impediam a entrada de quem quer que fosse. O portão era baixo e convidativo aos que desejavam na casa entrar. Uma casinha de desenho: como um V, às avessas, o telhado cobria a parede inicial – de frente pra rua – azul clarinha, com os intervalos em seu concreto onde cabiam a porta e a janela. Borboletas, também azuis, chegavam até a varanda de entrada.

A casa estava conservada. Uma moça morou lá pouco mais de um ano. Parece que mentiu ser feliz e as borboletas azuis e as azaléias brancas e vermelhas acreditaram e tornou, à vista, a casa um belo cartão de modéstia invejável. Pareceu tudo superficial ao novo morador. Vasculhou sótão e caixa d’água, reparou nas rachaduras da parede da lavanderia e no ruídos dos degraus de madeira da escada que leva ao segundo andar. Procurou vestígios de cupins, corredores de formigas, fezes de ratos e asas de baratas. Por fim, sua exigência encontrou o desespero do proprietário e fecharam negócio por um preço baixo.

Não havia completado duas semanas como morador da casinha e o pó que as janelas cuspiam engasgaram nas traquéias das borboletas e contaminaram o pólen das azaléias. Tudo jazia sob o pó e o tilintar de uma máquina registradora. Após um mês, nem mesmo mariposas arriscavam-se nas paredes da casa; as flores e plantas do jardim refletiam a cor cinza do céu que cobria tudo o que havia para se ver.

A madeira da escada não ousa mais gemer os pisões do proprietário, as formigas não fazem caravanas nas imediações da casa, nem sinal de ratos, baratas e asas voaram pra longe – junto com as borboletas –, azaléias sem pernas curvaram-se podres e foram arrancadas. O portão, que em outro tempo e era pequeno e mal se notava sua existência pelas flores brancas e vermelhas que invadiam suas frestas, hoje parece grande e tem semblante sério. Grande o suficiente para fazer sombra a um jardim de pedras, cujo único trabalho ao seu dono contente é o de carpir os capins que teimam em nascer por lá após os dias de chuva.

9 de janeiro de 2008

São Francisco, Estados Unidos, 28 de dezembro de 2002

Querido, irmão.

Causa tristeza acompanhar, pelas linhas que escreveu, o que tem passado em seu regresso à China. No entanto - talvez pela idade com que o abandonei -, não paro de pensar que a morte de nosso pai é menor que a separação que tive dele quando viemos pra cá; e, ainda menor, do que me separar de você agora. Com a mesma tristeza, sinto não poder ajudá-lo. Sinto falta de seu apoio na loja e de sua companhia nas noites com a tv. Sobre nosso pai, pobre, sôfrego que viu morrer mulher e filho morrerem, além de ter visto nós dois desperdiçá-lo pela fantasia de vida melhor na América, não me surpreende que trouxesse seu semblante fúnebre marcado.

Vejo em sua volta, após tantos e tantos anos, um grande desafio. Enterrar nosso pai, seus ensinamentos sóbrios e equilibrados, ao mesmo tempo severo na juventude que tive dele, é uma tarefa que eu não saberia cumprir. Ao mesmo tempo, encontro-me só. Separado de você. Com a loja, sua parte administrativa, me sinto confortável; na verdade, sua viagem, despertou em mim um prazer pelos afazeres da loja que até então não tinha. Espero que não se aborreça: mudei algumas prateleiras de lugar para enxergar melhor quem quer nos roubar, reajustei alguns preços de acordo com o uso bairro e coloquei placas que anunciam promoções na vidraça. A loja ainda fatura como antes, mas espero ter novidades logo.

Mas, irmão, o que tenho pensado dói diferente. Ao morrer – enquanto a alma de nosso pai se funde ao espírito universal e vislumbra a plenitude de seus karmas – nos deixa somente memórias distorcidas de sua filosofia, a influência wu wei e o exemplo de espiritualidade de desenvolvimento espiritual que carregou durante sua vida. Hoje somos comerciantes, meu irmão! Quais ensinamentos ele nos deixou? Acredita que o seu exemplo e a sua preocupação com nossa formação espiritual foi em vão?

E que diferença há entre a morte de nosso pai – para mim – e a separação pela qual sou submetido enquanto você está na China. O consulado diz que não será fácil que consiga voltar. Vivo a esperança de seu retorno como passo a viver a esperança que a minha morte me leve à companhia de meu pai outra vez. A separação, assim como a morte que dá vida à alma e enterra a carne, liberta um enquanto escraviza o outro. Estou como escravo de saudade, de passaporte, de dinheiro; sinto falta de sua companhia dura, de caminhar sob a supervisão de seu entendimento e de agir sempre com o aval de seu olhar.

Tenho freqüentado mais vezes as putas, e mesmo elas, sem você, não têm sido a mesma coisa. Tung, ao me ver só nestas visitas, não se aproximou. Acredito que minha presença sem você a incomode e cause algum constrangimento ao aproximar-se dela algum cliente. Mesmo assim, garanto ser vago caso ela pergunte por você.

Mande lembranças a Aiko.

Aguardo notícias suas.

Carregado pela saudade,

Tài Tai Li

17 de dezembro de 2007

Jilin, China, 02 de dezembro de 2002

Caros Lao Peng Li e Tài Tai Li.

O motivo desta carta é triste, portanto, serei breve, sem muitas considerações.

Venho informá-los que o pai de vocês faleceu, ontem à noite, devido a uma infecção generalizada, advinda de um corte no pé feito com a enxada, enquanto carpia a lavoura.

Friso, aqui, o quanto tentamos salvá-lo e, principalmente, o quanto ele foi valente, resistindo e lutando bravamente por quase um ano. Infelizmente, devido às sérias dificuldades que enfrentamos aqui não pudemos guarnecê-lo de todos os medicamentos e cuidados necessários.

Em seus últimos dias de vida ele pronunciava incessantemente o nome de sua mãe e, pouco antes de morrer, me fez um último pedido: “Procure meus filhos que estão longe e diga a eles que retornem... eu vivenciei e posso assegurar-lhe que a busca pela sobrevivência não vale a renúncia de uma vida inteira...”

Espero que estejam bem.

Meus sentimentos,

Aiko Koan

9 de dezembro de 2007

Velho amigo sem volta

A mulher que eu amo, foi um homem do mato quem me trouxe.

Não trouxe assim, numa apresentação, convite de felicidade; mas triste, de quem já viveu dor que não morre. Este homem do mato é um velho que, como a dor que carrega, teima com a morte, embora há muito tempo tenha decidido iniciar as despedidas entre os desconhecidos que acaba conhecendo – entre os quais, me incluo. Vê-se nele pouca educação, pouco manejo com as pessoas: criança não familiarizada com diplomacias de sociedade. Mesmo assim, não era inculto. Tenho a impressão que dedicou aos livros que leu seus melhores anos e aos poucos abandonou este hábito.

Atlântida, para ele, contou quando criamos certa intimidade, ninguém habitava; era terra deserta. Não encontrava um só por lá: filhos, mortos ou vivos; mulher, que tenha ou tivera; pai que valesse, ou mãe que pudesse ter a pretensão de contar com seu convite para fazer parte de sua saudade. Ninguém. Era um velho com uma única pretensão, satisfazer a morte. Para isso sim, também me contou, estava preparado. Há alguns anos, quase dez se ele não se engana, havia quitado um jazigo no cemitério municipal e carrega sempre no bolso instruções que indicam os procedimentos caso caia morto nalguma esquina. Este papel, nunca mostrou. Diz que serve apenas ao ocasional agente funerário para as suas formalidades cadavéricas, como descrevia. No entanto, dividiu comigo um trecho das instruções; justamente, o fim. Que, garantia, serve apenas para o “povo que é burro e tem mais medo de morto do que de vivo”.

Dizia como último suspiro dele, em registro vivo dele morto: Por fim, quis o destino que meus planos para a morte, registrados aqui neste documento que tens em mãos, ficassem sob sua responsabilidade. Não imagino que se sinta honrado com a tarefa. Provavelmente, nem mesmo nos conhecemos. Mas, para sua infelicidade, não há neste, ou em outro planeta, a quem possa transferir este compromisso reforçado a cada palavra que invade os seus olhos. Imagino que não seja fácil lidar com a confusão de sensações ao ler o pedido de um morto que planejou para ti que, neste exato momento, enquanto esfria minha carne, executasse minhas ambições para o descanso eterno. Tudo o que foi pedido acima pode ser realizado com certa facilidade, mesmo assim exige certa dose de atenção para que eu tenha minha justa recompensa pela vida que vive; pois, senão, sem paz, ou coisa melhor a fazer, estarei a atormentar você, que descumpriu meu desejo em vida, enquanto existir. Garanto o tormento eterno a quem não garantiu o descanso que mereço. Sem alternativas, aceite meu sincero agradecimento. De um ...

Não quis que eu lesse como se despediu.

Nós nos encontrávamos com certa freqüência. Mora afastado da cidade: ao lado de um asilo onde meu trabalho exigia que eu entregasse as refeições. Sou funcionário de uma empresa de alimentos. Sempre que saía pelos portões do asilo, às onze da manhã, encontrava com ele e sua cigarrilha de bermuda xadrez. A primeira vez que conversamos, foi por uma piada que ele fez:

– Se eu entrar aí saio assim, com essa cara de menino?

Confesso que pensei nos caixões que, com freqüência, costumam levar os recém libertos do Lar Vivência, mas correspondi à brincadeira.

– Só os que comem a comida feita pela Coma Bem com Saúde – uma piada sem graça, é verdade, mas de espiritualidade compatível ao salário que recebo.

Passamos a nos conhecer melhor e a nossas conversas foram se desenvolvendo. Talvez pela solidão – porque não parecia que ele costumava falar destes assuntos com muita freqüência – os assuntos de nossos encontros sempre giraram em torno de seus pessimismos com a vida; de como a vida mudou e da falta de sentido de tudo. Não me interessava muito o assunto dele, aquele momento passou a ser meu intervalo para o cigarro. Chegava, entregava as refeições do Lar e sentava ao lado dele, por uns quinze minutos, num gramado para fumar.

Se amar implica numa gama incontável de combinações, a mais estranha delas trouxe de volta quem há muito habitava minha Atlântida. Descobri quem amo num encontro com o homem do mato. Não, na verdade, acho que mais justo dizer que descobri o amor. Um velho sem coração, sem história, que nunca amou. Sem pais, durante a infância, recebeu educação, moradia e refeição num orfanato. Nada, além disso, lhe foi oferecido; nenhum amor, mas, principalmente, nenhum ódio. As crianças e jovens do orfanato eram criadas por freiras que pareciam marionetes de deus. Eram frias, mas nunca hostis. Quando ficou mais velho um pouco e estudou mais sobre os povos, deixou de recordá-las freiras e passou a imaginá-las na recordação como russas. Sem saudade.

Por outro lado, fui casado, por amor, um ano e meio da juventude. Dividíamos a cama mole e o pão quente com satisfação. Continuo jovem, mas o casamento acabou. O velho nunca soube disso; nunca questionou quem eu sou, ou fui, ou pretendo ser. Ele não soube que casei, nem do beijo que ela provou e provou que o amor só morre quando o apetite de nosso orgulho o engole. O velho seguia sua ladainha: e a vida, sugeria, era repetição, uma mesmice que vista sem emoção chega a soar ridícula; e por aí ia, como era o normal todos os dias.

Mas, neste dia, eu acho que havia sonhado com ela e pensava nela.

– Tudo acaba onde estamos. Este instante, agorinha mesmo, é a nossa morte! Talvez a única diferença que eu carregue é a de não aceitar como oportunidade de ressurreição os momentos que estão por vir.

Eu estava acordado? Estas frases do velho foram as únicas que ficaram de toda a conversa. Mesmo assim, não foi instantânea, absorvi enquanto ele absorvia a fumaça de sua cigarrilha numa pausa onde digeria com satisfação sua filosofia barata. Mas quando esta idéia fermentou-se com a saudade, e a felicidade reapareceu como sentimento a meu alcance, senti que estava em dívida comigo.

Pronto está o homem do mato, da vila, do bar, do mato. Eu não! Tentei pensar como seria, para ela, passar por todas as paixões que eu tive depois dela. Recusei o exercício contrário e saí, com pressa, sem me despedir.

8 de outubro de 2007

País do Sol

Mudei-me, aqui, para o País do Sol e as minhas pernas não cabem mais dentro das calças. Não sei se as pernas cresceram ou se foram as calças que diminuíram, mas parece não existir pernas que caibam em calça alguma no País do Sol. As calçadas estilhaçadas jogam as pessoas a caminhar nas ruas e as pessoas das ruas jogam os carros para as garagens. Esta gente que anda e pára para conversar na rua faz cheiro de feriado todo o dia no País do Sol. Cheiro de feriado e suor-salgado-bom-de-sol. Vim em busca de não sei o quê e acabei encontrando mais; muito mais.

Atmosfera boa e tem o cheiro da praia acompanhando as três primeiras ruas paralelas à orla do País do Sol. Quando cheguei, forasteiro de vida nômade em diversos países e continentes submersos, tive vontade e decidi ficar mais. Descobri, graças à generosidade dos cidadãos do País do Sol, que dividiam comigo a cada encontro um pouco da história deste país amarelo, que seu cidadão mais ilustre foi um homem que viveu com uma cabeça de papelão. A grande estátua da praça principal da capital do País do Sol passou a fazer sentido: na altura de minha cabeça, estavam os sapatos; conforme subia os olhos, calça, paletó, gravata e um saco de papelão com dois buracos no lugar dos olhos. Assim estava registrado em pedra sabão o grande homem deste povo. Hoje não existe mais ninguém para se admirar mais que os outros. Estão todos iguais e felizes e não precisam mais de paletós. Gosto de pensar que a estátua é uma recordação distante dos países sem sol que eu não precisarei mais visitar.

Fiz muitos amigos e uma amiga bonita que gosta de ver desenho em nuvens. Enquanto ando, com as mãos enfiadas nos bolsos da bermuda, e chuto os ramalhetes de plantas que ameaçam invadir a trilha da grande montanha do País do Sol, ela, linda, de saia azul com flores vermelhas, diz: tem um touro, com chifre e tudo, ali; uma tartaruga-marinha velha naquela outra, ou não, com aquele rabo comprido parece mais uma arraia; tá vendo? Ela deve perceber, só vejo manchas brancas boiando sobre nós.

– Vê? O vento está desfazendo o búfalo ali.

– Não era um touro?

– Touros viram búfalos num instante nas nuvens. – brinca comigo.

O vento, quanto estava a meu favor, não em sentido, em intenção, trazia o cheiro desta moça bonita. Sempre com um quê de suor e axila e cabelo e coxas. Às vezes, o vento amigo parecia visitar sua saia antes. Em geral, era quieto e calmo em sua companhia, mas, algumas vezes, deixava meu coração acelerar. No País do Sol chove de vez em quando. Quando chove, meus amigos não aparecem para conversar na praça e, num dia desses de dilúvio, minha amiga bonita pareceu bonita pra mais alguém. E, por sua vez, este alguém atendia a prece na qual minha amiga bonita pedia alguém que fosse bonito para ela também. Perdi o interesse pelos amigos e sentia cada vez mais saudade da lua: branca e silenciosa em noite escura.

Houve um tempo em que passava tardes inteiras sentado, ao lado da minha amiga bonita, numa rocha que ficava no ventre da grande montanha apontando para o mar. Pela primeira vez, fui até lá sozinho. Brinquei com as nuvens e, também pela primeira, vi minha primeira imagem branca: um jacaré. Passeei os olhos para uma mancha ao lado: formou-se, em três dimensões, um canguru com o filhote na bolsa do seu ventre. E as imagens foram surgindo uma a uma diante dos meus olhos, como se enxergasse com os olhos da amiga que perdi.

Pela primeira vez, anoiteceu no País do Sol e eu adormeci.

27 de agosto de 2007

Antônio não quer imaginar



Fotos: Calebe Simões





De olhos fechados, todas as imagens esperam chegar ao homem pela sua imaginação. Assim como o homem, de olhos fechados, espera que as imagens e sensações, antes registradas, transitem por suas correntes de nervos tensos e se formem bem ali, dentro dele. Antônio, não. Fecha os olhos e tem o som do vento que entra em seus ouvidos; com as mãos, tem a terra úmida, cachaça úmida, mulher úmida; respira e tem do mato, quando está no mato, da cachaça, quando está no bar, e da mulher, quando está na cama, o cheiro. Antônio, com olhos fechados, não pensa. Os cheiros e os ventos agradam, ele não imagina porquê.




* * *




O contraste, como é praxe, existe. Embora haja na cabeça de Antônio o monótono, porém confortante e, acima de tudo, tranqüilo marasmo de pensamentos, há em seu trabalho a exigência brutal de seus músculos. Mas ele também não sabe disso. Desprovido de qualquer questionamento, acorda, porque deve acordar, bebe o café e engole o pão, porque é assim que tem que ser, e parte para o canavial, porque é o seu dever. Antônio deve à vida e paga durante 12 horas todos os dias. A mulher de Antônio deve a Antônio e paga varrendo seu chão, preparando sua comida, lavando suas roupas e deitando ao seu lado nas noites que o esgotamento dele se esquece.





* * *




A cana era cortada, o chão era varrido e uma cova era aberta. A mulher de Antônio pensava e varria. Por anos, pensou no sacrifício do marido para colocar um punhado de comida para os dois; outros tantos anos, pensou no filho que não puderam ter; e, por fim, pensou que não devia nada para a vida. Entregou-se à turbulência que a descoberta trouxe. O dono da quitanda foi simpático atrás da balança vermelha com prato cobre e a mulher não foi mais de Antônio. No dominó sob a única luz amarela da varanda de madeira da vendinha da vila, a notícia se espalhou. Não fosse pela mãe de Antônio, que sofria, sob o cuidado de vizinhos, seus últimos dias, o marido seria o último saber: o que não quer dizer que demorou muito a saber.


* * *



Antônio deitou a mulher e a cobriu com terra. No dia seguinte, a terra do chão de sua casa roçou a sola dos sapatos de Antônio, que foi trabalhar sem café. Como pode perceber que imagina quem nunca imaginou? A cada piscar dos olhos de Antônio – que parecia dever ao dono imagens que não viu – saltava sua mulher nua com as mãos acariciando o peito e os pêlos do quitandeiro; calava a visão por mais um instante, ela jazia morta; novo beijo entre as pálpebras, lhe vinha o sorriso quinze anos atrás durante a festa junina.



Para o melhor manuseio da cana-de-açúcar do canavial ao depósito, o bóia-fria deve entregá-la inteira.



* * *
Às costas de Antônio, uma vida dedicada em terra fértil onde nunca existiu por que. Sua cabeça tirou a sua força e a cana triturada custou o sustento de quem não tem quem sustentar. “E agora, fazer o que?”.


16 de agosto de 2007

Confessionário de asfalto

Não dói. “Morrer não dói”, sempre me disseram. Quando ouvi o estampido e senti a carne de minhas costas sendo atravessada e minha costela estilhaçando, meu coração ameaçou acelerar seu exercício, como num susto; apenas ameaçou. Acho, mesmo, que sabia que logo não teria mais que trabalhar. Por isso, tratou de cadenciar suas batidas e irrigar pelos caminhos de minhas artérias grossas, em meu sangue grosso, pela última vez cada ramalhete de veias com um sentimento de paz.

Eu atravessava a rua para me apoiar na banca de jornais, onde costumava encontrar a minha criançada. Meu trabalho era encontrar crianças que foram abandonadas, ou que abandonaram suas famílias, e gerenciá-las. Por um pouco de cola, às vezes maconha, meninos e meninas espalhavam-se entre os carros, de janela em janela, e recolhiam – sempre com o consentimento do condutor – moedas de centavos. Às dez horas da noite, iam todos para a banca de jornais fechada e esvaziavam os bolsos – quando, em sua roupa, bolso cabia –, ou sacolas, nesta caixa de sapato que trago sob meu corpo, no asfalto.

Muita gente não gosta de mim. Sabia que alguém reservaria uma bala para mim desde que meus meninos apareceram na televisão explicando meu trabalho. A impressão que eu tenho é que os justiceiros estão pelos pequenos bares, sentados em círculo, batendo peças de dominó, com as televisões sintonizadas nos telejornais sempre no último volume. Há uma denúncia – sem contar as de Brasília – não demora aparecer um corpo; chegou a minha vez.

Agora, espero pelo o que está por vir e seja o que deus quiser. Nunca achei certa a vida que levei, mas ainda me recordo como entrei nela. Vivia de trabalhos temporários, bicos e, vez ou outra, pequenos assaltos. Quando menino, roubava latas de cola de meu pai, que tinha uma sapataria na garagem de casa, para cheirar com meus amigos, mas nunca me viciei. Um dia, sem dinheiro e com o estômago nas costas, parei em frente a um trailer de cachorro-quente, e um garoto, também faminto, me pediu algum trocado para um lanche. Não tinha pra mim, vai dizer pra ele. Vi a cena do menino esfomeado, que pedia dinheiro para comer, se repetir em vão de mesa em mesa e – por deus que esta é a verdade –, com um sentimento de piedade honesto, o chamei. Eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos no deserto. Sua gratidão me confortou. Partimos em silêncio.

Estávamos perto de casa. Desde a morte de meu pai, nunca mais havia entrado na nossa garagem e sabia que lá encontraria algum pote bem preservado de cola. Nós dois cheiramos e dormimos no chão da antiga sapataria. Quando acordei, o menino não estava mais lá. Voltou, dois dias depois, com outro amiguinho.

Pele esfriando no asfalto: confesso uma vida que desdenhou e se apropriou de tantas outras. Como ficarão meus meninos? Reconheci os erros que cometi, identifiquei como entrei nesta vida e não consegui me perdoar.

31 de julho de 2007

O elefante que se apaixonou por um aspirador de pó (fim)

Por muito tempo, meses, Nagu intercalou momentos de pé sem andar, com momentos deitado sem dormir. Embaixo de sua árvore favorita, preces e promessas impossíveis eram rogadas, em silêncio, sem parar. No entanto, se engana quem pensa que Nagu pedia a seu deus, Ganesha, felicidade ao lado de um aspirador de pó. Esta união, provavelmente, iria sugar toda a sua energia, principalmente por aspectos sociais. Qual elefante, em sã consciência, permitiria como membro da manada um aspirador de pó. E tinham outros ‘poréns’: diferenças culturais entre os imponentes elefantes e os submissos, por conseqüência, pouco confiáveis, aspiradores de pó. Estava apaixonado, mas ainda não tinha perdido totalmente seu bom-senso; por isso, demorou tanto a se render.

Antes, teve que certa eloqüência sentimental para convencer sua mente a liberar seu corpo a buscar sua felicidade: como poderiam – alma e carne e tromba e dentes de marfim – viver em paz com a inexplicável paixão dentro do peito e a memória com irritante competência a martelar o coração? Cada vez que se perguntava isso, sentia sua volta à grande casa dos fazendeiros mais próxima. “O que importa, sobre todas as coisas, é a minha plena felicidade e paz. Não serei feliz sem aquela estridente criaturinha, que alegra meus sentidos”. Despertado pela envolvente paixão, deixou que seu coração persuadisse sua mente e, sem saber que ao obedecer aquele impulso traia a si mesmo, foi para a casa-sede da gigantesca fazenda.

Fez todo o trajeto sem enxergar ao menos o chão. Noite sem lua; segui o faro de sua tromba. Quando chegou à casa, nem um som, além do produzido pela vegetação que apenas os elefantes podem escutar, escutava. Ainda estava escuro, sem sinais de que clarearia o céu novamente. Nagu, tocando apenas as pontas das patas, desviando de quaisquer folhas-secas que pudessem gritar o pisão e acordar a casa, contornou a sede metendo os olhos em cada fresta de vidraça. Não demorou muito, lá estava... As orelhas de Nagu se ergueram e, enquanto a vidraça da lavanderia se esforça para refletir a face de Nagu, em seus olhos era nítida a imagem do recipiente plástico com mangueira e cilindro cinza-pele-de-elefante.

A janela estava apenas encostada, os rolamentos estavam bem lubrificados com graxa e não fizeram barulho quando Nagu correu as portinholas. Com sua tromba, alcançou o aspirador de pó e partiram juntos para a floresta – mas, desta vez, Nagu foi ao sentido contrário de sua manada. Durante a caminhada, nem Nagu, nem aspirador, emitiram som algum. Dormiram próximos ao rio. Quando acordou, para não despertar o ilustre seqüestrado, tomou muito cuidado para não fazer barulho em seu banho de rio e estava distraído pensando em quê o futuro o reservava quando ouviu mais novamente o som estridente do aspirador. Num pulo, que esvazio o rio, o elefante correu à margem de onde vinha o som.

– Onde estamos?

Nagu não conseguiu deixar de sentir certo desconforto. Não eram estas as primeiras palavras que queria ouvir.

– Morro se cair na água. Pra isso que me trouxe aqui, quer me matar?

– Não quero te matar – começou Nagu –, te trouxe aqui porque me apaixonei por você.

– Ah, você por acaso não é o mesmo elefante que apareceu há umas semanas lá em casa?

– Isso foi há meses...

– Quase que mata a mim e a minha patroa com o barulho que fez. Minha garantia já acabou, se quebro, vou para a lata do lixo, sabia? Sem enterro, lágrimas, recordações, nada. Sabe quais foram as últimas palavras que meu irmão, um aspirador dois anos mais velho que eu, ouviu? “Maldita lata velha imprestável”! Pra você ver, nem de lata nós somos feitos.

As coisas não iam bem. Nada do sentimento que Nagu trazia pelo aspirador parecia ser recíproco. Também, pudera, desde quando aspirador se comove com juras e cenas de amor? O aspirador ligou e desembestou a falar, assim. “Aspirador gosta de aspirar”, veio a inspiração para Nagu. Ele pensou o que nenhum outro elefante apaixonado jamais pensou: para alguns o amor não existe. Afinal, comum é acreditar que, o que o indivíduo sente, motiva e norteia a vida de toda a comunidade. Nagu se aproximou do aspirador e, como quem oferece uma oportunidade, falou em tom sério:

– O que te proponho é uma vida que não acabará num latão de lixo. Se tua utilidade, para os homens, termina quando sua mangueira não suga mais o pó e a sujeira, para mim, que tenho tromba como mangueira, pouco importa esta sua utilidade. Vivendo ao meu lado, a principal característica que teve até hoje não valerá mais nada. Por outro lado, seu caráter efêmero de utilitário doméstico desaparece também. Percebe o que estou te propondo? ... Vida eterna!... Sem sua desgastante utilização, será eterno enquanto eu durar.

– Mas que razão tem viver um aspirador desligado?

– Não proponho que seja um aspirador totalmente desligado. Proponho a você que me utilize como seu aspirador. Dê ordens e eu as cumprirei. Diga: “sugue aqui; aspire ali; não deixe sujeira acumular no canto”, eu terei prazer em servir.
...

• • •

E foi assim que o elefante que se apaixonou por um aspirador de pó encontrou para viver o resto de sua vida ao lado de seu amor. Uma sucessão de pequenos enganos e enganações uniu dois personagens tão diferentes entre si. Mas para que esta história desse certo, elefante, que já fora imponente, precisou se render à insensibilidade eletrônica de aspirar e engolir seco toda a sujeira e pó de paixões mal resolvidas.
Viveram juntos para sempre.

6 de julho de 2007

O elefante que se apaixonou por um aspirador de pó

Não podemos dizer que estivesse na vida adulta há muito tempo, mas não era, absolutamente, jovem. Fazia algum tempo que caminhava sem a necessidade das orientações dos pais e, embora tivesse em seu pai o símbolo máximo de intelectualidade – sempre se lembrava dele por sua memória acima da média de toda a manada –, se sentia muito à vontade para decidir quais as melhores rotas e acomodações; escolher o melhor verde para se alimentar; saber qual parte do rio oferecia a água mais refrescante. Carregava uma experiência razoável para uma boa vida e um futuro tranqüilo; mesmo assim, não era desgarrado. Nem se quisesse poderia ser: como todos os seus companheiros de trombas, vivia na propriedade de um grande pecuarista numa gigantesca fazenda da África do Sul.

Quando analisamos um acontecimento por completo – com informações do princípio, meio e, principalmente, fim –, é praxe nos apropriarmos dos resultados de cada etapa para julgar qualquer suspiro de quem realizou a ação anterior. Nagu era um elefante como outro qualquer de sua idade. Carregava ainda nos olhos a obstinação por realizações que pudessem surpreender seus amigos e parentes, embora começasse a perder aquela inquietude por resultados imediatos. Era simples, sério, calmo e, acima de tudo, discreto. Um modelo como tantos outros ao seu redor. Ninguém que o conheceu, ou mesmo que tenha dividido intimamente sua companhia, seria honesto se viesse hoje apontar qualquer característica de Nagu como sinal para a desordem para o que seu coração de elefante aprontou.

Talvez movido por uma brisa de tédio – monotonia comum para bicho que vive resguardado pela segurança de território demarcado e vigiado –, resolveu que sua caminhada naquele fim de madrugada, começo de manhã, o levaria ao pomar próximo a sede da fazenda. Não era comum aquele passeio; tanto no que diz respeito ao horário, quanto à área a ser visitada. De fato, quando os donos da propriedade queriam ver seus elefantes, precisavam chamar um capataz com jipe e viajar, muitas vezes, por até meia-hora para encontrá-los. E, se fizessem questão que eles estivessem acordados (bem-dispostos), preferiam o fim de tarde.

Pretendia beliscar algumas jabuticabas do pomar, mas não era isso que motivava seu passeio. Para Nagu, as frutas que por lá brotavam não faziam sua retumbante tromba saracotear. Passeava por passear, já que os olhos teimaram em deixá-lo acordado mais cedo. Só.
Demorou muito para chegar. O céu clareou ao compasso lento dos passos pesados de Nagu e chegou ao azul definitivo – chamo de definitivo para intensificar a claridade da manhã; sem ser apocalíptico ou desrespeitoso às matizes azuis do céu – assim que ele parou para descansar, em frente a casa. Ouvia o barulho da vassoura e, de onde estava, via que, pelo corredor da esquerda, uma porta da casa espirrava o pó.

“Sede”. Havia se esquecido das sérias implicações que se afastar do rio oferecia. Isto era elementar para a sua sobrevivência. De repente, um choque! Pensou, “havia se esquecido das implicações que se afastar do rio causava”! Pensou que havia esquecido! Por ter a memória como principal fonte de orgulho, os elefantes esquecidos – e isso é raríssimo. Uns lembram mais que outros, mas poucos se esquecem – sentem a pior das angústias. Com as orelhas e a tromba – arqueada entre suas patas dianteiras – arrastando no chão, Nagu, cabisbaixo, caminhou até um enorme pneu de trator que estava apoiado num cercado e guardava um pouco de água da chuva.
Tomado por grande humilhação, mal conseguia forças para sugar o líquido. Distraído com a água que o pneu reteve da chuva, escutou um som inédito: chiado, com acelerações intercaladas, às vezes com o som abafado, às vezes mais estridente; resultado da luta entre gás-poeira e sólido-tapete. Nagu esqueceu, e desta vez fez bem, a tristeza para valer a curiosidade. Olhava através da circunferência de seu reservatório de roda gasta de trator para a casa, que havia se tornado, amplificadora daquele som.

Conforme o tempo passava, o som, que trazia a característica rara de ser tão monótono enquanto é imprevisível, ia aumentando. A porta principal da casa se abriu e surgiu uma jovem negra enrolada em panos, vermelho e branco, e carregava por uma alça um pequeno instrumento de onde vinha o som. A euforia causou em Nagu seu terceiro esquecimento da manhã, desta vez com conseqüências. Entretido, como estava, esqueceu sua tromba dentro da roda do trator e, resultado dos segundos sem respirar pela apreensão em conhecer o irreconhecível, quis sugar com força todo ar ao seu redor, mas sua tromba estava sob a água suja que o pneu guardou da chuva.

– (aumente o volume) *!!*!!!!*!!!!!*!!!!!!*!!!!!!!!*!!!!!!!!!!*!!!!. – Nagu acabava de lançar o (sem medo de errar) seu mais forte bramido.

O coração da jovem que aspirava a casa se absorveu por um sobressalto e o susto que a atirou ao chão; com o tranco causado pelo salto da moça, fugiu da tomada o cabo elétrico do aspirador que silenciou; os pássaros, que piavam em seus galhos, também decidiram pelo silêncio. Nagu tratou de se esconder numa árvore próxima que o tronco, de tão fino, mal escondia sua tromba. Alguns segundos passaram como que se o barulho do espirro do elefante tivesse feito o tempo parar por ali: nem sinal da governanta negra, pó em paz no carpete e nenhum pio os pássaros ousavam. De onde estava, olhava o aspirador deitado em silêncio no chão com sua mangueira apontada para ele. Ficou por volta de um minuto registrando cada detalhe do aspirador de pó. Até o capataz chegar de jipe com a espingarda carregada nas costas.



• • •

Um único disparo bastaria, mas o capataz deu pelo menos três tiros para cima enquanto Nagu adiantava seus passos de volta à manada. Completamente compenetrado em si, após sua longa caminhada, passou reto (sem ao menos ouvi-la) por sua mãe que queria saber por onde ele tinha andado e entregou seu corpo que fervia pela viagem a um banho de rio.

Demorou um pouco para se refazer. Conversou com a mãe sobre a longa viagem e quase fez de seu pai um elefante-branco ao perguntar se sabia o que era aquele objeto que o capataz trazia nas costas e que fazia um barulho de pequeno trovão. Mesmo estando em companhia mais que confiável e com o pensamento totalmente refém por aquele pequeno pedaço cúbico de plástico, mangueira, botões, fio e alça, em nenhum momento passou por sua cabeça falar sobre a outra máquina barulhenta que havia conhecido no mesmo dia.

...continua

8 de junho de 2007

Arte e apreço

No tempo em que fui repórter, acompanhei muitas histórias. Passei, e pastei, por quase todas as editorias: coloquei no jornal a história de muitos pilantras de colarinho branco; viajei junto com a delegação da seleção brasileira; cobri show de banda adolescente, festa italiana, marroquina e até aniversário de filha de celebridade.

Sabe como é em redação; de vez em quando, um jornalista fica emputecido e manda às favas o chefe de reportagem ou o editor: quem estiver mais a mão. De dentro do escritório, todo de vidro, do editor, a repórter de Cultura soltou um sonoro – para o quarteirão todo – “Vá à merda e enfie este jornal onde bem entender!”, bateu a porta e saiu. Os telefones da redação não se alteraram, continuaram a tocar; ninguém saiu para consolar a repórter.

Eu estava terminando o roteiro cultural do fim-de-semana. Com três processos que carregava do tempo de Política, me empurraram esta função até a poeira baixar. O editor abriu a porta do escritório e, com a delicadeza de um elefante numa loja de cristais, “Marcelo, deixa esta merda de roteiro para um foca qualquer e vem aqui”. Com um repórter a menos em Cultura, meus meses de ostracismo roteirizando cinema e teatro chegaram ao fim e uma matéria decente caiu no meu colo.

Um grã-fino causou o maior escarcéu quando descobriu que A donna d’Marselha – quadro do artista plástico Ângelo Quântico –, comprado num leilão, era falso. Quando desci da redação, que ficava no quinto andar de um prédio no centro, o motorista do jornal me aguardava com o motor ligado. Em mãos, carregava apenas um bloco de notas com o endereço da casa do artista. Fui sem saber o que esperar. Deve ter sido mais um desses casos onde algum amigo oculto cochicha nos ouvidos do editor, porque, quando cheguei a casa, vi a seguinte cena: o grã-fino com cara de pastel, o artista com um sorriso monalisa e o casal de leiloeiros, que, enquanto a mulher se desdobrava para massagear o ego do artista e garantir o ressarcimento de seu cliente, o homem franzia a testa e segurava um rapaz pelo braço; todos em volta de uma mesa retangular na grande varanda que fazia fronteira com a sala e o jardim. Conseguia ver e escutar tudo do portão baixo que dava pra rua. Não havia outros jornalistas.

Talvez pela confusão toda, não tive problema para entrar e fazer parte do grupo. Ninguém sabia ainda o paradeiro do quadro original, mas isso não era grande preocupação: o rapaz que o leiloeiro segurava pelo seu braço era seu filho e autor da falsificação. Provavelmente o original estivesse em seu quarto, queria apenas atenção com uma falsificação de bom nível. Quando cheguei, já estavam decididos a não envolver a polícia no caso – o que manteve a matéria na editoria de Cultura. O rapaz, de 20 anos, contou que, com a ajuda de um amigo, trocou os quadros após as três batidas do martelo, enquanto o quadro esperava pra ser encaixotado. Era apenas uma molecagem de garotos praticamente resolvida. No entanto, para o texto que ofereci aos leitores, meu caderno só anotou a emoção com que o artista se debruçou sobre a cópia. Enquanto o casal de dedicava em tecer mil elogios a uma obra “que jamais poderia ser copiada”, ele implicava com os leiloeiros; apreciava mais os falsários. Via os gananciosos leiloeiros a falar com os bolsos e tinha a certeza que, não fosse o trabalho do falsificador, que estudou cada pincelada na tela, ninguém teria observado tão bem sua arte.