16 de setembro de 2011

Carta a Luiza

Olha, eu estou tentando, mas está difícil sair algo novo. Então recorri a um texto "de gaveta". Noutro tempo; numa dedicatória. Peço licença à homenageada, Luiza, que nasceu um dia antes deste texto, há quase três anos.
É uma homenagem da qual, com a modéstia a escanteio, me orgulho. Com a ajuda do mestre Caetano e, claro, da pequena musa.



Cabedelo, Paraíba, 22 de novembro de 2008
               
Seja bem-vinda, Luiza!

                                                                               “Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz...
                                                                              Céu azul que vem/ Até onde os pés tocam a terra/ E a terra inspira e exala seus azuis...
                                                                              Reza, reza o rio/ Córrego pro rio e rio pro mar/ Reza a correnteza, roça a beira, doura a areia...
                                                                              Marcha um homem sobre o chão/ Leva no coração uma ferida acesa/ Dono do sim e do não/ Diante da visão, da infinita beleza/ Finda por ferir com a mão essa delicadeza/ A coisa mais querida, a glória, da vida...
                                                                              Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz”.

                               Escolhi esta música de Caetano Veloso, que presta homenagem ao nascimento do sol, para dedicar a sua chegada, Luiza. A música canta bonita para mim, como li bonita as linhas que seu pai escreveu te anunciando. O sol, e a sua luz, como logo perceberá, traz a todos, igualmente, força para seguirmos nossas vidas e realizações. Aproveito esta dedicatória, para chamar sua atenção aos olhos, e olhares, – apaixonados – que recebe de seus pais, parentes e amigos: Luiza, “a coisa mais querida, a glória da vida” é “verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz”.
                               Alegra-me muito sua chegada, Luiza. O mundo que te recebe, e que te acolherá, precisa de boas pessoas. Nasce você em “berço esplêndido” – como canta o hino da pátria –, sendo filha de Fernanda e Gustavo, tenho certeza que chega para fazer do mundo um lugar mais belo, justo, honesto, agradável; enfim, melhor. Tem em casa excelentes modelos para isso, saiba.


                               Mais uma vez, seja bem-vinda, pequena Luiza. Materializo nestas linhas, meus melhores e mais profundos votos de felicidade, paz, alegria, saúde... Nesta grande sala de aula que é a vida, há espaço para brincar, se divertir e fazer muitos amigos com os quais poderá contar sempre: aqui, atrás destas palavras, tem um.
                               Um grande beijo, com o coração aberto à amizade.

21 de janeiro de 2011

Apenas um trecho...

 Ando meio sumido daqui, por isso, resolvi postar um trecho de um texto que eu não sei no que vai dar.  Espero postar com mais frequência neste 2011 que está apenas em seus primeiros passos.

Abraços.

“(...) Embora algumas pessoas manifestassem grande insatisfação por, de uma hora para a outra, passarem a viver na cidade de o Quinto dos Infernos, foi necessária a organizada igreja católica entrar em ação para que o repúdio por aquela instituição se tornasse algo organizado. Juntou fiéis, preparou manifestações, comícios em praça pública; entendeu que o momento era de união entre os cristãos e, liturgicamente, propôs a união entre católicos e protestantes – mesmo assim, reunidos, católicos e protestantes decidiriam, por bem, manter suas imagens distantes de representantes das religiões negras, como o candomblé ou a umbanda, mesmo que estes demonstrassem ser contra o Quinto dos Infernos. Enfim, formaram a, batizada, “A união contra o mau, sob a graça do Senhor”. Batinas e ternos se revezavam sobre os palcos em atos ecumênicos. A uma semana da inauguração, organizaram seu evento principal. Exatamente ao meio-dia da sexta-feira, dia seis, as igrejas evangélicas e a católica, em sua matriz, abriram suas portas para seus seguidores assinarem um abaixo-assinado contra a abertura do Cemitério Quinto dos Infernos. Uma procissão iniciada na igreja matriz deu início às duas da tarde, passando por todas as duas igrejas evangélicas da cidade, unindo seus fiéis e cadernos assinados rumo à sede da prefeitura, onde pretendiam evocar o prefeito a atuar por eles, junto a Deus. Embora uma análise minuciosa pudesse revelar alguns números de CPF repetidos, nada tão escandaloso, apresentaram ao prefeito mais vinte mil assinaturas e uma multidão a vazar pelos ladrões – ruas adjacentes – à sua porta. A esta época, a imprensa nacional já havia cumprido seu papel divulgando o estapafúrdio cemitério, o que levou à cidade fiéis de todo o país, que puderam gozar da recém inaugurada rede hoteleira da cidade, para a manifestação. Era um salto político para o prefeito; a maioria das pessoas que aguardavam a sua aparição sequer sabia o seu nome, que dirá partido político. Clamavam por um representante político com o coração tomado por divina sensibilidade e ofereciam, à sua porta, sabia o prefeito, uma oportunidade para santificar o vosso nome. Antes de emergir pela sacada da prefeitura, pensou no senado federal.
O anúncio, semanas antes, da procissão que culminaria na prefeitura, deu tempo para que o prefeito pudesse decorar um discurso carregado de citações bíblicas, parábolas importantes, outras menos famosas, que enchiam de ternura e admiração o distinto público. Confessou ter trocado diversos telefonemas com o governador e até senadores alertando sobre o mal que estava prestes a se instaurar naquela região, a qual, segundo ele, trazia estampada em sua natureza e seu povo provas mais que suficientes de se tratar de uma terra abençoada por Deus. Garantiu, ainda, crer que nenhum enlaço legal pode suprimir a vontade de Deus, o que o dava absoluta confiança de que aquele pandemônio tinha seus dias contados. Comovido, lamentou as limitações de seu cargo, mas prometeu ir até onde fosse necessário em sua carreira política para, envolto aos princípios cristãos, atuar de maneira firme para que entidades como esta entendam que este planeta pertence a Deus. Por fim, pediu que os representantes religiosos o aguardassem e caminhou como pôde entre apertos de mão, abraços, cumprimentos eufóricos, até o caderno e assinou o abaixo-assinado. De volta ao interior da prefeitura, ouvia os aplausos, seu nome se espalhando pela multidão, mas, mais alto do que tudo, o seu pensamento: “senador”.
Sem demora, o prefeito tratou de convocar seus assessores, chamou sua equipe jurídica que, como se sabe, e o prefeito sabia bem, quando se trata de arrumar mais trabalho entram à sala de reunião cheios de negativas. Mas, neste caso, tinham razão. Não havia na legislação nada que pudesse proibir o funcionamento do cemitério. No entanto, o mais importante era demonstrar vontade política. Mostrar para a população cristã que o poder público daquela cidade era sua aliada. A manifestação ecumênica surtiu efeito e, desde então, a cidade passou ainda a conviver diariamente com a imprensa. Alguns ficavam como sentinelas à porta do cemitério, outros entrevistavam pessoas, buscavam informações sobre a região; programas de culinária falavam dos pratos da dona Zefa e até o time de futebol da cidade ganhou espaço em programas esportivos. Tornou-se parte da rotina do prefeito atender a imprensa ao término de cada redundante reunião, onde, às portas fechadas, pouco, ou nenhum, avanço era apresentado. Todo o fim de tarde, o prefeito era figura carimbada nos telejornais policiais. Sempre suado, demonstrando certa fadiga pelo empenho contra o Quinto dos Infernos. Nada poderia ser mais paradoxal. Já que, além de sua ascensão política pouco caminhar ao lado dos interesses da população, longe disso, até este momento, era o prefeito o maior beneficiário daquela construção e a quem mais interessava o seu sucesso: invariavelmente, é necessário um vilão para que se crie o herói. Em tempos mornos, onde os grandes vilões vestem-se cada vez melhor com a manta de cordeiro e escondem a cara ao tapa, o Cemitério Quinto dos Infernos era um achado(...)”

28 de outubro de 2010

Dia seguinte

O cigarro parecia ocupar suas duas mãos. Arcado, sentado, na cadeira de madeira no centro da sala, chorava sobre seu retrato. Como espasmos, às vezes interrompia aos olhos a imagem, levava as mãos à cabeça e saltavam, ornamentais, contíguas, cinzas de cigarro e caspas até pousarem no paletó preto, calça preta, retrato preto, dentro da sala cinza. Precisava tornar à fotografia para lembrar porque chorava, e tornava a chorar.

Quantos anos haviam passado? Quão rápido e ao mesmo tempo trabalhoso chegar onde chegou? E, ao voltar para a casa fria, encontrou pela primeira vez aquele retrato, coberto pela poeira, sobre a escrivaninha da sala, num canto onde seus olhos – fieis às suas ambições – procuravam não passar. Sabia que estava, mas um estranho desejo, tão cativante quanto aterrorizante, insistia por alguém a observá-lo. Desejava, aos soluços, que sua temida e famosa bravura fossem descobertas por mais alguém. Não esperava por sua mãe, irmã ou mulher, mas por um vizinho ou colega; precisava de alguém sem paixão, sem traquejo com os sentimentos. Alguém que o observasse, a princípio, com certa compaixão – mesmo sem entender o que se despertava dentro dele–, mas que logo desse lugar a um julgamento frio, injusto, e, por fim, lançasse desprezo com os olhos e ironia com nos lábios e semblante. Sem palavras. Que desse as costas e partisse, deixando apenas o sono dos que adormecem chorando e o pesadelo do dia seguinte.

Por fim, aceitou o dia seguinte como o chão da sala aceita suas cinzas, bitucas e corpo. Mas não dorme ainda, jaz, cadáver acordado, sentindo (...) sensação sem pessoa correspondente. Quando enfim o desejo pelo inconsciente vence e é permitido dormir, dorme e acorda logo. Feliz, sob os primeiros raios do dia, volta a ser o que sempre quis e sai sem saber que nunca mais se lembrará de procurar, caído, no chão, sob a escrivaninha da sala cinza, fria e suja, seu retrato – de um dia tão feliz quanto longínquo.

22 de fevereiro de 2010

Antes de dormir

Um choro estridente. Ao lado, um bebê chora. Grita, até acordar o que dorme. Late o cachorro, late o trabalho do dia seguinte; o bebê chora. Quem acorda e briga é homem; quem chora é criança – ou mulher, como se diz. Não acordo, nem durmo; não ouço. Sinto que um bebê chora e que vem um dia para nascer. Olhos fechados; apenas os tornozelos e pés descobertos; ouvidos surdos. Não preciso me levantar. “Ele reclama”, de quê será? Em meu quarto, só, basto, deito e este bebê chora. Estrebucha. Por que assim? Não é capricho, tem urgência. Como questão de vida que caminha para a morte, cobre toda a vontade de existir em soluços.

Tenho raiva do bebê. Esqueço se ele tem pai, ou mãe. “E seu eu for seu pai?”. Tenho raiva. Torço para que, entre seus soluços e ranho, ele se sufoque. Espero como um doente que espera a cura. “Nenhum chefe demite se um bebê se sufocar em muco.” O cachorro silencia para o bebê chorar: é arte maior. De repente tenho medo que o choro pare. Tenho medo da morte. A morte vem quando paramos de chorar.

Mas o bebê ainda chora, sem que eu o escute.

Lentamente, tudo se torna criança descalça em trilha, com os pés frios pela lâmina de água que forma sobre a grama rala; logo percebemos que vamos encontrar o lago. Um galho suspenso, da grande árvore, vira cabide e a camiseta apóia. O personagem entra na água parada do lago em lua nova. Bóia com a justa, e velha, calça jeans. O som do vento submerge dentro d’água, e aproxima toda a existência a um céu molecular... Mas aí, já é sonho. E o bebê grita; ou, melhor, chora.

31 de agosto de 2009

Tourada

Veste-se com zelo de antagonista amado: cinto, traje justo do século dezoito, rosas douradas bordadas na lapela preta. O público lota a praça de touro divertindo o anseio da espera entre guloseimas e olhares curiosos pelos corredores ovais da arquibancada. Surge silêncio solene. Surgem frente a frente: touro nu, marrom café; o tecido vermelho esconde a farpa do toureiro. Clássico, o touro coça a pata dianteira esquerda na terra batida; sublimes, querem manchar o chão com o sangue do oponente. Dançam, rodopiam, se cheiram, e as farpas se prendem no dorso do animal. O toureiro estufa o peito para a arquibancada, curva-se em cumprimento humilde, volta a estufar o peito -- de costas para o touro que busca dignidade, ar e o sangue que escorre por suas patas trêmulas. Falta a lança misericordiosa: touro e toureiro voltam seus olhares sem sentir os olhares de sangue dos expectadores. Toureiro caminha, toca com a mão direita o chifre duro e frágil do animal, saca da cinta a lança com seu brasão, enquanto o animal ameaça aguardar o golpe. Cerimonioso, o homem ergue a espada, apresentando ao público – girando o corpo para toda a multidão ovalada da arquibancada. E, num repente, touro frágil faz-se forte para se igualarem em fragilidade espetando o chifre direito nas costas do homem. Sangue de ambos, touro e toureiro, finalmente se igualam e deitam juntos no centro da arena imprimindo a morte na retina dos pagantes.

14 de maio de 2009

Profissional liberal

Tomou um susto quando entrou, pela porta do fundo, na cozinha da casa onde trabalhava. Encontrou tudo de cabeça para baixo; ainda quente, como se a baderna tivesse terminado há poucos instantes. Garrafas pelo chão, dois cinzeiros transbordando, as cadeiras distantes da mesa central como se lutadores de sumo tivessem se reunido para uma roda de samba. Num canto, esquecida, a caixa-de-ferramentas que, até então, nunca tinha saído do armário da garagem, parecia ter passado por um tufão a parte: toda coberta por cal, destrambelhada, com o pó de outrora, agora, grisalho. A bagunça se espalhava pela sala, onde encontrou uma quantidade monstruosa de folhas de anotações amassadas. Pensou em seu salário, deu com os ombros e resolveu passar um café para ganhar ânimo.

Ao abrir a geladeira, uma garrafa de vinho pela metade, em pé, na grade superior, servia de apoio para um bilhete deixado pelo dono da casa: “Preta, bom dia! Estarei o dia todo trabalhando, NÃO ESTOU PARA NINGUÉM! Por favor, anote os recados. Até logo...”. Não entendeu o bilhete. Seu patrão costumava ir ao trabalho todos os dias – sem a pontualidade britânica que cobra dela, é verdade –, mas passa seus dias todos no escritório. Pensou que talvez aquele bilhete fosse apenas fruto daquelas garrafas de vinho estacionadas por toda a parte: às vezes, para tratar a confusão de seus pensamentos, quem bebe trata de explicar cada detalhe aos outros. Acreditando estar só em casa, iniciou a limpeza da cozinha, sala e banheiro – ambientes que pertenciam ao térreo do sobrado. Recolheu, ensacou, varreu, guardou, ensaboou, molhou, puxou, secou, limpou, saiu, entrou, jogou, agachou, suou, enxugou, desinfetou, despachou: em três horas ninguém poderia dizer que era a mesma casa. Com balde e pano em mãos, subiu os degraus que levavam ao quarto, escritório e banheiro com medo dos desdobramentos que a noite anterior pudesse ter causado no andar de cima da casa.

Tudo limpo, precisando apenas da manutenção regular. No quarto, que estava com a porta escancarada, apenas abriu a janela para o sol entrar e tirar o cheiro da noite, e da fumaça dos cigarros da madrugada que estacionaram naquele canto fechado da casa. A porta do escritório estava fechada e, pela fresta que formava entre porta e chão, fugia o som de um urso que hiberna em sua caverna. Deixou o balde no banheiro, em frente ao escritório, e correu para atender o telefone que chamava no andar de baixo. O relógio marcava quinze para o meio-dia.

– Alô? (...) – e com a voz trêmula de quem segue instrução sem sentido, continuou – Ele está trabalhando.

Ouviu do outro lado a voz estridente de um homem:

– Como ele pode estar trabalhando se ele não está aqui?!?

– Olha, não sei não senhor. Cheguei aqui e tinha um recado de que ele está trabalhando. Se quiser, posso anotar o recado.

– Diga para o filha da puta do seu patrão, que ele vai se ver comigo quando aparecer por aqui! – e desligou.

Ela omitiu o “filha da puta do patrão” do recado, mas anotou no caderninho ao lado do telefone todo o resto: sem o nome do remetente ou o lugar onde ele ia “se ver” quando aparecesse. Assim mesmo, acreditava que ele iria entender: “Ligou um moço dizendo que você vai se ver quando aparecer lá”.

Quando voltou à limpeza do banheiro, não escutava mais o sono de seu patrão no escritório em frente. Ouviu passos, a cadeira sendo arrastada, o computador ligando e os dedos estralando em torno do teclado. Não ouviu uma só tecla sendo apertada para preencher o documento aberto, em branco, do Word. Apressou a limpeza do banheiro e, quando acabou de descer a escada de volta ao térreo, ouviu a porta do escritório se abrir e a do banheiro se fechar. Ela não estava acostumada a dividir a casa com ele naquele horário. Convivia com seu patrão poucos minutos por dia: enquanto ele bebia apressado seu café antes de sair para o escritório. Não sabia o que fazer com ele lá ao meio-dia.

– Bom dia, Preta – entrou pela porta principal da cozinha; descalço e de bermuda.

– Perdeu a hora hoje? – respondeu curiosa.

– Primeiro, bom dia, né?

– Bom dia... Fiz café, mas já deve estar ruim, posso preparar outro... se quiser almoço, preciso de dinheiro para comprar carne no açougue.

– Não se preocupe com isso, vou logo voltar ao trabalho.

“Voltar ao trabalho?” – pensou.

– Por falar em trabalho – avisou, fingindo que estava entretida organizando o armário debaixo da pia –, ligaram para você agorinha mesmo. Não quis te chamar, já que você disse que não estava para ninguém... Mas anotei o recado.

– Muito bem. Não era mesmo para me chamar, eu estava ocupado. Esta noite eu tive uma visão. A partir de agora, não trabalho para mais ninguém! Vou unir o útil ao agradável. Passei a noite instalando uma rede para dormir em meu escritório: vou escrever meu próprio livro sobre os sonhos que tenho enquanto durmo: vou produzir enquanto durmo, Preta! Encontrei um jeito de trabalhar dormindo.

A partir daí, ela não ouvia mais nada, só acenava com a cabeça e emitia ruídos para que ele continuasse falando sobre seu novo estilo de vida. Por fim, ele tomou um copo de leite e voltou para a rede dizendo ter esquecido os sonhos daquela manhã: precisava produzir mais. Enquanto ele produzia, ela lamentava – enquanto lia o classificado de empregos – pelo patrão que endoidou feliz da vida.

5 de maio de 2009

Cadu

Já passava de oito horas de uma noite quente. Voltava de uma visita à padaria, onde comprou maços de cigarros – vinha fumando o último cigarro do maço antigo – e um pequeno galão d’água, de cinco litros. A visita não cobrava belos trajes; nada além de um par de chinelos, bermuda e camiseta – no conjunto, já de partida, estava roto. A rua, pela qual seguiam seus passos – apenas os passos, já que os pensamentos se despediram logo na partida –, também estava amassada. Pedras, galhos de árvores, blocos de concretos desprendidos das calçadas e placas de sinalização arrancadas dos postes, apontavam os desníveis e rupturas no asfalto. Assim mesmo, motos, bicicletas e carros de moradores dos quarteirões que a rua atravessava ziguezagueavam entre as sinalizações para sair ou chegar às suas casas. A rua era pavimentada, mas seu asfalto dividia pertença com a areia que estacionava por lá, e permitia, em suas dobras, o surgimento de barbas-de-bode, rabos-de-burro e carrapichos.

Hoje tudo serve bem por lá, mas tratava-se, nesta época, de um bairro, sem expressão, em expansão. A população, que ia se esparramando pela margem litorânea deste continente, lentamente começava a ocupar aquele espaço. Talvez isto possa explicar a rua pela qual caminhava. Uma rua com pretensões a avenida. Provavelmente, servia bem a seu propósito antes de iniciarem a construção de condomínios ao seu redor; logo, os condôminos passaram a exigir uma rede de esgoto que comportasse seus anseios e à rua coube servir de fachada aos novos tubos que transitariam seus os dejetos ao mar. Às más condições daqueles quatrocentos metros de asfalto, com areia, barbas-de-bode, rabos-de-burro e carrapichos, apresentava sinais de existirem apenas pelo aquecimento imobiliário da região e não – como se comprovou depois de alguns meses – tardaria muito a tornar-se rua – mais próxima às suas pretensões de avenida – digna outra vez.

Às suas margens intercalavam casas, terrenos baldios e construções; do mesmo modo, se entremetiam nas calçadas trechos pavimentados, matos e alçapões destrancados: convites pretensiosos às galerias subterrâneas. Os postes de luz, de tão frágeis, aparentavam traves suspensas pelos próprios fios de eletricidade que sustentavam. Além da luz-névoa que transmitiam, eram muito distantes uns dos outros; intercalando, ao passeio de quem andava por aquela rua, ora espetáculos em sombras, ora saltos ao esquecimento dos olhos.

Contudo, não podem condenar as condições da rua pela disgra que sucedeu. É certo que o bueiro não deva ficar aberto por onde se anda, mas não estamos para reflexões sobre tampa de bueiro. Que falta pode fazer a luz, a tampa, ou qualquer sinalização, quando os olhos decidem acompanhar os pensamentos para onde quer que eles os carreguem?

O pé direito foi o primeiro a enfiar-se no buraco; seu joelho teimou à queda e a quina metálica do bueiro meteu-lhe os dentes arrancando o sangue que transitava por lá. Então, o resto do corpo tratou de lançar-se buraco adentro sem qualquer reação, sofrendo durante a travessia lesões bem menos graves: pequenas escoriações no quadril, ombros, braços e rosto. Demoraram uns tantos segundos para seus olhos se acostumarem com a pouca luz subterrânea. Enquanto isso, suas mãos, em ocasiões assim, frenéticas, correram a percorrer seu corpo todo em busca do tecido mais ferido, de um osso partido que, quem sabe, estive exposto àquele ar e água podres; ou um metal enferrujado rasgando a pele e carne. Sentiu o liquido quente escorrer na parte interna de sua coxa direita e uma madeira ainda cravada no ferimento, além do talho do joelho direito, expostos às bactérias já quase desesperançosas de tanto esperar a oportunidade para produzir seu fim, a tetanospasmina.

Quando os olhos se adaptaram, pôde ver o que sentia: a perna esquerda mergulhada até o joelho em água barrenta e o corpo todo em penumbra. A câmara onde estava depositado tinha dois metros e meio por um e meio, e apenas uma circunferência de aproximadamente cinqüenta centímetros, no rodapé da parede oposta a que se apoiava, recebia luz da superfície. Em cada uma das paredes mais estreitas, seguiam os tubos que serviam para descarregar os dejetos que lhe eram oferecidos; enquanto nas paredes mais largas, havia dois degraus que, provavelmente, foram feitos para não deixar atolar quem, vez outra, querendo o destino, ou o ofício capital, tinha que descer ali. Enquanto a perna direita se apoiava em um destes degraus, procurava apoio para as mãos para que o corpo todo ajudasse a desatolar a perna esquerda. Perdeu a consciência.

* * *

– Aqui, os ratos não fogem da gente.

Sentiu pavor. Como se entornassem água gelada nos nervos de seu corpo contraindo todos os seus músculos, causando tremor em todo o corpo. Era uma voz de criança, ou mulher, não sabia bem. A câmara estava, estranhamente, mais iluminada, mesmo assim franziu os olhos e buscou o dono da voz.

– Eu sei por que você veio parar aqui.

Era uma criança. Um menino de aproximadamente onze anos e naquela conversa despertou um menino que parecia feito de cera.

– Aqui a gente fica encolhidinho no canto, porque os ratos não fogem da gente. Aqui a gente tem medo deles, como eles têm medo da gente lá em cima.

Agora podia ver ratos farejando sobre os pés encolhidos do menino. Quando os ratos seguiam, ele voltava a falar.

– Eu não tinha mais esperança de sair daqui, mas o senhor me encontrou.

Estava apavorado, precisava, em primeiro lugar, conter seus nervos que, contraídos, amarraram seu corpo. Era ele quem precisava de ajuda, não conseguiria ajudar ninguém como estava. E aquele menino... Começou tentando controlar a respiração: mesmo com o fedor estacionado na câmara, inspirou até sentir os pulmões cheios e expirou todo o ar que conteve por várias vezes. O exercício tratava de acalmar seu coração que, embora continuasse batendo mais forte do que o normal, já diminuía o ritmo. Como reflexo pelo susto causado pelo menino, suas unhas tentavam fincar na parede de concreto; acalmou as mãos e apoiou-se de cócoras – como o menino – na extremidade oposta a que o menino estava. Exatamente na mesma posição, frente a frente, a dois metros de distância. Ao dobrar os joelhos, o beiço, recém inaugurado em seu joelho direito, abriu e o fez grunhir de dor lancinante, mas passageira. Um rato bebericava o sangue que pingava de sua bermuda no degrau onde estava apoiado.

– O senhor veio para me tirar daqui. Veio me encontrar, desfazer, e me levar com o senhor. Aqui, os ratos não têm por que fugir.

* * *

Acordou sentindo fisgadas nos talhos da coxa e joelho direito. Três ratos experimentavam a carne exposta: dois mordiam o ferimento da coxa, enquanto outro beijava o lábio fino de seu joelho. Teve ânsia; tentou espantar os ratos, que não se intimidaram. Pensou no galão d’água que preferiu a superfície, quando seu corpo se lançou bueiro abaixo. “Aqui, os ratos não têm por que fugir”. A idéia de fumar aumentava ainda mais sua ânsia. A sede era tanta que aquela água não parecia mais tão podre. A vista e os sentidos lhe faltaram outra vez.

* * *

O menino se aproximou, em passos cuidadosos, e exortou os ratos a deixarem sua perna. Sentou-se ombro a ombro com ele, e agora sua voz parecia vir em notas.

– O senhor não está me reconhecendo. Eu vim para cá quando o senhor se convenceu que era Carlos Eduardo da Rocha Baptista, e não mais Cadu. Eu sou o Cadu. E você quis me buscar e me levar junto com o senhor para onde o senhor for de agora em diante.

* * *

Voltou a consciência, foram os sentidos, os olhos, a carne e o sangue devorados pelos ratos, que, no esgoto, não têm por que fugir.

30 de abril de 2009

Uma consulta

Tinha a camisa, e a gravata (frouxa), e o paletó, amarrotados. Aceitou um copo d’água, aceitou um café, sentou na ponta da cadeira e disse não saber por onde começar. Estava, naquela tarde úmida, vivendo a metade de seus 38 anos. Tudo era cansaço no que aparentava e o frio não parecia incomodar sua angústia.

– Falar sobre a vida que carreguei até aqui? – em murmuro inaudível. Parecia se preocupar com o que desencadeou a lembrança de uma vida inteira. Não sabia como começou aquela vida, tão pouco como começaria a contá-la. Por um instante, tentou forçar o choro. Queria substituir as primeiras palavras por muco, lágrimas e soluços; mas os soluços, lágrimas e muco, junto com a coragem dos passos que o levaram até o consultório, também faltaram. À sua frente, o doutor fazia leves carícias no próprio queixo – carícias de um pensador, mas sem a barba dos psiquiatras que se prezam. Talvez tenha sido um engano – deixou o pensamento fugir.

Longos minutos com o silêncio cortado apenas pelo som da respiração forte de um e o roçar das mãos lisas no queixo áspero do outro. Até o doutor iniciar, lendo sua euforia:

– O que traz o senhor aqui?

Sentiu o coração acelerar, e a voz pareceu faltar, mas despontou numa alegria honesta quando conseguiu formar as primeiras frases.

– Não sei bem ao certo... Estou tão confuso agora. Achei que precisava falar com alguém... Não sei por onde começar. Quando me sentei aqui, senti como quem está curado.

– Quando foi que decidiu marcar esta consulta? O que você estava sentindo... o que o senhor buscava?

Sem se dar conta, com os olhos tentando ver os dois pés ao mesmo tempo, começou assim:

– Me alegra ver fotos. Mas só as fotos com pessoas. Cheia de dentes, que mostram os olhos, bocas, narizes, sobrancelhas, cílios, orelhas, bochechas, sardas, cabelos, testas, queixos e tem ainda aquilo tudo mais que algumas fotos despertam. Por vezes, choro vendo fotos. Ligou, não sei bem por que; sei que antes, resolveu casar.

Os nervos pilharam, tirou do bolso o aparelho celular, apertou um, outro botão e despejou toques e tons pelo escritório.

– Anunciou como música seu telefonema: assenti, atendi. Desde muito, estive distante de suas ambições que não pude imaginar quem era. Não sei bem, nem sei se me lembro bem, parece que queria empregar uma amiga, também jornalista. Foi educada, depois de justificar a chamada, perguntou por onde ando, como tenho passado. Ainda não sei bem se ela queria mesmo saber: acho que não. As fotos revelam mais do que um instante. Quantos olhares se perdem longe de nossa compreensão, sem passar pelo filtro de nossas expectativas? E, após aquele telefonema, revelou-se pra mim aqueles olhos na fotografia de anos antes. Se eu tivesse notado saberia, nunca iria ficar comigo. Ela tem voz rouca; falou como quem suspira a palavra e o sorriso em som. Foi um telefonema. O que sei, foi: alô; quanto tempo; como vai; jura?!?; minha amiga (...); resolvi meu amor, minha vida completou, estou casada. Sei bem o que esqueci estes anos todos. Tive que esquecer para viver estes anos todos, mas agora lembrei. A pergunta que me faço agora é : como posso viver em paz se agora perdi meu esquecimento? Estou tentando responder sua pergunta, doutor, mas outras perguntas surgem na frente. Acho que busco compreender, para a razão me levar outra vez para longe do que posso sentir. Mas aqueles olhos na fotografia me fizeram perceber, mais do que as palavras de seu telefonema: nunca seria minha. E éramos felizes; apaixonados!

– De maneira vulgar, diz-se que há uma diferença grande entre “estar feliz” e “ser feliz”. Quando “estamos felizes” associamos a uma condição emocional, que pode variar, e varia, a partir de determinadas situações ou acontecimentos. Neste caso, estamos sujeitos ações que podem desencadear uma série sensações de conflito. Quando “somos felizes”, associamos ao bem-estar: condição financeira, estrutura familiar, aspectos fisiológicos e psicológicos, e por aí vai. Cada vez mais creditasse a felicidade à qualidade de vida, e não a emoções.

Foi interrompido.

– Não estamos falando de felicidade, doutor! Dane-se a felicidade! Estou falando de amor! Amor nada tem a ver com felicidade.

– Esteve por anos, posso dizer feliz?, sem seu amor. Por que agora tanto sofrimento? Talvez vê-la casada tenha colocado você em conflito com você mesmo: a vida seguiu para um de vocês...

– Pode ter razão... minha vida ficou parada. Não mereci, não mereci nem ofereci o amor para mais ninguém.

Longa pausa. Doutor triunfante e paciente com os cotovelos nos joelhos, curvado, escondido debaixo da mesa, com as mãos na nuca. O paciente volta à posição ereta de quem está sentado e com o rosto estranhamente normal, volta a falar para o doutor.

– Com prazer, ela descreveu a escolha. Seus vícios, prazeres, vitórias. Inclusive, incluiu-se como conquista e vitória. Com o rigor dos detalhes... – já em pé, prosseguiu – Muito obrigado, doutor, o senhor me ajudou muito. Muito obrigado, mesmo.

– Na próxima semana no mesmo horário, então?

– Não, obrigado. Muito obrigado.

10 de março de 2009

Esconderijo-secreto

No corre-corre da rua, eu gostava de ser o primeiro a ultrapassar a linha-imaginária. A linha-imaginária, da prova-imaginária, onde eu e meus amigos competíamos pela medalha olímpica, fazia de nossos vinte metros de asfalto a pista de cem metros-rasos do atletismo. Estes mesmos vinte metros de asfalto, todas as tardes, durante as férias escolares, se transformavam em Maracanã da molecada da vila. Na rua, chinelo de dedo não era chuteira de futebol, nem tênis de corrida; pra não perder, ou estragar, e levar a bronca descalça em casa, dos pés os chinelos corriam para as mãos e acompanham, como luvas, os Zicos, Sócrates e Pitas de nossos clássicos intermináveis. Apenas com o escuro da noite, nossas mães lembravam de seus apitos – que fazíamos questão de esquecer em casa – e surgiam árbitras para encerrar a partida.

Estava lembrando: tive tantos amigos e uma casa boa e grande. Em geral, as casas de meus amigos eram de materiais adaptados onde, por exemplo, madeiras serviam de apoio ao concreto quebrado das escadas e as desconstrutivas reformas começavam para nunca terem fim; ou então, eram pequenos quartos-banheiros escondidos no fundo do quintal de outras casas. O eco que minha bola de capotão fazia na garagem de Dona Ana – enquanto eu esperava pelo amigo do casebre do quintal, enquanto ele acabava de lavar a louça do café-da-manhã – nunca mais ouvi; e, como sabemos, as manhãs, tardes e noites também não se formam iguais às daqueles dias.

Não tive também, nunca mais, o mesmo calafrio de quando atravessava a viga – tapete-vermelho, para os meus olhos – que me carregava da calçada para dentro da casa do outro amigo. Este amigo, como era comum, era muito amigo. E se hoje ainda há amigo, ele ainda é. Sua casa oferecia tudo que uma criança poderia querer: tinha o tapete de terra batida, onde jogávamos fubeca; tinha um depósito de madeiras e tábuas, onde se escondiam os ratos e a gente conseguia matéria-prima para os jogos de taco da rua; tinha a ausência dos mais velhos, já que cedo todos corriam para ganhar o jantar. Dependendo da disposição dos olhos, parecia construção abandonada.

Num fim de tarde, como já havia ocorrido em tantos outros fins-de-tarde, a mãe deste meu amigo veio bater à porta de casa a sua procura – minha casa era sempre a primeira opção, já que éramos como ‘unha e carne’. Foi surpreendida ao me ver de banho tomado, sem sinais da bagunça que por certo existiria se estivesse com seu filho. “Meu deus, onde se meteu esse menino”. Não demonstrei – um amigo jamais aumenta a preocupação da mãe do outro, o castigo por preocupar os pais varia de dois a dez dias sem sair de casa –, mas meu espanto era ainda maior: como é que eu não sabia onde ele estava? Sua mãe mal virou às costas, surge da esquina o vulto raquítico dele.

– Minha mãe passou aqui, né? Deve estar indo para a casa do Márcio agora, depois me procura na pracinha e volta para casa – disse, safo.

– Acho a cinta vai cantar lá hoje, né? – redargüi, meio complacente e, talvez, com um leve sorriso. – Mas onde você se meteu, afinal?

– Vamos lá em casa que te mostro. É até bom você estar lá comigo quando minha mãe voltar, ela tem vergonha de bater em mim na frente dos outros.

Mesmo sabendo que minha presença era medida paliativa – nós dois sabíamos disso – e que, de banho tomado, eram as regras daquele tempo, eu não poderia sair de casa para badernar, pulei o portão e nos pusemos a correr pelas ruas. Saltamos da calçada para dentro da casa sem usar a viga, subimos com cuidado, mas rapidez, pela escada de degraus estraçalhados, entramos na casa por um buraco onde deveria ter uma janela, passamos por quarto, sala e chegamos ao fundo da casa – onde ficava um espaço que sugeria que iria se tornar um outro quarto um dia. Onde, como eu suspeitava, a casa terminava.

– Cuidado para não enroscar na grade – indicava enquanto se contorcia para passar onde seria a janela do projeto de quarto.

Arranhei as costas na grade, mas consegui atravessar a janela, pulamos uma muretinha à esquerda e chegamos num ambiente que parecia um universo paralelo.

– Aqui é o meu esconderijo-secreto – anunciou.

“Um esconderijo-secreto!!!”, em pensamento tão alto que não sei se apenas pensei ou deixei escapar entre os dentes. Era um terreno que tinha menos de um metro de largura, em barranco, onde, com algumas tábuas que sumiram de sua casa sem seu pai perceber, ele construiu um quartinho de madeira na pirambeira. O lugar estava cheio de parafernálias, como um ninho de rato. De cara, reconheci uma bola de capotão que a molecada da vizinhança andava procurando. Tinha lanterna, potes de bolas de gude – sem dúvida, algumas delas já haviam me pertencido –, gibis, pião, bilboquê, aquaplay: presentes que a vizinhança oferecia.

– É aqui que eu venho quando quero ficar sozinho.

Percebi naquele fim de tarde, pela primeira, vez a beleza, e necessidade, de ficar sozinho; com meu amigo de dez anos que criou um universo só seu. Entre paredes que ofereciam os sussurros de sua casa e da casa de sua vizinha sem que ele precisasse oferecer nada em troca. Era um fantasma quando estava lá. Voltamos para dentro da casa quando ouvimos a viga que iniciava a casa soluçar com os passos pesados da mãe. Pelo olhar dela, confirmei com os olhos para meu amigo: “a cinta vai cantar”; ele ameaçou sorrir: já estava calejado.

Recusei o convite para jantar e desejei sorte para o meu amigo: a noite mal estava começando para ele. Voltei para casa chutando pedras e olhando pro chão, dobrei uma esquina e surgiu minha casa, como a casinha da Barbie: a coisa mais sem graça que poderia existir. Minha mãe no portão, não disfarçava sua preocupação.

– Se o seu pai chega em casa e você está na rua, já viu, né? Afinal, onde você se meteu?

Sem o menor cuidado para disfarçar o meu incômodo, respondi enquanto entrava:

– No castelo do He-Man – e entrei com desgosto em minha casa perfeita.

19 de fevereiro de 2009

Mais um adeus

Os pássaros anunciam o tempo dos sons e os dois podem rir um pouco mais alto: sobe o sol e aumenta o volume; até agora sussurravam. O dia tem o pé-direito alto, limpo, e encerra uma noite que faz valer a vida. Não dormiram.

Na noite anterior, quando ela chegou, o encontrou de banho tomado e sorriso. Ela adora seu sorriso, adora encontrá-lo de cabelos molhados. Apressou seu banho também – não passava das sete da noite –, para depois descobrir que, enquanto ensaboava o corpo, o vapor da água quente do chuveiro elétrico se cristalizava no espelho banheiro revelando uma mensagem – escrita a dedo – por seu amigo: “Hoje não precisará de espelho, verá em meus olhos como é linda. Com amor, seu menino”. Inflou de alegria, e vapor quente que dançava com o vento de sua toalha, e teve dúbia sensação de nunca mais poder lavar aquele espelho.

Ele mal tocou a comida encomendada. Beberam vinho, contaram e riram do passado que criaram juntos e dos passados que criaram separados. E se beijavam apaixonados, brincando. Depois re-inventavam a tristeza para chorar um no colo do outro. E se beijaram cúmplices, misturando as lágrimas. Declarações de amor, sonhos para fazer do momento o eterno, e se beijavam com os olhos. A noite toda: ora com a cabeça nos pés do outro, ora combinando as posições. Olhavam para teto e deixavam as mãos brincar, ou fechavam os olhos para os corpos se verem nus. Ela não ficava vermelha com as baixarias declamadas por ele.

A noite e a história acabaram e chegou a hora do adeus. Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. Mas já era dia e ele jazia acordado. O sono iria encontrá-la em seu vôo de volta. Ele voltou para o quarto, re-encostou no colchão, sentiu o seu cheiro no lençol, no travesseiro e nas mãos e estacionou com o pensamento distante no futuro. Deveria prestar-se ao que sobrou, o cheiro, que, como sua amiga, também desaparecerá e o deixará para sempre a imaginar.

12 de fevereiro de 2009

Casamento II – ou paixões e choros

Em alguns anos, os votos diante do padre se esquecem longe do coração. Em pouco tempo. A paixão resolve perambular para longe da casa e teimosa – talvez desesperada –, às vezes se deixa errar por um colega do trabalho, ou por um amigo novo de uma amiga antiga. E insiste lançando convites para que saia da redoma. Apaixona-se e desconfia que o mesmo aconteça com seu marido. Um antigo amor prepara-se para se tornar pai pela terceira vez. Sente inveja, desejou um filho dele como nunca desejou de seu marido – com quem, ao casar, tornou-se amiga e passou a se esconder.

As paixões surgem e desaparecem; ressurgem e somem outra vez; e se repetem até calejarem o peito e desaparecerem de uma vez por todas. Sem paixão, com um pequeno remorso por todas as noites que dormiu ao lado de seu marido carregando o vulgar de algum amante, deixa chorar. E sorri, durante o choro, ao lembrar namoros de antes de casar.

Nada litúrgico, sai do elevador de um prédio do centro cidade ajeitando a alça do vestido. Estrala, diante dela, a fechadura da porta metálica; não olha para o porteiro, fecha a porta, e saí. Saí, mas fica ali parada. Chora mais uma vez. Sentada no chão, apoiada na porta, atrás da porta, para fora, para a rua. Se não chorasse talvez explodisse, e chora como quem evita a explosão, em convulsões. Até que o choro acaba: de repente o choro parece não precisar mais e a deixa sob um leve desconforto... e vem o sono dizer que dormir é o fim do choro.

Não conhece o choro por solidão. Talvez inveje quem por solidão chora. Costuma fugir e se esconder quando quer chorar: gostaria de chorar parada.

6 de fevereiro de 2009

Casamento I – ou o ato litúrgico

A vida pareceu pedir um passo adiante; decidiu casar. Não que o noivo não importasse: importava, e muito. Mas tinha à mão um ideal: educado, amigo de seus amigos, bom amante, pouco dinheiro – como a maioria que pensam artisticamente –, mas de família abastada (no fundo, julgava que quando se casassem ele desistiria do violão e arrumaria um emprego com vencimentos); além disso, lhe agravada sua companhia. Nas novelas há sempre um personagem com as características do noivo: levemente, e estrategicamente, desarrumado, com a barba levemente, e estrategicamente, mal-feita, cabelos levemente, e estrategicamente, desarrumados.

A vida precisava dar um passo à frente e o passo foi dado. Mais duas semanas, ou dois jantares, e estavam noivos. Põem-se a escolher as madrinhas, os padrinhos, a paróquia, o padre, enquanto as famílias dos dois já estão feitas. Flores, vestido, terno, salão para receber os convidados, viagem e hotel para consumarem; tudo arranjado. Noiva tranqüila, noivo disfarça. No altar, está como que outra pessoa: totalmente, e estrategicamente, arrumado. A noiva tem uma crise. Chora copiosamente dentro do carro. “Cuidado com a maquiagem”; “está tão emocionada”; “é um dia muito importante”. A noiva chora; mas não pela emoção a qual a creditam. Não pelo precipício matrimonial, ou pelo noivo que com o qual trocará votos: a escolha do marido lhe parece digna; chora porque pretende cumprir seus votos e um adeus antigo teimou em voltar, desta vez, com caráter bem mais severo: como se finalmente aquele adeus se tornasse adeus.

Chorou, mas logo recompôs a paz. Deu todos os passos que subiram a escada, surgiu na igreja – “linda”, vibrou n’algum canto – firme. Sorriu para os amigos do colégio e faculdade, depois aos colegas de escritório, mais adiante aos parentes que não via há muito tempo, até encontrar as lágrimas dos irmãos na primeira fileira. Despediu-se do pai e se casou diante de padre, testemunhas e, como disse o padre, de deus. Mais tarde, deitou com prazer e ternura: finalmente, como ato litúrgico.

10 de dezembro de 2008

A menina que fez um homem

E com os olhos enormes, como uma criança que se vê descoberta pelo padre sozinha na sacristia, respondeu “não” com a cabeça.

Os dois têm ali quinze anos; idade quando isso acontece.

– Não tenha medo. Beije meu corpo, sinta minha pele, sinta meu cheiro... descubra meu corpo.

O menino ia sem jeito, e vagaroso. A menina fechava os olhos e acendia todo o corpo; com o vento da respiração seus pêlos subiam e desciam. Suas mãos acariciavam sua nuca, enquanto lhe era beijado o ventre; a língua no umbigo arrepiou braço, perna e todo o dorso direito. Suspirava baixinho e sorria; com olhos fechados e os cachos de seus cabelos flutuando. Encontrou uma de suas mãos esquecida no travesseiro: beijou sua palma, cobriu o rosto com ela, tocou os lábios na ponta dos dedos e a pousou no seio esquerdo – acima de coração e pulmão que começavam a ofegar.

A menina já tinha tido outros namorados, não muitos. O menino era cordial; colocava sua curiosidade muito atrás do cuidado que tinha com ela. Tratava seu corpo como objeto que pudesse romper; estilhaçar. Alisou primeiro uma, depois a outra, perna – dos pés ao quadril; contornou a cintura; brincou com seu pêlos. Voltou a beijar seus seios e pescoço, e parou diante dela. Estavam tão próximos que os olhos tiveram dificuldade para focar os olhos um do outro.

– Não tenho medo. Aqui, em você, deixarei de ser menino e sempre que procurar este menino de volta, vou lembrar que ele está aqui; neste momento que durará para sempre em você e em mim.

Eles se beijaram por toda aquela tarde. Brincaram com as delícias de seus corpos nas semanas e meses seguintes. Até adormecerem um para o outro e acordarem em outros olhares. Choveu muito até o homem se lembrar do menino. Quando se lembrou, a mulher que lhe guardou já gerava outra criança (de outro menino) que iria se tornar menino e crescer lentamente até se tornar o homem que ela viu nascer nela um dia.

5 de dezembro de 2008

São Francisco, Estados Unidos, 05 de junho de 2003

Esta é a oitava carta entre dois irmãos chineses: Tài Tai Li de São Francisco (EUA), e Lao Peng Li que foi à China devido a morte do pai. Acompanhe as cartas anteriores: primeira, de Aiko Koan, avisando a morte do pai; segunda, de Lao Peng Li, assim que chegou na China; terceira, de Tài Tai; quarta e quinta de Lao Peng; sexta de Tài Tai; e sétima de Lao Peng.



São Francisco, Estados Unidos, 05 de junho de 2003

Olá, querido irmão.


Quanta angústia me acompanhou durante estes quatro meses que estive sem notícias suas. Chorei sobre cada palavra que dediquei a você em minha última carta. Depois dela, todas as semanas escrevi e enviei cartas e mais cartas ao seu destino: a princípio, cartas de perdão; depois, cartas desejando que o perdão viesse acompanhado por notícias; por fim, rezava sobre o papel apenas por um sinal de que estivesse vivo – mesmo que guardasse por mim todo o rancor do mundo. Agora que sabei que não está mais em Jilin, imagino que não tenha recebido nenhuma destas correspondências.

Depois de mais de cem dias de expectativa, depositando minhas cartas nas urnas do correio, como um náufrago lança seu pedido de socorro em garrafas pelos oceanos, recebo este envelope grafado com seu nome. Que alívio: seu nome, sua letra! Mas as notícias que me encaminha já se encarregaram de tornar a angústia ao meu peito. Coreanos à sua procura; esta misteriosa mulher, Xiao; você em Dandong nesta captura. Tudo muito misterioso. A princípio imaginei que esta moça pudesse fazer companhia a nosso pai nas noites em que se sentia muito só; mas parece que outras intenções, ou finalidades, ambos teriam com estes encontros. O que lhe parece, meu irmão? Quais impressões despertam seu medo? Evito pensar que haja qualquer relação entre nosso pai e os tais norte-coreanos.

Nestes meses de ausência o lucro da loja contínua sendo divido igualmente em nossas metades. Encaminho com a carta uma parte de “seu salário” do último mês. Não tenho certeza de que seja seguro mandar grandes quantidades num único envelope. Caso a entrega se comprove segura, e seja de sua vontade e necessidade, mando pouco a pouco, carta a carta, o dinheiro que é seu e está aqui comigo.

Não vejo motivos para levar até você mais preocupações, quero que saiba que por aqui está tudo em ordem. A não ser por um ocorrido: Tung diz estar grávida de mim. Sua barriga já salta aos olhos, e isso parece não atrapalhar que continuem a lhe procurar na boate. Pedi que ela parasse de trabalhar, pelo menos por enquanto, mas, como seus clientes – cada vez mais numerosos –, parece não se importar. Diz que vai continuar servindo no bordel enquanto puder. Diz ainda que só sai de lá quando um homem se oferecer para cuidar dela e do filho; ou seja, se casar com ela. Não suporto a idéia de tantos outros a violarem enquanto carrega meu filho em seu ventre. Não sei o que fazer, irmão. Mas deixe que resolvo tudo aqui, não tenha preocupações comigo.

Escreva com urgência, não me deixe aqui aflito. Continua a vir aqui, de quinze em quinze dias, aquele senhor chinês a quem pagamos pela segurança da loja. Dizem que ele tem muitos contatos na China. Caso consiga mais informações e o nome completo de Xiao, posso pedir a ele que investigue com seus companheiros quem é esta moça. O que acha?

Mantenha-se firme. Muito cuidado, não sabemos com quem você pode estar se metendo; cuidado irmão. E não deixe de escrever.

Forte abraço,

Tài Tai Li

2 de dezembro de 2008

Blogs unidos por Santa Catarina

Esta página, até aqui dedicada exclusivamente a Contos, abre espaço para um assunto muito mais sério: a campanha de apoio às vítimas da chuva em Santa Catarina.



Segue também o acesso para a página da Defesa Civil, onde encontrará mais informações.

27 de novembro de 2008

Sonhos sonhos são

Se fosse por deus um dia convocado a, por uma tarde que fosse, elucubrar e discutir sobre suas criações – os mundos, as pessoas, os animais e tudo mais o que fez e assinou – sei o elogio que faria para envaidecer o nosso senhor. E não faria tendo em vista ganhar ao algum prestígio junto à entidade máxima; receberia minhas palavras por merecimento – a partir do que vejo nas coisas, claro. No entanto, embora o elogio seja completamente honesto, provavelmente, como forma de retribuir-lhe a palavra quando tivesse retomado a simpatia por mim, adotaria um discurso que iniciaria pelas críticas e encerraria no elogio.

Tão difícil, perto do impossível, encontrar natureza pura, cheia em prós e sem nenhum contra. Vejo, em tudo, árvores traiçoeiras, que oferecem frutos lisos em sua superfície, enquanto carregam bicheiras em suas entranhas. O mar, marchando como soldados sem sair do lugar, diz que por ora, talvez por um acordo entre cavalheiros, não invadir terra adentro; por ora! O vento vez em quando bate uma de minhas portas para lembrar que está aí; a chuva castiga com seus excessos, ou largas intermitências. O temperamento dos climas, o temperamento dos bichos.

Se em tudo que vejo há um quê de perigo, guardo para onde os olhos descansam, assim como a consciência, meu elogio: “deus, você acertou quando nos deu os sonhos”. Que belo trabalho. Há aqueles que preferem se restringir ao seu tempo e espaço e não vem à tona quando despertamos; mesmo a estes agradeço. Acordamos um pouco diferentes todos os dias sem saber por quê. Mesmo assim, talvez por características minhas – de certo, existem os que se assustam com os sonhos que têm e devem discordar de mim –, prefiro acordar trazendo o sonho comigo: recordar sob o chuveiro, enquanto ensabôo o corpo, a estranha história do macaco que, único habitante de uma ilhota perdida num oceano qualquer, atira bananas e cocos enquanto eu circundava aquele terreno dentro um minúsculo caiaque de volta ao continente. “O que será que tem esse macaco comigo?”, enquanto água e sabão vão levando ao ralo os detalhes desta história tão viva há segundos atrás.

E os sonhos dão-se de diferentes formas, graus, intensidades; têm seus caprichos, são adivinhos às vezes; ora sentem-se impregnados e são conduzidos por nossas angústias. E, do mesmo jeito que podem passear pelo nosso consciente durante os primeiros momentos em quê acordamos – é raro, mas acontece –, podem convidar nossa consciência para participar da fantasia.

Uma grande amiga de minha esposa trouxe outro dia à nossa casa uma história fantástica. Seu marido havia desaparecido. Segundo ela, quando acordou o sujeito estava às voltas pelo quarto; ora levava uma mão ao queixo, ora coçava a nuca. Nunca o vira acordar assim. Perguntou o que ele tinha; se estava bem. Quando ouviu sua mulher, finalmente ficou estático: “Querida, tive hoje a experiência mais fascinante de minha vida”. “Nunca o vi com aquele olhar”, dizia a mulher à minha esposa, enquanto eu assistia a história de longe. “Estavam todos lá” – repetindo as palavras e olhos do marido – “você, seu irmão, meu irmão, o cachorro da rua, a dona Sônia, a dona Maria, a dona Madalena, o homem da banca de jornal; o homem da banca de jornal!... todo mundo... meu chefe estava lá, meu estagiário; o cara da informática... Estávamos na chácara de seu pai. Mas não parecia a chácara de seu pai. Era como se quintal da casa onde nasci pertencesse à chácara de seu pai. Meu Deus, como era nítido. Estavam todos lá... até quem já morreu estava lá... meu pai, meus avós, meus cachorros, o periquito... ao fundo, bem escondidinhas, vi até as capivaras que desciam do barranco para o rio todo fim de tarde e que eu ia ver com a minha avó. Como pode ter sido tudo tão nítido?!?”. “Parecia um completo maluco”, parava às vezes para alguma consideração, o que me irritava muito, já que narrava e interpretava com a competência de um ator profissional, e estas interrupções tiravam fluência. Mas logo voltava ao papel do marido com mesma competência. “Eu estava sentado naquele banquinho que fica embaixo do limoeiro vendo as pessoas. Estava acontecendo uma espécie de festa, que às vezes parecia quadrilha, às vezes aniversário de criança... mas com todos lá... Sorridentes; sem dúvida era uma festa. Aí, algo foi acontecendo lentamente... pouco a pouco fui percebendo que se tratava de um sonho. Isso já tinha acontecido outras vezes, mas não como hoje! Geralmente, quando sei que estou sonhando, não tenho domínio da situação, sou um espectador ao lado de uma espécie de alter ego. Desta vez eu estava dentro de mim, era eu, como estou agora na sua frente, com total domínio de meu corpo e mente...”; “Como se ele parece ter total domínio da cabeça ali”, se interrompeu a mulher mais uma vez. “... Lembra daquele filme maluco que vimos outro dia, Waking Life? Lembra da cena que onde um cara diz que quando estamos sonhando e não sabemos se é sonho ou realidade devemos procurar um interruptor e tentar acender e apagar as luzes? Ele diz que se for sonho não acontece nada, lembra? Então, é balela. Eu sabia que era sonho, tinha certeza, e resolvi fazer o teste. Apaguei as luzes do quintal e levei a maior vaia da festa inteira... todos me vaiaram! As luzes se apagaram quando inverti o interruptor, entendeu? ... Que bela experiência que eu propus, se não tivesse consciente jamais faria isso: comecei a avisar a todos que estávamos num sonho, por isso poderíamos fazer o que quiséssemos. Seu irmão foi o primeiro a olhar para mim como se eu fosse um débil mental...”. “Ele nunca gostou do Rodnei”, fez questão de dizer à minha esposa. “Alguns riam, outros nem ligavam e continuavam a dançar. Mas agora eu sabia que tinha controle total do que estava acontecendo. Era como se eu fosse o Neo em Matrix! Primeiro, fiz o som parar com a força do pensamento. Todos ficaram emparelhados a mais ou menos quatro metros de distância de mim. Aquela menininha, filha do seu primo, foi a única a dizer algo: ‘olhem, um sapo’. Vinha um sapo saltando no corredor que se formou entre mim e as outras pessoas. Então eu disse: ‘Quero saibam que estamos diante de uma grande experiência; talvez única. Todos nós estamos em um sonho e se tivermos lucidez disso, podemos fazer o que quisermos. Eu sei disso e vou provar’. Todos permaneciam estáticos e eu disse: ‘Sapo, voe’. O sapo foi por sobre a cabeça das pessoas, como só pode acontecer em sonhos. Era incrível! mas o mais incrível é que as pessoas não acreditavam que era um sonho, começaram, quase que em coro, a dizer ‘mágico, é um mágico, tem poderes’ e eu insistindo, em vão, a tentar convencê-los de que era algo fantástico por ser um sonho. Me sentia desnorteado; não sabia mais o que fazer para convencê-los... então, resolvi eu mesmo voar... sei lá, Cristo foi pastor andando sobre as águas, talvez comigo voando funcionasse... Voava meio se jeito, como se precisasse de equilíbrio para se voar. ‘Mágica, que baita mágico, é mágica’, era só o que se ouvia lá embaixo... não agüentei e fui tomado, vaidoso, tendo a ignorância de todos como aliada de uma fantasia macabra, anunciei: ‘Não sou mágico, sou o deus de vocês!’... Quando vi que eles começavam a acreditar, tive medo de estar comprando meu lugar no inferno pela blasfêmia e acordei”.

Há dois dias a mulher não tinha seu marido de volta para casa, não soube se voltou. Sabia dizer até aquele momento que ele foi para o escritório naquela manhã e pediu demissão sob a alegação de ser uma fraude entre tantas outras. Seu chefe, amigo de infância, não aceitou, mandou-o de volta para casa para descansar. Saiu sem dizer mais nada e sumiu.

Que bela experiência a deste homem; um privilegiado. Bom, vou agora pegar meu caiaque e visitar meu macaquinho da ilhota. Quem sabe não encontre por lá este homem que quer fazer de seu sonho a prova de que todos vivemos a sonhar.

31 de outubro de 2008

Duas e vinte e três

Fechei meus olhos por dez minutos, não mais que isso. No entanto, o meu relógio ainda marca as mesmas duas horas e vinte três minutos da última vez que o notei. Devo ter cochilado; não me entreguei a sono profundo. As imagens que produzia, neste intervalo de dez minutos, não mais que isso, enquanto adormeci, escaparam apenas um pouco do que costuma mandar meu juízo; não eram totalmente soltas e intermitentes quanto nos sonhos em que desmaio. É tudo tão recente que ainda posso me lembrar de todos os passos do que percorreu em minha cabeça, ora em campo consciente, ora inconsciente, durante este estreito espaço de tempo.

Começou após me acomodar na espreguiçadeira, num daqueles pensamentos mais probos; bucólico, nada exige ou interfere – posto tratar-se de um cochilo de tarde de domingo – na vida de mais ninguém. Pensava, sobre a espreguiçadeira, no caminho que faria para o banho de mar da manhã seguinte. Típico, quando estamos prestes a adormecer, esqueci das sacolas que teria que carregar até a praia, e projetei-me pela avenida principal até a quitanda; projetei-me acariciando uma a uma as maçãs da quitandeira até chegar à preferida. Da quitanda, segui à praia, me acomodei numa rocha isolada de todas as outras rochas que havia sobre a areia e, que não se sabe por quem, tinha sido colocada ali para me encontrar neste semi-sonho. Por ali, deixei meu rosto ser coberto pelo vento. Aos poucos, com o vento, e o sal e a areia, a me castigar, saltei ao inconsciente e, aos poucos e pela primeira vez, a imagem de meu próprio rosto foi se formando nítida em minha mente. Mais nítida ainda que a imagem oferecida pelo espelho aos olhos; já que os olhos, como sabemos, enxergam apenas o que querem. Transformam signos imperfeitos em sutis traços – os amaciando diariamente durante o escovar de dentes de cada dia em que acordamos mais velhos. O vento, úmido com seus cristais, foram moldando em meu rosto uma máscara, como que de gesso, mas de sutileza microscópica; invisível, sensível apenas aos micro-nervos, que, até então, nem se quer sabia que existiam, e que, além disso, de uma hora para outra resolveram submeter seus estímulos aos lobos occipitais de meu cérebro. Meus cílios superiores, longos, se unem com os inferiores, e permitem à modelagem de minhas pálpebras: longas, parecem não ter fim, ao término dos olhos caídos, seguem abaixo, na vertical, como canaletas talhadas pelo curso das lágrimas até a minha boca. Boca, queijo, nariz, pêlos, orelhas, a testa proeminente; e a imagem de meu próprio boneco de cera foi se formando.

Tudo isso durou por volta de dez minutos; engraçado o relógio teimar. Teimei em ler um rascunho de uma história que mal consegui inventar, e o relógio marcava duas e vinte dois; tomei um copo d’água, voltei ainda às duas e vinte e dois; chacoalhei a espreguiçadeira e me sobrepus a ela. Meu último ato, em nome da consciência, que costuma acusar o tempo que desperdiço a cochilar, serviria para reforçar à minha memória o horário em que me entreguei à preguiça a fim de desdenhar minha consciência quanto, posto novamente em pé, fosse subtrair o horário apontado pelo relógio ao que via quando me deitei: já eram duas e vinte e três. Agora, além de confuso, me falta o remorso pelo tempo desperdiçado a sonhar. Falta aquela sensação que, atrás de diminuir o prejuízo causado pelo ócio, faz com que eu produza dobrado – na eterna mentira que conto a mim mesmo: que a paz que preciso chega pelo tortuoso caminho do trabalho a exaustão. Mas hoje não. Sonhei sem sair do espaço e tempo. Vou desta vez para a cama, onde o tempo costuma passar mais rápido, sem trabalhar na fantástica história sobre o desaparecimento do homem invisível, torcendo para que me traga outro sonho, desta vez, sem canaletas de lágrimas.

27 de agosto de 2008

Dia seguinte

O cigarro parecia ocupar suas duas mãos. Arcado, sentado, na cadeira de madeira no centro da sala, chorava sobre seu retrato. Como espasmos, às vezes interrompia aos olhos a imagem, levava as mãos à cabeça e saltavam, ornamentais, contíguas, cinzas de cigarro e caspas até pousarem no paletó preto, calça preta, retrato preto, dentro da sala cinza. Precisava tornar à fotografia para lembrar porque chorava, e tornava a chorar.

Quantos anos haviam passado? Quão rápido e ao mesmo tempo trabalhoso chegar onde chegou? E, ao voltar para a casa fria, encontrou pela primeira vez aquele retrato, coberto pela poeira, sobre a escrivaninha da sala, num canto onde seus olhos – fieis às suas ambições – procuravam não passar. Sabia que estava, mas um estranho desejo, tão cativante quanto aterrorizante, insistia por alguém a observá-lo. Desejava, aos soluços, que sua temida e famosa bravura fossem descobertas por mais alguém. Não esperava por sua mãe, irmã ou mulher, mas por um vizinho ou colega; precisava de alguém sem paixão, sem traquejo com os sentimentos. Alguém que o observasse, a princípio, com certa compaixão – mesmo sem entender o que se despertava dentro dele–, mas que logo desse lugar a um julgamento frio, injusto, e, por fim, lançasse desprezo com os olhos e ironia com nos lábios e semblante. Sem palavras. Que desse as costas e partisse, deixando apenas o sono dos que adormecem chorando e o pesadelo do dia seguinte.

Por fim, aceita o dia seguinte como o chão da sala aceita suas cinzas, bitucas e corpo. Mas não dorme ainda, jaz, cadáver acordado, sentindo (...) sensação sem pessoa correspondente. Quando o desejo pelo inconsciente vence e é permitido dormir, dorme e acorda logo. Feliz, sob os primeiros raios do dia, volta a ser o que sempre quis e sai sem saber que nunca mais se lembrará de procurar, caído, no chão, sob a escrivaninha da sala cinza, fria e suja, seu retrato – tão feliz quanto distante.

14 de agosto de 2008

Caderno Azul


Das anotações de seu diário, ele, que há muito deixou de acompanhar o calendário, vive seus últimos longos dias. Eram páginas amarelas de um diário antigo. No tempo, o mais comum era morrer moço e, nos diários, os dias seguiam em anotações que, muitas vezes, não eram da mesma pessoa que os iniciava: a vida reciclava-se nas anedotas interropidas pelos pais mortos que os filhos continuavam. Não é o caso de Caderno Azul, que inaugurou seu caderno, assim como a sua pena, assim que foi apresentado ao alfabeto e carrega até hoje, sob seus olhos vivos, o diário de sua vida. Este livro, de relatos em páginas amarelas cobertas por capa verde, registrou seu último depoimento no dia 05 de agosto de 1927. Desde então, na época com cinqüenta e nove anos, seu proprietário passa as suas horas lendo as linhas e busca compreender as entrelinhas de tudo que viveu até aquele dia.

A história de Caderno Azul é daquelas lendárias. Lendárias, pode-se dizer, em povoados que nada têm de mais lendário a produzir do que seus poucos personagens. Afinal, Azul nasceu e vive há mais de um século num pequeno vale que pertence somente a deus e ao diabo. Onde os governos com seus soldados, policiais, delegados, capitães – como bedéis da desordem urbana – (...) juízes e ministros não chegaram e a ausência deles nunca foi notada. Enfim, a população habita um dos poucos lugares onde ainda reina a paz, a ordem – em desordem honesta – e o bom-senso. Em qualquer grande cidade, boas histórias – como a de Caderno Azul – se perdem no zum-zum-zum dos dias de trabalhar.

Caderno Azul é conhecido mesmo antes de nascer. Seu pai, forasteiro, chegou ao vilarejo de sabe-se-lá-onde com vinte e três anos e, mesmo com toda a desconfiança que o cercava, logo anunciou que chegará para ficar e procurava uma boa mulher para ser mãe de Caderno Azul. Uma única aspirante a mãe de Caderno Azul apareceu logo. Mulher de belo corpo que, à época, com quase trinta, fazia crer que as belas curvas de seu corpo estavam com os dias contados. Os anos contrariam a expectativa. Caderno Azul iniciava sua adolescência e sua mãe ainda inspirava suspiros, em sua maioria, velados.


Registrado em dia dezenove de outubro de mil oitocentos e oitenta. Azul tinha doze anos, sua mãe quarenta e um: “Mamãe e eu passeamos para trocar a saca de arroz por umas galinhas e leite. As ofertas não agradaram mamãe, mas o que deu o que falar foi um moço que parecia oferecer um cabrito ranhento em troca de algo sussurrado ao seu ouvido. Uma grande confusão se armou. Um amigo de meu pai, que passava por lá na hora, quase deu com a mão no rapaz. Já em casa, obedecendo minha mãe, fui para o banho. Quando saí, papai estava furioso e o amigo que antes queria bater no rapaz tentava convencer meu pai a ficar calmo. Por fim, conseguiu acalmá-lo. Fiz as minhas lições para a aula da professora Joana”.


Há oitenta anos que a vida de Caderno Azul é baseada em anotações de cinqüenta e nove anos vividos. Lê e relê, linha por linha, suas anotações. Às vezes pára, olha distante com a mesma expressão que oferecia às páginas do diário, e curva-se outra vez às suas anotações. Certa vez, o mensageiro, que girava a matraca e convidava quem estivesse ao alcance de seu som para ouvir as notícias do mundo, calculou que Azul lia a última página de caderno a cada quatro meses. Mas não havia precisão no cálculo. A leitura de Azul, embora regular, não trazia linearidade.

Nunca ninguém leu ou entendeu o que levou Azul ao estado letárgico em quê vive. A população entende este personagem apenas como um velho, coberto por farrapos, com a pele carcomida por sol e chuva e as pernas plantadas sob a terra até a metade das canelas. Consumido, pouco-a-pouco, pela memória, pelo tempo e pela terra. Quem lesse o diário saberia, nas anotações da juventude, de suas súplicas esquecidas por Maria, dos desafetos com João e dos pecados com Sebastiana. Em algumas páginas, como as que homenageavam a morte dos pais, encontrariam pequenos círculos amarelados e enrugados. Se Azul permitisse expectador às anotações, saberiam que desenhava bem: tinha o altar, no dia do casamento, e o pequeno caixão de seu filho, meses mais tarde.

No entanto, mesmo que lessem, não entenderiam Caderno Azul – seu pé de raiz, seu diário roto, seu silêncio – isolado, plantado há décadas na praça central da cidade. Não foram os golpes ou galanteios da vida que o transformaram em excêntrico personagem lítico, mas a observação contundente de que, mesmo em sociedade das mais justas, o homem segue empresa daninha. Neste pequeno vale, sem governo, onde a ordem pública – ao contrário de uma, que, em nome da liberdade, admite inúmeras injustiças; ou de outra, em determinado momento, em nome da justiça, apresentou a severa face castradora, devorando a liberdade – oferece o mais sensato dos convívios, Azul se cansou das mesquinharias seguidas que o convívio com as outras pessoas oferecia diariamente. Sem Casa Verde para apropriá-lo, plantou-se em praça pública para assistir, em seu diário, repetida vezes sua vida e tentar encontrar o que o torna humano.

11 de junho de 2008

A gérbera e o calendário

Quando estava prestes a completar seu quadragésimo aniversário – comemorado no primeiro dia do ano – foi à papelaria para comprar o calendário. Desde criança – quando comprar o calendário-de-mesa era um evento entre pai e filho –, escreve, sobre o ano gregoriano, seu ano de vida: este era seu calendário quarenta e um. Consultar seu arquivo de calendários é como consultar um sumário, inteligível, de sua vida. Sem legendas, os dias são marcados por círculos, quadrados, xises; sublinhados. Claro, muitos passam despercebidos às canetadas. Nos dias marcados, fica ao olhar a curiosidade de “o que aconteceu neste dezessete de maio que mereceu este xis vermelho”, ou “vinte e cinco de março, riscado de ponta a ponta”. Ninguém sabe o que um círculo significa; ou um xis, ou quadrado. Ninguém sabe nem mesmo se há significado ou padrão para cada um destes sinais.

Há quinze anos, a residência do calendário vigente deixou de ser sua casa. Com vinte e cinco foi aprovado em concurso público e a Câmara Municipal recebeu o jovem relações públicas com seu calendário 26 debaixo do braço. Viveriam ainda lá o vinte e sete, o vinte e oito, o vinte e nove, até o, recém inaugurado, quarenta e um. Seu trabalho empolgou por pouco tempo; logo era “recorte e cole”. É responsável pela organização das cerimônias oferecidas pelos vereadores da casa a representantes públicos de outras regiões. Há, também, não tão raras, as cerimônias aos próprios munícipes. Com raras exceções, precisa apenas seguir uma lista de tarefas já preparada – por ele mesmo, em seus primeiros anos como servidor. Basicamente, seu trabalho limita-se em alterar a data, nome do evento e dos integrantes da mesa principal e imprimir cópias para os funcionários menores colocarem a mão na massa. O fornecedor chamado para preparar o coquetel era sempre o mesmo; os funcionários que cuidavam da limpeza e copa eram sempre os mesmos; e os enfeites de flores para as mesas eram sempre os mesmos.

Mas, enquanto respirava a primeira página do calendário quarenta e um em um de seus de seus trinta e um dias, o trágico despertou sua vida. O floricultor, e florista, encarregado – desde sempre – pelo fornecimento de flores para os enfeites do salão e mesas, durante jornada no campo de cultivo, foi atacado por um enxame de abelhas. Não resistiu a investida, sucumbindo em colapso pulmonar. O choque pela morte do veterano fornecedor teve que dar lugar à urgência por um novo. O relógio se aproximava das sete da noite quando recebeu a notícia. O evento, marcado para as nove da manhã do dia seguinte, receberia seus convidados a partir das oito, ou oito e meia, não faria menção à morte do floricultor com minuto de silêncio, ou sem um único arranjo como espécie de homenagem: “Sem você nada será como antes”. Dá-se pouca atenção à morte de floricultores nas Câmaras Municipais. Assim, não havia saída, senão brotar alguém que arranjasse os enfeites.

Conseguiu, por indicação de um poeta conhecido, o telefone pessoal de uma florista de uma cidade vizinha. A doze horas da cerimônia, acertavam as questões logísticas da entrega, assim como as financeiras. Pontualmente, às cinco horas da manhã, o relações públicas, de jaqueta jeans, soprava – a esquentar – as palmas das mãos em frente ao salão da Câmara; quinze minutos depois, já inquieto, viu a Kombi da floricultura, de faróis acesos, embicar à entrada. Os funcionários responsáveis pela entrega traziam, além das flores, um recado da chefa: só teriam rosas-colombianas para metade das mesas, por isso as gérberas. O relações públicas quis morrer de azia. Nem tanto por ele – era simpático às gérberas –, mas pela esposa do presidente da Câmara que, na última solenidade, o elogiara pelo bom gosto com as rosas. Podia parecer desdém, após o elogio, a mudança. A nota fiscal também não veio com os funcionários; isso era compreensível: não deu tempo das flores passarem pelo escritório da floricultura, vieram direto do armazém. De certa forma, foi um gesto de confiança da proprietária.

* * *

A casa era levemente desarrumada – o que não impedia suas belas manhãs, que invadiam sala, quartos e cozinha através de vidraças emolduradas pela poeira; belas tardes, um pouco mais amarelas que as manhãs; e noites, de amarelo-velho, das lâmpadas incandescentes. Uma extensão de seu trabalho, com muitos vasos de flores e plantas e algumas encomendas em papéis amontoados sobre a mesa principal. Quando o telefone tocou, ela borrifava solução de inseticida diluído em água nas folhas verdes de suas camélias. O telefonema interrompeu. Fez as ligações que garantiriam a entrega do dia seguinte e deitou-se com o som de sua antiga vitrola a cobrir-lhe.

A loja onde vendia as flores nasceu de uma sociedade com um antigo amor. Com o passar do tempo, as flores eram cada vez mais pálidas, as plantas opacas e seu sócio ausente. Enquanto ele buscava flores belas de outros jardins, ela passou a dedicar-se a criar sozinha novas espécies. Os polens misturados não davam em nada e as flores que o sócio trazia duravam pouco. Em pouco, não fazia mais sentido à floricultura flores novas de outros jardins; tão pouco, as que jaziam antes mesmo de brotar entre os dois.

Sozinha, deixou de dividir os lucros e dívidas da casa e da loja. Sozinha, logo um pólen fecundou e gérberas com pequenas pintas pretas começaram a nascer. Nunca entendeu bem por que. Enquanto isso, levou muitos amantes à casa amarela. Com o tempo a floricultura impôs um ritmo de vida decente, com o qual, vendia flores em quantidade suficiente para viver com o conforto que precisava. Com o tempo, sentia cada vez menos as ausências de qualquer um que, de qualquer maneira, já tivesse marcado sua vida amarela.

As flores não lhe faziam companhia. Eram, na loja, seu objeto de penhora com a vida; e, em casa, fonte de cuidados que a faziam esquecer dos seus. Tinha uns poucos caprichos de comerciante: num deles, agradava trocar seu cultivo por trocados contados de pobres-diabos. Enxergava nas flores que eles levavam uma ansiedade singular – singular, como o dinheiro que lá deixavam. Quando anunciavam quanto dinheiro tinham para agradar alguém – quase sempre amores platônicos –, ela tratava de animá-los.Contava a história e o que cada flor do arranjo queria dizer como quem põe na boca do namorado as ternuras que devem ser ditas ao amor. Os pobres-diabos saiam, sem saber, com arranjos que valiam dez, quinze vezes mais do que pagavam.


* * *

O evento consumiu a manhã toda e transcorreu bem – sem o elogio da esposa do presidente da Câmara. O relações públicas esperou o almoço para colocar tudo em ordem: o pós-evento. Aproveitou o intervalo para resolver alguns assuntos no banco. Quando voltou, encontrou sobre a mesa um envelope com a nota fiscal e um bilhete, escrito à mão, sob um pequeno vazo de gérbera:

Querido, (...).

Desculpe a falta das rosas-colombianas. A urgência de sua encomenda impediu providência junto ao meu fornecedor. Enviei gérberas, como deve ter notado. Mas as trouxe com uma motivação especial: são de uma espécie que criei. Repare, suas pétalas amarelas têm pequenas pintas pretas. As pintas são tão pequenas que não costumam notar a diferença entre estas e as que encontramos por aí. Mas, agora que sabe, gostaria que entendesse como são especiais para mim.
Espero que seu evento tenha sido feliz.

Atenciosamente,
(...)

Não estava acostumado com este tratamento. “Querido”? Este era o recado mais pessoal que recebia em anos. No entanto, o modo íntimo com que a floricultora o tratou, deu espaço a uma sensação, de tão antiga, desconhecida por ele. Providenciou que o pagamento pelos arranjos fosse realizado, ajeitou o vaso sobre a sua mesa e deixou as pequenas-tímidas-pintas-pretas saltarem aos olhos.

Dias, semanas e meses, continuam a seguir. Sem, no entanto, que o relações públicas se esqueça – toda sexta-feira –, quando a flor se inclina, murcha, e devolve aos seus olhos os dias vazios do calendário, de circular a próxima segunda-feira – quando deve visitar a florista para comprar a gérbera da semana seguinte. Murchando entre as flores, o tempo da florista também escorre, enquanto acha graça do senhor calado que toda semana leva um vaso de suas gérberas pintadas e não nota mais o tempo passar.