29 de janeiro de 2007

Confissão

Outro dia emendei o almoço com o lanche da tarde, o lanche da tarde com o jantar e aproveitei meu fim de tarde para conversar com o Cristo, o carioca. Vinte minutos de caminhada dentro da maior floresta urbana do mundo, a da Tijuca, nenhum quilo a menos, uma sede danada, e chego aos pés do grande irmão. Observador incansável e confidente de milhões, há muito tempo tem como principal ofício prestar-se como pano de fundo para as fotografias de turistas vermelhos com camisas floridas.
Cheguei, a noite caía, tinha ainda uns 20 minutos de sol, e já tinha feito meu primeiro questionamento ao filho querido do pai de todos nós: – Com quê direito a combinação sol mais calor mais ladeira acima mais nosso senhor dá para um cidadão cobrar quatro pilas por uma garrafinha de água? (sem esquecer de mencionar, também em pensamento, o brilhantismo e competência de nosso senhor quando inventou este refresco natural) – quando resolvi olhar para o pedaço de terra que ele tem olhado nos últimos setenta e seis anos. Está lá, de frente para ele, Botafogo, a praia e o bairro, as casas, algumas árvores, as ruas, os moradores passeando, o mar e os barquinhos. Sua visão periférica, que se não for a melhor, sem dúvida é umas das melhores já criadas, ainda alcança Flamengo e Urca. Esta facilidade de alcançar as extremidades destra e canhota confunde muitos seguidores daquela região que acreditaram em sua onisciência e até mesmo exageraram sobre sua onipresença. “Como ele pode ter visto isso?” ou “Saber daquilo só estando lá e ele não saiu dali”. Mas ele não tem nada a ver com estas conclusões. Os fiéis, com os corações cheios de amor e fé, com espírito de Saulo, sempre tenderam a aumentar suas, reais, super qualidades. Ah, ajuda ainda sua visão o fato dos artistas, seus criadores, não terem pintado as retinas, assim o deixaram a vontade para olhar de soslaio.
Invejei a paisagem. “Quando o homem lá de cima quis, caprichou mesmo.” Dei a volta no monumento, olhei para as costas da estátua, fui ao pára-peito e respirei toda aquela mata verde. O céu lançava uma luz amarela de fim de tarde que quase deixou o verde da mata azul.
– Como está a vista? – eu ouvi e respondi sem tirar os olhos daquela selva que me convidava.
– É viciante.
– Tenho uma saudade da vista que tu tens agora. Quando minha cabeça foi posta sobre meus ombros e pescoço, fui abençoado pelo descuido de um dos funcionários que fê-la girar por duas vezes. Tenho em minha memória os poucos segundos que pude apreciar a imagem que você vê agora. Enquanto isso, sob os olhos tenho a confirmação lenta e gradativa da escalada de cimento e asfalto que invadem a cidade como lavas de um vulcão que resolveu despertar.
– Mas a vista que você aprecia, com a luz do luar e as lâmpadas da cidade, preenchem todas as vinte quatro horas do dia. Além disso, é rica em movimentos e ações do homem que tornam a sua monótona existência de concreto, figas de ferro e pedra sabão mais emocionante, não? Claro, algumas vezes estas ações são daninhas à natureza e ao próprio ser humano que, quer queira quer não, faz parte desta mesma natureza. E me desculpe a intromissão, não quero ser petulante, mas sempre me disseram que você veio pra cá justamente para olhar nós.
– Permita-me fazer uma confissão que só faço porque sei que nada poderá fazer com esta informação. Se contar para alguém, nada adiantará e ser ridicularizado será o máximo que conquistará. Já que levamos uma conversa informal deixarei o arcaiquismo de lado. O céu também traz sua organização e a manutenção deste planeta é sim prioridade de nosso patrão. Não estou desde o começo, mas o que consta foi que este modelo foi feito e precisou ser mantido sem nenhuma influência superior por muito tempo. Os homens se destacaram por conta própria e de poucos detalhes físicos, um deles a mão que pega o que quer e faz decidir o que fazer com o que pegou. Conforme os dias foram passando foi decidido pelo alto escalão que deveríamos dar mais atenção para o homem naquele momento. Sei que não foi consenso, os responsáveis pelos reinos dos minérios, vegetais e até mesmo um grupo dissidente do reino animal foi contra. Mas o chefe estava convencido que todos poderiam sair ganhando com uma raça inteligente que administrasse as coisas por aqui. Convenceu todos com a promessa de que o trabalho de todo mundo, ou melhor, de todo corpo celeste, para usar um termo que você compreenda, diminuiria. O problema era conduzir este povo todo para uma linha de conduta aceitável. Se vocês pudessem imaginar a quantidade de bons pastores que não conseguiram firmar. E fez-se a religião! – e ele faz com a boca um barulho de trovão bem mal feito – Grupos que facilitariam um entendimento coletivo de nossas propostas. No começo todo muito tribal sem o alcance desejado. Dava certo em pequena escala. Jogada de mestre do superior, sabendo do instinto competitivo de vocês, mandou pastores com propostas iguais, apenas caminhos distintos. Eu entro aí.
– Entre tantos outros? Incluindo alguns que não tem sequer uma página destinada nos livros de história, incluindo os que falharam?
– É um jogo de sorte ou azar. Num determinado momento, com o fracasso de alguns dos meus antecessores, mudadam algumas regras. Veja você o Buda, ele foi e voltou algumas vezes para conseguir provar seu ponto de vista e conquistar as pessoas. Eu falei, falei, falei, entreguei-me ao sacrifício humano, contei com um grupo de seguidores que divulgaram minhas idéias e mesmo assim me arrepio com as distorções que fazem com o que preguei. Já tive inclusive que prestar contas para meus superiores sobre o que meus fiéis estão fazendo com os meus ensinamentos. E, que fique entre nós, não reconheço quase nada de mim na boca dos pastores de hoje.
– Estamos perdidos... – murmurei.
– Não é pra tanto, mas as preocupações dos titereiros mudaram. Hoje priorizamos as árvores, as plantas e os animais que mantém o equilíbrio biológico. Precisamos que o mundo sobreviva e para que não tenhamos uma eternidade tediosa. Outros membros do comitê celestial ganharam força e o departamento em que trabalho, o dos homens, perdeu poder. Como o fluxo de trabalho diminuiu gostaria de poder voltar os olhos para o mato mais uma vez. Mesmo porque, com os pés cravados no concreto e os braços imobilizados com o peito à mostra, o máximo que posso fazer é escutar suas súplicas e chorar a impossibilidade de ajudá-los, mesmo em suas mesquinharias.
– Vocês perderam o interesse por nós.
– Não há santo que agüente a mesma ladainha, os mesmos erros, as mesmas inquietudes, os mesmos maus-tratos por tanto tempo. Claro, vocês vão sofrer com esta mudança política, mas a ignorância e arrogância estarão aí para que vocês continuem teimando serem senhores de si e acreditem que o mundo existe para contemplar seus interesses. Isso nem se quiséssemos conseguiríamos mudar. A mudança é gradual.
– O que devo fazer?
– O que você foi projetado para fazer, respire, recicle o ar para as árvores.

2 comentários:

Natália Ramos disse...

Mais uma vez adorei o texto !!!!

Na verdade estou um pouco confusa, não sei mais qual texto é o meu preferido.
Como você sabe, sou uma fiel leitora do seu Blog e adoro quando você posta textos novos !

Errou na mão ... erre sempre então !

P.S - Não farei comentários religiosos ... rs.

Vida longa ao seu Blog


Beijos

Vitor Fabrício Machado Souza disse...

Pois é meu caro Gustavo,

Desculpe a demora em ler este texto..
Gostei muito dele, muito bem escrito, cativante e reflexivo.
Mas como tenho questões mais pessoais em relação aos conceitos cristãos achei o conteúdo um pouco lugar comum. Admirável foi a coloquialidade na fala do cristo e ofinal pormenorizador do papel humano.
É isso!!
forte amplexo