5 de fevereiro de 2016

O elefante que se apaixonou por um aspirador de pó

Não podemos dizer que estivesse na vida adulta há muito tempo, mas não era, absolutamente, jovem. Fazia algum tempo que caminhava sem a necessidade das orientações dos pais e, embora tivesse em seu pai o símbolo máximo de intelectualidade – reconhecido por sua memória acima da média de toda a manada –, se sentia muito à vontade para decidir quais melhores rotas e acomodações; escolher o melhor verde para se alimentar; saber qual parte do rio oferecia a água que mais o agradava. Carregava uma experiência razoável para uma boa vida e um futuro tranqüilo; mesmo assim, não era desgarrado. Nem se quisesse poderia ser: como todos os seus companheiros de trombas, vivia na propriedade de um grande pecuarista numa fazenda continental da África do Sul.
Quando analisamos um acontecimento por completo – com informações do princípio, meio e, principalmente, fim –, é praxe nos apropriarmos dos resultados de cada etapa para julgar qualquer suspiro de quem realizou a ação anterior. Nagu era um elefante como outro qualquer de sua idade. Carregava ainda nos olhos a obstinação por realizações que pudessem surpreender seus amigos e parentes, embora começasse a perder aquela inquietude por resultados imediatos. Era simples, sério, calmo e, acima de tudo, discreto. Um modelo como tantos outros ao seu redor. Ninguém que o conheceu, ou mesmo que tenha dividido intimamente sua companhia, seria honesto se viesse hoje apontar qualquer característica de Nagu como sinal para a desordem para o que sucedeu com o seu probo-coração.
Talvez movido por uma brisa de tédio – monotonia comum para bicho que vive resguardado pela segurança de território demarcado e vigiado –, resolveu que sua caminhada naquele fim de madrugada, começo de manhã, o levaria ao pomar próximo a sede da fazenda. Não era comum aquele passeio; tanto no que diz respeito ao horário, quanto à área a ser visitada. De fato, quando os donos da propriedade queriam ver seus elefantes, precisavam chamar um capataz com jipe e viajar, muitas vezes, por até meia-hora para encontrá-los. E, se fizessem questão que eles estivessem acordados e bem-dispostos, preferiam o fim de tarde.
Poderia beliscar algumas jabuticabas do pomar, mas esse não era o motivo. Para Nagu, as frutas que por lá brotavam não faziam sua retumbante tromba saracotear. Passeava por passear, já que os olhos teimaram em deixá-lo acordado mais cedo. Só.
Demorou muito para chegar. O céu clareou ao compasso lento e pesado de Nagu e chegou ao azul definitivo – chamo de definitivo para intensificar a claridade da manhã; sem ser apocalíptico ou desrespeitoso às matizes azuis do céu – assim que ele parou para descansar em frente à casa. Ouvia o barulho da vassoura e, de onde vinha o barulho, uma porta da casa espirrava o pó.
“Sede”. Estava distante do rio. Havia se esquecido do que implicava se afastar do rio, elementar. Um espasmo, um choque, pensou que havia “se esquecido”! Pensou que havia esquecido! Falha na memória, pontada aguda no orgulho proboscídeo. Evidentemente, uns lembram mais que outros (ou pelo menos se vangloriam mais que outros), mas poucos, ou nenhum, admitem o esquecimento – a pior de suas angústias. Com as orelhas e a tromba – arqueada entre suas patas dianteiras – arrastando no chão, Nagu, caminhou até um enorme pneu de trator que estava apoiado num cercado e guardava um pouco de água da chuva. Deprimido, Nagu mal encontrava forças para sugar o líquido.
Estava distraído entre o gosto amargo da água e o pneumático esquecimento quando escutou um som inédito: chiado, com acelerações intercaladas, às vezes com o som abafado, às vezes mais estridente; resultado da luta entre ar e poeira, poeira e tapete. Nagu esqueceu – e desta vez fez bem – a tristeza em detrimento à curiosidade. Olhava através da circunferência de seu reservatório de roda gasta de trator para a casa, que amplificava daquele som.
Conforme o tempo passava, o som, que trazia a união rara entre monotonia e imprevisibilidade, ia aumentando. A porta principal da casa se abriu e surgiu uma jovem negra enrolada em panos, vermelho e branco, e carregava por uma alça um pequeno instrumento de onde vinha o som. A euforia causou em Nagu seu terceiro esquecimento da manhã, desta vez com conseqüências. Completamente absorto ao chiliquento aparato, esqueceu-se que deixara sua tromba dentro da roda do trator. Quando o corpo lembrou-se a necessidade de ar, quis sugar com força todo ar ao seu redor, mas sua tromba estava sob a água suja que o pneu guardou da chuva.
 (aumente o volume)
-- *!!*!!!!*!!!!!*!!!!!!*!!!!!!!!*!!!!!!!!!!*!!!!. – Nagu acabara de lançar o seu mais forte bramido.
O susto atirou a jovem negra ao chão que, no solavanco, fez com que o cabo elétrico do aspirador fugisse da tomada. Estavam todos em silencio; os pássaros, que antes faziam sua algazarra, também decidiram pelo silêncio. Nagu tratou de se esconder numa árvore próxima, que o tronco, de tão fino, mal escondia sua tromba. Alguns segundos passaram parados, como se o espirro do elefante tivesse feito o tempo parar por ali: nem sinal da governanta negra, pó em paz no carpete e nenhum pio os pássaros ousavam. De onde estava, olhava o aspirador deitado em silêncio no chão com sua mangueira apontada para ele. Ficou por volta de um minuto registrando cada detalhe do aspirador de pó. Até o capataz chegar de jipe com a espingarda carregada nas costas.
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Um único disparo bastaria, mas o capataz deu pelo menos três tiros para cima enquanto Nagu adiantava seus passos de volta à manada. Completamente compenetrado em si, após sua longa caminhada, passou reto por sua mãe que queria saber por onde ele tinha andado e entregou seu corpo, que fervia, a um banho de rio.
Demorou um pouco para se refazer. Conversou com a mãe sobre a longa viagem e fez de seu pai um elefante-branco ao perguntar se ele sabia o que era aquele objeto que o capataz trazia nas costas e que fazia um barulho de pequeno trovão. Mesmo estando em companhia mais que confiável, em nenhum momento passou por sua cabeça falar sobre a outra máquina barulhenta que havia conhecido no mesmo dia.
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Bitolado por aquele objeto estridente, de tromba longa, alça, botões, fio e tomada, Nagu passou a intercalar momentos em que ficava em pé sem andar, com momentos deitado sem dormir. Embaixo de sua árvore favorita, preces e promessas eram rogadas, em silêncio, intermitentemente, quase desconexas. Mas Nagu não pedia a seu deus, Ganesha, felicidade ao lado do aspirador de pó. Essa união, provavelmente, iria sugar toda a sua energia, principalmente por aspectos sociais. Qual elefante, em perfeito atributo de suas memórias, permitiria como membro da manada um aspirador de pó. E tinham outros ‘poréns’: diferenças culturais entre os imponentes elefantes e os submissos, por conseqüência, pouco confiáveis, aspiradores de pó. Estava apaixonado, mas ainda não tinha perdido totalmente seu bom-senso; por isso, demorou tanto a se render.
Antes, teve que certa eloqüência sentimental para convencer sua mente a liberar seu corpo a buscar sua felicidade: como poderiam – alma e carne e tromba e dentes de marfim – viver em paz com a inexplicável paixão dentro do peito e a memória com irritante competência a martelar o coração?  Cada vez que se perguntava isso, sentia mais evidências de que voltaria à grande casa dos fazendeiros. Castigado pela paixão, deixou que seu coração persuadisse a sua mente e, traindo a si mesmo, foi para a casa-sede da gigantesca fazenda.
Fez todo o trajeto sem enxergar ao menos o chão. Noite sem lua. Seguiu o caminho a faro e tato de tromba. Quando chegou à casa, nem um som, além da brisa sobre as copas do pomar. Um som tão sutil que apenas o coração de Nagu poderia escutar. Ainda estava escuro quando Nagu, tocando apenas as pontas das patas, desviando de quaisquer folhas-secas que pudessem gritar o pisão e acordar a casa, contornou a sede metendo os olhos em cada fresta de vidraça. Não demorou muito, lá estava... As orelhas de Nagu se ergueram e, enquanto a vidraça da lavanderia se esforça para refletir a face de Nagu, em seus olhos era nítida a imagem do recipiente plástico com mangueira e cilindro cinza-pele-de-elefante. 
A janela estava apenas encostada, os rolamentos bem lubrificados não fizeram barulho quando Nagu correu as portinholas. Com sua tromba, alcançou o aspirador de pó e partiram juntos para a floresta. Mas desta vez Nagu foi ao sentido contrário de sua manada. Durante a caminhada, nem Nagu, nem aspirador, emitiram som algum. Dormiram próximos à margem do rio. Quando acordou, para não despertar o ilustre seqüestrado, tomou muito cuidado para não fazer barulho em seu banho de rio e estava distraído pensando em quê o futuro o reservava quando ouviu mais novamente o som estridente do aspirador. Num pulo, que esvaziou o rio e encheu as margens por um segundo, o elefante partiu em direção ao som.
– Onde estamos?
Nagu não conseguiu deixar de sentir certo desconforto.
– Morro se cair na água. Pra que me trouxe aqui? Não aspiro terra, não.
– Não quero te matar – começou Nagu –, estamos aqui porque me apaixonei por você.
– Ah, você por acaso não é o mesmo elefante que apareceu há umas semanas lá em casa?
– Isso foi há meses...
– Quase que mata a mim e a minha patroa com o barulho que fez. Minha garantia já acabou, se quebro, vou para a lata do lixo, sabia? Sem enterro, lágrimas, recordações, nada. Sabe o que falam quando morrem um dos nossos? “Maldita lata velha imprestável”! Pra você ver, nem de lata nós somos feitos.
As coisas não iam bem. A ilusão acompanhava apenas o elefante apaixonado. Talvez para alguns o amor não comova. “Mas o que isso importa?” Nagu se aproximou do aspirador; sério:
– Te proponho uma vida que não acabará em latão de lixo. Se tua utilidade, para os homens, termina quando sua mangueira não suga mais o pó e a sujeira, para mim, que tenho tromba como mangueira, pouco importa essa sua virtude.
– Mas que razão tem viver um aspirador desligado?
– Não estará desligado. Serei feliz em cumprir suas ordens. Dê as ordens e eu as cumprirei. “Assopre aqui; aspire ali; não deixe sujeira acumular no canto”, eu terei prazer em servir.
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Assim, o elefante que se apaixonou por um aspirador de pó encontrou um meio para viver o resto de sua vida. Uma sucessão de pequenos enganos e engodos uniu os dois mambembes. E, para que essa história desse certo, elefante, antes imponente, rendeu-se à rotineira insensibilidade eletrônica de aspirar e engolir a seco toda a sujeira e pó das paixões irresolúveis.
Viveram juntos para sempre.

1 de novembro de 2013

Olhos ao mar

Pilantragem, pode até ser. Mas guarde a atiradeira no bolso de trás, como exige o figurino, porque ninguém há de lançar a pedra fundamental da discórdia quando afirmo: todo mundo já aplicou um versinho (que seja) de algum compositor nalguma quebrada das tortuosas e mal iluminadas vias da conquista. 
Chamar de pilantragem é sacanagem, embora possa até ser. 
Afinal, como se sabe, não é todo mundo (sim, é um eufemismo) que cai por aqui com o bojo de um Vinícius; de um Caetano; Chico; Tom; Lupicínio; Gil; e tantos outros fabricantes deste arsenal de flechas versadas que, pelo menos uma vez na vida, nem que seja por desespero, lançamos sem pudor.  Às vezes, incrementadas com um tom meio Seu Jorge, entre um gole e outro e olhar-43-cafa-Sinatra. 
Chame do que quiser, mas, você há de convir, casal que se presa tem trilha sonora. Musiquinhas que aumentam o som do rádio, do arcabouço, e põe aquele sorrisinho no canto da boca – abre a cova na bochecha, enquanto o coração caleja a caixa tentando se desenterrar de dentro do peito. 
Há, todavia, lei tácita que rege o bom uso dos poemas-cancioneiros-populares. Não pode, por exemplo, como fiz em meus primeiros e embaralhados passos, disparar Soneto do Amor Total, de Vinícius, a torto e a direito. Berrar no ouvido da pobrezinha que esbarrou em você na discoteca – isso mesmo, baladinha era chamada de discoteca –, no compasso, disputando com o puts-puts amplificado, “amo-te tanto, meu amor, não cante o humano coração com mais verdades. amo-te como amigo e como amante numa sempre e diversa realidade(...)”. Isso não pode dar certo. Na verdade, não deveria. Embora, às vezes... Enfim, antes “é preciso sagrar-se cavalheiro” e, não menos importante, respeitar o contexto. 
O tempo faz entender melhor os cenários. Coloca a prova qualquer recalco musical e prova que, para viver de biscate, o bom e velho “você é luz, é raio, estrela e luar”, pode sim, tem lugar e, muitas vezes, dá mais em ia-ia e iô-iô, que desmilinguir-se todo subindo a “(...) montanha, não como anda um corpo, mas um sentimento”. 
O tempo mostra o cenário, ensina, mas aos poucos. Num tic-tac de relógio de corda, segue-se a vida “aperfeiçoando o imperfeito, dando um tempo, dando um jeito, [muitas vezes] desprezando a perfeição”, meta defendida pelo goleiro da seleção, e sempre tem uma liçãozinha a mais. 
Superei há muitos anos o, tantas vezes reciclado, reutilizado, Soneto do Amor Total – guardado para, quem sabe no tálamo derradeiro, quem sabe precisando ajeitar seu tempo verbal, voltar a declamá-lo com a probidade que, tanto o poema e quanto a musa, merecem. Mas, se desta armadilha me preservo, outra chega a cavalo, ou no píer das desilusões. 
A clave de sol, no caso, era uma moça triste, de sobrancelhonas-pretas-e-zóiões-verdes-água. O namorado lançara-se ao mar, hóspede de um navio, e tardava a voltar. A conheci onde gente triste se conhece. Descobrimos um amigo em comum. Me angustiei com a sua angustia, me comovi com todo o seu sentimento e depois vi que tudo aquilo pertencia a nós dois e todo o mundo. Poesia solta do papel; sem compostura. 
“Morena dos olhos d’água, tire seus olhos do mar, vem ver que a vida ainda guarda o sorriso que eu tenho pra lhe dar”. Não levei mais de um minuto contando a história para o grande amigo César-engenheiro-Boy, e ele, displicentemente, Burt Bacharach enxerido no meu filme, impôs a trilha sonora. Impôs, digo, por precisão, competência. A letra de Caetano tinha a caligrafia daquela dissertação. 
O dilema moral estava travado: posso aplicar a poesia de um, que foi indicação de outro, na história que eu quero construir? Afinal, qual minha participação nesta história? Afinal-dois, o que o cara tinha que abrir a boca dele? Eu ia chegar à mesma música sozinho, certeza. “Certeza?... Certeza!”. Pode chamar de pilantra, com uma pitada de constrangimento, cantei a música. 
Lançados ao mar, todos os olhos são d’água. Às vezes, no entanto, emerge um continente, talvez Atlântida perdida, sobre as águas dos olhos. E a ordem só pode se restabelecer com o retorno do engenhoso, preciso e estável navio. Sem atraso, a nau ancorou de volta e os olhos dela embotaram. 
Eu sigo “caminhando e cantando e seguindo a canção”, Zé Qualquer conversando com Almirante de Tamandaré. “’Seu’ Marquês, ‘seu’ Almirante do semblante meio contrariado, que fazes parado no meio dessa nota de um cruzeiro rasgado. ‘Seu’ Marquês, ‘seu’ Almirante sei que antigamente era bem diferente, desculpe a liberdade e o samba sem maldade deste Zé qualquer. Perdão Marquês de Tamandaré. Pois é, Tamandaré, a maré não tá boa, vai virar a canoa e este mar não dá pé. Tamandaré cadê as batalhas? Cadê as medalhas? Cadê a nobreza? Cadê a marquesa, cadê? Não diga que o vento levou teu amor até...” e chutando pedrinhas em portos abandonados.

*Escrito para o tema Qual é a Música, para a página Situações Crônicas 

22 de agosto de 2013

O sagui de Paranoá

Agir pelo não agir; lei do mínimo esforço; ócio criativo; ou a máxima de Mário Quintana, que convence que “a preguiça é a mãe do progresso”, concluindo que “se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda“. Ah, poucas coisas podem nos acalentar melhor do que a recordação destas sentenças (e tantas outras) suspenso numa rede enquanto o chinelo estala a queda ao chão onde permanecerá. Ou, noutro cenário, noutro clima, na outra estação que, mesmo que não façamos nada, nunca deixou chegar: sob a coberta, sob o teto, sob as telhas sob o frio lá de fora; em frente à televisão; sobre o sofá que lamenta um pouquinho cada vez que o corpo se mexe.
Mas não vou aprofundar homenagens a esta ninfa morosa. Além da filosofia que a sustenta ser frágil, ela, a preguiça, não há de esperar que este fiel servo seja provocado a debates sobre a necessidade do trabalho, sua importância social, econômica, familiar. A quem se propuser, e levantar esta bandeira, as batatas. “Demasiadas palavras, fraco impulso de vida”, pode cantar.
Considero as observações necessárias, não como apologia à vadiagem. Seria contra-senso; desserviço. No entanto, é importante mostrar que a filosofia do ócio – repito aos debatentes de plantão, comprovadamente falida –, mesmo mal embasada, está enraizada e há muito tempo ocupa meus devaneios nesta espécie de alquimia, onde o tubo de ensaio é o sofá, de conquistas sem diligência; ou sob as leis do mínimo esforço.
Réu confesso. E não poderia ser diferente, dada a quantidade de testemunhas de meus não atos. Testemunha que tenho e posso evocar seu depoimento caso levantem suspeita sobre a veracidade da história que contarei.
À época namorada, ainda hoje grande amiga e companheira, cuja idoneidade dispensa qualquer defesa, com nome e sobrenome, Mariana Navarro, estava lá. Nós, em campana vadia, na varanda de uma casa em Paranoá, cidade satélite de Brasília, nos primeiros dias 2003. Tínhamos saído dias antes de São Paulo para acompanhar a posse do presidente Lula. A casa onde estávamos hospedados – talvez o certo fosse chamar de sítio – era visitada todos os finais de tarde por um grupo de sagüis interessados num pomar com jabuticabeiras e outras árvores de frutas que os anfitriões ofereciam. Logo adaptamos nossa rotina a observá-los em sua última refeição, enquanto tomávamos o café para rebater o que sobrara da noitada anterior.
Antes de prosseguir, explico que não me dispus a contar esta história para entrar na lista de desafetos do padre Quevedo, ou virar personagem dos programas da tarde que ele gosta de participar. Não tinha fita métrica, mas estava dentro do limite (a menos de cinquenta metros do alvo da manifestação) que ele, o padre-parapsicólogo, cobra como distância máxima antes de dizer “isso no ecxiste! este homem és una farsa!”.
Dito isso, voltamos à varanda. Eu e a Mari sentados nos degraus da escada; um ventinho bom levando a fumaça e espalhando o cheiro dos copos de café; os macaquinhos agindo como macaquinhos no pomar. O pensamento pulava de idéia em idéia no ritmo dos sagüis até quebrar o silêncio.
-- Má, você sabe que a nossa mente tem poder?
-- Hum.
-- É, se quisermos, podemos mexer objetos, atrair coisas só com o poder da mente.
-- Hum.
-- É, telecinese.
A verdade é que eu só queria puxar assunto, mesmo que o silêncio não incomodasse.
-- (...) Tá vendo aquele macaco?
Tinha um macaco longe do resto do grupo; numa árvore um pouco afastada.
-- (...) Então, se a gente quiser, a gente pode derrubá-lo apenas com a força do pensamento.
-- Hum.
-- Fica vendo.
Encarei o saguizinho, levei os dedos indicadores e médios das duas mãos às têmporas dando pequenas voltas e permaneci por não mais de cinco segundos. Como uma jaca amarelada pelo tempo, o macaco despencou da árvore e se estatelou no chão. Levantou, deu uma sacudida, coçou a nuca, olhou para os outros macacos para ver se algum caçoava e subiu ágil de volta às entranhas da jabuticabeira.
Se eu tivesse presença de espírito, seria minha consagração; Uri Geller teria um concorrente. Mas aquele macaco caiu e subiu muito mais rápido que as minhas fichas. Olhei para o lado e os olhos arregalados da minha companheira orientalizaram-se em comparação com os meus. Estava mais assustado que ela.
 O susto acalmou e os anos continuaram a passar pouco a pouco diluindo a esperança que aquele acontecimento nutriu em mim. Quantos exercícios em vão. Quantos filas em lotéricas. É verdade, aproveito para confessar, a vida me transformou num socialista de fila de lotérica. E, até agora, se somos mesmos dotados daquela habilidade, só serviu para derrubar o coitado do sagüi. Parapsicólogo de merda.

Agora, com licença, vou mandar uns currículos porque o dinheiro não está caindo de árvores. 

16 de julho de 2013

Em julho, Londres bandida nos visitava

Poucos períodos talvez sejam tão emblemáticos e representem melhor o meu caráter do que as férias de julho; ou férias de inverno no hemisfério sul deste planeta, próximo ao trópico de Capricórnio, 23° 41′ 38″ S, 46° 33′ 54″ W, onde fui criado e vivo.
Passado o entusiasmo inicial do primeiro dia de aula, em fevereiro, quando a saudade dos amigos nos fazia esquecer a maratona acadêmica que começava, logo vislumbrava no calendário o início de julho. Com os ouvidos embaçados à palestra inicial da diretora da escola, aquele sétimo quadrado, quadriculado, com números de 1 a 31, induzia meu pensamento à cama. Ao acordar sozinho na casa em silêncio, apenas sob uma leve névoa de inveja daqueles que, por não serem mais estudantes, logo cedo haviam virado fumaça.
No entanto, a mesma aspiração que me carregava ao descanso prescrito das manhãs, abduzia à minha razão um ponto fundamental: fazia frio. Bastante frio. E, com os amigos todos entocados, dissipar o entusiasmo vadio e energia de um menino de onze anos não era exercício trivial. Por isso, na primeira manhã de férias, vestia as meias de lã confeccionadas pela minha mãe e corria para a folhinha admirar e convocar o dia 1º de dezembro: férias de verão, de três meses; de rua com hidrante aberto esguichando água na molecada. Não aquela moeda gelada de um mês que o somítico calendário escolar oferecia.
Em julho o dia faz-se claro tarde, escurece muito cedo e a Serra do Mar, principalmente naqueles anos, soprava uma névoa de cegar todos os fins de tarde. E fazia frio; bastante frio. Mesmo que algumas festas juninas que não cabiam em seu mês invadissem o mês seguinte, geralmente, elas vinham acompanhadas das recuperações que eu e meus amigos trazíamos do semestre letivo. No entanto, mesmo com a resistência gelada, nunca faltou quórum para as brincadeiras de rua que terminavam com a fumaça, do cigarro imaginário, que nossos pulmões quentes ofegavam através de nossas bocas.
Do frio e do sereno, o que falava a nós era um não-sei-quê de Sherlock Holmes ou Scotland Yard no encalço de Jack, o Estripador. E, inconscientemente, nossas brincadeiras eram pautadas e se adaptavam a este cenário de romance policial.
A regra, ao contrário daqueles dias, sempre foi muito clara e não variava entre nenhuma mãe: escureceu tem que estar dentro de casa. O que variava era o castigo por seu descumprimento. Em geral, aos delinqüentes, sobravam umas palmadas e uma bela fração das férias trancado dentro de casa. Embora deva cometer justiça aqui: nunca levei as tais palmadas, tão pouco fiquei de castigo, mesmo desafiando a ordem regularmente. Mas sofria por tabela às punições aplicadas sobre meus amigos. Incontáveis foram as longas e cinzas tardes que passei conversando com eles pelo vão da porta ou da janela; eles presos dentro de casa e eu à necessidade de suas companhias.
E geralmente eram nesses dias que combinávamos o que faríamos durante o intervalo entre o castigo vigente e o próximo. Mulheres ainda não eram alvos de nossa atenção – eufemismo à parte. Nossas referências de pessoas respeitadas naquele tempo eram os garotos mais velhos que aterrorizam o bairro: ladrõezinhos de padaria com alvará do ensino formal. Juntando isso àquele cenário londrino, ou de Gothan City de Batman ausente, não era de se surpreender que nessas reuniões surgissem idéias de contravenções estapafúrdias.
Com os dias anoitecendo por volta das cinco da tarde e os pais, em sua maioria, dependendo do transporte público para voltarem do trabalho, tínhamos pelo menos duas horas para aproveitar a anárquica escuridão e o anonimato que ela oferecia. Então, assim que a névoa da tarde encerrava a guerra de pipas no céu, nossa diversão era invadir escolas, construções, bibliotecas e todo e qualquer lugar onde houvesse pelo menos um vigia.
Nosso lugar de incursão predileto era o Elis Regina. Um espaço grande, sem grades nos jardins e estacionamento que o cercavam, com biblioteca, teatro, e pelo menos três vigias por turno. Antes de invadir, identificávamos onde cada guarda fazia o sua ronda, traçávamos metas e a rota de nossa fuga. Não havia plano de vandalismo ou qualquer apropriação indébita. O objetivo era sempre o mesmo: invadir, ser descoberto e fugir sob o sons dos apitos dos guardas. Completamente alienados às emoções que os livros da biblioteca poderiam oferecer, ou as apresentações de teatro, íamos para o espaço cultural em busca da adrenalina mais básica -- das perseguições.  
Se os anos trouxeram algum bom senso que me afastou da delinqüência, sigo retratado naquele menino dos primeiros dias de aula. Anelando o alívio e a satisfação mais próxima, porém míope para o seu contexto amplo, acabo por ter que fantasiar sobre as imperfeições do objetivo alcançado e traço planos e projetos onde possa encontrar graça e me divertir sob a névoa onde existo.

5 de junho de 2013

Capitão Kong

“A memória é uma ilha de edição” pertence àquele grupo de sentenças certeiras que parecem ficar vagando, no oceano suspenso e invisível de idéias, ao redor de nós, até serem pescadas por alguém. Os preguiçosos difusores da coletânea-clichê “O primeiro (amor, transa, sutiã, carrinho de rolimã, talho na testa, ou seja lá o que for...) a gente nunca esquece”, devem ficar intrigados com a frase fisgada pelo anzol de Waly Salomão. Poucos são aqueles que, talvez por alguma disfunção neurológica, guardam cada detalhe de tudo o vivenciaram ou viram – fotógrafos de memórias. Mas para estes o exercício, recordar o primeiro amor, provavelmente não sirva. Estão condenados a viverem aprisionados junto às lembranças que não dão lacunas à poetização leviana que nós, com cérebros menos competentes, temos o prazer de oferecer às sessões imaginárias do grande filme que protagonizamos. A eles restam as certezas.
Assim enfloro, firulo, como subjugo, o resultado que está por vir. A história começa assim – ou melhor, começa um pouco antes, assim:  
Sentado no chão da sala de casa, tenho à minha frente uma grande arca suporta a TV e centenas de fitas VHS da JVC, ou Maxell, em sua maioria, já defloradas. Ao lado da TV, trabalham dois vídeos cacetes e um emaranhado de fios acostumados a desafiar FBI Warning que iniciam os filmes alugados e advertem sobre as punições aos piratas. Sexta-feira é dia de alugar três filmes pelo preço de dois e devolver só na segunda, rebobinados, evidentemente. Com quatro anos, sem saber ler ou escrever, meu pai sempre traz um filme dublado para o filho caçula.
Ao som do portão se abrindo, corro para receber meu pai. Os cumprimentos à sua chegada nesses dias são protocolares. As mãos e olhos logo correm para o pacote que carrega os filmes. “Este é o seu, Gugu”. E assim meus pais garantiam pelo menos duas horas de sossego.
Foi numa destas sextas-feiras que meu pai chegou com este filme. Na capa, um macaco enorme, lutando contra aviões e helicópteros, com um pé em cada uma das torres do que eu viria saber, anos tarde, chamar World Trade Center.
Aos meus olhos, a viagem exótica à ilha desconhecida, o barco, os nativos e o macaco logo sucumbem à personagem resgatada pelos exploradores em sua jornada. Os nativos logo perceberam que não haveria oferenda melhor para acalmar a fera que Dwan (Jessica Lange). Linda, entregue com todas as pompas de estrela hollywoodiana ao gorila gigante, em seu banho de cachoeira, além do coração do símio, desfibrilou também meu pequenino coração. Fiquei vidrado. Gastei a cópia que fizemos e nunca mais pude ser o mesmo; ou pensar em viver apenas comigo mesmo.
Mas há muito, mesmo para Platão, neste disparate que mereça receber o louro de “primeiro amor”. Como disse, comecei um pouco antes. Este preâmbulo serve apenas de embasamento para o que viria a ser minha primeira viagem aos meandros deste “comboio de cordas (‘que gira a entreter a razão’) chamado coração”.
Reinava hostilidade na EMEI Guilherme de Almeida, próxima a minha casa. Os alunos do pré I, II e III se dividiam em grupos e alguns territórios eram demarcados pelos grupos – Faixa-de-Gaza-Fraldinha. O grupo que liderava chamava-se Thundercats e nossa base era embaixo da “árvore do sangue-do-diado” – por causa da seiva vermelha que escorria em seu tronco. Mas o amor é mesmo o mais poderoso antídoto à violência. Em meio às articulações de guerras de mamonas, campanas e emboscadas, incursões às lancheiras inimigas e operações-tachinhas na volta do recreio, estava claro que não tinha mais o mesmo entusiasmo.
Apenas suspirava, “Ah, a Cris”. A Cris era uma japonesinha de calça azul, camiseta listrada, como exigia o uniforme, e lacinhos ora vermelhos, ora amarelos, ora azuis prendendo os cabelos. Além de dividir a mesma sala de aula e as atenções da tia Marli todas as manhãs, morava na mesma rua que eu. Mas, como se sabe, naquele tempo os portões eram muito mais altos, os cadeados não tinham chaves e a rua bem mais comprida. Restava, às matinês, buscá-la de binóculos pelo vão da grade de ferro de meu portão.
Dediquei desenhos. Sentei ao seu lado nos recreios. Suei frio atrás de assuntos que puxava. Ela seguia impassível.
Convoquei uma reunião entre os Thundercats.
Sob a árvore do sangue-do-diabo, expliquei o plano. Não iríamos atacar os meninos da Fubem, ou da vila Ferreira. Nossa cruzada naquela manhã tinha outro propósito: eu ia beijar a Cris. Dividimos a turma. Um grupo ficou responsável por distrair a tia Marli; outro armou a insídia. Coitadinha. Enquanto brincava, nos aproximamos. Meus comparsas fizeram a cobertura, tornando aquele espaço do pátio o altar de oferenda pagã. Rompi o bloqueio, lutamos um pouco e, no chão, não pôde evitar o selinho que lhe dei.  
Ela chorou; eu corri – já arrependimento. De volta à árvore do sangue-do-diabo, talvez eu fosse o mais constrangido nas comemorações com o grupo. E, para o remorso ser ainda maior, na saída, com as bochechas e narizinho vermelhos pelo choro, veio em minha direção, ao lado da mãe, para entregar o convite de seu aniversário. Com o braço estendido, quando peguei o convite – feito a mão –, vi que seu dedinho trazia agora um Band-Aid. O choro era pelo beijo roubado, ou por tê-la machucado? Nunca soube, embora creia que tenha sido pelos dois.
Mesmo assim, continuamos amigos até o primário (e um caminhão da Graneiro) nos separar.
Outros tiveram Clark Gable, Marlon Brando, James Dean, Sinatra. Tive o King Kong como modelo de conquistador de cinema. Acho que foi isso.
Embora consiga editar um pouquinho do que aconteceu naquele tempo, fora da tela não há como rebobinar. Talvez, se pudesse, ao contrário de King Kong, não caísse nas mesmas armadilhas todas as vezes. Talvez em outras; piores ou melhores. Mas decidi: não queria mais o protagonismo de macaco grande e bravo. Sigo desemaranhando os cordões do peito, pouco a pouco, capitão da nau, com o leme solto em busca da próxima ilha desconhecida.

6 de março de 2013

O Homenageado

Caminha sem pensar cada passo, mas nas pegadas sobre a neve que segue deitando. Não olha para as pegadas que deixa para trás, não pode vê-las; mas as cria na imaginação em formado ideal. De fato, sonha maiores que os calçados que veste. E segue seu registro em linha reta, no centro da rua, a esmo. Espólio que sucumbe lentamente sob cada floco que cai e retoma em planície o asfalto-branco.
Pensa compassado:
“Não devia ter ficado quieto”; “e ela”; “que burrice”; “consigo lembrar o cheiro”; “por que o pavor”; “saudade hoje?”; “que segurança a razão me dá?”; “ainda?”; “a bateria do telefone”; “velho?”; “gostei daquela mostarda”; “olhos verdes”; “há quantos anos foi isso?”; “não, eram de mel”; “acho que faria igual”; “falei ou só pensei?”; “deixei no criado-mudo”; “ninguém por perto”; “assim mesmo venci”; “uma janela aberta”; “qual era o nome daquela mostarda?”... dividem-se, entre os aflitos nervos do peito e as aflitas palpitações de seu cérebro, as pegadas no chão.
Sem cobrar de seu pescoço flácido mais que o trabalho de sustentar a cabeça levemente inclinada para baixo, os olhos caminharam à direita, depois à esquerda e retornaram a neve que precedia a cunha de seu pé – primeiro o direito, depois o esquerdo. Alguma melancolia fez subir uma das pontas de seu lábio: um sorriso? Um sorriso.
A neve parece preferir seus ombros ao grisalho do cabelo, barba, sobrancelhas e cílios, destoando do lôbrego paletó que também conota a cena.
“”Olhos macios e quase líquidos’, onde li isso?”. E sentindo marear os olhos duros, sentiu os passos mais vagarosos, o pensamento vago, os passos mais vagarosos, os cabelos pararem de crescer, os passos mais vagarosos, a barba enrijecer, os passos mais vagarosos, os olhos congelarem, os passos mais vagarosos, um arrepio, os passos mais vagarosos, os joelhos arranharem, os passos mais vagarosos, os lábios lívidos, os passos mais vagarosos, a mão esquerda fincada no bolso da calça, os passos mais vagarosos, arrepio nas costas, os passos mais vagarosos, os pêlos como agulhas... e estacionou. Prostrado em pé no cruzamento vazio.
A neve lenta, eficaz e constante, seguiria a apagar os passos que o conduziram até a manhã se precipitar junto com os passos da moça que pulou a janela e volta para casa antes de seus pais acordarem. Ela será a primeira a encontrá-lo estátua. E se, como um garantia Michelangelo, “não tem o ótimo artista algum conceito que o mármore não circunscreva”, o que se dirá deste homem, esculpido pela vida e estátua de fora para dentro, sem pegadas, sem história? Sei o que dirão. Os simpáticos, conformistas confortantes católicos, mantenedores da ordem que, em geral, mexem seus lábios em contraponto às suas ambições e pregam palavras de paz e ordem, repetirão até tornar-se verdade que aquele senhor bem vestido e sorridente morreu feliz. Que, homenageado por deus – que a todos oferece o merecido –, tornou-se a escultura que mereceu por uma vida digna; servidor modesto em ofício sepulcral.

29 de fevereiro de 2012

Comunhão entre pobres demônios

Neste mundo de continente, de pessoas espremidas, de pernas que se entrelaçam – e saem entre as pernas, outro par de pernas que logo se espremerão – sinto abafado o meu passo. Uma vocação alienada parece levar para lugares onde o espaço já foi ocupado. E para que caminhar com passos tão parecidos aos demais?

Não tenho ambição alguma a não ser o conforto dos pequenos, tardios, relapsos, abafados, curupiros passos de uma cômoda à outra – sem precisar atravessar porta alguma. Ou, se tiver, que sejam portas entre cômodos.

Descalço os sapatos para que um dia, quem sabe, logo volte a caminhar com os cadarços amarrados um ao outro.

Mas, quando saio, sinto que os donos das pernas que me confundem, amedrontam e dão calafrio, compõem os parafusos que devem ser parafusados; e que as palavras que invento, muito antes de serem ditas, já valeram, com extraordinária beleza e competência, a ouvidos e olhos muito mais atentos que os meus.

Os filmes são produzidos; os carros são produzidos; o óleo é extraído; os médicos consertam pacientes que perdem as pernas de tanto usá-las; as árvores são arrancadas e fatiadas e molduradas e carregadas e aleijadas na sala de estar; os bares devolvem os cascos de cerveja vazios e a cervejaria acaba por enchê-los.

Minha cama permanece inerte. O lençol, cada dia mais roto, com dobras que se confundem com as minhas, continua a marcar as minhas costas gordas.
Pairo descalço. E quando olho para o baixo-chão-próximo vejo o par de sapatos com os cadarços amarrados um no outro.

E, da vidraça do alto de um prédio, não vejo campo belo. As pernas que durante o dia são percalços às demais, e prometem entrelaçarem-se às outras quando há noite, ao lusco-fusco-olhar parecem as patas que sobraram junto à carcaça do besouro que serviu de banquete às formigas.

Madrugada. Nem uma comemoração nos biombos suspensos ao meu redor. Não vejo terra, ou sinto seu cheiro. Imagino o quão belo possa ter sido o sítio onde hoje plaino descalço. Há, distante, uma árvore triste. Posso ver uma árvore triste e sentir o estômago reclamar a saliva que engulo.

21 de novembro de 2011

Luísa quer aprender a ser feliz

A limpeza e a organização da superfície sem rugas de sua mesa de madeira de maneira alguma despertam a curiosidade ou preparam a expectativa de seus convidados para as gavetas inundadas por papéis franzidos pelo sulco de lápis que já perderam a ponta. Luísa segue destemida e concentrada em seu cenário. Focada em seu trabalho e em manter a mesma organização em sua vida. É lisa a testa, como a maça do rosto, como o aceiro ao redor e entre as sobrancelhas e as sutis estrias no canto dos olhos. O sorriso há alguns anos deixou de fazer cova e a vida apenas a espera.

As folhas manchadas envelhecem histórias impublicáveis. Não por pudor-cristão-bobo – recato que, além de a cada dia estar menos em voga, Luísa jamais alimentou. Na gaveta emperrada estão registros sem memória; passado isolado; blecaute; esquinas erradas; esboços de uma personagem que viveu e desapareceu na trigésima página do livro: o romance perdeu seu protagonista; a ficção está no cacifo; Luísa pode viver indiferente. Dobrados, amassados, rasgados e presos, os registros de um passado não tão distante são letras embaralhadas: anagramas emperrados.

Às vezes distraída, esquece de deixar o orbe oco do atelier que carrega em si, e unta a argila fresca em suas mãos nas mãos de seus clientes; ou em torno-pescoço, nuca, peito, costas, quadril, bunda, pau, escroto e coxas de seus amantes. E sem querer cria modelos frívolos. Desenha sem querer estradas e mais estradas que não pertencem a mapa algum e nem mesmo estão conectadas entre si.

Em sua redoma, vedada, vive chapada para se desacostumar com a dor. Mesmo que às vezes a mente a traia numa música que toca abafada dentro da gaveta; na linha escrita por algum escritor que acidentalmente desvenda um ou outro de seus anagramas; na maconha que a solta da sacada. Nessas horas, como uma pontada, tudo volta e Luísa quer aprender a ser feliz. O lúdico surge à tona, respira um pouquinhos, mas educadamente volta a submergir. 

Só que hoje isso pode estar mudando. Enquanto as letras vão sendo desenhadas nesta folha, as mãos de Luísa, limpas de argila, parte lisas parte calejadas, estão sendo esculpidas por outras mãos e os seus olhos não encontram mais refúgio oco. Deixa desfibrilar o coração? Sente uma ponta de egoísmo, duvida um pouco de que tudo possa dar certo e sente o vazio de tudo que conquistou sem paixão.

14 de outubro de 2011

Jarbas não quer morrer



Desperdiçando mais uma chance de garantir alguns tostões, entregando as pálpebras à gravidade do sono e o espírito à sua liberdade flutuante, enquanto dorme numa cadeira universitária, na sala de espera de uma empresa de telemarketing, Jarbas não escuta o chamado para o início da dinâmica entrevista em grupo que será na sala ao lado. Os outros poucos candidatos que também aguardam, acordados-sadios, levantam-se e vão. Jarbas dorme.
Dorme sem querer acordar; dorme sem querer dormir; sonha sem saber. Jarbas não pensa em morrer, ou que morre a cada intermitência de sua consciência. Às vezes, sonha sem saber, ou querer. Entorpecido a qualquer hora, como nesta sala de espera, enquanto faz jus ao nome da sala, entregando-se com esperança de ouvir o seu chamado.
Voltando para casa, andando na calçada, olhando à calçada, para as pessoas, para os sapatos ora desamarrados, não sabe dizer o que quer: olha tudo sem foco.  Mas, sem saber, quer o cadarço amarrado, quer o sapato calçado, quer uma chance; não desperta ou pensa em ter foco. Pensa na vontade, pensa na carteira. Anda e atravessa. Atravessa sem vontade.
Jarbas às vezes pensa em morrer. Não quer casar, não quer construir, não quer garantir, não quer filhos ou lar que valha. O carro não quer vender nem pode abastecer.
Mas mesmo sem pensar ou ambicionar, sabe aonde o leva os calçados desamarrados. Não ao lindo futuro. Não ao personagem que inspire ou sirva de exemplo em comerciais de margarina; tão pouco perfil de alvo da próxima campanha publicitária do novo sedan da Toyota. Vai para onde recebe a recompensa imediata – ao amigo, a qualquer mulher, ao botequim. Nessas horas, com seus pares, encontra-se consigo mesmo. Enxerga, argumenta, defende, se expõe; deixa de se sentir ficção.
Então, entusiasmado, eufórico, inventa o seu próprio futuro e suas únicas alternativas para refazer o seu destino. Inventa o aplicativo que oferece o playlist das rádios; o pão de que já vem em três fatias; a rede social que aproxima as pessoas que estão próximas umas das outras; um par de luvas-retrovisor, com um pequeno espelho flexível em cada palma; um quiosque numa praia poluída que se chama Impróprio para o Banho, a coleira-gps para ninguém mais perder seu animal de estimação ou seu companheiro.
E Jarbas não quer morrer.
Quando chega ao ápice, goza o pleno prazer e dorme. E goza os melhores sonhos. Por vezes têm super poderes: mediunidade, invisibilidade, pode voar, lê pensamentos, anima objetos. Mesmo quando morre, acorda com o tórax às vésperas da quarta-feira de cinzas, mas com a lua decrescente estampada nos lábios de seu rosto. É a sua vivência; a maior experiência que carrega.
Ao acordar volta ao seu estado letárgico e tudo volta a ser invenção em seus delírios; nada se materializa. E embora a vida lhe pareça um tanto inadequada, Jarbas não quer morrer. Míope, volta a procurar em sua ilha o espaço para a sua realização. A morte lhe chega como matéria produzida. Solução prática, mas pobre, comum demais – até um pouco brega. Prefere deixá-la apenas como substantivo para a sobrevivência de suas religiões.     

16 de setembro de 2011

Carta a Luiza

Olha, eu estou tentando, mas está difícil sair algo novo. Então recorri a um texto "de gaveta". Noutro tempo; numa dedicatória. Peço licença à homenageada, Luiza, que nasceu um dia antes deste texto, há quase três anos.
É uma homenagem da qual, com a modéstia a escanteio, me orgulho. Com a ajuda do mestre Caetano e, claro, da pequena musa.



Cabedelo, Paraíba, 22 de novembro de 2008
               
Seja bem-vinda, Luiza!

                                                                               “Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz...
                                                                              Céu azul que vem/ Até onde os pés tocam a terra/ E a terra inspira e exala seus azuis...
                                                                              Reza, reza o rio/ Córrego pro rio e rio pro mar/ Reza a correnteza, roça a beira, doura a areia...
                                                                              Marcha um homem sobre o chão/ Leva no coração uma ferida acesa/ Dono do sim e do não/ Diante da visão, da infinita beleza/ Finda por ferir com a mão essa delicadeza/ A coisa mais querida, a glória, da vida...
                                                                              Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz”.

                               Escolhi esta música de Caetano Veloso, que presta homenagem ao nascimento do sol, para dedicar a sua chegada, Luiza. A música canta bonita para mim, como li bonita as linhas que seu pai escreveu te anunciando. O sol, e a sua luz, como logo perceberá, traz a todos, igualmente, força para seguirmos nossas vidas e realizações. Aproveito esta dedicatória, para chamar sua atenção aos olhos, e olhares, – apaixonados – que recebe de seus pais, parentes e amigos: Luiza, “a coisa mais querida, a glória da vida” é “verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz”.
                               Alegra-me muito sua chegada, Luiza. O mundo que te recebe, e que te acolherá, precisa de boas pessoas. Nasce você em “berço esplêndido” – como canta o hino da pátria –, sendo filha de Fernanda e Gustavo, tenho certeza que chega para fazer do mundo um lugar mais belo, justo, honesto, agradável; enfim, melhor. Tem em casa excelentes modelos para isso, saiba.


                               Mais uma vez, seja bem-vinda, pequena Luiza. Materializo nestas linhas, meus melhores e mais profundos votos de felicidade, paz, alegria, saúde... Nesta grande sala de aula que é a vida, há espaço para brincar, se divertir e fazer muitos amigos com os quais poderá contar sempre: aqui, atrás destas palavras, tem um.
                               Um grande beijo, com o coração aberto à amizade.