5 de junho de 2013

Capitão Kong

“A memória é uma ilha de edição” pertence àquele grupo de sentenças certeiras que parecem ficar vagando, no oceano suspenso e invisível de idéias, ao redor de nós, até serem pescadas por alguém. Os preguiçosos difusores da coletânea-clichê “O primeiro (amor, transa, sutiã, carrinho de rolimã, talho na testa, ou seja lá o que for...) a gente nunca esquece”, devem ficar intrigados com a frase fisgada pelo anzol de Waly Salomão. Poucos são aqueles que, talvez por alguma disfunção neurológica, guardam cada detalhe de tudo o vivenciaram ou viram – fotógrafos de memórias. Mas para estes o exercício, recordar o primeiro amor, provavelmente não sirva. Estão condenados a viverem aprisionados junto às lembranças que não dão lacunas à poetização leviana que nós, com cérebros menos competentes, temos o prazer de oferecer às sessões imaginárias do grande filme que protagonizamos. A eles restam as certezas.
Assim enfloro, firulo, como subjugo, o resultado que está por vir. A história começa assim – ou melhor, começa um pouco antes, assim:  
Sentado no chão da sala de casa, tenho à minha frente uma grande arca suporta a TV e centenas de fitas VHS da JVC, ou Maxell, em sua maioria, já defloradas. Ao lado da TV, trabalham dois vídeos cacetes e um emaranhado de fios acostumados a desafiar FBI Warning que iniciam os filmes alugados e advertem sobre as punições aos piratas. Sexta-feira é dia de alugar três filmes pelo preço de dois e devolver só na segunda, rebobinados, evidentemente. Com quatro anos, sem saber ler ou escrever, meu pai sempre traz um filme dublado para o filho caçula.
Ao som do portão se abrindo, corro para receber meu pai. Os cumprimentos à sua chegada nesses dias são protocolares. As mãos e olhos logo correm para o pacote que carrega os filmes. “Este é o seu, Gugu”. E assim meus pais garantiam pelo menos duas horas de sossego.
Foi numa destas sextas-feiras que meu pai chegou com este filme. Na capa, um macaco enorme, lutando contra aviões e helicópteros, com um pé em cada uma das torres do que eu viria saber, anos tarde, chamar World Trade Center.
Aos meus olhos, a viagem exótica à ilha desconhecida, o barco, os nativos e o macaco logo sucumbem à personagem resgatada pelos exploradores em sua jornada. Os nativos logo perceberam que não haveria oferenda melhor para acalmar a fera que Dwan (Jessica Lange). Linda, entregue com todas as pompas de estrela hollywoodiana ao gorila gigante, em seu banho de cachoeira, além do coração do símio, desfibrilou também meu pequenino coração. Fiquei vidrado. Gastei a cópia que fizemos e nunca mais pude ser o mesmo; ou pensar em viver apenas comigo mesmo.
Mas há muito, mesmo para Platão, neste disparate que mereça receber o louro de “primeiro amor”. Como disse, comecei um pouco antes. Este preâmbulo serve apenas de embasamento para o que viria a ser minha primeira viagem aos meandros deste “comboio de cordas (‘que gira a entreter a razão’) chamado coração”.
Reinava hostilidade na EMEI Guilherme de Almeida, próxima a minha casa. Os alunos do pré I, II e III se dividiam em grupos e alguns territórios eram demarcados pelos grupos – Faixa-de-Gaza-Fraldinha. O grupo que liderava chamava-se Thundercats e nossa base era embaixo da “árvore do sangue-do-diado” – por causa da seiva vermelha que escorria em seu tronco. Mas o amor é mesmo o mais poderoso antídoto à violência. Em meio às articulações de guerras de mamonas, campanas e emboscadas, incursões às lancheiras inimigas e operações-tachinhas na volta do recreio, estava claro que não tinha mais o mesmo entusiasmo.
Apenas suspirava, “Ah, a Cris”. A Cris era uma japonesinha de calça azul, camiseta listrada, como exigia o uniforme, e lacinhos ora vermelhos, ora amarelos, ora azuis prendendo os cabelos. Além de dividir a mesma sala de aula e as atenções da tia Marli todas as manhãs, morava na mesma rua que eu. Mas, como se sabe, naquele tempo os portões eram muito mais altos, os cadeados não tinham chaves e a rua bem mais comprida. Restava, às matinês, buscá-la de binóculos pelo vão da grade de ferro de meu portão.
Dediquei desenhos. Sentei ao seu lado nos recreios. Suei frio atrás de assuntos que puxava. Ela seguia impassível.
Convoquei uma reunião entre os Thundercats.
Sob a árvore do sangue-do-diabo, expliquei o plano. Não iríamos atacar os meninos da Fubem, ou da vila Ferreira. Nossa cruzada naquela manhã tinha outro propósito: eu ia beijar a Cris. Dividimos a turma. Um grupo ficou responsável por distrair a tia Marli; outro armou a insídia. Coitadinha. Enquanto brincava, nos aproximamos. Meus comparsas fizeram a cobertura, tornando aquele espaço do pátio o altar de oferenda pagã. Rompi o bloqueio, lutamos um pouco e, no chão, não pôde evitar o selinho que lhe dei.  
Ela chorou; eu corri – já arrependimento. De volta à árvore do sangue-do-diabo, talvez eu fosse o mais constrangido nas comemorações com o grupo. E, para o remorso ser ainda maior, na saída, com as bochechas e narizinho vermelhos pelo choro, veio em minha direção, ao lado da mãe, para entregar o convite de seu aniversário. Com o braço estendido, quando peguei o convite – feito a mão –, vi que seu dedinho trazia agora um Band-Aid. O choro era pelo beijo roubado, ou por tê-la machucado? Nunca soube, embora creia que tenha sido pelos dois.
Mesmo assim, continuamos amigos até o primário (e um caminhão da Graneiro) nos separar.
Outros tiveram Clark Gable, Marlon Brando, James Dean, Sinatra. Tive o King Kong como modelo de conquistador de cinema. Acho que foi isso.
Embora consiga editar um pouquinho do que aconteceu naquele tempo, fora da tela não há como rebobinar. Talvez, se pudesse, ao contrário de King Kong, não caísse nas mesmas armadilhas todas as vezes. Talvez em outras; piores ou melhores. Mas decidi: não queria mais o protagonismo de macaco grande e bravo. Sigo desemaranhando os cordões do peito, pouco a pouco, capitão da nau, com o leme solto em busca da próxima ilha desconhecida.

3 comentários:

Anônimo disse...

ótimo!!!! Adorei a campana feita pelo grupo Thundercats... eu não tinha uns brothers desse nessa idade rsrsrsrs...

abraço, Guilherme (galeteria)

otavio novo disse...

demais! me diverti muito lendo essa história do Capitão Kong, está cheia de surpresas e cenas emocionantes e, simplesmente poéticas. E pensar que é tudo verdade... ou será que esse texto acabou de fazer uma edição na minha memória tbm? :-) que seja!abs,

Gustavo Novo disse...

Valeu, Tavinho; valeu, Guilherme!

Que legal que vocês curtiram!

E é isso mesmo: é tudo verdade! Ou verdade editada, que pode dar uma bela mentira, né? Mas como disse Suassuna, na palestra que fomos sábado, "há uma mentira com asas, outra com chifres e com rabo"... A que construí aqui, creio, tem asas. :-).

Abraços e valeu pelas palavras.