6 de março de 2013

O Homenageado

Caminha sem pensar cada passo, mas nas pegadas sobre a neve que segue deitando. Não olha para as pegadas que deixa para trás, não pode vê-las; mas as cria na imaginação em formado ideal. De fato, sonha maiores que os calçados que veste. E segue seu registro em linha reta, no centro da rua, a esmo. Espólio que sucumbe lentamente sob cada floco que cai e retoma em planície o asfalto-branco.
Pensa compassado:
“Não devia ter ficado quieto”; “e ela”; “que burrice”; “consigo lembrar o cheiro”; “por que o pavor”; “saudade hoje?”; “que segurança a razão me dá?”; “ainda?”; “a bateria do telefone”; “velho?”; “gostei daquela mostarda”; “olhos verdes”; “há quantos anos foi isso?”; “não, eram de mel”; “acho que faria igual”; “falei ou só pensei?”; “deixei no criado-mudo”; “ninguém por perto”; “assim mesmo venci”; “uma janela aberta”; “qual era o nome daquela mostarda?”... dividem-se, entre os aflitos nervos do peito e as aflitas palpitações de seu cérebro, as pegadas no chão.
Sem cobrar de seu pescoço flácido mais que o trabalho de sustentar a cabeça levemente inclinada para baixo, os olhos caminharam à direita, depois à esquerda e retornaram a neve que precedia a cunha de seu pé – primeiro o direito, depois o esquerdo. Alguma melancolia fez subir uma das pontas de seu lábio: um sorriso? Um sorriso.
A neve parece preferir seus ombros ao grisalho do cabelo, barba, sobrancelhas e cílios, destoando do lôbrego paletó que também conota a cena.
“”Olhos macios e quase líquidos’, onde li isso?”. E sentindo marear os olhos duros, sentiu os passos mais vagarosos, o pensamento vago, os passos mais vagarosos, os cabelos pararem de crescer, os passos mais vagarosos, a barba enrijecer, os passos mais vagarosos, os olhos congelarem, os passos mais vagarosos, um arrepio, os passos mais vagarosos, os joelhos arranharem, os passos mais vagarosos, os lábios lívidos, os passos mais vagarosos, a mão esquerda fincada no bolso da calça, os passos mais vagarosos, arrepio nas costas, os passos mais vagarosos, os pêlos como agulhas... e estacionou. Prostrado em pé no cruzamento vazio.
A neve lenta, eficaz e constante, seguiria a apagar os passos que o conduziram até a manhã se precipitar junto com os passos da moça que pulou a janela e volta para casa antes de seus pais acordarem. Ela será a primeira a encontrá-lo estátua. E se, como um garantia Michelangelo, “não tem o ótimo artista algum conceito que o mármore não circunscreva”, o que se dirá deste homem, esculpido pela vida e estátua de fora para dentro, sem pegadas, sem história? Sei o que dirão. Os simpáticos, conformistas confortantes católicos, mantenedores da ordem que, em geral, mexem seus lábios em contraponto às suas ambições e pregam palavras de paz e ordem, repetirão até tornar-se verdade que aquele senhor bem vestido e sorridente morreu feliz. Que, homenageado por deus – que a todos oferece o merecido –, tornou-se a escultura que mereceu por uma vida digna; servidor modesto em ofício sepulcral.

Um comentário:

Vitor Fabricio disse...

Como sei lá quem disse: o texto saiu para as letras, não é mais seu.

O não-estar independe do movimento da forma. Fiquei com a sensação do clichê "quantas estátuas de sorrisos mal interpretados andam por aí". (mas esse clichê pode - e é provável - vir de mim).
A contradição do íntimo e a expressão externa, a sofreguidão velada à alegria a posteriori inculcada são temas correntes e talvez por isso a forma como colocou seja feliz. A imagem da neve destaca aquela massa que anda sem que ninguém saiba (nem ele).

Patropisei ...rs mas para resumir em outras linguagens:
expressão pós leitura: leve desconforto na cadeira
fórmula:
tema comum + boa cena = provocação induzida.

por fim
admiro sua concisão!!
Abraços