16 de agosto de 2007

Confessionário de asfalto

Não dói. “Morrer não dói”, sempre me disseram. Quando ouvi o estampido e senti a carne de minhas costas sendo atravessada e minha costela estilhaçando, meu coração ameaçou acelerar seu exercício, como num susto; apenas ameaçou. Acho, mesmo, que sabia que logo não teria mais que trabalhar. Por isso, tratou de cadenciar suas batidas e irrigar pelos caminhos de minhas artérias grossas, em meu sangue grosso, pela última vez cada ramalhete de veias com um sentimento de paz.

Eu atravessava a rua para me apoiar na banca de jornais, onde costumava encontrar a minha criançada. Meu trabalho era encontrar crianças que foram abandonadas, ou que abandonaram suas famílias, e gerenciá-las. Por um pouco de cola, às vezes maconha, meninos e meninas espalhavam-se entre os carros, de janela em janela, e recolhiam – sempre com o consentimento do condutor – moedas de centavos. Às dez horas da noite, iam todos para a banca de jornais fechada e esvaziavam os bolsos – quando, em sua roupa, bolso cabia –, ou sacolas, nesta caixa de sapato que trago sob meu corpo, no asfalto.

Muita gente não gosta de mim. Sabia que alguém reservaria uma bala para mim desde que meus meninos apareceram na televisão explicando meu trabalho. A impressão que eu tenho é que os justiceiros estão pelos pequenos bares, sentados em círculo, batendo peças de dominó, com as televisões sintonizadas nos telejornais sempre no último volume. Há uma denúncia – sem contar as de Brasília – não demora aparecer um corpo; chegou a minha vez.

Agora, espero pelo o que está por vir e seja o que deus quiser. Nunca achei certa a vida que levei, mas ainda me recordo como entrei nela. Vivia de trabalhos temporários, bicos e, vez ou outra, pequenos assaltos. Quando menino, roubava latas de cola de meu pai, que tinha uma sapataria na garagem de casa, para cheirar com meus amigos, mas nunca me viciei. Um dia, sem dinheiro e com o estômago nas costas, parei em frente a um trailer de cachorro-quente, e um garoto, também faminto, me pediu algum trocado para um lanche. Não tinha pra mim, vai dizer pra ele. Vi a cena do menino esfomeado, que pedia dinheiro para comer, se repetir em vão de mesa em mesa e – por deus que esta é a verdade –, com um sentimento de piedade honesto, o chamei. Eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos no deserto. Sua gratidão me confortou. Partimos em silêncio.

Estávamos perto de casa. Desde a morte de meu pai, nunca mais havia entrado na nossa garagem e sabia que lá encontraria algum pote bem preservado de cola. Nós dois cheiramos e dormimos no chão da antiga sapataria. Quando acordei, o menino não estava mais lá. Voltou, dois dias depois, com outro amiguinho.

Pele esfriando no asfalto: confesso uma vida que desdenhou e se apropriou de tantas outras. Como ficarão meus meninos? Reconheci os erros que cometi, identifiquei como entrei nesta vida e não consegui me perdoar.

2 comentários:

Blog do Caçula disse...

Este texto foi feito para o Concurso Literário "Encaixe a Frase" da Revista Piauí do mês de agosto. Os candidatos deveriam encaminhar um texto que tivesse a seguinte frase, ou melhor, as seguintes frase: "Eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos no deserto. Sua gratidão me confortou. Partimos em silêncio."

É isso aí...

Grande abraço a todos.

Vitor Fabrício Machado Souza disse...

Esse é um dos meus preferidos gustavão!!!!

meus parabens!!!!
vc soube trabalhar com profundidade embora limitado pelo espaço....

abraços