27 de fevereiro de 2008

Campeonato de cambalhotas

Entre os vira-latas que passeavam soltos pelo Jardins, pelas Oscar Freire, Lorena e Tietê, ladeirantes da Bela Cintra, Consolação e Haddock Lobo, causava estranheza seus colegas, cães, com presilhas, tosas, coleiras e perfumes que alcançavam de longe seus focinhos acostumados às sobras dos dias do caminhão do lixo passar. Estranhavam, mesmo, conforme os dois jovens sarnentos notaram, a felicidade dos outros: que havia o que havia de feliz naquela vida cheia de pompons perfumados.

Sentiam falta da atenção dos homens vez em quando, mas, geralmente, quando chamavam atenção deles, tinham que escapar das vassouras, paus e pedras. E, observá-los, trouxe aos amigos soltos indagações. Passaram a discutir nos fins de tarde, enquanto aguardavam os pães envelhecerem nas padarias, sobre a estranha satisfação que aqueles cachorros arrastavam, enquanto arranhavam os asfaltos, querendo ir à frente, à árvore, à urina de seu antecessor; enquanto, presos às coleiras, estão empunhados pelos severos patrões de óculos escuros que os impedem de ir à frente, quando o desejo é este, ou os arrastam sob a pressão da enforcadeira quando param.

– Conheci, enquanto aguardava as sobras desta mesma padaria aquela semana que esteve naquela casa de família, uma fêmea de pêlos longos. Seus pêlos, aliás, brilhavam e cheiravam mais que os da dona que entrou na padaria e amarrou-a no poste aqui em frente. Eu estava ali, esperava os sacos de comida, e aquela cadela parecia para mim, nem mesmo sei dizer por que, mais um obstáculo para matar minha fome. Ela percebeu meu incômodo e tratou de me confortar: “Com licença, noto que minha presença o incomoda, mas saiba que sou adestrada, não disputo sua comida, não posso comer na rua”. Uma cachorra educada a não comer na rua!

– Educada ou adestrada? – perguntou o colega.

– Ela disse adestrada...

– Como me contou, com detalhes, palavra por palavra que a donzela – com tom irônico à última palavra – empregou, bem pode ser as duas coisas: educada e adestrada. No entanto, são duas coisas distintas: uma, oferece bons modos que resultam em boas – com ironia, outra vez, nas palavras ‘bons’ e ‘boas’ – maneiras; a outra, acusa treinamento que bitola as patas e os focinhos a não obedecer às vontades até que elas, as vontades, morrem.

– Não é possível. – Retorquiu, e continuou: – Como as nossas patas e focinhos, se treinados, podem abafar as nossas vontades e instintos?

O cão ia continuar, mas distraiu-se com um casal de pulgas que caminhavam de sua orelha esquerda às costas, onde resolveram brincar. Primeiro tentou acertá-las com as patas traseiras: primeiro a direita, depois a esquerda; não conseguia alcançá-las. Lançou a cabeça para trás, contorcido, tentava com os dentes encerrar o balé das pulgas. O colega compreendia a angústia do amigo em silêncio e aproveitou para observar três pequenos pássaros que pousaram a dois metros deles.

– Não seria lindo se pudéssemos voar? – O amigo ainda aplicava os dentes nas costas e rosnou algo que indicava que prestava atenção. Prosseguiu: – Nunca pudemos voar, estamos, como nossos colegas de coleiras, presos ao chão com nossas asas atadas. O que estes pássaros pensam de nós? O mesmo que os peixes pensam deles quando os vêem sobrevoando sem poder voar sob as águas.

O amigo que retomava o fôlego interveio ofegante:

– Mas a comparação não vale. Nós, nascemos cachorros; estes três, pássaros; e os peixes, peixes.

– E saltou para espantar os pássaros que voaram. Voltou para o seu canto abanando o rabo, mais feliz um pouco. – O que me incomoda é ver irmãos cachorros, passeando sem liberdade, amarrados a um metro corda.

– Aos meus olhos, parecem felizes.

– E isso não te surpreende?!?

Ambos quiseram diminuir a diferença entre os colegas soltos e os colegas amarrados, mas perceberam as atas que os impediam de tornar a vida entre os cães mais igual. Por piedade, decidiram privar a liberdade que gozavam para se divertir e criaram uma brincadeira que mesmo os cachorros amarrados, que aguardavam seus donos nas portas dos botequins, poderiam se divertir: o Campeonato de Cambalhotas. Brincadeira que não exigia brinquedo e o raio da corda aceitava. O problema para os dois amigos soltos, e, por terem criado a brincadeira, juízes dos saltos, é que sempre alguém interrompia a brincadeira a dar-lhes pontapés para não impregnar suas pulgas, carrapatos e cheiros nos felizes cães adestrados.

4 comentários:

Joyce disse...

Gú,

Que brincadeira boa, um Campeonato de cambalhotas...
Com certeza, se pudesse participar, eu seria um dos vira-latas.., pulguento e magrelo-podia ser-mas livre e original...
Muito bom o texto... e que venham mais...
Beijokas

Joyce

SAMANTHA ABREU disse...

que ótimo!
muito bom...
adorei seu canto aqui, tbém!

Parabéns!
e volte sempre.
Brigadaaaa!


beijO!

calebe simões disse...

se eu fosse esse cachorro...ia mijar na porta de todas as lojas...hahaha
falar nisso Calebe significa cão....hahaha

abraço irmão

Anônimo disse...

Olá Caçula!

Muito gostoso me imaginar na pele dos cachorros. Tanto os encoleirados quanto os vira latas.
Quase senti as pulgas rs, rs, rs.

Foi aí que me ocorreu uma matéria que li estes dias na Folha, sobre a aposentadoria dos cães dos bombeiros. Acho que eles prefeririam estar no campeonato de cambalhotas em qualquer posição do que "esperar o processo burocrático de suas aponsentadorias", rs, rs, rs
Dá uma olhada:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/bichos/ult10006u396340.shtml

Beijocass

Tui