6 de fevereiro de 2009

Casamento I – ou o ato litúrgico

A vida pareceu pedir um passo adiante; decidiu casar. Não que o noivo não importasse: importava, e muito. Mas tinha à mão um ideal: educado, amigo de seus amigos, bom amante, pouco dinheiro – como a maioria que pensam artisticamente –, mas de família abastada (no fundo, julgava que quando se casassem ele desistiria do violão e arrumaria um emprego com vencimentos); além disso, lhe agravada sua companhia. Nas novelas há sempre um personagem com as características do noivo: levemente, e estrategicamente, desarrumado, com a barba levemente, e estrategicamente, mal-feita, cabelos levemente, e estrategicamente, desarrumados.

A vida precisava dar um passo à frente e o passo foi dado. Mais duas semanas, ou dois jantares, e estavam noivos. Põem-se a escolher as madrinhas, os padrinhos, a paróquia, o padre, enquanto as famílias dos dois já estão feitas. Flores, vestido, terno, salão para receber os convidados, viagem e hotel para consumarem; tudo arranjado. Noiva tranqüila, noivo disfarça. No altar, está como que outra pessoa: totalmente, e estrategicamente, arrumado. A noiva tem uma crise. Chora copiosamente dentro do carro. “Cuidado com a maquiagem”; “está tão emocionada”; “é um dia muito importante”. A noiva chora; mas não pela emoção a qual a creditam. Não pelo precipício matrimonial, ou pelo noivo que com o qual trocará votos: a escolha do marido lhe parece digna; chora porque pretende cumprir seus votos e um adeus antigo teimou em voltar, desta vez, com caráter bem mais severo: como se finalmente aquele adeus se tornasse adeus.

Chorou, mas logo recompôs a paz. Deu todos os passos que subiram a escada, surgiu na igreja – “linda”, vibrou n’algum canto – firme. Sorriu para os amigos do colégio e faculdade, depois aos colegas de escritório, mais adiante aos parentes que não via há muito tempo, até encontrar as lágrimas dos irmãos na primeira fileira. Despediu-se do pai e se casou diante de padre, testemunhas e, como disse o padre, de deus. Mais tarde, deitou com prazer e ternura: finalmente, como ato litúrgico.

2 comentários:

Joyce disse...

Muito bom o texto... gostei bastante... Com porções de ironia e pitadas de sarcasmo, me fez lembrar uma música do Raul: Medo da Chuva...

Beijos, beijos,

Joyce

ju mancin disse...

hum...

gostei!

a sacangem é matar o charme do sujeito, arrumando cabelo e barba que eram levemente, e estrategicamente, desarrumados...

existem coisas q só um casamento faz por vc!!!