6 de outubro de 2006

O Egoísmo Narcisista de um Herói à Espreita

Desde pequeno acreditei que algo extraordinário iria acontecer comigo. Assim, com seres evoluídos de outra galáxia, num disco voador, que depois de acompanharem meu nascimento, infância, e me saberem especial, viriam me abduzir. Seres com um grau de evolução impensável para um humano se curvariam a minha capacidade intelectual e física e, com técnicas estratosféricas, literalmente, tirariam todos os obstáculos da minha mente e me tornariam único.Talvez fosse herói num seqüestro. O seqüestro da mais bonita seria resolvido após batalhas de dar inveja. Inteligência e destreza, atitude arrojadas e tranqüilidade de monge. Contaria com a ajuda de amigos (coadjuvantes, é claro!) que ao fim difundiriam pelo resto de suas vidas a incrível história do amigo que inacreditável que tiveram.Ah, não pode faltar esta: o gol no último minuto, na final! Sem querer, pode ser, mas comprovadamente um gol de quem tem estrela, de quem a bola procura esbarrar antes de entrar no retângulo horizontal. Estaria eu defendendo o time dos amigos sofridos da vila, que me idolatraram na história anterior, e salvaria o suor de um campeonato inteiro sob o olhar atento da mais bonita que me deve a vida salva na noite anterior. Daria o prazer de existir, entende? Até E.T. telepático me amaria. Você já deve estar desconfiado de que nada disso aconteceu. Até o início deste ensaio, nada aconteceu que me tornasse especial ou herói. Não conto com a sorte de ficar enganchado pela capa quando estava para cair do precipício, mas com a dos normais (se você, amigo, não tem super-poderes entenderá bem o significado disto): tenho mulher que me satisfaz mais que eu a ela. Que me sabe não especial, não me admira em nada, mas criada pela monotonia me dá o prazer de não querer saber para onde vou ou vim.A bola esbarra, de vez em quando, e entra. Certo que meu time não é chegado a decisões, finais de campeonato. Nunca sob o olhar da mais bela a aplaudir com o olhar admirado como quem vê um gladiador voltar vivo da arena com leões. Mas considero-os com o mesmo carinho de pai a filho incompetente. Numa oportunidade vi luzes no céu, pensei estarem chegando, e o coração bateu um pouco mais forte. Luminosos de um fábrica, a mesma que escurece o azul do dia, iluminava o breu. Não chamavam por Batman ou coisa parecida, divertiam-se apenas e eu caí, não eram meus companheiros intergalácticos. Não aconteceu. Caminho com a obstinação dos teimosos, a crença dos fracos, o ‘impávido colosso’ dos obesos; vivo confortável no sofá ocioso dos preguiçosos. Mas sou generoso comigo. Construo com estas e outras características meu ‘eu herói’, o herói que está à espreita dos acontecimentos. Que espera a violência à burguesa para salvá-la e recortar a notícia do jornal da manhã seguinte. Ainda tenho trunfos de herói genuíno: obstinação dos certos, crença dos mais que humanos, ‘impávido colosso’ dos mais fortes que armas; tudo coberto pelo ócio de sabedoria milenar, fonte da frieza e calma onde todos se desesperam. Posso dizer que sou um herói à espera da oportunidade. Talvez um deus qualquer, um com espírito de mãe, me proteja, me coloque longe das grandes tragédias para não correr perigo por meu ímpeto ousado. Talvez me prive de sucessos menores para apresentar-me ao mundo no Grand Finale, com status de herói novo carregando a esperança sobre os ombros.Convivo com pequenos milagres caseiros que não impressionam, mas dizem muito. A observação dos anos de sofá não me deixa perder a volta do programa televisivo após o intervalo de nenhum canal; posso prever o exato momento que o relógio digital do vídeo vai mudar o minuto; do banco do carro, como passageiro, não sei guiar, pressinto a hora exata que a luz verde vai acender. Curto cada um destes sinais de heroísmo existente. Difícil, confidente, é entender porque ninguém nunca notou isso.

Gustavo Novo

4 comentários:

Blog do Caçula disse...

Este é um texto que fiz ano passado...

Anônimo disse...

Gu... lí.. tudinho..
muito bacana.. vc escreve bem mesmo....
Um grande beijo
Di

fabricia Jordao disse...

Nossa Gustavo...ainda preciso ler mais algumas vezes esse aqui...me fez bem...

fabricia jordao disse...

Agora que já li mais uma vez esse texto poderia te escrever mas mesmo agora não consigo...talvez o Mario Quintana consiga com sua poesia me traduzir, então, vamos lá, tem uma poesia dele que chama "eu queria trazer-te uns versos muito lindos" e que é mais ou menos assim: eu queria trazer-te uns versos muito lindos colhidos no mais íntimo de mim (como esse texto que escreveu) Suas palavras seriam as mais simples do mundo (como as tuas são) porém não sei que luz as iluminaria que terias de fechar teus olhos para as ouvir (como já fechei tantas vezes lendo teus texto, porque quase sempre eles me levam pra dentro) Sim ! uma luz que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel (uma vez que leio algo em mim muda...me percebo melhor também...)

Bom é isso...

beijos