9 de dezembro de 2007

Velho amigo sem volta

A mulher que eu amo, foi um homem do mato quem me trouxe.

Não trouxe assim, numa apresentação, convite de felicidade; mas triste, de quem já viveu dor que não morre. Este homem do mato é um velho que, como a dor que carrega, teima com a morte, embora há muito tempo tenha decidido iniciar as despedidas entre os desconhecidos que acaba conhecendo – entre os quais, me incluo. Vê-se nele pouca educação, pouco manejo com as pessoas: criança não familiarizada com diplomacias de sociedade. Mesmo assim, não era inculto. Tenho a impressão que dedicou aos livros que leu seus melhores anos e aos poucos abandonou este hábito.

Atlântida, para ele, contou quando criamos certa intimidade, ninguém habitava; era terra deserta. Não encontrava um só por lá: filhos, mortos ou vivos; mulher, que tenha ou tivera; pai que valesse, ou mãe que pudesse ter a pretensão de contar com seu convite para fazer parte de sua saudade. Ninguém. Era um velho com uma única pretensão, satisfazer a morte. Para isso sim, também me contou, estava preparado. Há alguns anos, quase dez se ele não se engana, havia quitado um jazigo no cemitério municipal e carrega sempre no bolso instruções que indicam os procedimentos caso caia morto nalguma esquina. Este papel, nunca mostrou. Diz que serve apenas ao ocasional agente funerário para as suas formalidades cadavéricas, como descrevia. No entanto, dividiu comigo um trecho das instruções; justamente, o fim. Que, garantia, serve apenas para o “povo que é burro e tem mais medo de morto do que de vivo”.

Dizia como último suspiro dele, em registro vivo dele morto: Por fim, quis o destino que meus planos para a morte, registrados aqui neste documento que tens em mãos, ficassem sob sua responsabilidade. Não imagino que se sinta honrado com a tarefa. Provavelmente, nem mesmo nos conhecemos. Mas, para sua infelicidade, não há neste, ou em outro planeta, a quem possa transferir este compromisso reforçado a cada palavra que invade os seus olhos. Imagino que não seja fácil lidar com a confusão de sensações ao ler o pedido de um morto que planejou para ti que, neste exato momento, enquanto esfria minha carne, executasse minhas ambições para o descanso eterno. Tudo o que foi pedido acima pode ser realizado com certa facilidade, mesmo assim exige certa dose de atenção para que eu tenha minha justa recompensa pela vida que vive; pois, senão, sem paz, ou coisa melhor a fazer, estarei a atormentar você, que descumpriu meu desejo em vida, enquanto existir. Garanto o tormento eterno a quem não garantiu o descanso que mereço. Sem alternativas, aceite meu sincero agradecimento. De um ...

Não quis que eu lesse como se despediu.

Nós nos encontrávamos com certa freqüência. Mora afastado da cidade: ao lado de um asilo onde meu trabalho exigia que eu entregasse as refeições. Sou funcionário de uma empresa de alimentos. Sempre que saía pelos portões do asilo, às onze da manhã, encontrava com ele e sua cigarrilha de bermuda xadrez. A primeira vez que conversamos, foi por uma piada que ele fez:

– Se eu entrar aí saio assim, com essa cara de menino?

Confesso que pensei nos caixões que, com freqüência, costumam levar os recém libertos do Lar Vivência, mas correspondi à brincadeira.

– Só os que comem a comida feita pela Coma Bem com Saúde – uma piada sem graça, é verdade, mas de espiritualidade compatível ao salário que recebo.

Passamos a nos conhecer melhor e a nossas conversas foram se desenvolvendo. Talvez pela solidão – porque não parecia que ele costumava falar destes assuntos com muita freqüência – os assuntos de nossos encontros sempre giraram em torno de seus pessimismos com a vida; de como a vida mudou e da falta de sentido de tudo. Não me interessava muito o assunto dele, aquele momento passou a ser meu intervalo para o cigarro. Chegava, entregava as refeições do Lar e sentava ao lado dele, por uns quinze minutos, num gramado para fumar.

Se amar implica numa gama incontável de combinações, a mais estranha delas trouxe de volta quem há muito habitava minha Atlântida. Descobri quem amo num encontro com o homem do mato. Não, na verdade, acho que mais justo dizer que descobri o amor. Um velho sem coração, sem história, que nunca amou. Sem pais, durante a infância, recebeu educação, moradia e refeição num orfanato. Nada, além disso, lhe foi oferecido; nenhum amor, mas, principalmente, nenhum ódio. As crianças e jovens do orfanato eram criadas por freiras que pareciam marionetes de deus. Eram frias, mas nunca hostis. Quando ficou mais velho um pouco e estudou mais sobre os povos, deixou de recordá-las freiras e passou a imaginá-las na recordação como russas. Sem saudade.

Por outro lado, fui casado, por amor, um ano e meio da juventude. Dividíamos a cama mole e o pão quente com satisfação. Continuo jovem, mas o casamento acabou. O velho nunca soube disso; nunca questionou quem eu sou, ou fui, ou pretendo ser. Ele não soube que casei, nem do beijo que ela provou e provou que o amor só morre quando o apetite de nosso orgulho o engole. O velho seguia sua ladainha: e a vida, sugeria, era repetição, uma mesmice que vista sem emoção chega a soar ridícula; e por aí ia, como era o normal todos os dias.

Mas, neste dia, eu acho que havia sonhado com ela e pensava nela.

– Tudo acaba onde estamos. Este instante, agorinha mesmo, é a nossa morte! Talvez a única diferença que eu carregue é a de não aceitar como oportunidade de ressurreição os momentos que estão por vir.

Eu estava acordado? Estas frases do velho foram as únicas que ficaram de toda a conversa. Mesmo assim, não foi instantânea, absorvi enquanto ele absorvia a fumaça de sua cigarrilha numa pausa onde digeria com satisfação sua filosofia barata. Mas quando esta idéia fermentou-se com a saudade, e a felicidade reapareceu como sentimento a meu alcance, senti que estava em dívida comigo.

Pronto está o homem do mato, da vila, do bar, do mato. Eu não! Tentei pensar como seria, para ela, passar por todas as paixões que eu tive depois dela. Recusei o exercício contrário e saí, com pressa, sem me despedir.

2 comentários:

Joyce disse...

Gú,

eu achei muito bom esse texto, a idéia e a mensagem que ele traduz são de uma sensibilidade e sabedoria raras...

Ver e refletir no outro, aquilo que somos pode até ser fácil, mas ver no outro aquilo que não queremos ser, nem queremos ter...
(genial essa ideia, Gú)

É mais ou menos como já disse Hobbes, uma vez: "Leia te a ti mesmo".Isso é difícil

Beijokas e parabéns pelo texto

Lenia disse...

Eu amei. Me falta ar. Só ar.