13 de abril de 2007

O Metrô e o Túnel do Tempo - parte 3

Pode não parecer, mas caminhamos para um fim próximo. Provavelmente serão mais dois capítulos para o fim da saga...rs... Se você não leu a parte 1, CLIQUE AQUI, se não leu a parte 2, É AQUI.
Parte três

A namorada era artesã e morava num sítio que ficava a quatro quilômetros da zona urbana da cidade. Acordava cedo e fazia o que se faz quem não tem o que fazer até a hora do almoço, quando se reunia com os pais. Comiam e conversavam numa copa de enorme com janelas, que pareciam ir do chão ao teto, sempre abertas à luz e ao retrato do quintal, com cortinas pesadas de pano cor de bordô. Sempre às onze e quarenta. Come devagar, pausando entre uma garfada e outra para concordar com o que o dizia, mesmo assim o almoço acabava rápido: meio-dia já estava se preparava para ir ao encontro de seu amor na estação Serge Lê Tendre. Montava em sua bicicleta, atravessa lentamente o jardim das hortênsias e azaléias e apressava suas pedalas quando dobrava o à esquerda depois da porteira sempre aberta. Chegava sempre no mesmo horário e precisava esperar pelo namorado. Às vezes sentia vontade de folhear revistas com dicas de beleza e comportamento feminino, mas embora soubesse que a espera por seu menino duraria quinze minutos – ou cinco enxurradas de passageiros –, ansiosa, não tirava os olhos das catracas e acompanhava com atenção as pessoas que transbordavam de três em três minutos.
Ele chegava correndo dos cursos de artes que ocupam todas suas manhãs. Quando se encontravam se abraçavam e se beijavam com paixão e, freqüentemente, certa força desproporcional. De vez em quando, a namorada era surpreendida por pequenos pingentes, colares de miçangas, bijuterias ou retratos feitos por ele.
Não demorava para que o calor do reencontro desse lugar às reclamações e impaciências do rapaz: a falta de dinheiro, a casa dos pais, a vida corrida, os anjinhos urinando em seus sonhos. Nada disso incomodava o a moça. Pouco depois das reclamações, assistia ao seu almoço apressado e, nos dias de bom-humor, escutava seus esperançosos planos para independência financeira rápida. Nas quartas-feiras reclamava da professora de aquarela, nas quintas da aula de anatomia e quando chegava sexta sempre dizia que “se já não tivesse jogado uma grana fora nestes cursos, já teria um atelier com o Birô”. Os almoços seguiam com as suas mãos se acariciando sobre a mesa e olhares de admiração da moça. Quando se levantavam e davam lugar aos outros clientes, iam a uma praça de se beijar. O namorado então perdia o peso de sua jornada, lamentava desejar a morte de todos que atrasaram sua viagem e assumia seu carma.

(continua...)

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